Ataques Ativos: Análise do fenômeno e propostas de atuação em amplo espectro

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Imagem da câmera corporal do policial Rex Engelbert (Departamento de Polícia Metropolitana de Nashville).

Por Valmor Saraiva Racorti e Adriano Enrico Ratti de Andrade*

Imagem da câmera corporal do policial Rex Engelbert (Departamento de Polícia Metropolitana de Nashville).

Recomendações provenientes da análise de incidentes de ataques ativos nos EUA e no Brasil; ensinamentos que, se utilizados corretamente, podem salvar a sua vida e a de seus entes queridos.


Desde o fatídico evento havido na Escola Columbine em 20 de abril de 1999, a sociedade e as forças policiais passaram conviver com um tipo diferente de incidente crítico envolvendo pessoas, no qual os seus causadores não mais buscavam fazer reféns, mas produzir o maior número possível de vítimas fatais.

As respostas policiais que eram voltadas à resolução de tomadas de reféns se baseavam na realização de um cerco por parte dos policiais de patrulha, para posterior atuação de equipes policiais especializadas, o que não se mostrou adequado a este novo tipo de incidente.

Esta nova modalidade de incidente foi inicialmente denominada pela doutrina como atirador ativo, e assim se iniciou uma profunda mudança na concepção de como deveria ocorrer a resposta policial neste tipo de incidente. Durante as buscas por uma nova forma de atuar, as forças policiais dos EUA chegaram a um consenso:

  1. Alguns incidentes críticos não podiam aguardar a chegada de equipes especializadas;
  2. Policiais de patrulha necessitavam de treinamento tático para atuar em incidentes críticos dinâmicos [1], como o de atirador ativo;
  3. Os Primeiros Interventores deveriam ser empoderados através de treinamento, políticas, procedimentos e equipamentos, para efetivamente responder e parar um atirador ativo (BLAIR ET AL, 2013, p. 13).

Dos diversos órgãos que propunham novos protocolos de resposta se destaca o Advanced Law Enforcement Rapid Response Training (ALERRT) que está sediado na Universidade do Estado do Texas, e foi criado em 2002 para atender a necessidade de treinamento de policiais para resposta a eventos de atirador ativo.

Em 2013, o ALERRT foi nomeado o padrão nacional de treinamento para atirador ativo pelo FBI, que, em conjunto, passaram a cuidadosamente estudar os incidentes de Ataques Ativos domésticos e estrangeiros à medida em que ocorrem, a fim de incorporar as lições aprendidas de cada ataque.

Devido à multiplicidade de armamento e ameaças que podem ser utilizadas por um atacante, o ALERRT promoveu a evolução e emprego do termo Ataque Ativo em substituição a Atirador Ativo, que, segundo ensina, ocorre “quando um ou mais indivíduos tentam ativamente matar pessoas aleatoriamente em um espaço público. Estes eventos incluem ataques com veículos, facas e quaisquer outras situações em que a preocupação primária é uma tentativa de homicídio em massa”.

Algumas das lições notáveis aprendidas com os ataques geraram mudanças importantes na forma como os Primeiros Interventores [2] são treinados e equipados para lidar com incidentes.

O objetivo desse artigo é apresentar uma análise dos incidentes críticos de ataque ativo havidos nos EUA e no Brasil, com estatísticas de ataques ativos atualizadas, as lições aprendidas decorrentes dos casos havidos nos EUA, bem como propostas práticas de providência para cada fase que envolve um incidente crítico. Também se busca a compreensão do momento do caos que permeia o início de todo incidente crítico, além das práticas, conceitos e princípios atuais que regem a atuação dos Primeiros Interventores na busca de uma resolução aceitável. A abordagem ao assunto aqui realizada é baseada em princípios e conceitos, visando uma quebra de paradigma a respeito da concepção deste tipo de incidente e uma indução à reflexão a respeito da adoção de novas boas práticas.

O trabalho respeita a doutrina de atuação de cada força de segurança, não sendo objeto desse trabalho a discussão de procedimentos empregados por qualquer equipe tática ou grupo de Primeiros Interventores que exercem seu trabalho regularmente, tampouco, convencer alguém da superioridade de uma tática sobre outra, ou propor mudanças a qualquer tática já empregada.

Capítulo 1

Análise dos incidentes críticos de ataque ativo havidos nos EUA e no Brasil

O presente capítulo apresenta, a partir de uma compilação das análises realizadas pela conhecida agência de investigação dos EUA, o FBI, e por dados obtidos por Ratti, no âmbito do Programa de Mestrado Profissional em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública do Centro de Altos Estudos de Segurança da Polícia Militar do Estado de São Paulo [3], a frequência de incidentes críticos de ataque ativo naquele país e no Brasil. Expõe, desse modo, o que há de semelhante e também de diferente em ambos os países.

Metodologia

Os EUA é o país com maior incidência de ataques ativos no mundo, e conta, por isso, com várias agências dedicadas a estudar o fenômeno. Contudo, a multiplicidade de órgãos e as diferenças na conceituação empregada por cada um deles ocasiona certa discrepância nos dados divulgados. E mais: dada a grande quantidade de armas de fogo em circulação nos EUA, o evento é estudado basicamente pelas agências apenas sob o prisma do ataque realizado pelo chamado atirador ativo.

Fazendo uma delimitação do tema, optamos pela compilação das análises realizadas pela conhecida agência de investigação dos EUA, o FBI. Ela define atirador ativo como: “Um ou mais indivíduos ativamente engajados em matar pessoas em uma área povoada. Está implícito na definição o uso de armas de fogo pelo atirador. O aspecto ativo da definição, de modo inerente, implica a natureza dinâmica desses incidentes, e, assim, o potencial da resposta afetar o resultado”.

Foram compilados os dados dos seguintes documentos produzidos pelo FBI, que englobam o período de 2000 a 2021:

  • Revisão de 20 anos de incidentes de atirador ativo havidos, nos EUA, de 2000 a 2019, publicada em maio de 2021;
  • Análise dos casos de atirador ativo ocorridos nos EUA em 2020, publicado em julho de 2021;
  • Análise dos casos de atirador ativo ocorridos nos EUA em 2021, publicado em maio de 2022.

Até o momento, não foi publicada pelo FBI a análise dos casos de atirador ativo ocorridos nos EUA em 2022.

Já o Brasil, felizmente, possui uma quantidade muito menor de casos quando comparado aos EUA. Aqui, baseando-se o autor em pesquisa de fontes abertas, considera a ocorrência do primeiro caso, em 1999, e chega até os dias atuais.

Para análise dos casos havidos no Brasil e estabelecimento de uma métrica adequada, os autores propõem e adotam como critério de análise o seguinte conceito para ataque ativo: “Incidente crítico dinâmico em que um ou mais indivíduos, estão ativamente motivados a matar indiscriminadamente o maior número possível de pessoas em determinado local, podendo fazer uso de quaisquer meios à sua disposição.”

Não foram considerados na métrica, portanto, os seguintes exemplos de ataques:

  1. Os que não produziram vítimas, por entendermos que residiram somente no campo da tentativa e falharam na execução;
  2. Casos em que se verifica que o atacante possuía um alvo determinado;
  3. Ações organizadas por criminosos, como o “novo cangaço” [4];
  4. Ações coordenadas e articuladas por criminosos, como “domínio das cidades” [5];
  5. Violência generalizada relacionada a compra, venda ou consumo de entorpecentes; e
  6. Casos passionais ocorridos no interior de residências ou estabelecimentos.

Essa diferenciação se faz necessária, pois em que pese alguns desses eventos terem potencial de produzir uma grande quantidade de vítimas, este não é o seu objetivo principal, nem tampouco sua única finalidade, tal qual ocorre num ataque ativo.

