Guerra Russo-Ucraniana: Origens, Estratégias e Desdobramentos

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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A guerra na Ucrânia é o capítulo atual de séculos de disputas pelo controle da Eurásia; de Mackinder a Brzezinski, o Ocidente busca fragmentar a Rússia usando a Ucrânia como peça estratégica em um conflito existencial.


Introdução

O Império Russo, desde o século XV com Ivan IV o Terrível, ocupou grandes extensões de território, tornando-se um problema para as potências europeias. Com enorme extensão territorial, vastos recursos minerais e terras férteis, a Rússia, antes mesmo de existir como estado, enfrentou diversas invasões: Ordem Teutônica 1, Mancomunidade Polaco-Lituana 2, Império Sueco, Império Otomano, França Napoleônica e Alemanha.

Depois do reinado de Pedro o Grande, a Rússia se consolidou como potência mundial ao derrotar Carlos XII da Suécia em Poltava (1709), que por “coincidência” está localizada no atual território ucraniano, razão pela qual esses conflitos têm uma longa história, muito mais longa do que a mídia ocidental gostaria de admitir.

Há séculos o atual território do Donbass (leste da Ucrânia) e a península da Crimeia foram campos de inúmeras guerras e batalhas. A Horda de Ouro 3, o Império Otomano e o Canato da Crimeia, entre outros, foram derrotados nessas terras pelos russos. A Rússia enfrentou muitas invasões ao longo de sua história e todas, com exceção da invasão mongol de 1220, vieram do Ocidente.

A Rússia ganhou territórios no Báltico, na atual Ucrânia e no Mar de Azov, o que motivou muitos conflitos com o Império Otomano e seu estado vassalo, o Canato da Crimeia 4. Durante o reinado de Catarina a Grande, o Império Russo finalmente conseguiu expandir seus domínios pelo Mar Negro, vencendo os otomanos nas brilhantes campanhas militares do marechal Alexei Suvorov, através das quais a Rússia conquistou definitivamente as regiões do Donbass (leste da Ucrânia) e da Crimeia. Esses novos territórios foram chamados de Novorossiya (Nova Rússia), e neles foram fundadas cidades como Odessa, Kherson, Sebastopol, Nikolaev, Mariupol e Melitopol, entre outras. Somente no século XIX a Rússia passou por, pelo menos, três conflitos importantes: a invasão de Napoleão (1812-1813), a Guerra da Crimeia (1854-56) e a Guerra Russo-Turca (1877-78).

O Primeiro Estado Ucraniano: A República Popular da Ucrânia (1917-1921)

No século XX o Império Russo entrou na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) ao lado das potências da Entente contra as Potências Centrais, sofreu muitas derrotas e perdeu muitos territórios. Os reveses militares, a extrema pobreza da maioria da população e a impopularidade do Czar Nicolau II levaram à Revolução Russa de 1917, ocasionando a desintegração do Império Russo, a queda da dinastia Romanov e a proclamação da Rússia Soviética. O governo soviético de Lenin não queria continuar na guerra e buscava um acordo de paz com as Potências Centrais a qualquer custo, pois não podia combater em duas frentes ao mesmo tempo: as Potências Centrais e as forças contrarrevolucionárias. Por isso assinou, através de Leon Trotski, o desfavorável Tratado de Brest Litovsk 5 de março de 1918. Para sair da guerra, a Rússia Soviética se comprometeu a pagar pesadas indenizações e perdeu territórios no leste da Polônia, na Bielorrússia, na Finlândia, no Báltico, na Ucrânia e no Cáucaso.


Mapa 1: A Mitteleuropa 6, sonho molhado do Império Alemão do Kaiser Guilherme II, seria uma série de estados-satélites controlados pela Alemanha, fortalecendo e expandindo seu poder na Europa Oriental e ao mesmo tempo cercando e enfraquecendo a Rússia.


Tanto as Potências Centrais como depois a Entente sabiam que o Império Russo era um império multinacional que aglutinava muitas nacionalidades: ucranianos, finlandeses, lituanos, estonianos, georgianos, bielorrussos, etc. Assim, foram incentivadas revoltas étnicas para formar novos estados e dessa maneira dividir e enfraquecer a Rússia, impedindo o ressurgimento de um novo Império Russo ou algo semelhante. Assim nasceu o primeiro Estado ucraniano independente: a República Popular da Ucrânia (1917-1922).

Como se vê, as semelhanças com a futura desintegração da URSS, em 1991, não são pura coincidência, mas, em minha análise, fazem parte de um antigo projeto influenciado em grande parte pelas teorias do geógrafo e geopolítico britânico Mackinder, que dizia que quem dominasse a Eurásia (Heartland) dominaria o mundo. A Rússia está precisamente aí.

Esse sonho alemão criou vários estados: Ucrânia, Reino de Regência da Polônia 7, Lituânia, Ducado da Curlândia 8 e Semigália, Finlândia e Estônia (sem falar no Azerbaijão, Geórgia e Armênia 9 no Cáucaso). Mas esse sonho duraria pouco. Lênin e Trotski sabiam disso como ninguém, porque esses Estados-satélite não tinham sustentação, pelo menos não como a Alemanha queria, já que estava sendo derrotada na frente ocidental. Isso a levou à derrota, ao Armistício de Compiègne em 9 de novembro de 1918, e depois ao Tratado de Versalhes de 1919, e ela foi forçada a abandonar todos os territórios ocupados. Esse caos político e a desintegração do Império Russo deram lugar à Guerra Civil Soviética (1917-1922).


Mapa 2: Situação da Ucrânia 1918-1919.

Durante a Guerra Civil Soviética, formaram-se diversos estados ucranianos antagônicos entre si, com diferenças irreconciliáveis. Algumas dessas divergências subsistem na Ucrânia atual, pois é precisamente nesse período que se encontram as raízes de tais conflitos históricos.

De 1917 até 1922 existiam na Ucrânia:

República Popular da Ucrânia (1917-1921) com capital em Kiev. Este estado é considerado o verdadeiro estado nacional da Ucrânia pelos nacionalistas ucranianos, principalmente pela extrema direita e pela OTAN. Na verdade, em minha análise, foi incentivado pelo Império Alemão para ser um Estado tampão entre a Polônia e a Rússia. Este estado ucraniano foi reconhecido também pelas potências vencedoras da Primeira Guerra Mundial com as mesmas finalidades. Desde o início sua existência foi muito tumultuada, precária e efêmera, envolvendo-se em guerras intermináveis com a Polônia, com a Rússia Soviética e com os anarquistas de Nestor Makhno na atual região de Zaporizhzhia desde 1919.

República Ocidental da Ucrânia (1917-1919) com capital em Lvov, na região da Galitsiya, parte do antigo Império Austro-Húngaro.

República Socialista Soviética da Ucrânia, incentivada pela Rússia Soviética, com capital em Kharkov.

