Da Red Sox a Nuland: 78 anos do Plano Ucrânia

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A então secretária de Estado Adjunta dos EUA para Assuntos Europeus e Eurasiáticos, Victoria Nuland, em coletiva de imprensa na Embaixada dos EUA em Kiev, Ucrânia, 27 de abril de 2016 (Departamento de Estado).

A então secretária de Estado Adjunta dos EUA para Assuntos Europeus e Eurasiáticos, Victoria Nuland, em coletiva de imprensa na Embaixada dos EUA em Kiev, Ucrânia, 27 de abril de 2016 (Departamento de Estado).

A demissão de Victoria Nuland, voluntária ou não, é o evento político mais importante do conflito na Ucrânia desde o golpe que derrubou o presidente Viktor Yanukovich, em 2014.


Introdução

A alegada aposentadoria de Victoria Nuland parece um momento oportuno para se fazer uma análise sobre as estratégias geopolíticas dos Estados Unidos da América (EUA) para a Eurásia e, particularmente, para a Ucrânia e para a Rússia (e sua antecessora, a União Soviética). E me refiro a estes dois países, na medida em que eles se acham absolutamente imbricados na referida estratégia norte-americana, com ambos ocupando um papel central no interesse nacional dos EUA para o leste da Europa.

A saída de cena de Victoria Nuland a esta altura, tenha ela sido demitida ou solicitado sua demissão, constitui o evento político mais importante do conflito na Ucrânia desde o golpe de estado que derrubou o presidente democraticamente eleito, Viktor Yanukovich, em 2014. Este evento eclipsou completamente outras crises políticas de grande repercussão, tal qual o motim planejado por Yevgueny Prigozhin ou a demissão do general Valerii Zaluzhnyi.

Mas não é somente isso, pois talvez represente o esgotamento de toda uma estratégia que vinha sendo executada há quase 80 anos.

Mas qual seria a importância da queda de Nuland? E qual seria a estratégia perseguida há tantos anos?

Bem, para compreender esse evento em toda sua extensão, precisamos analisar a geoestratégia dos EUA para a Eurásia desde suas origens mais remotas. Só então poderemos concluir que a saída de Nuland pode representar o esgotamento da referida geoestratégia.

Para essa análise histórica, utilizarei como base documentos oficiais da Agência Central de Inteligência (CIA, Central Intelligence Agency) dos EUA. Um deles foi o Relatório dos 50 anos da Agência, publicado em 1998, de autoria de Kevin Ruffner [1], desclassificado em 2006. O outro documento extremamente relevante foi o Plano PBCRUET (Projeto 2B-34 ou Projeto Ucrânia), de 27 de março de 1950, de caráter Ultrassecreto e que foi desclassificado recentemente.

Além disso, foram realizadas pesquisas em trabalhos publicados por Zbigniew Brzezinski (1928-2017) e pela própria Victoria Nuland, além de artigos em revistas especializadas e na mídia.

O Plano Ucrânia e as origens da geoestratégia para Eurásia

A aliança entre os EUA e a URSS, que foi a base da vitória sobre a Alemanha nazista na 2ª Guerra Mundial, começou a se esgarçar por ocasião da Conferência de Yalta (fevereiro de 1945), ocasião em que o líder soviético apresentou suas demandas territoriais sobre partes da Europa Central e Oriental. Tais áreas haviam sido originalmente objeto de acerto com a Alemanha nazista no Pacto Ribbentrop-Molotov (agosto de 1939), e Stalin alegava que essas demandas continuavam válidas. Dentre as terras incorporadas, destacam-se as da Polônia, Hungria e Romênia, que viriam a ser incorporadas à Ucrânia e à Belarus (e lá estão até os dias de hoje).

Em que pese os líderes dos EUA (Franklin Roosevelt) e do Reino Unido (Winston Churchill) terem concordado, as sementes da guerra fria estavam lançadas.

No âmbito dos EUA, a precursora da  CIA ao final da 2ª Guerra era o Escritório de Serviços Estratégicos (OSS, Office of Strategic Services). Nos campos de prisioneiros sob o controle das tropas norte-americanas havia milhares de integrantes das SS de origem ucraniana, a maioria delas da Waffen SS (unidades de combate) ou das SS Totenkopf (guardas dos campos de concentração).