Foram, portanto, considerados os seguintes casos como sendo incidentes críticos de ataque ativo havidos no Brasil:

  • Morumbi Shopping, São Paulo/SP em 3 de novembro de 1999;
  • Escola Estadual Benedito Ortiz, Taiúva/SP em 28 de janeiro de 2003;
  • Escola Municipal Tasso da Silveira, Rio de Janeiro/RJ em 7 de abril de 2011;
  • Centro Municipal de Educação Infantil Gente Inocente, Janaúba/MG em 5 de outubro de 2017;
  • Colégio Goyases, Goiânia/GO em 20 de outubro de 2017;
  • Colégio Estadual João Manoel Mondrone, Medianeira/PR em 28 de setembro de 2018;
  • Catedral Metropolitana, Campinas/SP em 11 de dezembro de 2018;
  • Escola Estadual Professor Raul Brasil, Suzano/SP em 13 de março de 2019;
  • Instituto Estadual de Educação Assis Chateaubriand, Charqueadas/RS em 21 de agosto de 2019;
  •  Escola Estadual Orlando Tavares, Caraí/MG em 8 de novembro de 2019;
  • Colégio Dom Bosco, Americana/SP em 29 de março de 2021;
  • Escola Infantil Pró-Infância Aquarela, Saudades/SC em 4 de maio de 2021;
  • Escola Municipal Brigadeiro Eduardo Gomes, Rio de Janeiro/RJ em 6 de maio de 2022;
  • Via pública dentro de transporte coletivo, Piracicaba/SP em 22 de junho de 2022;
  • Escola Municipal Eurides Santana, Barreiras/BA em 26 de setembro de 2022;
  • Escola Estadual Professora Carmosina Ferreira Gomes, Sobral/CE em 8 de outubro de 2022;
  • Escola Primo Bitti, Aracruz/ES em 25 de novembro de 2022;
  • Escola Estadual Professor Júlio Mastrodomênico, Ipaussu/SP em 14 de dezembro de 2022;
  • Via pública, São José do Rio Preto/SP em 6 de fevereiro de 2023;
  • Escola Estadual Thomazia Montoro, São Paulo/SP em 27 de março de 2023;
  • Creche Cantinho Bom Pastor, Blumenau/SC em 5 de abril de 2023 [6].

Análise dos incidentes havidos nos Estados Unidos da América

No período estudado, os EUA tiveram 434 incidentes envolvendo atirador ativo. Destes, 152 podem ser considerados como homicídio em massa (três ou mais mortes num mesmo evento).


IMAGEM 1: Incidentes também classificados como homicídio em massa nos EUA (Fonte: Federal Bureau of Investigation, 2022).

Os incidentes foram praticados em 12 tipos diferentes de localidade, sendo prevalente a sua incidência nos locais chamados de alvos fáceis, tais como comércios e outros espaços abertos ao grande público.


IMAGEM 2: Locais de incidente dos eventos nos EUA (Fonte: Federal Bureau of Investigation, 2022).

No total, foram vitimadas 3.258 pessoas, sendo 1.203 mortos e 2.055 feridos, sendo verificada a vitimização ao longo dos anos conforme segue.


IMAGEM 3: Vítimas por ano nos EUA (Fonte: Federal Bureau of Investigation, 2022).

Quanto à forma de resolução do incidente, 204 atacantes foram presos pela polícia, 137 cometeram suicídio, 85 acabaram mortos em confronto com a polícia, 10 morreram em confronto com civis, 11 escaparam e um morreu em um acidente de carro.


IMAGEM 4: Forma de resolução dos incidentes nos EUA (Fonte: Federal Bureau of Investigation, 2022)

Análise dos incidentes havidos no Brasil

No período estudado, o Brasil teve 21 casos de ataque ativo, dos quais nove podem ser considerados como homicídio em massa (três ou mais mortes num evento).


IMAGEM 5: Incidentes também classificados como homicídio em massa no Brasil (Fonte: o autor, dissertação em elaboração).

Os incidentes foram praticados em quatro tipos diferentes de locais, sendo prevalente a sua incidência nas escolas.


IMAGEM 6: Local dos incidentes no Brasil (Fonte: o autor, dissertação em elaboração).

No total, foram vitimadas 204 pessoas, sendo 68 mortos e 136 feridos, sendo verificada a vitimização ao longo dos anos conforme segue.


IMAGEM 7: Vitimização por ano no Brasil (Fonte: o autor, dissertação em elaboração).

Quanto à resolução do evento, verificou-se que, em 11 casos, o atacante foi detido no próprio local e em cinco deles cometeu suicídio. Nota-se que em nenhum dos casos havidos em território nacional o atacante foi neutralizado pela polícia, consistindo a resolução do evento na sua rendição ou suicídio.


IMAGEM 8: Forma de resolução dos incidentes no Brasil (Fonte: o autor, dissertação em elaboração).

Comentários à análise dos incidentes

Em que pese a grande diferença numérica de incidentes, podem-se verificar alguns padrões comuns aos dois países.

A porcentagem dos eventos que se constitui também em homicídios em massa no Brasil e nos EUA é aproximada: perfaz 35% dos eventos nos EUA e 43% dos eventos no Brasil. Da mesma forma, a porcentagem dos eventos em que a resolução se dá por suicídio do atacante é próxima, ou seja, de 30% dos eventos nos EUA e de 24% dos eventos no Brasil.

Também se verifica uma tendência de aumento nos casos nos EUA e uma maior concentração de casos no Brasil nos últimos cinco anos, tendo 40% dos havidos no Brasil sido praticados em 2022 e 2023.

Outros dados já apresentaram discrepância, tal como o local mais acometido por ataques. Nos EUA, consiste em estabelecimentos comerciais abertos ao público, enquanto no Brasil são as escolas.

Também a forma de resolução do incidente se mostra muito diferente, pois, nos EUA, 74% dos incidentes se resolvem em decorrência de intervenção policial, enquanto no Brasil este número é de 38%.

Importa esclarecer que são entendidas como formas de resolução decorrentes de intervenção policial: a detenção do atacante pela polícia; a morte do atacante em confronto com a polícia; e o suicídio do atacante quando da chegada da polícia ao local.

Estes dados aferidos e comparados entre o Brasil e EUA são deveras importantes, pois, ao evidenciar aquilo que é comum e o que é diferente em ambas as nações, trazem pistas para ações preventivas ante a possibilidade de ocorrência de tais atos. Sim, realçamos, com muita ênfase, ser importante se antecipar ao autor do ataque ativo a fim de salvar vidas.

Capítulo 2

Casos ocorridos nos EUA e as lições deles aprendidas

Neste capítulo, apresentamos, de modo cronológico e didático, os casos mais graves de ataque ativo ocorridos nos Estados Unidos e as lições que deles foram sendo apreendidas com o tempo, as técnicas, os erros e os acertos, dos anos de 1960 até os nossos dias, registradas. Esta meia década de aprendizagem, ainda que sempre passível de ulterior evolução, muito tem a dizer também ao Brasil, pois, aqui, apesar de os casos ocorrerem em menor número e serem mais pontuais, também se valem, à diferença dos EUA, de certo despreparo das agências responsáveis pela segurança de um modo amplo. Isso, no entanto, pode – e deve – ser mudado. Daí a importância da exposição, ainda que sumária, dos casos e as lições deles colhidas.

Torre da Universidade do Texas


IMAGEM 9: Disparos na torre da Universidade do Texas (Britannica, 2023).

Em 1º de agosto de 1966, um franco-atirador com treinamento militar, empunhando um rifle de alta potência de estilo militar, atirou em 45 pessoas do alto da torre da Universidade do Texas. Inicialmente, os Primeiros Interventores [7] das forças de segurança não conseguiram pará-lo, devido às vantagens táticas do atacante.

Decorridos, aproximadamente 90 minutos de ação do atirador, finalmente os Primeiros Interventores, armados apenas com revólveres e uma espingarda, atacaram com sucesso a torre e eliminaram a ameaça. Após este incidente, chefes de polícia e xerifes de todo o país reconheceram a necessidade de suas agências de segurança possuírem treinamentos e armas mais avançadas (de estilo militar), o que levou à formação de equipes de Special Weapons and Tactics (SWAT) [8].

O conceito de SWAT mostrou-se sólido e fundamental para salvar inúmeras vidas e gerou como efeito colateral, não intencional, o desenvolvimento de ações pelas agências de segurança pública, que passaram a ser implementadas com o objetivo de treinar os Primeiros Interventores no enfrentamento de situações táticas complexas. Assim, ao invés de lidar com a crise por conta própria, após estabelecimento do perímetro pelos Primeiros Interventores, a SWAT seria acionada.

Lições aprendidas

Em resposta ao incidente da Torre da Universidade do Texas e em meio a outros vários eventos marcantes, incluindo os tumultos Watts, em Los Angeles, equipes de intervenção tática especial (da SWAT) foram formadas no fim da década de 1960 e no início da década de 1970.

O Comandante aposentado do Departamento de Polícia de Los Angeles, Daryl Gates, é considerado um dos “pais da SWAT” pela maior parte da comunidade tática policial norte-americana. Sua análise inovadora inspirou a evolução das unidades táticas policiais em toda a nação norte-americana.

À medida em que unidades táticas começaram a ser desenvolvidas nas organizações de polícia americanas, nos anos 1970 e 1980, iniciou-se uma ligeira depreciação da função e das atribuições dos policiais de patrulha, responsáveis pelo policiamento convencional.