Makhnovtchina: Movimento Makhnovista liderado pelo líder anarquista Nestor Makhno, na atual Zaporizhzhia 10.

Como se fosse pouco, além dos quatro estados existentes na Ucrânia, ainda havia as forças militares do Sul da Rússia (Rússia Branca) comandadas pelo general Denikin com apoio dos cossacos do Don que ocupavam o Cáucaso, o sul da Ucrânia e a península da Crimeia. Para engrossar mais o “caldo” da guerra civil, Denikin ainda tinha o “apoio” militar e econômico do Reino Unido, da França e dos Estados Unidos.

A situação era anárquica, fato ignorado por um motivo muito simples: a contrarrevolução foi um desastre porque a Rússia Soviética venceu em 1922, e os generais contrarrevolucionários foram aniquilados um a um 11. Dessa forma, as forças americanas, inglesas, italianas, francesas e japonesas foram obrigadas a se retirar do território russo. Por isso Hollywood e a mídia ocidental não mencionam o fato: porque tudo correu mal. O Império Russo ressurgiu com a constituição da URSS – o Império Russo redivivo e reunificado sob a liderança do sucessor de Lênin, Josef Stalin.

Assim, os estados da República Popular da Ucrânia, os anarquistas de Makhno e a República do Oeste da Ucrânia desaparecem porque um por um foram derrotados pelas forças soviéticas, sendo estabelecida a República Socialista Soviética da Ucrânia (1922-1991), estado-membro da URSS com capital em Kiev, para pesadelo e desgraça do Ocidente.

Esta situação sempre foi inaceitável e inadmissível para os Estados Unidos e a Europa, (a Alemanha incluída), não por razões “ideológicas” ou “democráticas” mas por outros motivos mais concretos e profundos: os interesses geopolíticos de poder – quanto mais poderosa for a Rússia, mais prejudicados e debilitados serão os interesses de poder dos Estados Unidos na Europa Central e Oriental. Não podemos esquecer Mackinder, ele é sempre uma referência.

O Surgimento dos Movimentos Nacionalistas Ucranianos: Stepan Bandera

Sendo uma superpotência, os Estados Unidos não podiam ficar alheios ao fortalecimento da URSS na Eurásia. Por isso, Stalin é demonizado até hoje – não pelo autoritarismo, já que os EUA apoiaram e continuam apoiando ditaduras em todos os continentes sempre e quando lhe prestam obediência –, mas porque Stalin implementava uma política independente que se opunha frontalmente aos interesses americanos e britânicos, entre outros.

A URSS passou a ser o inimigo número um do “mundo livre” devido aos perigos do “comunismo”, e por isso Estados Unidos fizeram vista grossa a movimentos fascistas e nazistas com Mussolini e Hitler na Itália e na Alemanha, respectivamente. O motivo era simples: a “defesa da democracia e do mundo livre” podiam esperar, porque o inimigo número um nos anos 1930 eram Stalin e a URSS por uma questão de interesses geopolíticos: frear a expansão do comunismo na Europa era mais importante e, nesse sentido, os regimes fascistas eram funcionais e úteis aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos e do Reino Unido, pelo menos por enquanto.

No oeste da Ucrânia, prosseguiam movimentos independentistas, principalmente o liderado por Stepan Bandera, alinhado ao nazismo. Ele também interessava aos projetos nazistas do “Lebensraum” (espaço vital) 12, a expansão alemã para o Leste Europeu, porque apesar de Bandera e os nazistas terem projetos diferentes para a Ucrânia, tinham dois inimigos em comum: a Polônia e a URSS.

Como se vê, os projetos ucranianos são mais antigos do que a mídia costuma admitir.

No início da Segunda Guerra Mundial na Europa, com a invasão da Polônia em setembro de 1939, a Alemanha e a URSS, através dos Acordos Molotov-Ribbentrop, dividiram áreas de influência no Leste Europeu: Polônia, países bálticos e a Finlândia. O Lebensraum começou a funcionar, mas de forma apenas provisória, porque esse “espaço vital” somente se consolidaria com a invasão da URSS na Operação Barbarossa em 22 de junho de 1941.

A Operação Barbarossa e os Colaboracionistas Ucranianos

As duas primeiras semanas da ofensiva nazista foram as mais espetaculares. Nos países bálticos e no oeste da Ucrânia, as tropas alemãs eram recebidas como “libertadoras” pois acreditava-se que traziam independência e libertação de Stalin. Isso era apenas parcialmente correto; estavam trocando uma dominação por outra ainda pior. Mal sabiam que para a ideologia supremacista do nazismo, os povos eslavos em geral eram considerados untermensch (sub-humanos), ou seja, não eram considerados seres humanos. Em consequência, todas essas terras do Leste Europeu eram sujeitas a espoliação de todos os seus recursos: colheitas, minerais e produtos industriais eram colocados a serviço da máquina de guerra nazista, e os povos eslavos serviam de mão de obra escrava em indústrias e/ou campos de concentração.

Assim, o entusiasmo dos bálticos e dos ucranianos do oeste durou muito pouco, apesar da “colaboração” de muitas milícias, dentre elas as de Stepan Bandera que ajudou os nazistas na execução de judeus, poloneses, húngaros e tártaros na região da Galitsiya. Muitos ucranianos de extrema direita, inclusive, se juntaram às Waffen SS Galizien 13.

Bandera queria estabelecer na Ucrânia um estado fascista independente e aliado da Alemanha nazista, mas o problema era que os nazistas não estavam dispostos a conceder “independência” a nenhum território ocupado, e a Ucrânia não era exceção. As tropas alemãs passaram a combater as milícias ucranianas de extrema direita e o próprio Bandera foi preso e levado a um campo de concentração em Sachsenhausen em junho de 1941.

Os nazistas e seus aliados descobriram que o oeste da Ucrânia era uma realidade, mas o leste, na região do Donbass, era bem diferente. Por quê? Porque a maioria da população é de origem russa, fala russo e não ucraniano, professa a religião ortodoxa e mantém fortes ligações culturais e históricas com a Rússia. Essas características explicam a resistência ferrenha contra os avanços alemães. Por exemplo, a cidade de Kharkov mudou de mãos várias vezes entre 1941 e 1943: capturada pelos alemães em outubro de 1941, permaneceu sob seu controle apesar da contraofensiva soviética fracassada em maio de 1942, foi reconquistada pelos alemães em março de 1943 e, finalmente, retomada pelos soviéticos em agosto de 1943, desta vez de forma definitiva.

