Rússia versus Rússia

Compartilhe:
Yevgeny Prigozhin, do grupo Wagner (Getty Images via BBC).

Yevgeny Prigozhin, do grupo Wagner (Getty Images via BBC).

Yevgeny Prigozhin, líder do grupo Wagner, estaria incitando uma guerra civil na Rússia, ou tudo não passa de uma operação “maskirovka” (termo russo para as táticas de dissimulação militar destinada a confundir o inimigo)?


Há um ano e meio, quando a Rússia ainda não havia entrado no território da Ucrânia, ninguém levava a sério nossas previsões. Dissemos que as formações militares da Rússia eram mais que uma manobra, que a Rússia atacaria a Ucrânia e entraria em uma guerra que não terá vencedor e que só resultará em perdas para a Rússia (aqui). No artigo seguinte, consideramos a decisão de Putin estranha e errada, resultante da influência daqueles que o rodeiam, e dissemos que a história mostrará por que impuseram esse jogo a Putin (aqui).

De qualquer forma, a segunda superpotência do planeta entrou em um conflito que gerou bilhões de dólares em perdas econômicas e dezenas de milhares de baixas até aqui. Mas essa não é toda a história. Dissemos que o uso de forças mercenárias da Chechênia e do grupo Wagner teria consequências para a Rússia no futuro. Sinais dessas consequências ocorreram nos últimos meses e atingiram o pico nos últimos dias. Um grande acontecimento surpreendeu o mundo ontem à noite: o embate do exército particular do grupo Wagner com as forças de Putin e a possível entrada da Rússia em uma inacreditável guerra civil. Um exército que agora cerca partes estratégicas da cidade de Rostov.

Isso apesar do fato de Yevgeny Prigozhin ter dito anteriormente que tem certeza de que as grandes perdas da Rússia no campo de batalha da Ucrânia levarão à perda de território dentro da Rússia. Agora, a divisão entre Sergey Shoigu, o ministro da defesa russo, e as forças mercenárias do Wagner, levou a Rússia a uma estranha guerra civil, com Prigozhin mobilizando mais de 25.000 de suas tropas experimentadas na guerra com a Ucrânia para executar uma revolução contra o comandante do exército russo.

O começo da história

Yevgeny Prigozhin, o fundador da empresa mercenária Wagner, conhecido como “Chef de Putin” – sobre o qual havia rumores de ter sido morto na queda de um avião de carga russo Antonov 72 no Congo em 11 de outubro – é a principal causa dos eventos recentes. Seu desacordo com os líderes militares russos não é novo.

Anteriormente, depois de sofrer pesadas baixas em Bakhmut, ele gritou com raiva que alguma escória estava tentando privá-lo de munição. Havia imagens dele xingando Shoigu e Gerasimov (respectivamente, ministro da Defesa e Chefe do Estado-Maior da Rússia) ao lado dos cadáveres de suas tropas e dizendo: “o que aconteceu com a munição que você prometeu?” Ele havia dito que, por outro lado, estava pagando um preço muito alto perdendo “seus filhos” do grupo Wagner. Ele se dirigiu a Shoigu e disse: “Malditos! Quando digo que quero um milhão de cartuchos, vocês devem fornecê-las sem cálculos militares, seus desgraçados.”

Seus extremos não se limitaram a ataques verbais. Prigozhin admitiu que suas forças dispararam contra as tropas russas em retirada. Este evento é uma espécie de lembrete do decreto 227 de Stalin. O decreto nº 227 foi um dos decretos emitidos por Stalin durante a Segunda Guerra Mundial, em 28 de julho de 1942, que ficou conhecido como “Ordem de não retirada”. Nesse decreto, foi dada a ordem de criar uma seção denominada unidade de bloqueio, que em caso de retirada de alguma das forças, esta unidade era obrigada a abrir fogo contra as forças em fuga que recuassem para suas próprias frentes.