Nesse período, o serviço policial, em geral, iniciou um ciclo de especialização por áreas, tais como narcóticos, roubos, homicídios e unidades táticas. Desta forma, nas organizações policiais, que então já dispunham de unidades táticas especializadas, policiais de patrulha e outros encarregados da primeira resposta, habituaram-se a responder aos cenários de crise policial atuando no estabelecimento do perímetro, contenção da situação e, posteriormente, no acionamento de equipe da SWAT. Essa incumbência se tornou um procedimento padrão em todos os departamentos de segurança do país que tinham à disposição uma equipe da SWAT em até 160 km de distância.

As agências de segurança mantiveram tal procedimento como reposta para situações taticamente complexas até o ano de 1999.

Colégio Columbine


IMAGEM 10: Estudantes em fuga no massacre de Columbine (NBC News, 2022).

Em 20 de abril de 1999, uma terça-feira, a menos de quinze minutos do horário do almoço, uma escola secundária (colégio Columbine), localizada em Jefferson County, Colorado, foi atacada por dois estudantes armados, que mataram 13 e feriram 24 pessoas antes de apontarem as armas para si mesmos e se suicidarem. Foi o ataque escolar mais devastador da história dos Estados Unidos.

Os atiradores, Dylan Klebold, 17 anos, e Eric Harris, 18, tinham um plano, e delinearam a missão para matar o maior número possível de alunos e professores. Eles detonaram explosivos improvisados dentro da escola e dispararam suas armas contra qualquer sobrevivente que tentasse fugir.

Obcecados por videogames violentos e técnicas paramilitares, passaram um ano se preparando para o “grande dia”. Desenharam mapas e criaram um sistema de sinais manuais silenciosos para coordenar seus movimentos e, no final, reuniram um arsenal de armas semiautomáticas e explosivos improvisados para perpetrar um crime que a nação jamais esqueceria.

Apelidados de “Máfia do Trenchcoat”, em razão do hábito de usar sobretudos pretos, esses adolescentes, há muito, eram intimidados e desprezados pelos colegas de classe. Decidiram, então, colocar o plano em prática. Sem nenhum motivo especial para viver, eles decidiram ainda tirar a própria vida. Dentro desse processo, porém, também desejavam explodir a escola e matar o máximo de colegas que pudessem. No dia anterior ao ataque, eles enviaram um e-mail à polícia local declarando que sua vingança contra aqueles que os ridicularizaram havia sido cumprida, culparam pais e professores por transformarem seus filhos em ovelhas intoleráveis e anunciaram o próprio suicídio.

Lições aprendidas

Na análise pós-ação de Columbine, realizada por uma Comissão criada pelo governador do Colorado designada para investigar os fatos, chegou-se à conclusão que a polícia e as instituições educacionais precisavam colaborar para melhorar a resposta conjunta a incidentes críticos. O relatório produzido indicou especificamente a necessidade de os órgãos policiais e escolas trabalharem juntos para desenvolver planos de crise para emergências. Além disso, enfatizou a importância de um Sistema de Comando de Incidentes [9] para todas as agências, visando uma metodologia única de trabalho, a fim de evitar problemas nos quais vidas humanas estão em risco.

Pilotos de todo o mundo falam inglês durante o voo. Não porque o inglês seja uma língua inerentemente superior ao alemão, russo, chinês ou espanhol, mas porque todos os envolvidos em viagens aéreas percebem que não usar um idioma comum, provavelmente, resultaria em acidentes graves com muitas mortes. Assim, todos os envolvidos em viagens aéreas convencionaram utilizar uma língua comum para se comunicar. Uma linguagem que não é perfeita, mas é boa o suficiente para colocar todos na mesma página e permitir realizar o que for preciso para salvar vidas.

O relatório pós-ação ainda recomendou (COLORADO, 2001):

A política e o treinamento dos órgãos de segurança pública devem enfatizar que a mais alta prioridade dos Primeiros Interventores, depois de chegarem ao local de uma crise, é parar qualquer ataque em curso. Todos os policiais podem ser socorristas em uma crise, mas todos devem ser também treinados em conceitos e habilidades de implantação rápida de emergência, designados ou não como membros de equipes permanentes ou de reserva de armas e táticas especiais (SWAT), e hão de ter imediatamente à disposição todas as armas e equipamentos de proteção que possam ser exigidos na atuação contra os atacantes ativos.

Os chefes e Comandantes dos órgãos de segurança pública devem ser treinados para assumir o comando no início de uma crise, para controlar equipes reunidas e comunicar os objetivos do incidente de forma clara aos seus subordinados.

A agência de segurança pública há de planejar seus sistemas de comunicação para facilitar a comunicação de crise com outras agências com as quais se espera que possam razoavelmente interagir em emergências. Porque, por exemplo, uma rede de rádio eficaz para comunicações é indispensável para uma rápida implantação ao se atender aos incidentes dessa natureza. Os distritos escolares onde a polícia local e as agências de resgate utilizam larguras de banda para comunicações devem considerar a instalação de repetidores em edifícios escolares maiores a fim de facilitar as comunicações de dentro desses edifícios para receptores externos.

Funcionários apropriados em cada condado do Colorado hão de preparar e manter atualizados um grande plano de resposta a emergências críticas abordando crises em grande escala, incluindo aquelas que surgem nas escolas locais. O conteúdo apropriado de tal plano faz-se imprescindível.

Deve-se incluir avaliações dos recursos de resposta do público e da comunidade, a localização e a disponibilidade dos recursos necessários e os requisitos para lidar com tais emergências. Por exemplo, a designação de policiais encarregados de um posto de comando e processamento da cena do crime, procedimentos a serem seguidos na evacuação de feridos e na designação de instalações médicas para as quais serão transportados, bem como atribuição de responsabilidade de extinguir incêndios e descartar materiais incendiários e dispositivos explosivos.

Sessões regulares de planejamento devem ser realizadas com a participação de representantes de entidades policiais federais, municipais e locais, bombeiros e resgate, agências e administradores de escolas locais a fim de se concentrarem nos preparativos para uma série de emergências previsíveis (incluindo os piores cenários), com base no plano de resposta a emergências críticas do condado. Autoridades e agências participantes devem basear o treinamento interinstitucional e os ensaios de resposta a desastres no plano atual.

Cada escola no Colorado há de desenvolver um plano de emergência para crises e atender às preocupações específicas de segurança naquela escola. Ao elaborar tal plano, os administradores de cada escola devem solicitar aconselhamento dos órgãos de segurança pública de fiscalização e salvamento. O planejamento de segurança escolar também levará em conta as necessidades e respostas esperadas para emergências não apenas de alunos, administradores e professores, mas de todos os funcionários que atuam naquele ambiente escolar.

O treinamento na escola e os ensaios de preparação são críticos componentes de um plano de emergência eficaz. A preparação exige que os membros de cada equipe de resposta a emergências conheçam os papéis que serão obrigados a tocar em caso de crise e que pratiquem ou ensaiem, com muito empenho, esses papéis. Cada escola deve agendar exercícios de crise pelo menos uma vez por ano, e preferencialmente uma vez a cada período escolar. É desejável incluir a polícia e os bombeiros na preparação de cenários em que essas agências atuam.

Polícia, bombeiros e agências de resgate, hospitais e agências de apoio às vítimas, como parte de seu planejamento para graves crises futuras, devem se preparar para lidar com uma onda de atenção da mídia que provavelmente se manifestará bem antes que a crise termine. Seria bom, portanto, incluir representantes da mídia nesse processo de planejamento. Mais: uma equipe de avaliação de ameaças deve ser estabelecida em cada escola secundária do Colorado. Ela será responsável por avaliar ameaças de violência relatadas por alunos, professores, funcionários da escola ou agentes de segurança pública.

Todos os relatórios de ameaças verbais e escritas, “listas de alvos” ou outros indícios de violência futura devem ser levado a sério por essa equipe. Cada equipe há de incluir pessoas da escola como um conselheiro ou um vice-diretor que conhece os alunos, a cultura estudantil da escola e que seja capaz de coletar informações no âmbito da própria escola, pois isso é útil para avaliar cada ameaça detectada. É desejável, se possível, nomear, a cada equipe de avaliação de ameaças, um profissional de saúde mental treinado, como, por exemplo, um psicólogo escolar e também alguém com formação em direito penal.

No total, foram 59 (cinquenta e nove) recomendações dadas a partir deste caso, mas a principal lição aprendida do evento foi a identificação de pontos fracos e filosofias ultrapassadas no protocolo de Gerenciamento de Crises. Como consequência disso, profissionais das forças de segurança de todo o território americano entenderam que a equipe de primeira resposta precisa, sim, estar preparada para intervir mais rapidamente em ameaças em que a demora na resposta pode causar a perda contínua de vidas humanas inocentes.