Os alemães mal sabiam onde se meteram: nunca entenderam a Rússia, e menos ainda as diversas nacionalidades dentro da Ucrânia: ucranianos, russos, poloneses, judeus, húngaros, tártaros, romenos, cossacos e moldavos, havendo entre eles rivalidades e desentendimentos irreconciliáveis. Por isso, em minha opinião, a Ucrânia é uma nação sem estado sustentável. As diferenças são tão grandes e abismais que há sempre um turbilhão de instabilidade política, e os alemães entraram no meio dele sem saber depois como sair. Aconteceu com eles o que aconteceu também no resto da URSS: perderam muito do “apoio” inicial pela própria arrogância e ideologia supremacista, fizeram inimigos onde não deviam e finalmente facilitaram a convocatória de Stalin para a “Grande Guerra Patriótica” contra o invasor fascista. Foi o começo do fim.

Tanto na Segunda Guerra Mundial como antes, na Guerra Civil Soviética, sempre foi notório o contraste abismal entre o leste e o oeste da Ucrânia. O leste é mais vinculado à Rússia – ainda é –, e o este é mais relacionado a Ocidente.

Depois da Batalha de Moscou (1941), de Stalingrado (1942/3) e de Kursk (1943), os alemães perderam grande maioria da Ucrânia, mas foi na Galitsiya onde mais houve resistência porque tinham o apoio de milícias nazistas e uma parte importante da população não era favorável à URSS, ou melhor dito, nunca foi, com exceção de Odessa, onde sempre houve uma parte importante da população de idioma russo. Nos piores momentos, na Operação Bagration – para mim a pior derrota alemã dessa guerra –, os nazistas voltaram a se lembrar de Stepan Bandera, libertaram-no do campo de concentração de Sachsenhausen em 1944 porque precisavam de seu apoio. Mas era tarde demais: a ofensiva da Operação Bagration os fez perder todo o oeste da Ucrânia. Era o fim.

A ofensiva soviética foi tão poderosa e imparável que até os Aliados começaram a ficar preocupados, e uma aliança por “necessidade” passou a ser uma “dor de cabeça” para os Estados Unidos e o Reino Unido. A ofensiva soviética não apenas recuperou todo o território da URSS, como continuou avançando pela Romênia, Bulgária, Polônia e Hungria.

Na Conferência de Yalta em 1945, as relações da URSS com os Estados Unidos e o Reino Unido se deterioraram devido às pretensões de Stalin na Europa Oriental, que não eram nada convenientes para Roosevelt e Churchill. Mas a guerra ainda não tinha terminado e eles eram obrigados a continuar negociando com Stalin, cujo poder se fortalecia dia a dia, apesar do elevadíssimo custo humano e material que a URSS teve que pagar para vencer o nazismo e seus aliados.

Na posterior Conferência de Potsdam (1945) 14, as relações entre os aliados vencedores pioraram ainda mais devido às divisões de áreas de influência e ocupação da Alemanha, em Berlim, da Áustria e, como se fosse pouco, a Polônia, onde o Reino Unido tentou levar ao poder em Varsóvia o governo polonês no exílio em Londres, mas com a totalidade da Polônia ocupada pelo Exército Soviético, a intenção de Stalin, de implantar um governo comunista, prevaleceu.

O Ocidente teve que ceder mais do que lhe era conveniente, e isso não podia continuar assim. Era preciso fazer algo. E foi feito.

Guerra Fria: O Plano Ucrânia e as Operações Red Sox

A OSS (Office of Strategic Services), o Escritório de Serviços Estratégicos, antecessor da atual CIA, sabia que nos campos de prisioneiros havia muitos ucranianos que haviam colaborado com os nazistas nas SS Galizia e nas SS Totenkopf, eram rotundamente anticomunistas, tinham experiência em combater o Exército soviético e era disso que precisavam. A ideia não era um enfrentamento direto da URSS, que não era viável para os Estados Unidos, mas utilizar esses ucranianos como elementos insurgentes de forma clandestina dentro da então República Socialista Soviética da Ucrânia, visando desestabilizar a URSS por dentro, incentivando outras minorias nacionais a fazerem o mesmo – insurgências para desintegrar a União Soviética em nome da “liberdade e a democracia”.

Tinha início o Project Ukraine (Plano Ucrânia), através das operações clandestinas batizadas de Red Sox, executadas pela CIA já a partir de 1950. Para isso, muitos colaboracionistas ucranianos acusados pela URSS de crimes de guerra foram poupados dos Julgamentos de Nuremberg de 1947, entre eles Stepan Bandera.

Os Estados Unidos negaram a extradição exigida pelos soviéticos porque esses elementos eram muito funcionais às operações de infiltração, inteligência, sabotagens, desestabilização e guerra psicológica para as quais a CIA estava financiando e treinando agentes ucranianos.

Assim, o Exército Insurgente Ucraniano (UPA, Ukrainska Povstanska Armiia), que colaborou com os nazistas na Operação Barbarossa, voltou a vida pelas mãos da CIA, novamente comandado por Bandera, agora refugiado na Alemanha Ocidental. Como se vê, quando conveniente, os Estados Unidos alimentam e incentivam o nazismo –, porque o que restava dele era já um “aliado” no combate ao verdadeiro inimigo da Guerra Fria: a URSS. E o governo de Konrad Adenauer em Bonn, agia como se nada estivesse acontecendo.

A URSS e a contrainteligência da KGB conseguiram neutralizar e eliminar muitos desses ucranianos ao longo dos anos 1950, incluindo o mesmo Stepan Bandera, eliminado na Alemanha Ocidental por agentes da KGB em 1959.

As operações Red Sox foram um rotundo fracasso para a CIA, por isso permaneceram décadas a fio sem serem reveladas. No entanto, os movimentos anticomunistas nunca foram eliminados e continuaram existindo em estado latente. Com o tempo, esse seria um dos fatores de desintegração da URSS e a independência da Ucrânia, tão “conveniente” para os interesses dos Estados Unidos e da União Europeia, porque ambos têm a Rússia como inimigo em comum. Isso se materializaria na vitória do referendo de independência ucraniana em 1.o de dezembro de 1991, o primeiro passo para a desintegração da União Soviética.

Podemos pensar que com a implosão da URSS, os Estados Unidos e a União Europeia venceram a Guerra Fria e tudo terminou. Errado. Os EUA terminaram essa guerra e geraram outras porque a máquina de guerra do Pentágono se transformou em um estado dentro do estado, e precisa de guerras constantes, porque essa é a base do lucro do complexo industrial militar americano associado, como sempre, a Wall Street, que também lucra com isso.

Ou seja, desintegrar a URSS não foi suficiente para os EUA: o objetivo passou a ser a desintegração da Federação Russa, o mesmo objetivo da atual Guerra da Ucrânia.

A Federação Russa, apesar de deter menos territórios que a URSS, ainda é muito extensa para o gosto americano, e por desgraça para eles, ainda têm muitas indústrias, muitas reservas de metais e muitas reservas energéticas e minerais, ou seja, é uma situação inaceitável, inconveniente e insuportável para os interesses dos Estados Unidos e da União Europeia. Para essas potências, é intolerável que esses recursos não possam ser utilizados pelo “mundo livre ocidental”, mas em proveito da Federação Russa. Uma Rússia unificada, com economia forte e com poderio militar não pode continuar. Algo deve ser feito. E os Estados Unidos nunca perdem tempo.

