
A nova estratégia norte-americana substitui a diplomacia normativa pela “Interdição Total”: controle naval de rotas, captura de recursos e imposição do Petrogás-Dólar; uma análise da “Doutrina do Estado Pirata” e seus impactos na disputa pela próxima ordem global entre Washington e o bloco eurasiano.
1. Introdução
A ordem hegemônica global atravessa uma mutação estrutural amplamente reconhecida. O modelo da chamada “ordem internacional baseada em regras”, que sustentou o momento unipolar posterior ao fim da Guerra Fria, vem sendo progressivamente substituído por uma dinâmica mais competitiva, marcada pela erosão da autoridade normativa dos Estados Unidos da América (EUA) e pela ascensão de múltiplos polos de poder.
Medhurst (2026) argumenta que os EUA não estariam assistindo a esse processo de braços cruzados. Segundo o autor, Washington estaria conduzindo uma resposta estratégica sofisticada, ancorada em instrumentos econômicos, logísticos e jurídicos muito específicos. Da Guerra Russo‑Ucraniana, iniciada ainda no governo Biden, à guerra comercial dos primeiros meses do segundo mandato de Trump, passando pelas operações recentes na Venezuela, no Ártico e no Golfo, Medhurst sustenta que todos esses eventos compõem um mesmo arcabouço estratégico.
A esse conjunto integrado de práticas, ele atribui o nome de “Doutrina do Estado Pirata”.
O presente artigo examina criticamente as ideias de Medhurst e as confronta com fatos observáveis, buscando avaliar em que medida essa doutrina pode ser utilizada como modelo interpretativo para compreender a grande estratégia dos EUA, especialmente no contexto do governo Trump.
Para isso, utiliza análise documental, dados públicos de comércio energético e literatura especializada em geopolítica e segurança internacional, com o objetivo de verificar a consistência empírica e conceitual da proposta teórica apresentada por Medhurst.

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2. A Doutrina do Estado Pirata ou a Estratégia de Interdição Total
Sob esta nova égide, a política externa dos Estados Unidos deixa de operar como um exercício de diplomacia normativa e passa a assumir a forma de uma estratégia de interdição física, pressões econômicas e captura direta de recursos. A sobrevivência do dólar americano, antes sustentada pela hegemonia financeira e pela superioridade militar convencional, passa a depender do controle dos fluxos globais de hidrocarbonetos. O poder naval e logístico dos EUA torna-se o instrumento central para determinar quem pode produzir, transportar e consumir energia no sistema internacional.
Essa transição, fundamentada no Excepcionalismo Americano de matriz neoconservadora, remete à Doutrina Wolfowitz (1992). Seu objetivo central consiste em impedir a emergência de qualquer rival regional capaz de consolidar o controle sobre recursos estratégicos que possam sustentar um polo de poder autônomo. Na prática, a segurança nacional norte-americana passa a ser tratada como sinônimo de monopólio energético global.
Segundo Medhurst (2026), a Estratégia de Interdição Total repousa sobre três pilares fundamentais:
• Neutralização física da concorrência: consiste na eliminação deliberada de infraestruturas energéticas rivais, como no caso das explosões que atingiram o Nord Stream e das operações que afetaram o complexo de South Pars, removendo alternativas ao fornecimento controlado pelos EUA.
• Captura direta de recursos: envolve a apropriação de reservas externas por meio de mecanismos jurídicos e financeiros. A situação da Venezuela é apresentada como exemplo, com a transferência operacional de ativos para corporações como a Chevron mediante licenças da OFAC 1, que funcionam como modernas “patentes de corso”2.
• Imposição de Dependência Logística: estabelece a obrigatoriedade do uso de infraestrutura, rotas e marinha mercante sob controle norte-americano. O resultado é a criação de uma espécie de “taxa de proteção” global, na qual o acesso ao mercado de energia depende da submissão às condições impostas por Washington.

3. A Tríade da Interdição: Southern Spear, Arctic Sentry e Epic Fury
A coordenação simultânea das operações Southern Spear, Arctic Sentry e Epic Fury, executadas pelos EUA entre 2025 e 2026, configura o que Medhurst interpreta como um cerco físico deliberado aos principais pilares de fornecimento energético da Eurásia. O alvo estratégico central seria a China, cuja segurança energética depende de três fornecedores críticos: Rússia, Irã e Venezuela.