No livro Active Shooter Events and Response os autores deixam clara essa visão:

Uma lição aprendida rapidamente com Columbine foi a de que os primeiros agentes da lei desempenham um papel crítico durante situações de atirador ativo. Olhando para trás historicamente, desde a criação das equipes da SWAT, a profissão de aplicação da lei condicionou a função de patrulha a falhar em uma situação de atirador ativo como Columbine. Não só houve muito pouco ou nenhum treinamento tático fornecido aos patrulheiros para responder a esse tipo de evento, mas também o treinamento fornecido reforçou o conceito de contenção e convocação de equipes da SWAT para lidar com situações críticas. Foi muito fácil sentar e criticar os Primeiros Interventores em Columbine e culpá-los por não perseguirem os suspeitos até a escola para encerrar o ataque mais cedo; no entanto, não devemos esquecer o fato de que eles não foram treinados para fazer isso (BLAIR ET AL, 2013, Tradução nossa).

Como consequência do evento em Columbine, profissionais de forças de segurança de todo o território dos EUA entenderam que a equipe de primeira resposta precisa estar preparada para intervir mais rapidamente e dar fim imediato a esse tipo de ataque, necessidade de todos os socorristas terem treinamento próprio, ferramentas e autorização para entrar imediatamente e neutralizar uma ameaça de Ataque Ativo.

Virginia Tech. Blacksburg, Virgínia


IMAGEM 11: Primeiros Interventores em ação no Virginia Tech (NBC News, 2007).

Em 16 de abril de 2007, em Virginia Tech, um estudante assassinou duas pessoas em um dormitório do campus, depois foi para um prédio de salas de aula, trancou as portas e começou a matar alunos e professores. O atacante se moveu para frente e para trás entre cinco salas de aula diferentes no segundo andar. Em algumas salas, os ocupantes conseguiram manter o atacante fora ou retardá-lo, bloqueando a porta com seus corpos, permitindo que outros escapassem pela janela. O atacante, entretanto, entrou em outras salas sem obstrução e atirou sistematicamente nos ocupantes à queima-roupa. Depois de matar 30 indivíduos e ferir outros 17, em apenas 11 minutos, o atacante se suicidou ao ouvir os policiais arrombando a porta externa.

A resposta dos Primeiros Interventores em Virginia Tech, foi rápida e eficaz; no entanto, esse ataque ilustrou que uma resposta rápida e eficaz da polícia não é suficiente para impedir que um invasor mate várias pessoas. Este ataque também destacou o fato de que as ações tomadas por civis durante os primeiros minutos de um ataque (antes da chegada dos policiais) podem reduzir significativamente o número de mortes.

Lições aprendidas

A ALERRT, o FBI e várias outras agências federais, estaduais e locais de aplicação da lei concordam que treinar civis para seguir o seguinte modelo lhes dará uma melhor chance de sobreviver a um incidente de Atirador Ativo:

Se for seguro fazê-lo, para você e para as pessoas sob seus cuidados, a primeira ação a ser tomada é evacuar, rápida e cautelosamente, para uma direção distante do atacante e mover-se para um local seguro. Se for apanhado pelo atacante, deve barricar a porta, sair de vista e preparar um plano para usar o trabalho de equipe e armas improvisadas para incapacitar o atacante caso este entre na sala.

Este modelo de resposta civil é referido como Evitar, Negar, Defender e/ou Correr, Esconder, Lutar. Os civis treinados neste modelo são informados e capacitados para tomar suas próprias decisões de salvamento com base em circunstâncias específicas. Ao fazer isso, suas chances de sobrevivência aumentam muito porque eles terão uma mentalidade de sobrevivência proativa. Este modelo também reduz o número de pessoas que um atacante pode matar num breve período de tempo, pois o atacante nunca encontrará uma sala cheia de vítimas estacionárias que ele possa atirar facilmente à queima-roupa.

Em vez disso, o atacante terá de tentar acertar as pessoas enquanto elas correm para longe dele ou quando o surpreendem e o contra-atacam usando um eficaz trabalho de equipe e armas improvisadas. Para os interessados em receber formação complementar neste modelo de resposta civil, a ALERRT oferece um curso intitulado Civilian Response to Active Shooter Event (CRASE).

Eis o método em ilustrações:


IMAGEM 12: Método Run, Hide, Fight (Fonte: o Autor).

Outra lição aprendida em Virginia Tech foi a necessidade de os Primeiros Interventores terem equipamentos para arrombamento tático. Simplesmente o atacante acorrentou e trancou as portas de entrada, retardando a entrada da polícia no prédio. Nesse caso, muitos dos Primeiros Interventores eram, na verdade, membros da equipe SWAT treinados e equipados para arrombamento com espingarda. Podemos imaginar quantas outras vítimas poderiam ter sido baleadas e mortas antes que os policiais pudessem entrar no prédio. Sim, os equipamentos de arrombamento e invasão manual, bem como espingardas para o policial de patrulha, inéditos antes dos ataques na Virginia Tech, agora estão se tornando padrões de treinamento em todo o território dos EUA.

Outro ponto importante da tragédia de Virgínia Tech foi o papel crítico que os médicos táticos da equipe SWAT de cada agência desempenharam para salvar vidas. O serviço médico de emergência (EMS) e outros médicos especialmente treinados estarão respondendo a um evento de ataque ativo; no entanto, os protocolos atuais proíbem que essa equipe de emergência entre em um local de crise antes que a polícia seja capaz de proteger o local.

Como foi testemunhado, em Virginia Tech, bem como em Columbine, o local da crise pode não estar completamente seguro por horas, isto é, a estrutura metodicamente limpa para garantir que a ameaça foi de fato eliminada. Os policiais precisam ter treinamento médico básico para salvar vidas, semelhante ao treinamento que os membros das forças armadas recebem antes de serem destacados para o Exterior.

Navy Yard Building 197


IMAGEM 13: Policiais atuando no incidente do Navy Yard (The New York Times, 2013).

Stopping the Killing (parar a matança) para Stopping the Dying (parar a morte).”

Em 16 de setembro de 2013, um empreiteiro do governo passou pela segurança, entrou no Washington Navy Yard Building, 197, em Washington, tirou uma espingarda de sua bolsa e começou a atirar nas pessoas. O atacante moveu-se de andar em andar, no grande edifício, atirando em funcionários enquanto eles corriam para se proteger ou se escondiam sob suas mesas. Os Primeiros Interventores começaram a entrar no prédio minutos após os tiros iniciais e localizaram rapidamente várias vítimas gravemente feridas, mas devido ao tamanho do prédio, demorou mais de uma hora para localizar e neutralizar o referido atacante.

Nas horas seguintes, mais e mais Primeiros Interventores chegaram e entraram no prédio até que centenas estivessem dentro procurando por possíveis atiradores extras. Ao mesmo tempo, centenas de profissionais de segurança pública se reuniram nas proximidades, esperando que a área fosse declarada segura para que pudessem entrar e ajudar. Mesmo com centenas de policiais e socorristas nas proximidades, levou várias horas para que o prédio fosse declarado seguro o suficiente a fim de que os socorristas entrassem e alcançassem as vítimas. Nessa ocasião, muitas das vítimas gravemente feridas haviam falecido.

Um dos motivos pelos quais levou tanto tempo para um número tão grande de Primeiros Interventores realizassem as buscas no prédio foi que socorristas de diferentes agências gastaram um tempo significativo realizando buscas em locais que já haviam sido verificados previamente (duplicação de esforços).

Muitos Primeiros Interventores estavam tentando encontrar e eliminar os atiradores, e, assim, poucos foram empregados para controlar as seções do prédio e retirar os feridos.

Lições aprendidas

Como resultado das lições aprendidas com o ataque do Navy Yard Building, 197, foram adicionados ao curso ALERRT básico para fornecer aos policiais o conhecimento e as habilidades necessárias para fazer a transição sem demora do Stopping the Killing (parar a matança) para Stopping the Dying (parar a morte).

Parar a morte refere-se ao fornecimento de cuidados médicos imediatos para salvar vidas dentro da chamada zona quente, seguido pela evacuação rápida de vítimas gravemente feridas para um local onde recursos médicos significativos estejam disponíveis para tratá-las. Isso pode ocorrer dentro da própria zona quente ou, se não houver ambulâncias suficientes disponíveis, significará transportar as vítimas até o centro de trauma mais próximo.

Embora os torniquetes tenham se mostrado muito eficazes para interromper a hemorragia nos braços e nas pernas, os Primeiros Interventores devem se lembrar ainda de que os indivíduos baleados geralmente apresentam lesões internas difíceis de observar e impossíveis de se tratar no local.