Sabedores os norte-americanos da OSS que tais grupos de prisioneiros eram ferrenhos adversários do regime de Stalin, ali se mostrava o local ideal para o recrutamento de agentes ou membros de movimentos insurgentes a serem empregados em futuras ações contra a URSS. O principal mentor dessa operação seria o norte-americano de origem ucraniana, de nome Borislav Holtsman, que acabou por dar origem a diversos movimentos de resistência, tais como o Movimento Nacionalista Ucraniano, o Conselho Supremo de Libertação da Ucrânia e, principalmente, o Exército Insurgente Ucraniano (UPA, Ukrainska Povstanska Armiia). Dentre os quadros recrutados estavam Ivan Hrynokh, Yuriy lopatinskyy, Mykola Lebed, Myron Matvienko e, principalmente, Stepan Bandera, criador do Exército Nacional Ucraniano durante o período de dominação  nazista, e que então vivia na Alemanha Ocidental, de onde liderava a UPA.

Eram tempos do Julgamento de Nuremberg, e os soviéticos solicitaram aos EUA a repatriação de todos os suspeitos de crimes de guerra para fins do início de processo acusatório. Dentre os principais alvos figurava justamente o de Stepan Bandera, mas o governo dos EUA se recusou a extraditá-lo devido aos prejuízos que isso poderia trazer para futuras operações de inteligência na Ucrânia. Bandera acabou sendo executado por um agente da KGB em Munique, no ano de 1959.

Logo em julho de 1947 a OSS foi substituída pela CIA, por meio de um documento assinado pelo presidente Truman, denominado “Ato de Segurança Nacional”. Eram os tempos de gestação da Guerra Fria. E neste sentido, um dos primeiros projetos elaborados pela Agência foi justamente um voltado para a Ucrânia. Trata-se do Projeto 2B-34, ou Projeto Ucrânia, cujas linhas gerais foram estabelecidas em um documento ultrassecreto de 27 de março de 1950.

Os objetivos de tal projeto estão ali claramente elencados:

  • Fornecer, ao Conselho Supremo de Libertação da Ucrânia, os recursos financeiros para desenvolvimento de campanhas de ações psicológicas (Psychological Warfare) direcionadas contra o regime soviético;
  • Desenvolver na Ucrânia bases operativas para ações clandestinas direcionadas ao regime soviético;
  • Fornecer todo o tipo de suprimentos não-militares requeridos pelas forças de resistência;
  • Auxiliar a montagem de canais de fuga e evasão para militares norte-americanos em caso de necessidade;
  • Desenvolver canais de comunicações clandestinos para uso operativo;
  • Recrutar e treinar agentes a serem infiltrados na Ucrânia;
  • Auxiliar o Conselho Supremo de Libertação da Ucrânia a estabelecer contatos clandestinos com outros grupos nacionais minoritários na URSS, a fim de expandir movimentos de resistência;
  • Explorar as capacidades paramilitares do Exército Insurgente Ucraniano (UPA), tais como sabotagem e outras ações clandestinas (A UPA era então liderada, como já dissemos, por Stepan Bandera).

As ações paramilitares das tropas de Bandera receberiam uma designação específica no Plano Ucrânia: seriam as Operações Red Sox (Meia Vermelha).

Diversas dificuldades surgidas no curso da Operação Red Sox revelaram inicialmente um profundo desconhecimento da CIA sobre a realidade na Ucrânia, particularmente devido à composição das nacionalidades no país: ucranianos, russos, tártaros, poloneses, lituanos, húngaros, cossacos, dentre outros. A população ucraniana era constituída por um complexo mosaico de etnicidades, muitas das vezes com objetivos irreconciliáveis. Mas também revelaram que a URSS e a KGB possuíam redes de contrainteligência muito fortes e representavam uma permanente ameaça às ações clandestinas de caráter paramilitar, que acabaram obtendo poucos resultados. A Red Sox se mostraria um completo fracasso, com todas as redes da UPA sendo descobertas e eliminadas.

Entretanto, no que se refere aos objetivos políticos e às ações psicológicas,  o fato é que o Plano Ucrânia contribuiu diretamente para a dissolução da URSS e para o fim da Guerra Fria.  E conseguiu isso, particularmente, por ter sido capaz de manter a chama de independência na Ucrânia, que se consubstanciou na vitória do referendo pela independência ucraniana, em 1º de dezembro de 1991, que constituiu o estopim para a implosão da União Soviética.