Somados, esses três países respondem por aproximadamente 32% das importações de petróleo chinesas. Não por coincidência, todos foram atingidos diretamente pelas operações mencionadas. Ao desarticular essa tríade, Washington imporia uma vulnerabilidade estrutural à economia chinesa, reduzindo sua capacidade de diversificação e ampliando sua dependência de fluxos controlados pelos EUA.

A seguir, examina-se cada operação e sua contribuição para esse objetivo.
3.1. Southern Spear (Venezuela)
Iniciada em setembro de 2025 sob o pretexto de combate ao narcotráfico, a operação evoluiu para a captura do presidente Nicolás Maduro em janeiro de 2026. O controle efetivo das maiores reservas de petróleo do mundo permitiu que Donald Trump declarasse que os EUA passaram a controlar 62% do petróleo global, afirmação de caráter político, mas reveladora da narrativa estratégica adotada. A interdição do Caribe pelo SOUTHCOM transformou a Venezuela em uma reserva energética cativa, cujos fluxos passaram a ser regulados por licenças da OFAC. Essas licenças priorizam o abastecimento doméstico norte-americano e limitam a capacidade venezuelana de honrar contratos com clientes asiáticos, especialmente a China.
3.2. Arctic Sentry (Rússia)
A operação Arctic Sentry teve como objetivo estabelecer um bloqueio sistemático no corredor GIUK (Groenlândia, Islândia e Reino Unido) e na Rota do Mar do Norte. Em março de 2026, uma série de ataques coordenados atingiu três centros de exportação e cinco refinarias russas, reduzindo em cerca de 40% a capacidade de exportação marítima do país. A Rússia foi forçada a cortar aproximadamente 400 mil barris por dia de produção, o que comprometeu o fornecimento do petróleo tipo Urals para as refinarias independentes chinesas, conhecidas como teapots, projetadas especificamente para processar esse tipo de óleo pesado. O resultado foi um estrangulamento direto de uma das principais rotas de suprimento energético da China.
3.3. Epic Fury (Irã)
A operação Epic Fury concentrou-se no coração do fornecimento global de gás natural liquefeito. O ataque à infraestrutura de South Pars, em Ras Laffan, em 18 de março de 2026, combinado com a imposição de force majeure ao Catar, paralisou o maior campo de gás do mundo. A desestabilização do Golfo Pérsico eliminou temporariamente a principal concorrência de baixo custo no mercado global de LNG. Como consequência, Europa e Ásia foram compelidas a recorrer ao gás liquefeito norte-americano, agora comercializado a preços de guerra, reforçando a posição dos EUA como fornecedor indispensável.
3.4. Resumo da Tríade de Interdição

4. O Eixo de Convergência: A “Artéria Mediterrânea” e a Extorsão Marítima
Um evento anterior às operações de 2025 e 2026 também merece destaque: a destruição do gasoduto Nord Stream. A eliminação dessa infraestrutura alterou de forma permanente o equilíbrio energético europeu e abriu espaço para a ascensão do gás natural liquefeito (LNG) norte‑americano. O subsequente bloqueio de Ras Laffan, no Irã, reforçou essa tendência ao interromper o principal polo de produção de gás de baixo custo do planeta, ampliando a dependência global do LNG dos Estados Unidos.
No Oriente Médio, os EUA e Israel consolidaram o controle sobre a Bacia do Levantino. A Bacia do Levantino é uma província geológica de gás e petróleo localizada no Mediterrâneo Oriental, abrangendo as zonas marítimas de Israel, Chipre, Líbano, Síria, Egito e, chamo a atenção, da Faixa de Gaza. Segundo estimativas do US Geological Survey, contém cerca de 3,45 trilhões de m³ de gás natural e 1,7 bilhão de barris de petróleo recuperável, incluindo campos como Leviathan, Tamar, Aphrodite, Zohr e Gaza Marine. Trata‑se de uma das maiores descobertas de gás do século XXI e constitui o núcleo energético do corredor EastMed–Poseidon, que reduz a dependência europeia do gás russo.