Essas vidas só podem ser salvas se o indivíduo chegar a um centro de trauma em um curto período de tempo. Minutos constituem a diferença entre a vida e a morte. Portanto, os socorristas hão de permanecer focados nas principais prioridades e não deixar que nada atrase seus esforços para eliminar a ameaça e, em seguida, iniciar imediatamente o processo de retirada das vítimas gravemente feridas do perigo e colocá-las a caminho de um centro de trauma.

Os Primeiros Interventores precisam ser treinados para tratar medicamente e evacuar as vítimas de maneira segura e oportuna antes que toda a estrutura seja liberada (Corredores de Segurança). Dividirão também grandes estruturas em unidades menores que podem ser limpas e consideradas zonas quentes para a entrada da equipe médica.

Outras lições aprendidas

O apoio do cidadão com pedido médico e transporte foi fundamental, no início do incidente, mitigando vidas perdidas. O treinamento contínuo e a educação dos cidadãos sobre estratégias de resposta para um evento de atirador ativo podem diminuir a perda de vidas.

A resposta há de ser rápida para impedir a matança, eliminando rapidamente a capacidade do atacante de ferir outras pessoas. Isso se faz isolando, distraindo e neutralizando o(s) atacante(s).

Quando um atirador abriu fogo contra uma multidão de milhares de pessoas, no Route 91 Music Festival em 2017, havia dezenas de indivíduos na multidão que sabiam o que precisava ser feito e imediatamente começaram a ajudar as pessoas a se proteger e evacuar os feridos (militares de folga, EMS, bombeiros etc.). No entanto, havia apenas um punhado de indivíduos na multidão que tinham o treinamento e as ferramentas necessárias para deter o atirador. Esses poucos eram policiais.

Como policial, a pessoa faz parte daquele pequeno grupo de indivíduos que possui o treinamento e as ferramentas necessárias para interromper o tiroteio. É imperativo que ele aceite essa responsabilidade e permaneça focado nessa tarefa- chave até que ela seja concluída. Isso significa que o policial pode ter de contornar indivíduos gravemente feridos enquanto estiver no mesmo lugar que o atirador.

O policial pode dar palavras de encorajamento e deixar suprimentos médicos ao passar, mas parar ou diminuir a velocidade para fornecer ajuda médica aos feridos dará ao autor do Ataque Ativo mais tempo para matar e ferir gravemente outras pessoas em outros lugares. Pensando deste modo, se o agente da lei parar e levar 20 segundos para colocar um torniquete, poderá ter salvado uma vida, mas, nesses mesmos 20 segundos, o atirador irá, por certo, facilmente atirar em mais 20 novas vítimas.

Além disso, se o policial colocar sua arma no coldre para aplicar um torniquete e, ao fazê-lo, for emboscado e incapacitado, o atacante permanecerá foragido para continuar matando à vontade e nenhuma das vítimas feridas receberá cuidados médicos salva-vidas até que outra pessoa chegue e detenha a ameaça. A “prioridade número um” para os policiais que chegam a um incidente de ataque ativo é parar a matança. E isso se faz isolando, distraindo e neutralizando a ameaça.

Em seguida, ele estabelecerá um posto de comando e uma área de preparação segura, estabilizará as vítimas e coordenará sua evacuação para um nível superior de atendimento.

Depois que os Primeiros Interventores tiverem cumprido sua “prioridade número um”, eles devem fazer a transição imediatamente para a “prioridade número dois”, Stop the Dying. Com efeito, parar a morte é conseguido fornecendo cuidados médicos imediatos para salvar vidas dentro do local do ataque, criando rapidamente um corredor seguro e transportando os indivíduos mais gravemente feridos para um local protegido onde possam, sem demora, receber cuidados médicos avançados.

Incidentes como o tiroteio no Pulse Night Club ilustram o desafio enfrentado pelos Primeiros Interventores para determinar se uma situação exige uma resposta do tipo Atirador Ativo ou uma resposta tradicional para Ocorrências com Retenção de Reféns ou Atirador Embarricado. Vidas estão em risco e possivelmente serão perdidas se os Primeiros Interventores demorarem muito para determinar com que tipo de situação estão lidando ou se aplicarem apressadamente o tipo incorreto de resposta.

Uma maneira simples de identificar rapidamente qual tipo de situação se está enfrentando é fazer a seguinte pergunta: Há evidência confiável de que um atacante está matando pessoas ativamente ou que suas ações estão impedindo que a atenção médica chegue às vítimas gravemente feridas? Se a resposta à pergunta for “Sim”, então existe uma situação de Ataque Ativo e os Primeiros Interventores devem tomar medidas imediatas para interromper a matança e impedir a morte.

Capítulo 3

Atualização de gerenciamento de crises para o gerenciamento de incidentes em Ataques ativos e suas fases

A existência de polícias pelo mundo demonstra a sua importância em uma sociedade organizada, pois visa garantir a boa convivência das pessoas, evitando o cometimento de atos que não são socialmente aceitos. É da própria natureza da polícia atuar quando há quebra da ordem, inclusive consistindo isso em uma das missões constitucionais das Polícias Militares [10].

Contudo, mesmo com a habitualidade e o preparo das instituições policiais no trato com a quebra da ordem, existem eventos em que a resposta policial rotineira não será suficiente para a resolução do conflito, necessitando de uma resposta diferenciada para o evento. Tais eventos podem ocorrer de diversas maneiras, desde grandes desastres até ocorrências pontuais, sendo denominados como crises, que nas palavras de Souza (1995, p. 11) são “um evento ou situação crucial, que exige uma resposta especial da Polícia, a fim de assegurar uma solução aceitável” [11].

Para possibilitar essa almejada resposta especial por parte das polícias, frente a esse tipo de evento, foram desenvolvidos diversos procedimentos, aos quais se deu o nome de Doutrina de Gerenciamento de Crises. Ainda conforme Souza (1995, p. 17), gerenciamento de crises “é o processo de identificar, obter e aplicar os recursos necessários à antecipação, prevenção e resolução de uma crise”.

Não obstante a relevância da proposta trazida por esse autor, a resolução de uma crise passaria apenas pelas mãos da Polícia, pois a almejada resposta especial apenas dela poderia advir, ignorando eventual apoio de outros órgãos públicos ou particulares. Certo é que o incidente de Columbine, em 1999, provocou mudanças significativas na mentalidade das forças policiais, mas ainda assim não passou de um evento pontual em área delimitada.

Diferente do que ocorreu, no ano de 2001, um dos fatos mais significativos da história moderna que abalou o mundo, ou seja, mudou a forma de ação e as questões políticas e de segurança em todos os países devido a um ataque múltiplo e coordenado por terroristas suicidas que se utilizaram de aeronaves sequestradas e atacaram os EUA. Tais atos ficaram conhecidos como o ataque às Torres Gêmeas, ou simplesmente 11 de setembro.

Esse ataque terrorista contou com dezenove terroristas suicidas que sequestraram quatro aviões comerciais e os utilizaram como veículos bombas, ocasionando duas colisões: as torres do World Trade Center (alvo simbólico, com grande valor estratégico, representando o poder econômico norte-americano).

Os impactos resultaram no desabamento das duas torres. Um terceiro avião colidiu contra as instalações do Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América (alvo simbólico, de grande valor estratégico, representando o poder bélico norte-americano). E, por fim, houve a queda, após intervenção dos próprios passageiros no quarto avião, na região de Shanksville, cujo objetivo era atacar a capital norte-americana.

Diversas agências, de pronto, se envolveram, pois havia possibilidade de novos ataques. Ao todo foram quase três mil pessoas mortas (incluindo cidadãos de mais de 70 países) e mais de seis mil feridos. Com esse cenário caótico, fez-se necessária a comunicação integrada, o gerenciamento de informações e inteligência, a unidade de esforço.

Neste incidente, o pesadelo dos principais gestores públicos se tornou realidade, pois o evento contava com quase todos os aspectos negativos que um incidente pode trazer. Por este motivo, as dificuldades em gerenciar o atentado foram apresentadas em âmbito nacional e, em 2003, foi editada a Homeland Security Presidential Directive 5 (HSPD-5), cujo propósito principal foi criar um sistema de gerenciamento de incidentes que abrangesse toda a nação.

Para Aguilar:

Em seu bojo a norma ampliou as atribuições da Secretary of Homeland Security, incumbindo-a de desenvolver, aplicar, certificar e auditar o National Incident Management System (NIMS), que passou a normatizar todo o ciclo de Gerenciamento de qualquer Incidente nos Estados Unidos, pelos governos federal, estadual, municipal, organizações não governamentais (ONG) e setor privado (2017, p. 20).