Desintegração da URSS: Independência da Ucrânia: Maidan 2014


Mapa 3: Ex-repúblicas soviéticas em 1991.

Se analisarmos as fronteiras das ex-repúblicas soviéticas depois da desintegração da URSS em 1991, notaremos que surgem quase os mesmos estados do Tratado de Versalhes de 1919, porque nessa época essa era a divisão política dos estados do Leste Europeu que convinha às potências aliadas vencedoras, debilitando e cercando a Rússia. Em 1991, o fenômeno se repete, porém com a supremacia dos Estados Unidos, com a União Europeia assumindo um papel subordinado e coadjuvante. Diferente da Entente de Versalhes, mas com a mesma finalidade: dividir e enfraquecer a Rússia. Essa é uma constante histórica.

Foi construído de tal forma que o Plano Ucrânia continuou funcionando. Desde sua independência em 1991, a Ucrânia nunca teve uma economia sustentável por si mesma. Historicamente, ainda que desagrade aos ucranianos, a Ucrânia sempre esteve interligada à Rússia: ferrovias, estradas, matrizes energéticas, petróleo, gás, indústria de armamentos e serviços públicos. Para conseguir sua “independência” a Ucrânia trocou uma dominação por outra: a da Rússia pela dos Estados Unidos e a União Europeia.

Se somarmos a isso a corrupção desenfreada e descomunal das elites de Kiev (por décadas a elite ucraniana sempre foi considerada a classe dirigente mais corrupta da Europa), a ajuda financeira nunca é suficiente. Não há investimentos internos em infraestrutura, saúde ou educação: todo dinheiro que entra termina em paraísos fiscais que, por “coincidência”, são ex-colônias do Reino Unido.

Mas a União Europeia e os Estados Unidos insistem com o Plano Ucrânia porque nunca tiveram um proxy melhor desde 1945, precisamente para enfrentar ao arqui-inimigo russo.

De onde sai essa geopolítica dos EUA? De Zbigniew Brzezinski, um cientista político, geopolítico e estadista americano nascido na Polônia, Conselheiro de Segurança Nacional no governo de Jimmy Carter entre 1977 e 1981, que, apesar de não ter cargos nos governos republicanos e democratas posteriores, sempre teve influência e foi referência por toda a sua vida no que concerne à geopolítica dos Estados Unidos na Europa Central e Oriental.

É fundamental compreender Brzezinski para entender a geopolítica americana. Seu objetivo sempre foi consolidar a supremacia mundial unipolar dos EUA e enfrentar, enfraquecer e desintegrar as “ameaças” que pudessem colocar em perigo a supremacia unipolar americana, principalmente a Rússia e a China.

E quem colocou em prática as teorias políticas de Brzezinski? Victoria Nuland, agente da CIA e uma das melhores discípulas do afamado geopolítico.

A CIA fez um bom trabalho: aos poucos, a Ucrânia desde 2009 na Revolução Laranja, foi se aproximando cada vez mais da União Europeia, trocando a matriz de dependência russa pela de Bruxelas e Washington, ou seja, Kiev nunca caminhou economicamente com as próprias pernas.

Mas os Estados Unidos não estavam ainda satisfeitos com Kiev e Victoria Nuland também não: se a Ucrânia queria ingressar ao “mundo livre” e usufruir das benesses de pertencer a esse “seleto clube”, como ingressar na União Europeia e na OTAN, deveria, antes, realizar um “ato de fé” para o Ocidente: romper definitivamente qualquer vínculo político e econômico com a Rússia. Em 2014, o presidente ucraniano Viktor Yanukovitch não queria ir tão longe, porque também havia pressões do lado russo, e por isso suspendeu um acordo de associação e livre comércio com a União Europeia. Foi o seu fim. Como consequência, Nuland agiu como só a CIA sabe fazer: Praça Maidan 2014.

Apesar de Yanukovitch ser um governante ucraniano democraticamente eleito, ele não podia continuar. Era preciso encontrar um novo governo pós-Yanukovitch mais obediente aos desejos e interesses geopolíticos dos Estados Unidos. Para isso era necessário “criar” um clima de manifestações e descontentamento, uma “revolução colorida” como a CIA sabe fazer muito bem.

Essa manifestação de “espontânea” não tinha nada, e Nuland se encarregou de articular e organizar as lideranças ucranianas para os protestos. E foi na Praça Maidan de Kiev que aconteceu um atentado onde atiradores mascarados e vestidos de preto, a partir de pontos altos e estrategicamente posicionados, atiram contra os manifestantes. Foram acusado de serem a polícia de Yanukovitch, dando lugar assim a um golpe de estado disfarçado de “revolução democrática”, com maior possibilidade de ser uma false flag do que qualquer outra coisa. Yanukovitch teve que fugir do país em 22 de fevereiro de 2014. A origem dos atentados nunca foi esclarecida ou provada e a justiça ucraniana não condenou ninguém, o que aumenta as suspeitas de ser uma operação de falsa bandeira.

E foram precisamente esses incidentes que deram início à Guerra da Ucrânia, com a anexação da Crimeia pela Rússia e a revolta no Donbass que não reconheceu o novo governo de Kiev. Em minha análise, a Guerra da Ucrânia começou em 2014 e não em 2022 como nos é mostrado pela mídia corporativa ocidental.

O Plano Ucrânia precisa de uma Ucrânia submissa e financeiramente dependente de Washington e Bruxelas, e como depende de apoio financeiro externo para que o estado ucraniano não entre em colapso, Kiev não tem outra saída a não ser implementar o plano da OTAN e da UE: enfrentar a Rússia permanentemente, com auxílio financeiro europeu e americano, com logística militar da OTAN. Assim, a Ucrânia se transformou no melhor proxy que os EUA já tiveram desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Mas isso teria um preço.

A Ucrânia historicamente têm tantas etnias e idiomas diferentes em seu território que é de fato ingovernável. Mas há uma etnia que incomoda muito ao Plano Ucrânia: os ucranianos de origem russa que falam o idioma russo. Nesse plano, a Ucrânia deve ser “homogênea”, e há dois pontos inaceitáveis: falar russo e praticar o cristianismo ortodoxo russo. Isso é tão ridículo quanto se nos estados americanos do Texas e da Califórnia os cidadãos fossem proibidos de falar espanhol e praticar o catolicismo.

Mas a mídia não fala sobre isso.

A população de origem russa incomoda muito: na Crimeia, 90% da população é de origem russa. O Maidan desatou em várias partes da Ucrânia um efeito cascata, mas em sentido contrário: o que é aceito em Kiev e no oeste da Ucrânia (um governo ucraniano pró-UE), salvo Odessa, não é aceito na Crimeia nem no leste do país (onde o governo pós-Yanukovitch não foi reconhecido).