Seus extremos não se limitam nem mesmo à frente de batalha de Bakhmut. Ele tenta levar a guerra para a Europa. Prigozhin não apenas obtém força para a Wagner entre os europeus, como também não se importa que a guerra russo-ucraniana se estenda à Europa. O Daily Star o citou dizendo que o grupo Wagner criou equipes móveis para buscas em shoppings, estacionamentos e restaurantes na Europa para recrutar novos membros. Ele chegou ao ponto de afirmar que tinha um plano, pois esperava que suas brigadas “logo chegassem ao reino europeu do mundo”.

O grupo Wagner teria iniciado um jogo ao estilo “Poderoso Chefão” quando supostamente enviou ao Parlamento Europeu um estojo de violino contendo uma marreta, instrumento utilizado pelo grupo para execuções e punições. O pacote foi enviado quando o Parlamento Europeu declarou a Rússia um estado terrorista em vista do ataque à Ucrânia, bem como evidências crescentes de crimes de guerra russos. Prigozhin disse em sua declaração: “Não sei por qual lei o Parlamento Europeu é guiado. Mas, de acordo com a nossa lei, declaramos o Parlamento Europeu dissolvido a partir de hoje.”


LIVRO RECOMENDADO:

Todos os homens do Kremlin: Os bastidores do poder na Rússia de Vladimir Putin

• Mikhail Zygar (Autor)
• Em português
• Kindle ou Capa comum


Dias difíceis

Em resposta às recentes alegações de Prigozhin, o Ministério da Defesa da Rússia imediatamente as rejeitou e enfatizou: “Essas alegações são uma tensão na mídia.”

Embora as forças Wagner não tenham se posicionado contra Putin desde o início da tensão, seu comandante emitiu um comunicado pedindo às pessoas que fossem às ruas, o que foi considerado o anúncio oficial de um golpe na Rússia. No entanto, em resposta o Kremlin apoiou o exército e anunciou em comunicado: “O presidente Vladimir Putin está ciente da situação envolvendo o grupo Wagner e as medidas necessárias estão sendo tomadas.”

Continuando, o Ministério da Defesa da Rússia em comunicado negou as acusações de Prigozhin e enfatizou que as forças do exército russo estão realizando suas missões de combate nas linhas de contato com as forças armadas da Ucrânia. Quando o grupo Wagner começou a avançar em direção ao quartel-general russo em Rostov, Prigozhin disse ao povo russo: “Todos os patriotas russos devem ir às ruas e lá encontrarão armas.” Com o início do avanço dos mercenários Wagner, Moscou entrou em alerta de segurança. As ruas que levam ao Kremlin foram bloqueadas, veículos militares e blindados foram implantados e fontes de notícias russas relataram que o “plano fortaleza” havia sido implementado em Moscou. O plano refere-se a um conjunto de medidas de segurança que inclui convocação de emergência das forças policiais e preparação para repelir um ataque estrangeiro.

Nas primeiras horas da noite e até o nascer do sol de hoje, as forças do grupo Wagner conseguiram cercar áreas estratégicas na cidade de Rostov e alcançar seu primeiro objetivo militar. Agora Rostov é local de confronto entre forças do exército e os mercenários, que têm histórico de guerra na Síria, no Iraque e guerras por procuração em vários países africanos importantes e foram a principal unidade de combate de Putin na Ucrânia no ano passado. Uma força militar privada conhecida por sua violência que agora entrou em conflito com seu empregador.

O governo russo diz que o grupo Wagner tomou uma decisão errada contra a segurança nacional sob a influência da mídia ocidental. O Kremlin pediu às forças Wagner que desobedecessem ao seu comandante e declarou criminosos os seus líderes, e por outro lado, Prigozhin diz que suas forças estão avançando em solo russo sem resistência dos soldados da guarda de fronteira, e pretende contar com a ajuda do povo. Esses conflitos ainda continuam enquanto escrevo este artigo. Como consequência, o valor do mercado de ações russo atingiu seu nível mais baixo, e as pessoas nas grandes cidades começaram o dia em confusão e medo de que a guerra fosse arrastada para o solo de suas grandes cidades.