No ano de 2003, portanto, nasceu a ideia do NIMS, com a intenção de estruturar o gerenciamento de incidentes nos Estados Unidos, seja em âmbito federal, estadual ou municipal. Já, em 2017, a Federal Emergency Management Agency (FEMA) [12] editou o National Incident Management System (NIMS) [13], que passou a utilizar uma expressão mais abrangente ao invés de crise:

Incidente: Uma ocorrência, natural ou provocada pelo homem, que requer uma resposta para proteger a vida ou a propriedade. Neste documento, a palavra “incidente” inclui eventos planejados, bem como emergências e / ou desastres de todos os tipos e tamanhos (FEDERAL EMERGENCY MANAGEMENT AGENCY, p. 64, tradução nossa).

O NIMS passou a regular o Gerenciamento de qualquer Incidente nos Estados Unidos, pelos governos federal, estadual, municipal, organizações não governamentais (ONG) e setor privado. Dessa maneira, toda a sociedade deve trabalhar em conjunto, com terminologia e doutrina padronizadas, para prevenir, proteger, responder, recuperar e mitigar os efeitos dos incidentes, independentemente da causa, tamanho, localização ou complexidade.

Essa doutrina do NIMS 2017 foi trazida à PMESP por Racorti (2019, p. 33) em sua tese de doutorado. Ali é apresentada uma nova proposta de gerenciamento em que “suas fases não se resumem ao enfrentamento da crise, mas, principalmente, nas etapas de prevenção, preparação, mitigação, resposta e finalmente, recuperação do evento”.

Tais objetivos estabelecidos pela NIMS foram documentados pelo DHS, num sistema de atuação compreensiva e de divisão de responsabilidades entre os diversos entes do país, denominado National Preparedness Goal (NGP) que, segundo o DHS (2015), se caracteriza por “Uma nação segura e resiliente com as capacidades requeridas de toda a comunidade para prevenir, proteger, mitigar, responder à, e recuperar de ameaças que apresentem um grande risco”.

Capítulo 4

Prevenção

A prevenção inclui as capacidades necessárias para evitar, prevenir, ou impedir um ataque iminente. Essas capacidades traduzidas em ações preventivas podem incluir:

  • Facilitação de um canal entre a população e a polícia para denúncias de comportamentos suspeitos;
  • Realização de operações policiais preventivas destinadas a impedir um ataque iminente;
  • Elaboração de relatórios de ação pós-evento de estudo de caso.

Alguns exemplos de comportamentos suspeitos facilmente identificáveis são o abandono de objetos como malas e caixas em locais públicos, que pode consistir em um explosivo, ou uma pessoa com volumes ocultos sob as vestes de forma incompatível, que pode ser um armamento.

Estudo de Vossekuil (2004, p. 25) demonstra que, em 81% dos casos de ataques em escolas, o atacante contou antecipadamente para ao menos uma pessoa sobre o seu ato. E em 59% dos casos, ao menos duas outras pessoas tinham alguma informação do evento antes de ele ser cometido.

Segundo o FBI (2019, p. 14) alguns comportamentos ameaçadores podem consistir em:

  1. Qualquer violência física contra uma pessoa ou instituição;
  2. Ameaças diretas ou indiretas de violência;
  3. Qualquer ato ou gesto que possa ser interpretado por uma pessoa crível como ameaçador, tais como intimidação física ou verbal, feitos com a intenção de causar medo;
  4. Comportamento incomum ou bizarro que faria uma pessoa crível temer por sua integridade física devido à sua natureza e severidade como: perseguição, abuso de substâncias ilegais, fixação com homicídios em massa, armas ou violência em geral, ou fixação com grupos de ódio, terroristas ou material extremista; e
  5. Quaisquer comentários ou comportamentos que indiquem tendência ao suicídio.

A identificação precoce, nas fases de cogitação e planejamento de uma pessoa que seja mais suscetível a cometer um ataque permite que ela seja direcionada a uma ajuda profissional que a auxilie a desconstruir suas justificativas morais e a leve a concluir que a violência não é a única resposta para a sua animosidade (RATTI, em elaboração).

Há diversas evidências de atuações bem-sucedidas na fase de prevenção a incidentes críticos de ataque ativo no Brasil, onde em alguns casos policiais conseguiram detectar comportamentos suspeitos na fase preparatória e impedir sua continuidade, e em outros conseguiram interromper um ataque iminente.

Outra ferramenta de prevenção são os relatórios de ação pós-evento, estudo de caso, dentre outras denominações, que são documentos destinados a avaliar, de forma pormenorizada, um incidente crítico, avaliando sua natureza, gravidade, circunstâncias e a resposta na busca de sua resolução

Apesar de a resolução satisfatória do incidente crítico ser o principal objetivo a ser alcançado, não é o último, uma vez que os mecanismos de debates para criação do estudo de caso devem estar presentes gerando conhecimento e experiência para futuras gerações, focado em treinamento e educação, demonstrando às novas gerações as formas de êxito e as falhas que ocorreram por inexperiência e que não devem ser repetidas (RACORTI, 2019).

Proteção

Nesta etapa, estão inclusas as capacidades necessárias para defender e proteger as pessoas de um atacante ativo, tais como o controle de acessos, a verificação de identidades e medidas de proteção física.

Aqui, os Órgãos de Segurança pública podem desenvolver campanhas de segurança primária destinadas a promover uma mudança de comportamento nos responsáveis pelos locais. Esse processo é chamado de target hardening.

Mitigação

Nas medidas de mitigação, são enumeradas as ações de redução de perda de vidas através da diminuição da intensidade do impacto de um ataque, tais como o treinamento de resposta da população e o preparo da polícia para intervirem no incidente.

Essa fase requer uma compreensão das ameaças e perigos que nortearão a avaliação de riscos e o aumento da resiliência da população a desastres. A preparação de todos os atores envolvidos é fundamental para o sucesso.

Importante é que o público saiba como se comportar numa situação de ataque; o Avoid Deny Defend, recomendado pelo ALERRT (2015), propõe:

  1. Avoid (Evitar): Se houver um caminho de fuga acessível, tente fugir do local. A melhor forma de se proteger é sequer estar no local do ataque;
  2. Deny (Negar): Não sendo possível fugir, ache um lugar para se esconder. Um local onde seja menos provável que o atirador ativo o encontre. Para impedir que um atirador ativo entre no seu esconderijo, tranque a porta e a bloqueie com móveis pesados;
  3. Defend (Defender): Como último recurso, e somente com risco de morte iminente, tente atrapalhar ou neutralizar o atirador ativo atacando-o com a maior agressividade possível ou jogando objetos e improvisando armas.

Quanto à preparação das forças policiais para atuar neste tipo de incidente, uma vez que se espera um aumento nas responsabilidades do Primeiro Interventor, sua preparação deve contemplar no mínimo as seguintes ações:

  1. Respaldo normativo e legal para atuar;
  2. Investimento em sua formação e aperfeiçoamento técnico e tático; e
  3. Dotação de equipamentos e armamentos mais capazes.

No que tange ao treinamento policial para este tipo de incidente, os EUA adotam o modelo desenvolvido pela ALERRT. Neste sentido, recomenda-se que as polícias adotem um treinamento apto a proporcionar aos Profissionais de Segurança Pública conhecimentos e competências para atuarem na fase de resposta por meio dos seguintes assuntos:

  1. Estudo do histórico dos incidentes críticos que ensejaram na evolução da resposta policial;
  2. Análise dos dados estatísticos a respeito desse tipo de incidente de forma que demonstrem o seu padrão de ocorrência;
  3. NIMS e seu objetivo compartilhado de medidas de prevenção, proteção, mitigação, resposta e recuperação de um incidente policial crítico;
  4. Sistemas de gerenciamento dos incidentes policiais críticos estáticos [14] e dinâmicos; e
  5. Treinamento de disciplina tática e segurança com armamento da equipe de policiais com observância aos conceitos e princípios da resposta de Ataque Ativo.

Resposta

Alguns incidentes de Ataque Ativo são eventos relativamente espontâneos sem muita premeditação, mas outros são ataques complexos extremamente bem planejados.

Muitos sequestradores, por exemplo, veem valor em manter seus reféns vivos para serem trocados por algo que desejam. Ora, isso dá aos policiais tempo para tentar acalmar a situação e pedir mais ajuda. Em contraste, os ataques ativos não dão valor à vida humana, apenas à emoção que sentem ao tomá-la.

Atacantes ativos em eventos anteriores foram motivados por uma ampla gama de fatores, do terrorismo à vingança. Uma coisa que a maioria dos atiradores ativos, independentemente de sua motivação, tem em comum é que, durante o ataque, agem como assassinos de sangue frio em um estado mental alterado. Esse estado mental alterado permite que eles matem violentamente crianças e vítimas inocentes de perto, sem o senso de compaixão inato à maioria dos seres humanos. Nesse estado mental alterado, são extremamente perigosos. Muitas vezes, eles mesmos já aceitaram a própria morte e pretendem levar consigo o maior número possível de pessoas.