Em nome da “unidade nacional” ucraniana e da “integração à União Europeia”, as dissidências no Donbass não podiam ser aceitas, fechando o caminho para uma negociação de autonomias locais que teria evitado a guerra civil ucraniana e a desintegração interna do país. Mas como vimos anteriormente, a Ucrânia depende de ajuda externa para manter sua máquina estatal funcionando, por isso carece da capacidade de tomar decisões de maneira independente.

Guerra da Ucrânia, Primeira Fase: Guerra Civil Ucraniana (2014-2022)


Mapa 4: Diferenças étnicas na Ucrânia.

Para ganhar tempo para que o Plano Ucrânia seguisse adiante, foram assinados acordos como Minsk I e Minsk II, nos quais se reconheciam os direitos da autonomia dos ucranianos de fala russa dentro da própria Ucrânia. A França e a Alemanha foram os estados garantidores do cumprimento de tais acordos. Curiosamente, os Estados Unidos, principais promotores dos incidentes da Praça Maidan em 2014, não participaram dos acordos, o que levanta suspeitas até hoje. Mas esses acordos, como depois reconheceu Angela Merkel, foram assinados não com a intenção de serem cumpridos pela Ucrânia, mas para ganhar tempo para rearmar o Exército ucraniano – nem mais, nem menos.

O Estado ucraniano não iniciou “apenas” uma guerra civil, mas uma “limpeza étnica disfarçada”, ou seja, com cobertura mínima da mídia ocidental “normalizando” a situação como se nada estivesse acontecendo quando as populações civis dos “oblasts” de Lugansk e Donetsk eram atacadas para subjugá-los, seus direitos pelos Acordos de Minsk eram retirados ou eram expulsas para as fronteiras da Rússia.

Com a expulsão dessas populações, elas seriam substituídas por habitantes de fala ucraniana. Como o Estado ucraniano não têm como pagar toda a ajuda que recebeu, e ainda recebe, do Ocidente, não lhe resta alternativa a não ser pagar com territórios ou recursos naturais.

Mas é a partir daí que tudo começa a acontecer de maneira diferente da esperada:

• Se alguma vez a Ucrânia cogitou em tomar totalmente a estratégica base naval de Sebastopol na Crimeia, expulsando e cercando a frota russa da área, deu tudo errado porque Putin se antecipou de maneira surpreendente ocupando militarmente toda a península, cercando e rendendo a frota ucraniana na área com apoio de 90% da população local. Só então isso se transformou em um “escândalo mundial” desatado pela mídia ocidental. Na realidade quem queria a base era a OTAN, mas como tudo terminou mal, não se diz nada a respeito, e a conta política foi para Victoria Nuland.

• A limpeza étnica em Lugansk e Donetsk foi silenciada e minimizada pela mídia ocidental da mesma forma que acontece com a limpeza étnica de Israel na Cisjordânia, expulsando os palestinos e substituindo-os por colonos israelenses de maneira lenta mas progressiva e constante. Isto aconteceu e acontece porque não há ninguém para defender os palestinos da Autoridade Palestina que administra esses territórios, mas no Donbass, as regiões autônomas do Lugansk e Donetsk encontraram apoio: a Federação Russa. Isto também iria pesar na conta de Nuland e sua posterior exoneração do Departamento de Estado, disfarçado de “aposentadoria”.

Dito tudo isto, como já mencionei, a guerra da Ucrânia começou em 2014, sendo, em sua fase inicial, uma guerra de procuração ou proxy war de ambos os envolvidos, a OTAN de um lado e a Federação Russa de outro. A OTAN tinha, e têm, a Ucrânia como proxy, combatendo a Rússia indiretamente através dela. Do outro lado, uma vez ocorrido o Maidan, a Rússia incentivou as revoltas no Donbass com a declaração da “República de Lugansk” e da “República de Donetsk”, que por razões geopolíticas os EUA e a UE jamais reconheceriam, em oposição ao que fizeram em 1999 nos Bálcãs ao reconhecerem “automaticamente” a “República de Kosovo”, porque esta atendia aos interesses da OTAN.

Na fase inicial do conflito na Ucrânia, a Rússia combateu indiretamente através das milícias de Lugansk e de Donetsk, dando-lhes apoio logístico e armamentos.

Guerra da Ucrânia, Segunda Fase: Intervenção Direta da Rússia em 2022 – Interesses em Jogo

A segunda fase da guerra da Ucrânia veio, segundo a minha análise, em 22 de fevereiro de 2022 com a intervenção direta da Federação Russa em favor da população das milícias de Lugansk e Donetsk e, obviamente, em favor de seus interesses geopolíticos na região, interesses esses totalmente opostos aos da OTAN. Assim, esta é uma disputa de interesses geopolíticos existenciais de ambas as partes, como certeiramente afirmam Rodolfo Laterza e o Marco Antonio Coutinho em seu livro sobre a Guerra da Ucrânia.

Ou seja, este conflito não é um confronto entre “esquerda” e “direita” ou de “democracia” versus “ditadura”, porque as ideologias apenas confundem e se desviam propositadamente das questões geopolíticas centrais: é simplesmente uma disputa de poder.


Mapa 5: Territórios ocupados pela Rússia na guerra da Ucrânia.

Quando a Rússia interveio diretamente na Ucrânia, foi uma surpresa para a OTAN. Tinha que reagir, senão a guerra podia terminar de maneira favorável à Rússia se Zelensky assinasse o Acordo de Istambul, reconhecendo as autonomias de Lugansk e Donetsk e a ocupação Russa da península da Crimeia. Mas Zelensky, como todo presidente ucraniano, não têm poder de decisão sobre coisa alguma, daí a ameaça do premiê britânico Bóris Johnson de retirar o apoio financeiro à Ucrânia se ele fizesse um acordo com a Rússia. Seria o fim de Zelensky e o colapso do Estado ucraniano. A guerra continuou e a Ucrânia, graças à ajuda da OTAN, está perdendo 25% do seu território onde estão 70 % da sua indústria e 80% de seus recursos minerais de carvão, ferro e lítio entre outros, mas como está em poder da Rússia, para a narrativa ocidental “não vale nada”. Será que é assim? Minha análise aponta que é o contrário.

Neste conflito tanto a OTAN-Ucrânia por um lado e a Federação Russa pelo outro estão em um confronto existencial: quem perder corre risco de sofrer um colapso:

1. Se a OTAN colapsar, uma derrota na Europa teria uma repercussão muitas vezes pior do que a que sofreu em Cabul em 2022, no Afeganistão, que foi mais uma fuga em disparada do que uma retirada organizada. Nunca se recuperou. A Guerra da Ucrânia era para se recuperar, uma guerra que não podia perder. A tendência atual não a favorece. Não está perdida. Para mim, até o momento, os russos têm um resultado tático favorável, mas estrategicamente estão sofrendo reveses. Por isso a guerra se prolonga, é uma guerra de atrito e desgaste para ambos os lados, o lado que colapsar primeiro perde. A OTAN não pode permitir o colapso do Estado ucraniano, porque, se acontecer, o Exército ucraniano (de longe o melhor da Europa) não teria mais como prosseguir, e a OTAN poderia se desintegrar porque perderia sua razão de ser: combater e vencer a Rússia.