No caso da Faixa de Gaza, instrumentos como o Board of Peace e a Resolução 2803 da ONU foram apresentados como iniciativas humanitárias, mas, segundo Medhurst, funcionaram como mecanismos de legitimação para a apropriação de campos de gás localizados naquela faixa e na Síria. Essa infraestrutura passou a ser operada pela Chevron e integrada ao corredor EastMed‑Poseidon, que o autor denomina Artéria Mediterrânea Americana. Trata‑se de um substituto funcional ao Nord Stream, capaz de garantir aos EUA um grau elevado de influência sobre o abastecimento energético europeu.
A dominação logística foi reforçada pelo America’s Maritime Action Plan (MAP) (UNITED STATES, 2026). Essas políticas estabelecem requisitos que obrigam parceiros comerciais a utilizar navios de fabricação norte‑americana ou pagar taxas punitivas. O resultado é uma forma de extorsão marítima, na qual o sistema internacional é compelido a financiar a própria frota que o restringe. Nesse contexto, corporações como Exxon e Chevron ampliam sua participação de mercado à medida EM que concorrentes são incapacitados, garantindo que os lucros energéticos permaneçam no circuito financeiro de Wall Street.
5. O Surgimento do Petrogás-Dólar (LNG-Dollar) e Impactos Macroeconômicos
O novo padrão econômico emergente não estaria mais ancorado apenas no dólar tradicional, mas em uma forma ampliada de lastro energético que Medhurst denomina Petrogás‑Dólar (LNG‑Dollar). Essa moeda funcional seria garantida pela combinação entre a produção doméstica recorde dos Estados Unidos e o controle coercitivo de reservas externas. Em março de 2026, as transações SWIFT denominadas em dólar atingiram 51,1%, refletindo a necessidade global da moeda para adquirir a energia que permanecia disponível após a interrupção de rotas alternativas.
Os dados do Treasury International Capital (TIC) revelam uma mecânica de arbitragem financeira que favorece estruturalmente os EUA. Enquanto a energia cara desestabiliza economias externas, os Estados Unidos registraram um superavit de capital de 184,5 bilhões de dólares em fevereiro de 2026, revertendo um deficit de 209,5 bilhões no mês anterior. O ambiente de instabilidade global funciona, portanto, como um mecanismo de sucção de capital em direção ao sistema financeiro norte‑americano.

Segundo Medhurst, três efeitos fundamentais decorrem desse processo:
1. Arbitragem Geopolítica: O diferencial entre o gás barato no mercado doméstico dos EUA e o LNG exportado a preços de guerra para a Europa gera margens extraordinárias para o setor energético norte‑americano. A volatilidade global se converte em lucro estrutural.
2. Canibalização de Aliados: A elevação dos custos energéticos acelera a desindustrialização europeia, especialmente nos setores de aço e vidro na Alemanha e na França. Empresas deslocam suas operações para o território norte‑americano em busca de energia estável e mais barata, reforçando a centralização industrial dos EUA.
3. Hegemonia Monetária Forçada: A destruição física de rotas alternativas, como gasodutos russos e corredores logísticos associados à Nova Rota da Seda, reduz a capacidade de diversificação energética global. O resultado é o retorno compulsório ao dólar como moeda de liquidação internacional, não por preferência, mas por necessidade de sobrevivência econômica.
6. Fundamentação Teórica: Interdependência Armada e a Doutrina “Donroe”
A estratégia de “Dominação Energética”, e coordenada pelo National Energy Dominance Council (NEDC), representa uma ruptura significativa em relação ao paradigma anterior de Independência Energética. Enquanto a independência buscava apenas assegurar autossuficiência doméstica, a nova abordagem opera segundo a lógica da Interdependência Armada, conceito que descreve o uso deliberado de dependências econômicas e logísticas como instrumentos coercitivos de política externa. Nesse modelo, pontos de estrangulamento estratégicos, como o Estreito de Ormuz e o corredor GIUK, tornam‑se mecanismos de exercício de poder soberano sobre o comércio global.