Os policiais precisam ser bem treinados e mentalmente preparados para enfrentar atacantes mentalmente instáveis e hiperviolentos. Para alguns Ataques ativos, a data do ataque é o clímax após semanas, meses ou anos de planejamento e preparação.

Essa categoria de invasor provavelmente terá incluído a resposta das forças policiais em seu plano de ataque. Eles estarão intimamente familiarizados com o local do ataque e saberão como usar o ambiente para obter vantagem tática sobre os policiais. Os responsáveis dos órgãos de segurança nunca devem subestimar a capacidade de um atacante ativo de usar táticas eficazes e poder de fogo contra eles.

Vencer o caos inicial

As chamadas de ataque ativos são imediatamente reconhecíveis, mas nem sempre é o caso. Muitas vezes ela vai iniciar com o solicitante informando no momento da ocorrência ouviu sons de tiros, gritos ou pessoas mortas, incêndios explosões e até pessoas atropeladas. Em suma, os Primeiros Interventores se deparam com uma cena de completo caos.

O “momento do caos” pode ser definido como aquele em que ocorre a quebra da ordem pública de forma violenta e abrupta, com perspectiva real e iminente de resultados letais ou danos graves. Seus efeitos podem se seguir, mesmo sem restrição espacial, devido às características do incidente, destacando-se a forma confusa, desordenada, com poucas informações e escassez de recursos (RACORTI, 2019).

Os Primeiros Interventores são confrontados com a necessidade de entender esse problema completamente confuso. Após reconhecer o problema, a grande dificuldade será compreender o que está acontecendo e aplicar o procedimento necessário. Mas enquanto todos sabem que existe esse momento, poucas discussões se concentram nisso. E nenhuma organização treina os seus Primeiros Interventores, como funcionarem, como entendê-lo e como terminá-lo.

Outro ponto importante, a maioria dos Primeiros Interventores alvejados no atendimento de eventos de Ataques Ativos é nos momentos da chegada à ocorrência, ou seja, no momento do caos. Observamos nos resultados o seguinte: 60% dos policiais que foram baleados no início de um evento de ataque ativo, o foram antes de aplicar o procedimento próprio para ataque ativo (BLAIR, 2022). Os policiais de primeira resposta têm cerca de duas vezes mais chances de serem baleados fora de uma estrutura do que dentro, mas o treinamento de resposta do atirador ativo é mais focado em operações internas do que externas, por exemplo (ALERRT; FBI, 2020).

Essa falta de foco em compreender o problema que normalmente ocorre na área externa da ocorrência, pode criar um erro de calibração na antecipação de um Primeiro Interventor, de onde ele provavelmente encontrará o atacante sem compreender o que realmente está acontecendo.

Esse erro de interpretação pode causar perda de vidas de civis. Como caso prático, podemos citar a Escola Primária Robb em Uvalde, Texas, EUA, que foi atacada em 24 de maio de 2022. O ataque resultou em 21 mortes (19 alunos e dois professores) e 17 feridos. Os Primeiros Interventores moveram-se corretamente em direção ao tiroteio ativo, mas quando os policiais se aproximaram da porta, o suspeito começou a atirar. Este tiroteio fez com que ambas as equipes de policiais se retirassem das portas e começassem a tratar da situação como uma ocorrência com retenção de reféns ao invés de um evento de ataque ativo.

O ALERRT ensina que a principal prioridade dos socorristas em uma situação de atirador ativo é, primeiro, parar a matança e, depois, parar a morte (ALERRT & FBI, 2020, pp. 2-9, 2-15 a 2-16). Inerente a parar de matar e morrer está a escala de prioridade da vida (ALERRT & FBI, 2020, pp. 2-6 & 2-34). No topo desta escala, a maior prioridade é preservar a vida das vítimas.

Estudo realizado por Blair (2014, p. 8) analisou os incidentes críticos de atirador ativo havidos nos EUA de 2000 a 2013 e, após determinar os casos (63) em que a sua duração pôde ser apurada, verificou que 44 (69,8%) se encerraram em 5 minutos ou menos, sendo que destes, 23 terminaram em dois minutos ou menos. Por consequência, muitos incidentes se encerraram antes da chegada da Polícia. Dos 160 incidentes, pelo menos 107 (66.9%) terminaram antes que a Polícia chegasse e pudesse engajar o atirador (BLAIR, 2014, p. 9, tradução nossa).

Os dados acima, que bem demonstram a compressão de tempo, nos levam à conclusão de que os incidentes críticos de ataque ativo se iniciam e se encerram dentro do momento do caos, motivo pelo qual a prioridade dos Primeiros Interventores é agir (RATTI, em elaboração).

Conceitos e princípios de resposta de Ataque Ativo

Os seguintes conceitos e princípios aprendidos durante operações táticas complexas de segurança pública irão reverter a vantagem tática em favor dos Primeiros Interventores e permitir que eles neutralizem até mesmo os atacantes mais perigosos:

Fiquem juntos tanto quanto possível

As situações de Ataque Ativo são caóticas e repletas de várias tarefas urgentes que precisam ser concluídas. É importante resistir ao impulso de uma equipe de contato “dividir para conquistar” para concluir tarefas simultaneamente. Por exemplo, se uma equipe de quatro policiais perceber que precisa investigar uma pessoa suspeita em uma extremidade de um corredor não limpo, mas há uma vítima que necessita de um torniquete na outra extremidade do corredor, a equipe pode ser tentada a se dividir em duas de duas pessoas cada e realizar ambas as tarefas simultaneamente.

No entanto, se eles fizerem isso e o atacante sair de uma sala entre as duas equipes, ninguém poderá responder sem colocar em perigo seus próprios parceiros. Outro motivo para permanecerem juntos como uma Equipe de Contato é evitar problemas de prioridade de fogo. Existe um problema de prioridade de fogo quando a equipe de contato se espalha, possivelmente porque um policial está se movendo mais rápido que os outros. Se a equipe for engajada pela frente, o instinto natural é que todos os policiais atirem de volta na direção da ameaça, com os policiais na parte de trás da equipe tentando compensar para que seus tiros não atinjam seus parceiros na frente. Infelizmente, o policial da frente não pode ver os que estão atrás dele e se ele se mover repentina e lateralmente por qualquer motivo durante o tiroteio, pode adentrar diretamente na linha de fogo de seu parceiro.

Já uma equipe que adere estritamente ao princípio de permanecer unida e próxima, pode facilmente evitar problemas com a prioridade de fogo, enquanto o policial mais próximo da ameaça começa a atirar, todos os policiais mais distantes da ameaça movem-se rapidamente (ombro a ombro) com o policial mais próximo da ameaça, antes de se juntarem aos disparos.

Em vez de pensar em sua equipe como quatro Primeiros Interventores individuais trabalhando juntos, pensar-se-á em sua equipe como um carro blindado com quatro torres para fornecer proteção em todas as direções. O carro blindado só pode ir a um lugar por vez, então, a equipe deve priorizar as tarefas e realizá-las uma a uma, em conjunto. Depois que todas as ameaças conhecidas são neutralizadas, equipes maiores podem se dividir em equipes menores para concluir as inúmeras tarefas subsequentes necessárias a fim de parar as mortes.

Como os policiais manobram agressivamente para isolar, distrair ou neutralizar uma ameaça de Ataque Ativo, sua proteção vem principalmente do fogo de retorno eficaz, não de se esconder atrás de uma cobertura rígida. Este conceito é conhecido como o ABC da cobertura: a proteção mais eficaz do Responder contra os disparos recebidos é um alto volume de fogo de retorno preciso, seu próximo nível de proteção é o colete balístico e sua opção final é ficar atrás da cobertura rígida.

Mantenha a cobertura de segurança de 540 graus

Embora os responsáveis pela primeira resposta policial devam tentar obter o máximo de informações possível sobre o(s) atacante(s) antes de chegar ao local, é provável que os relatórios iniciais de inteligência sejam limitados e imprecisos. Essa falta de inteligência confiável em relação ao número de atacantes e suas descrições torna crítico para os Primeiros Interventores manter uma consciência elevada de seus arredores o tempo todo enquanto estão dentro da zona quente.

A maioria dos incidentes de Ataque Ativo envolve apenas um atacante. No entanto, o objetivo deste artigo é preparar os Primeiros Interventores para o pior cenário que eles possam encontrar, o que incluiria vários atiradores e até mesmo um ataque coordenado por vários criminosos. Uma chave para o sucesso nesse tipo de ambiente é que os responsáveis pela primeira intervenção observem o(s) invasor(es) antes de serem observados por eles. As equipes de contato precisam examinar continuamente, de modo visual, todo o ambiente em busca de ameaças, incluindo 540 graus ao seu redor e ângulos altos e baixos.