2. A Ucrânia está em uma situação desfavorável: perdeu grande parte do Donbass, sua região mais rica em minérios estratégicos e de longe a mais industrializada, que, além do mais, equivale a 25% do seu território. Como Zelensky explicaria isso ao povo ucraniano? Como Zelensky assinaria um cessar-fogo com a Rússia perdendo definitivamente o Donbass? Impossível. Os setores nacionalistas ucranianos nunca aceitariam tal perda. Ainda mais, o entorno da extrema direita, o Pravy Sektor, uma das bases do seu poder, diretamente retiraria o apoio e, junto com milícias extremistas e setores do Exército, como as Brigadas Azov, poderiam tirá-lo do poder e mesmo sua vida estaria em risco. Pela sua notória resistência e resiliência, a Ucrânia perdeu gerações inteiras da jovens, perdeu grande parte de sua força de trabalho, perdeu muito de sua infraestrutura e indústria. É um Estado colapsado que depende cem por cento da ajuda financeira dos Estados Unidos e da União Europeia. Nunca se fala sobre como vivem os cidadãos ucranianos no dia a dia, como se ninguém vivesse lá – a mídia ocidental parece proibir esse tipo de informação.

A única saída é conseguir um cessar-fogo favorável, não um que convenha à Rússia, mas isso só pode ser obtido se conseguir uma vitória estratégica atingindo a logística interna na geração de energia: destilarias, oleodutos e gasodutos que levariam a Rússia a um colapso energético e econômico e consequentemente a assinar um cessar-fogo desfavorável e que poderia levar também a um regime change, a queda de Putin. Esse é o objetivo. Se vai conseguir ou não, o tempo o dirá. O grande ponto fraco da Ucrânia é sua dependência de ajuda externa. Grande parte da população está exausta com o conflito. Milhões de ucranianos saíram do país, sem contar os que foram para a Rússia, o que para a mídia ocidental é mais um tabu. Existem grandes dificuldades de empregabilidade, além de acesso precário a serviços públicos essenciais: luz, água potável, gás, etc. Caem com frequência e são intermitentes. A Ucrânia está em uma encruzilhada de difícil saída. Sua viabilidade e sua sobrevivência estão em jogo.

3. Pelo lado da Rússia, também há um problema existencial.; Ela está pagando um altíssimo custo pelos territórios do Donbass e da Crimeia que conquistou. A Rússia corre o risco de ganhar taticamente e perder estrategicamente. Como assim? A Rússia pode ganhar e não levar. Se a Ucrânia e a OTAN conseguirem que a Rússia assine um cessar-fogo fogo com a linha de frente atual, a Ucrânia e a OTAN venderiam como uma “vitória” e a mídia ocidental comemoraria com fogos de artifício similares à narrativa da “queda do Muro de Berlim”. Por quê faria isso? Simples. Nessa demarcação da linha de frente ficariam de fora: Odessa, a capital do oblast de Kherson, a capital do oblast de Zaporizhzhia, as cidades de Kramatorsk, Slaviansk e o 20 % do oblast de Donetsk e finalmente a capital do oblast de Kharkov. Um cessar-fogo como esse não seria aceito por 80 % da população russa e nem pela maioria das forças armadas. Fazem parte do que os russos chamam de Novorossiya (Nova Rússia), o que seria inaceitável e poderia colocar em perigo a permanência de Putin no poder, o que por sua vez, definitivamente, é o sonho molhado da OTAN. Assim seria mais fácil fazer um acordo favorável, ou não. É duvidoso.

Para entender isso temos que analisar as narrativas de ambas partes.

Narrativas do Conflito


Infográfico 1: As narrativas russas e ucranianas. Ambas devem ser tomadas com cautela.

Elas são importantes para entender os interesses e as justificativas das partes do conflito, mas têm que ser tomadas com cuidado. De meu ponto de vista seriam as seguintes:

OTAN-Ucrânia: Se baseia em várias justificativas, várias delas com diversas tergiversações da história, por exemplo:

1. Rus de Kiev: No século IX o chefe viking Rurik estabeleceu o primeiro estado eslavo oriental (862-1242), sendo uma fusão de elites escandinavas com a população maioritariamente eslava, formando uma federação de principados. Terminou com as invasões mongóis do século XIII. Parte-se disso como um estado “ucraniano” que seria anterior à Rússia. Isso é falso. Nessa época nem a Rússia e nem a Ucrânia existiam ainda. Existia a cidade de Kiev, mas não o Estado ucraniano. Sequer se sonhava com isso.

2. Hetmanato Cossaco: foi um estado cossaco independente que existiu no atual oblast de Zaporizhzhia entre os séculos XVI e XVIII. Na verdade os cossacos não se consideravam nem russos e nem ucranianos, porque nem se sonhava com um estado ucraniano independente nessa época; ele só viria a existir de forma precária de 1917 a 1921: a República Popular da Ucrânia. O Hetmanato era governado por um hetman, chefe dos cossacos. A independência que queriam era de difícil sustentação porque combatiam entre si e combateram inimigos poderosos: os poloneses, o Zarato de Moscou, o Canato da Crimeia, o Império Otomano. Em 1654 assinaram o Acordo de Pereyaslav de vassalagem à Rússia. Em 1764 são anexados ao Império Russo no tempo de Catarina a Grande.

3. Holodomor (em ucraniano, “matar pela fome”): é considerado pela mídia ocidental, pela OTAN e pela Ucrânia como um genocídio deliberado do Stalin 15 em 1932-1933 para matar a população ucraniana de fome propositalmente, e assim destruir o movimento nacionalista ucraniano dentro da URSS, culminando na morte de milhões de ucranianos. Mas há um detalhe: a Grande Fome de 1932-33 não aconteceu apenas na República Socialista Soviética da Ucrânia, como diz grande parte da mídia ocidental, mas também em várias partes da URSS.

Nem todos concordam com essa narrativa: os professores Robert W. Davies 16 e Stephen G. Wheatcroft afirmam que a fome foi causada por fatores humanos, neste caso, erros e consequências de decisões de Stalin sobre a industrialização forçada e colheitas ruins no início dos anos 1930 pela coletivização das terras agrícolas que foi desastroso. Ou seja, não foi proposital. Portanto, o Holodomor é um fato polêmico e controverso, que deve ser analisado com cuidado.