A geoestratégia para a Eurásia no pós-Guerra Fria e a visão de Brzezinski

Para alguns importantes integrantes da liderança política dos EUA, a missão não estava cumprida com a dissolução da Guerra Fria. E o principal deles foi Zbigniew Brzezinski, um cientista político, geopolítico e estadista americano de origem polonesa. Serviu como Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos durante a presidência de Jimmy Carter, entre 1977 e 1981, mas continuou tendo grande influência nas questões relativas à Europa Central e Oriental até sua morte, em 2017. Brzezinski era conhecido por sua política externa realista, considerada por alguns como a resposta do partido Democrata ao realismo de Henry Kissinger, do Partido Republicano.

Brzezinski baseou fortemente suas estratégias nas teorias do geógrafo britânico Halford J. Mackinder, segundo quem o Heartland (localizado na Ásia Central) seria a chave para o poder terrestre global. Ou seja, quem controlar o Heartland domina a Eurásia e, por extensão, o mundo. Portanto, o posicionamento geopolítico dos EUA na Ásia Central seria crucial para a hegemonia global norte-americana.

Após o fim da URSS, e da Guerra Fria, Brzezinski afirmava que a manutenção dos EUA como uma potência hegemônica em um mundo unipolar tornava imperativa uma estratégia específica para a Eurásia. E suas ideias foram expressas em um artigo publicado em 1997 na prestigiosa revista Foreign Affairs [2].

As principais linhas mestras da Geoestratégia para a Eurásia eram as seguintes:

  • Importância Estratégica: a Eurásia teria que ser vista como o supercontinente axial do mundo, onde um poder dominante ali localizado terá influência decisiva sobre as regiões economicamente produtivas da Europa Ocidental e da Ásia Oriental;
  • Poder Americano: os EUA devem ser considerados como a única superpotência global, com papel indispensável na liderança mundial e na prevenção da anarquia internacional;
  • Estratégia de Longo Prazo: ele propôs uma estratégia para a Eurásia que distingue entre perspectivas de curto, médio e longo prazo, visando consolidar uma pluralidade geopolítica e eventualmente formar parcerias estratégicas na Eurásia, particularmente voltadas para reduzir e conter um papel mais assertivo da Rússia e da China;
  • Parcerias Regionais: Enfatiza-se a importância uma abordagem integrada e abrangente para a segurança e estabilidade da Eurásia.

Ele afirmava que, nesse quadro, a Federação da Rússia seria ainda uma enorme massa de terra, ocupando boa parte do Heartland, estendendo-se da Europa Oriental, passando pelos Urais, pelas vastidões da Sibéria e chegando ao extremo oriente. E, neste sentido, a distribuição de poder nas vastidões da Eurásia seria o fator decisivo para uma primazia dos EUA.


LIVRO RECOMENDADO:

The Grand Chessboard: American primacy and its geostrategic imperatives

• Zbigniew Brzezinski (Autor)
• Em inglês
• Kindle ou Capa comum


Neste artigo, ele advoga a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para o leste, ao afirmar que “A ampliação da OTAN e da União Europeia também revigoraria o sentido europeu para uma vocação maior, e ao mesmo tempo em que esta se consolida, traria benefícios tanto para a América quanto para a Europa, por meio dos ganhos democráticos conquistados através do fim bem sucedido da Guerra Fria”.

E a Rússia não poderia se constituir em um Estado imperial, como fora no passado. Para isso, a estratégia de Brzezinski se baseava em uma Rússia baseada em um sistema político descentralizado, compostos por uma confederação de três estados membros: uma Rússia Europeia, uma República Siberiana e uma República do Extremo Oriente.

Ou seja, a implosão da URSS não havia sido suficiente para garantir a hegemonia norte-americana. O trabalho precisaria ser concluído.

Mas alguém precisaria levar as ideias de Brzezinski para o mundo real. E essa pessoa foi Victoria Nuland.

A geoestratégia para a Eurásia e o papel de Victoria Nuland

Victoria Jane Nuland é uma diplomata norte-americana com uma longa carreira no serviço diplomático dos EUA. Nascida em 1º de julho de 1961 em Nova Iorque, ela se formou em Artes pela Universidade Brown em 1983, onde estudou literatura russa, ciência política e história.

Nuland foi uma aplicadíssima discípula de Brzezinski, tendo incorporado as ideias de seu mentor no centro das decisões políticas dos EUA, desde 2003 e até sua aposentadoria em 2024.