A disputa doméstica entre Prigozhin e seu empregador não parece que terminará com um avanço importante, mas fez soar o alarme para Putin e para o Kremlin em particular. Parece que antes de tomar qualquer decisão difícil, Putin deveria ter em mente que:

  • Embora Prigozhin possa ter sido influenciado pelos inimigos da Rússia, como afirmam as agências de inteligência russas, o argumento de Prigozhin é que o Ministério da Defesa russo não forneceu apoio suficiente a ele e suas forças na guerra com a Ucrânia. Em palavras mais simples, Prigozhin protestou do ponto de vista de um patriota extremo, não de um inimigo;
  • O fato é que o grupo Wagner serviu os objetivos de Putin com sua vida e dinheiro e seguiu as políticas de Putin em diferentes países. Sua presença nas batalhas de Bakhmut tem sido muito eficaz na recuperação de terreno;
  • De qualquer forma, devido ao apoio das políticas de Putin, Prigozhin criou um compromisso financeiro de bilhões de dólares para si mesmo, atendendo às necessidades dos sobreviventes dos mortos e ao tratamento dos feridos, e o tratamento de Putin às forças do grupo Wagner é um símbolo do comportamento do empregador com seus empregados, mesmo que as forças fossem ingratas;
  • Prigozhin é um militarista e não um estrategista ou político. Portanto, seu comportamento deve ser analisado nessa visão. Além disso, ele está profundamente afetado por perder demais suas forças;
  • O uso de forças chechenas que não são de origem russa na luta contra Prigozhin (russo) pelo exército russo pode provocar os sentimentos do povo russo e, na prática, aumentar os apoiadores de Prigozhin;
  • Claro, evitar a crise interna e o risco de guerra civil tem uma prioridade maior do que a guerra com a Ucrânia.

Portanto, não é melhor para Putin abrir caminho para o diálogo com as forças do grupo Wagner o mais rápido possível, ou dar uma chance a países como a Turquia que se ofereceram para mediar?

Não é improvável que, depois de Prigozhin, seja a vez do checheno Ramzan Kadyrov causar problemas no futuro nesta crise, se ele reivindicar independência da federação chechena ou mesmo a propriedade da Ilha Kreamer!

A mentalidade pública russa pode estar prestes a perguntar quem aconselhou a guerra na Ucrânia ou mesmo uma guerra nuclear. Assim, como dissemos antes do início desta guerra, retirar-se de um conflito que não traz benefícios para a Rússia seria o caminho mais sábio para Putin. Como diz um provérbio iraniano: “Evitar mais perdas – quando quer que ocorram – é um benefício”.

Tudo isto posto, lembremos que, apesar dos já mencionados vídeos de Prigozhin em Bakhmut ameaçando abandonar a ofensiva por falta de munição – que, não por acaso, animaram a mídia ocidental –, a cidade foi tomada dias depois pelas forças do próprio grupo Wagner, lançando dúvidas sobre a real motivação do líder mercenário – as queixas eram reais ou foi uma encenação? Considerando todo o passado militar da Rússia, a possibilidade de tudo isso não passar de uma grande operação maskirovka não deve ser descartada, ao menos por enquanto.

Por outro lado, sabe-se que o grupo Wagner tem bilhões em dívidas de indenizações às famílias dos combatentes mortos, portanto Prigozhin pode simplesmente estar tentando forçar uma “renegociação contratual”. E, claro, existe também a hipótese de Prigozhin ter sido cooptado pelo Ocidente num momento em que é visível para muitos analistas militares que a “contraofensiva” ucraniana começa a falhar e que as forças armadas da Ucrânia não têm condições de resistir à Rússia sem ajuda do Ocidente, que por sua vez dá mostras de estar se esgotando. A oportunidade de criar um conflito interno na Rússia, capaz de derrubar Putin, seria por demais atraente para ser descartada. Ou Prigozhin pode simplesmente ter enlouquecido, quem sabe?

O mais prudente agora, do ponto de vista analítico, é aguardar o desenrolar dos acontecimentos.

Compartilhe:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn

2 comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

V-UnitV-UnitPublicidade
AmazonPublicidade
Fórum Brasileiro de Ciências PoliciaisPrograma Café com Defesa

Veja também