4. Stepan Bandera: é mostrado pela mídia ocidental como um “herói nacionalista ucraniano”, como um “lutador da liberdade”. Isso é polêmico. Se nos anos 1930, com o Exército Insurgente Ucraniano, ele foi um dos líderes independentistas, ao mesmo tempo foi também um defensor de um estado fascista na Ucrânia que colaborou com a ocupação nazista na Operação Barbarossa, principalmente com grupos de extermínio das SS Galizien em pogroms e genocídios contra judeus, russos e poloneses na Ucrânia Ocidental. Isto é minimizado pela narrativa.

5. Eliminação total do Estado ucraniano: Segundo essa narrativa, a OTAN está lutando pela “liberdade e a independência da Ucrânia” porque a Rússia a quer anexar totalmente. Isso é falso. Nem os nacionalistas russos mais fanáticos querem isso: a Ucrânia atual é um Estado colapsado e falido. A mídia não quer reconhecer esse fato para não se contradizer.

Por isso, se a Rússia terminasse a guerra com o leste da Ucrânia anexado, seria uma “vitória da Ucrânia” para a OTAN e a mídia ocidental porque teria salvo os 75% restantes, mas não se fala do “preço” a ser pago. Um dos objetivos russos é recuperar os territórios com maioria de população russa.

B. Narrativa Russa: ela também existe, embora chegue em menor medida a estas latitudes.

1. A Ucrânia e a Rússia são um povo: existe sim muita história em comum ao longo dos séculos e é difícil separar uma da outra. Mas dentro do Império Russo sempre existiram diferentes nacionalidades que não queriam se sujeitar à influência russa: nas regiões bálticas, no oeste da Ucrânia e na Finlândia.

2. A narrativa russa sempre vai minimizar os danos sofridos na infraestrutura de destilarias, refinarias, oleodutos e gasodutos na retaguarda.

3. Dizia-se que o apoio à Putin era de 80% mas atualmente ronda os 65% pelo cansaço do povo da guerra, principalmente pela maneira como o Kremlin a conduz de forma limitada, quando o povo preferiria uma definição mais contundente.

Conclusões

1. Há uma tendência favorável à Rússia enquanto tática: (território ocupado, batalhas ganhas), mas uma guerra não se ganha somente com vitórias no campo de batalha, mas quando um dos lados atinge seus objetivos estratégicos. Precisamente aí há uma indefinição, porque a Rússia vem sofrendo ataques permanentes com enxames de mais de 100 drones por dia que atingem pontos logísticos como refinarias e destilarias no interior do país. Isso já está ocasionando problemas no meio ambiente e na população.

Dificilmente a Ucrânia vai recuperar o território ocupado pela Rússia. Eles sabem disso, mas a cartada é provocar um colapso energético e econômico que obrigue a Rússia a assinar um cessar-fogo desfavorável.

2. As sanções econômicas da UE e dos EUA contra a Rússia eram a carta de triunfo da OTAN para ganhar a guerra: deixar a Rússia isolada mundialmente e forçá-la a se render retirando-se de todos os territórios ocupados. Isso não aconteceu, pelo contrário. A China, a maioria dos países da Ásia, além dos BRICS e muitos países no mundo, não aderiram às sanções. Por isso, a cartada são os ataques à estrutura de usinas e refinarias. Para mim, é como uma tartaruga sobre o poste: ela não subiu sozinha. Se a Ucrânia teve uma curva de aprendizado no uso de drones, não conseguiriam sozinhos: os 35 países da OTAN entregam drones permanentemente, e os EUA com seus satélites os guiam até os seus alvos.

3. A Rússia também ataca a infraestrutura ucraniana com drones e mísseis prejudicando-a seriamente. Não existe até hoje um sistema de armas que possa eliminar enxames de drones e mísseis. Existem sim camadas escalonadas de sistemas que podem destruir muitos, mas não eliminar todos. Basta a chegada de uns poucos para causar grandes estragos.

4. Por esses motivos ambos os lados nesta guerra de desgaste tentam fazer colapsar um ao outro. Para mim a Rússia está apostando no colapso da OTAN. A União Europeia é o suporte econômico da OTAN. Se a União Europeia e os Estados Unidos parassem de enviar ajuda financeira à Ucrânia por 60 dias, a Ucrânia colapsaria porque não poderia nem pagar os salários do funcionalismo público. Seria o fim. É o que a Rússia quer para conseguir impor suas condições. A União Europeia não pode permitir isso, mas como Kiev é um poço sem fundo, ao mesmo tempo os países europeus estão deixando de lado suas infraestruturas, desequilibrando suas finanças e suas populações, e nem todos os membros estão dispostos a isso, por exemplo, Espanha e Itália.

5. Assim, o objetivo estratégico russo é colapsar a Ucrânia para a desmilitarização e desnazificação do país, não anexar o território inteiro como diz a narrativa. Não está atingindo esse objetivo até aqui. Por isso, apesar de uma vitória tática, pode sofrer um revés estratégico se seguir se descuidando. Pode vencer mas não levar pelos motivos explicados anteriormente.

6. Finalmente, o objetivo da OTAN-Ucrânia é colapsar a Rússia com um colapso energético ou econômico-financeiro ou com a queda do regime. Isso também não foi atingido. Não esperavam que a China apoiaria a Rússia. Nunca entenderam o funcionamento dos BRICS e o subestimaram. O objetivo final e sonho molhado que Brzezinski sempre teve era a desintegração da Federação Russa em três países: uma Rússia europeia, uma Rússia siberiana e uma Rússia no extremo oriente, no Pacífico. Assim a hegemonia americana ficaria garantida. Mas como se diz, “têm que combinar com os russos”. Eles não vão facilitar.

7. Tanto a Rússia como a Ucrânia enfrentam baixos níveis de natalidade e problemas de população. Se existe crítica na Rússia contra Putin não é para fazer a paz com a Ucrânia. É pela maneira com que o Kremlin está conduzindo a guerra 17. Querem ações mais enérgicas para finalizar de vez o conflito. A aposta de Putin em limitar as ações é uma aposta de alto risco. A OTAN sempre esperou um “Pearl Harbor”, um ataque russo a uma base americana na Polônia ou na Romênia, que justificaria uma “vitimização”, algo que a mídia ocidental faz como ninguém. Obviamente a Rússia não fará isso porque a forçaria a combater em várias frentes ao mesmo tempo como na guerra da Crimeia (1854-56) e na Guerra Civil Soviética (1917-1922).

A Rússia cuida mais de suas tropas e evita uma mobilização total que ocasionaria gravíssimos problemas econômicos, políticos e sociais com imprevisíveis consequências.

A Ucrânia em troca têm uma enorme massa de manobra em tropas, o que, somado às enormes quantidades de drones e o uso que fazem deles, as densas linhas de defesa preparadas por anos pela OTAN e a estrutura logística europeia, além da ajuda financeira, fazem com que Ucrânia siga combatendo pelos motivos anteriormente citados. Mas a Ucrânia perdeu população em uma proporção que inviabiliza a recuperação pós-guerra, ficou sem mão de obra, sem infraestrutura, como um Estado falido. As consequências são imprevisíveis. O tempo dirá, mas o panorama não é promissor. Esta guerra mudou para sempre a geopolítica mundial tal qual a conhecemos. É a transição de um mundo unipolar para outro multipolar em formação.