Nuland serviu em várias posições de destaque, incluindo:

  • Entre 2003 e 2005, ela teve seu debut no círculo mais íntimo do poder, tendo sido levada a tal posição por nada menos do que o polêmico Dick Cheney, de quem se tornou a principal assessora de política externa, desempenhando um papel influente durante a Guerra do Iraque, inclusive no que se refere à polêmica alegação dos EUA de que os iraquianos desenvolviam armas de destruição em massa, que posteriormente se provou falsa;
  • Foi Embaixadora dos EUA na OTAN de 2005 a 2008, quando o plano de expansão da OTAN para leste foi desenvolvido;
  • Foi secretária de Estado Adjunta para Assuntos Europeus e Eurasiáticos entre 2013 e 2017, durante a presidência de Barack Obama, quando atuou diretamente para a incorporação da Ucrânia na OTAN, o que inclusive a levou a atuar diretamente para uma mudança de regime no país, com os movimentos na Praça Maidan e no golpe de estado que levou à deposição do presidente Yanukovich;
  • Era a subsecretária de Estado para Assuntos Políticos desde 3 de maio de 2021, sob a administração de Joe Biden.

É possível observar que sua atuação esteve sempre mais voltada para a consolidação de uma estratégia para a Eurásia, independentemente de se tratar de um governo Republicano, como entre 2003 e 2008 (na gestão de George W. Bush), ou nos governos democratas de Obama e Biden. Na verdade, ela somente esteve fora da Casa Branca no governo republicano de Trump.

O ponto central da estratégia desenvolvida por Nuland acabou se tornando a Ucrânia, uma vez que ali se localizaria a chave para uma desestabilização da Rússia. Nenhum outro país teria esse potencial, particularmente por envolver a expansão da OTAN para o Mar Negro e a perda da Crimeia pelos russos, que devido aos Tratados de Partição da Frota do Mar Negro (1997) e o Tratado de Kharkov (2010), permaneceriam sob domínio russo até o ano de 2052.

O principal texto de autoria de Nuland é seu artigo para a mesma revista Foreign Affairs, já em 2020. Espetando Putin na parede: como uma América confiante deve lidar com a Rússia. Neste artigo, Nuland aponta Putin como o principal responsável pela manutenção da Rússia como um Estado imperialista, o que vem impedindo o sonho de Brzezinski se concretizar.

Tal situação, segundo ela, deveria ser combatida tanto pelas administrações democratas quanto republicanas. Usando como exemplo diversas revoltas populares que buscaram retirar do poder governantes autoritários, Nuland declara que a estratégia norte-americana e de seus aliados deveria focar naquilo que mais preocupa Putin: a opinião pública interna.

A estratégia, segundo ela, seria lastreada em campanhas informacionais e sanções econômicas sobre a população russa, particularmente os jovens e os residentes no interior do país. No que se refere às campanhas informacionais, ela aponta a importância da internet e das mídias sociais, particularmente as russas, tais como o VKontact (equivalente ao Facebook), Vimeo (equivalente ao YouTube) e Telegram, dentre outras. Outro ponto destacado por Nuland foi a expansão da OTAN para a Ucrânia, no qual, segundo ela, os EUA não poderiam ceder em hipótese alguma.

As ações de Nuland “no terreno” se iniciaram justamente após a assinatura do já mencionado Tratado de Kharkov, em 2010, e que como dissemos, estendeu a posse de facto da Crimeia por parte da Rússia por 25 anos a partir de 2017.

Seus contatos com lideranças antirrussas se intensificaram, muito provavelmente com apoio da CIA e de seu legado de contatos que, como já vimos, remontam ao ano de 1950.

Neste sentido, entre 21 de novembro de 2013 e 22 de fevereiro de 2014, quando o governo do presidente Viktor Yanukovich desistiu de assinar o Acordo de Associação e Livre-Comércio com a União Europeia, foi dado o sinal verde para um protesto em Kiev conhecido como Euromaidan. Nesta fase, a interferência estrangeira passou a ser exercida sobre o governo Yanukovich, não apenas pelo lado dos EUA, mas também do lado russo.

A crise escalou com uma visita de Victoria Nuland no início de fevereiro de 2014, quando ela foi ao encontro dos manifestantes na Praça Maidan e realizou reuniões de coordenação com líderes políticos favoráveis à adesão à União Europeia. Um telefonema entre Nuland e o então embaixador dos EUA em Kiev, Geoffrey Pyatt, vazou para a mídia. Na gravação, Nuland explicava que já teria coordenado com lideranças locais o apoio dos EUA para um governo pós-Yanukovich, e após ponderações do embaixador Pyatt sobre a resistência de líderes europeus a essa medida, ela teria dito a famosa frase “Fuck Europe![3].