Essa orientação é sintetizada por Medhurst na Doutrina Monroe 2.0, que também já vem sendo tratada como “Doutrina DONROE”, entendida como uma fusão entre a política externa de Donald Trump e os princípios estruturantes da Doutrina Monroe. Seu objetivo declarado é deslocar o eixo energético do sistema internacional para o Hemisfério Ocidental, reduzindo a centralidade da Eurásia e ampliando a capacidade dos Estados Unidos de controlar fluxos críticos de energia. A dominação, portanto, não se limita à autossuficiência, mas busca o controle total da oferta global, transformando o Departamento de Guerra em garantidor de lucros corporativos e de estabilidade monetária por meio da interdição naval.
7. Conclusão: O Futuro da Ordem Global sob o “Estado Pirata”
A Estratégia de Interdição Total constitui o eixo central de uma nova fase de dominação no sistema internacional, marcada pela transição da ordem hegemônica tradicional para um modelo em que a força naval volta a desempenhar papel determinante. Nesse contexto, emerge uma espécie de diplomacia das canhoneiras do século XXI, na qual o controle físico das rotas marítimas e das infraestruturas energéticas define quem pode participar do comércio global e em quais condições.
O padrão Petrogás‑Dólar representa a expressão financeira desse cerco físico. Ele garante a continuidade da hegemonia norte‑americana por meio da combinação entre a canibalização econômica de aliados e a neutralização de competidores estratégicos. A interdição de rotas alternativas, a captura de reservas externas e a imposição de dependência logística convergem para reforçar a centralidade do dólar e a primazia das corporações energéticas sediadas nos Estados Unidos.
Contudo, a resiliência desse sistema enfrenta desafios crescentes. O bloco BRICS, liderado por China e Rússia, avança na consolidação de rotas terrestres e de sistemas financeiros alternativos, como CIPS, SPFS e SEPAM. No Estreito de Ormuz, o Irã instituiu uma taxa de passagem de dois milhões de dólares por navio, com pagamento exigido em yuan ou criptoativos, configurando uma contraofensiva direta à primazia monetária norte‑americana. A disputa entre interdição naval e autonomia logística e monetária define o campo de batalha estrutural da ordem global emergente.
As dificuldades enfrentadas pela Marinha dos Estados Unidos para impor sua estratégia no Golfo sugerem que a Interdição Total pode estar encontrando limites operacionais e políticos não previstos. O futuro da ordem internacional dependerá da capacidade norte‑americana de sustentar esse modelo e da habilidade do bloco eurasiano de construir alternativas viáveis ao domínio marítimo e financeiro dos Estados Unidos.
A quem couber a vitória nessa disputa, caberá muito provavelmente a definição dos contornos da próxima ordem global.
Notas
1 Office of Foreign Assets Control (OFAC) é uma agência do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Ele atua como um órgão de inteligência financeira e aplicação de sanções, controlando transações internacionais ligadas ao sistema financeiro norte‑americano.
2 Patentes de corso eram autorizações oficiais que permitiam a um capitão de navio agir como pirata “legalizado”, atacando navios inimigos em nome de um governo. As patentes de corso existiram principalmente entre a Idade Média e meados do século XIX, sendo abolidas internacionalmente em 1856.
Referências Bibliográficas
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BARTOLINI, Maria Pia. The Neoconservative Threat to World Order: America’s Perilous War for Hegemony. Clarity Press, 2015.
GEOFFRON, Patrice. Les failles de la stratégie américaine de «domination énergétique». La Revue de l’Énergie, n. 682, p. 9-14, mar. 2026.
GLOBAL LNG HUB. South Pars strike exposes structural fragility in global gas and LNG markets. 19 mar. 2026.
MEDHURST, Richard. How the US Pulled off an Armed Robbery of the World’s Energy Supply and Created the Petrogas-Dollar. Richard Medhurst’s Newsletter, 1 maio 2026.
UNITED STATES. Department of Transportation. America’s Maritime Action Plan. Washington, D.C.: MARAD, 2026.
VOETEN, Erik. Rival Energy Orders: Great Power Competition and the Politicization of Energy Trade. Georgetown University, 27 mar. 2026.