Bibliografia

LATERZA, Rodolfo Queiroz; COUTINHO, Marco Antonio de Freitas. Guerra Russo-Ucraniana: O Conflito que Está Redesenhando a Geopolítica Mundial. São Paulo: D’Plácido, 2025.

COUTINHO, Marco Antônio de Freitas. Da Red Sox a Nuland: 78 Anos do Plano Ucrânia. Blog Velho General, 7 de março de 2024. https://velhogeneral.com.br/2024/03/07/da-red-sox-a-nuland-78-anos-do-plano-ucrania/.

TheGreatWar. 4 Wars Directly After WW1 (Documentary). YouTube, 21 de novembro de 2025. https://youtu.be/n4jLQMDlKNc?si=rXdJEVrWJ-Hy1OCo.

Notas

1 A Ordem Teutônica foi uma ordem de ‘cavalaria que, depois dos fracassos das Cruzadas no Levante, com a queda da fortaleza de Acre em 1299, centrou sua poderosa expansão no norte dos atuais estados da Alemanha, Polônia, Lituânia, Estônia e Letônia, chegando às portas do então Principado de Novgorod, sendo derrotados por Alexandre Nevski em várias batalhas, entre elas a do Lago Peipus no século XIII.

2 A Mancomunidade Polaco-lituana foi um estado federado entre o Reino da Polônia e o Grande Ducado da Lituânia que durou desde 1515 até 1777, quando foi extinto e dividido entre a Rússia, a Prússia e a Áustria. Teve seu apogeu no início do século XVII, quando na batalha de Lenovo, em 1614, derrotou os russos do Zarato de Moscou e entrou na cidade ocupando grande parte da Rússia Europeia, parte das atuais Belarus e Ucrânia, até que foi expulso e derrotado pelas revoltas de cossacos da Zaporizhzhia aproximadamente em 1650.

3 A Horda de Ouro foi um império mongol que dominou grande parte da Rússia Europeia, Ucrânia e Belarus, entre outros, de 1211 até início do século XVI, quando foi derrotado pelo Zarato de Moscou governado por Ivan IV o Terrível, formando as bases do futuro Império Russo.

4 O Canato da Crimeia foi um estado vassalo do Império Otomano que ocupou o sul da Ucrânia, incluindo a Crimeia, parte do Cáucaso e da Moldávia desde 1500, quando a Horda de Ouro entrou em decadência, até 1775, sendo destruído pelas campanhas militares de Suvorov no reinado de Catarina, a Grande.

5 Pelo Tratado de Brest Litovsk, a Rússia Soviética teve que pagar pesadas indenizações e reconhecer a independência da Finlândia, Ucrânia, Lituânia, Curlândia e Letônia, onde o Império Alemão tinha por objetivo colocar monarquias satélites governadas por dinastias de origem alemã. Nunca se colocou em prática porque esse acordo caiu com o Armistício de Compiègne e o Tratado de Versalhes.

6 Mitteleuropa visava criar uma área de influência do Império Alemão na Europa Central e Oriental durante a Primeira Guerra Mundial. Foi extinta com a derrota em 1918. Têm semelhanças com a atual União Europeia, com duas grandes diferenças: a capital da UE é Bruxelas e não Berlim, e a UE está subordinada aos Estados Unidos. A Mitteleuropa, em contraste, deveria garantir a hegemonia do Império Alemão contra a Rússia e o Reino Unido.

7 O Reino de Regência da Polônia foi um estado títere criado pelo Império Alemão em 1916 na Polônia ocupada. Nunca teve um rei, mas um conselho de Regência formado por aristocratas poloneses com simpatia pelos interesses alemães. Durou até 11 de novembro de 1918, com a revolta de Pilsudski que fundou a República da Polônia. A maioria do povo polonês queria uma república independente.

8 O Ducado da Curlândia foi um estado criado pelo Império Alemão que não vingou. Durou de março de 1918 a setembro do mesmo ano. Ocupava aproximadamente o atual estado da Letônia.

9 Esses estados formaram a República Transcaucasiana (1918-1922) até serem anexados pela URSS como República Socialista Soviética do Azerbaijão, República Socialista Soviética da Geórgia e República Socialista Soviética da Armênia, respectivamente.

10 A Makhnovtchina foi o Movimento Makhnovista ou Território Livre que existiu na atual Zaporizhzhia entre 1918 e 1921. A capital era a cidade de Huliaipole. Apoiou os soviéticos contra o general Denikin e em 1921 foi anexada à República Socialista Soviética da Ucrânia.

11 Em 1919, o General Denikin foi derrotado em Tula durante sua marcha para Moscou, enquanto o General Yudenich sucumbiu às forças comunistas próximo a Petrogrado. Na Sibéria, o Almirante Kolchak foi vencido em Irkutsk e posteriormente executado. Por fim, o colapso de Kolchak, a falta de apoio local e as disputas internas forçaram a retirada das tropas americanas e japonesas de Vladivostok em 1922. Esse fracasso retumbante da intervenção estrangeira e das forças brancas permanece como um tema pouco discutido até os dias de hoje.

12 O Espaço Vital era uma teoria supremacista incentivada pelo nazismo para justificar a expansão, dominação e extermínio dos povos que consideravam menos que seres humanos: eslavos, judeus e ciganos. Por isso desde a invasão da Polônia começaram os genocídios que culminaram no Holocausto. No Leste Europeu, os nazistas não aplicavam as Convenções de Genebra como na França, Bélgica e Holanda, por exemplo, visando uma posterior colonização de povos germânicos no Leste Europeu. O Império Alemão tentou germanizar os territórios poloneses no final do século XIX. Foi um rotundo fracasso.

13 A Waffen SS Galizien era uma divisão das SS com muitos integrantes ucranianos colaboracionistas que participaram de muitos genocídios na Ucrânia. A Waffen SS Totenkopf era responsável pela segurança dos campos de concentração e também tinha muitos ucranianos em suas fileiras.

14 Os aliados tiveram que fazer concessões à URSS por necessidade: territórios do Leste da Polônia, da Hungria e da Romênia passaram para a URSS, sendo destinados à Belarus e à Ucrânia onde estão até hoje.

15 Schossler, Alexandre. “O que foi o Holodomor?” Deutsche Welle (DW), 21 de dezembro de 2022. https://www.dw.com/pt-br/o-que-foi-o-holodomor/a-64169864.

16 Davies, Robert; Wheatcroft, Steven. “Stalin and the Soviet Famine 1932-33: A reply to Ellman.” Junho de 2006. Europe-Asia Studies.

17 Foi criticado por não ter mandado abater os drones no espaço aéreo da Letônia e Estônia quando seguiam para o interior do território russo.

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