Um atentado ocorrido na Praça Maidan, onde homens de preto e mascarados se posicionaram sobre os prédios vizinhos e atiraram contra os manifestantes, teria desencadeado o golpe de estado que derrubou Yanukovich, que fugiu do país em 22 de fevereiro de 2014. Tal atentado nunca foi esclarecido e ninguém chegou a ser julgado ou condenado pela justiça ucraniana, dando margem ao entendimento de que teria se tratado de uma ação do tipo false flag.

Os eventos que se seguiram envolveram uma escalada da crise, com a anexação definitiva da Crimeia e o início do conflito no Donbass. No entanto, a política interna dos EUA acabou por tirar Nuland da Casa Branca durante o governo Trump (2017 a 2021).

Coincidentemente ou não, foi nesse período que teria ocorrido uma desescalada da crise, com os Acordos de Minsk e a intervenção da Organização de Segurança e Cooperação Europeia (OSCE).

No entanto, em 2021, com a eleição de Biden, Victoria Nuland voltou ao governo com força total, e buscou recuperar o tempo perdido. E logo os Acordos de Minsk entraram em um impasse com a interferência dos EUA. E a guerra não tardou a acontecer.

Aparentemente, a estratégia americana seria utilizar todo o poder econômico dos EUA e da União Europeia para colocar a Rússia de joelhos em alguns meses, e não propriamente obter uma vitória militar ucraniana. E a estratégia foi implementada com pesadíssimas sanções econômicas. Nuland esperava que as dificuldades econômicas internas e a saída das empresas europeias e norte-americanas do mercado russo levassem a população a se revoltar e provocar uma revolução colorida contra Putin. Esse seria o centro de gravidade da guerra.

Passados dois anos de combates, a realidade vem se configurando de forma bastante distinta daquela imaginada por Nuland.

As sanções não funcionaram, a comunidade internacional não aderiu em massa às sanções, a guerra se mostra prolongada e provavelmente se encaminha para um cenário de derrota da Ucrânia.

Conclusão

A mensagem carinhosa de Antony Blinken ao público, ao anunciar a aposentadoria de Nuland, mais nos deixa a impressão de que essa aposentadoria era absolutamente inesperada. Há poucos dias Nuland esteve em debates afirmando que a Rússia que o mundo precisa não é a Rússia de Putin. Defendia entusiasticamente o fim do autoritarismo na Rússia para se chegar ao fim do conflito ucraniano. Ou seja, sua estratégia continuava de pé. NO entanto, nada no mundo real apontava para seu sucesso.

Na verdade, os resultados das ações de Victoria Nuland são bastante claros:

  • A Ucrânia está destruída, com a perda irreversível, pelo menos, de sua região industrial (Donbass) e da Crimeia;
  • A Europa está se desindustrializando, e os sinais disso são claros, particularmente na Alemanha;
  • O agronegócio europeu, calcanhar de Aquiles da economia do bloco, enfrenta a sua maior crise de todos os tempos;
  • Uma poderosa parceria estratégica, uma quase aliança, se forjou no coração do Heartland. Rússia, China e Irã parecem mais alinhados e fortalecidos em seus interesses comuns do que jamais visto;
  • O Sul Global se manteve fora das sanções contra a Rússia, sem qualquer consequência para eles, ferindo de morte a hegemonia unipolar dos EUA;
  • As capacidades militares e a experiência em guerra convencional da Rússia só vêm aumentando, inclusive no que se refere ao fortalecimento de sua base industrial de defesa;
  • Por outro lado, Irã e Coreia do Norte, particularmente, estão cada vez mais convencidos de que as capacidades convencionais da OTAN são muito mais limitadas do que se imaginava.

O legado de Nuland não deixa saudades. Mas a geoestratégia de Brzezinski certamente deixará muitos órfãos na liderança democrata.


Notas

[1] Cold War Allies: The Origins of CIA’s relationship with Ukrainian Nationalists

[2] A Geostrategy for Eurasia, Foreign Affairs, v. 76, n. 5. Sep./Oct. 1997.

[3] Literalmente, “Foda-se a Europa!”.

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3 comentários

  1. Parabéns, análise impecável!!! Suas observações, aqui e nos outros artigos já escritos, precisam ecoar em mais cabeças pensantes. POR FAVOR, ESCREVA LIVROS, PARTICIPE DE MAIS LIVEs… DIVULGUE O SEU EXCELENTE TRABALHO, pelo bem da nossa nação.

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