Os Policiais também devem estar cientes da posição dos membros de sua equipe e garantir que nenhum deles seja exposto a áreas de perigo não desobstruídas. Precisam estar mais alertas e procurar ameaças em todas as direções, tanto quanto possível.

Comunicar efetivamente

A comunicação eficaz é necessária para um trabalho dinâmico em equipe, e o trabalho em equipe eficiente é crucial para que os policiais obtenham uma vantagem tática sobre o(s) invasor(es). As agências policiais regionais devem treinar continuamente juntas a fim de estabelecer protocolos de rádio para uso durante a resposta do Ataque Ativo de várias agências.

Mesmo com os melhores planos, as comunicações de rádio geralmente não são confiáveis durante os primeiros minutos de um ataque, devido a um volume extremamente alto de tráfego de rádio, indivíduos usando canais diferentes, além de fatores ambientais. Os policiais devem estar familiarizados com o seu plano de comunicação regional, mas também estar preparados para responder de forma eficaz, mesmo sem comunicações de rádio confiáveis.

A chave para uma comunicação eficaz em uma situação caótica é mantê-la simples. Os policiais devem usar linguagem simples (não palavras codificadas), aproximar-se o máximo possível da pessoa com quem estão se comunicando e manter suas frases curtas e concisas. Depois de dar uma mensagem, o policial deve procurar a confirmação de que a parte pretendida recebeu e entendeu a mensagem.

Os policiais devem usar apenas sinais de mão e braço que sejam simples e comumente compreendidos. A comunicação verbal é geralmente a maneira mais eficaz de se comunicar com alguém com quem você nunca trabalhou antes. Fale de forma clara e concisa, mas apenas tão alto quanto necessário para ser ouvido por seus colegas de equipe. O “Grito Tático” não é necessário e apenas alertará o atacante sobre a sua abordagem e revelará a sua posição.

Se as comunicações de rádio não forem confiáveis, pode ser necessário usar pessoas para entregar mensagens. Por exemplo, após uma equipe de contato de quatro pessoas neutralizar o atacante, se eles não conseguirem alcançar o comando no rádio, poderá necessitar manter dois policiais com o atacante e as vítimas, enquanto os outros dois localizam o comando e entregam a mensagem pessoalmente.

O conceito-chave a ser lembrado é que as tarefas críticas necessárias para salvar vidas devem continuar até serem concluídas, mesmo que a comunicação por rádio não seja possível.

Avaliação de limiar: áreas visualmente limpas antes de nelas entrar

Para policiais dentro de uma situação de Ataque Ativo, é vantajoso limpar visualmente as áreas antes de nelas entrar fisicamente. Ao escanear sistematicamente uma área antes de ingressá-la, os policiais podem obter informações importantes para ajudar a coordenar seu próximo movimento. A limpeza visual também permite que os policiais observem e enfrentem uma ameaça a uma distância maior e por trás de algum grau de cobertura e/ou ocultação. Embora existam várias técnicas eficazes de limpeza visual, para simplicidade e consistência, sugestionamos a Avaliação de Limiar (também chamada de “Fatiar a Torta”).

Para realizar uma avaliação de limiar, o policial permanece fora do limite e, começando em um lado da porta, limpa sistematicamente, de modo visual, a parte aparente da sala, então se move em um padrão semicircular através do limiar enquanto limpa visualmente cada nova porção da sala à medida que ela se torna visível. A ilustração demonstra uma sequência de avaliação de limiar. A cada movimento lateral, mais ângulos se abrem para observação ou ação decisiva.


IMAGEM 14: Primeiro Interventor em avaliação de limiar (Fonte: o Autor).

Se uma ameaça mortal for observada, o policial é capaz de engajar a ameaça com força letal, enquanto permanece parcialmente protegido pelo limiar. Se indivíduos desarmados forem observados durante uma Avaliação de Limiar, o policial dá comandos apressados para colocar os indivíduos em posição de desvantagem (ou seja, ajoelhados de frente para a parede, com as mãos na cabeça); então, termina a Avaliação de Limiar e faz a entrada.

Ao conduzir uma Avaliação de Limiar, o policial deve tentar manter uma distância de 15 cm dele. Essa lacuna reacionária aumenta a capacidade do policial de reagir, de modo apropriado, se alguém sair inesperadamente da sala diretamente à sua frente. Pode ser o atacante ou uma vítima tentando fugir, por isso é fundamental que o policial tenha o tempo e a distância necessária para observar cada indivíduo e reagir adequadamente.

Embora realizar uma liberação visual antes de fazer a entrada seja geralmente mais seguro do que entrar sem uma liberação visual, há certas situações em que é mais seguro fazer a entrada sem diminuir a velocidade para realizar uma liberação visual, ou seja, corredores com várias portas abertas adjacentes e/ou opostas.

Os policiais devem fazer a seguinte pergunta para ajudá-los a decidir se uma limpeza visual é apropriada para uma determinada situação: O perigo potencial para minha equipe é maior dentro da sala em que estou prestes a entrar ou o perigo potencial para minha equipe é maior em minha atual localização? Se o perigo para a equipe for percebido como maior dentro da sala, uma limpeza visual deve ser feita antes da entrada. Se o perigo para a equipe for percebido como maior em sua localização atual, uma entrada imediata deve ser realizada em uma área com menor nível de perigo percebido.

Velocidade de Movimento: Mova-se na velocidade apropriada para as circunstâncias atuais

Em um incidente de Ataque Ativo, tempo é igual à vida [15]. Quanto mais rápido a ameaça for eliminada e as vítimas gravemente feridas transportadas para um centro médico, mais pessoas serão salvas.

Dito isto, se os Primeiros Interventores correrem para uma situação ante a qual não estão preparados para lidar, provavelmente se tornarão vítimas e o relógio continuará correndo enquanto o atacante segue a atirar em pessoas e as vítimas gravemente feridas continuam a sangrar até a morte.

Os Primeiros Interventores devem, pois, perceber que não há uma “velocidade certa” de movimento para uma resposta de Ataque Ativo. Em vez disso, os policiais hão de reavaliar constantemente suas circunstâncias atuais e ajustar a sua velocidade adequadamente. Por exemplo, os primeiros que atravessam um grande campo de futebol para chegar à escola secundária adjacente podem optar por correr pelo campo, porque suas pistolas não são eficazes para longo alcance e, por conseguinte, a velocidade é sua melhor defesa contra um atirador portando um fuzil.

À medida que os policiais se aproximam da localização presumida do invasor, eles devem continuar a se mover com propósito, mas também caminhar suave e silenciosamente e se mover apenas o mais rápido possível para disparar com precisão e processar as informações.

Os Primeiros Interventores devem considerar o conceito de Força Motriz [16] ao decidir a velocidade de movimento mais apropriada a qualquer momento durante uma resposta de Ataque Ativo. As três velocidades conhecidas neste caso são:

Sprint (corrida): Essa velocidade é usada durante Bounding Overwatch (vigilância limitada) e em outros momentos quando o atacante está fora do alcance efetivo da arma do policial, mas o policial pode estar dentro do alcance efetivo da arma do atirador. Exemplos: policial utilizando pistola (50 m) e atirador com fuzil (300 m); ou policial utilizando fuzil (300 m) e atirador com rifle de precisão (+1000 m).

Se estiver correndo com uma pistola, ela deve estar fora do coldre, caso uma ameaça inesperada dentro do alcance apareça repentinamente, mas não há necessidade de tentar manter o cano estável e apontado para a ameaça. O objetivo principal durante a corrida é mover-se o mais rápido possível de cobertura a cobertura até que o atacante esteja dentro do alcance efetivo da arma do policial. Enquanto se corre, é importante que o policial mantenha o dedo fora do gatilho e evite apontar o armamento a outros operadores de segurança pública ou civis inocentes.

Direct-to-striker (direto para o atacante): Esta velocidade está entre uma caminhada rápida e uma corrida. É usada dentro do local do ataque quando os policiais têm motivos para acreditar que uma morte ativa está ocorrendo e eles têm ciência disso; direcionam-se, então, para a localização do atacante. A velocidade direta para a ameaça é mais suave do que a velocidade de sprint e os policiais precisam manter seus canos apontados para frente a fim de poderem enfrentar o atacante com relativa precisão se ele aparecer repentinamente.

Researcher (pesquisador): Esta velocidade é uma caminhada de ritmo médio, muito suave e silencioso. É usada quando uma equipe de contato está cobrindo os últimos metros antes de chegar ao local presumido no qual o atacante se encontra. Nessa velocidade, o cano da arma do policial deve estar estável e permitir tiros precisos. Essa também é a velocidade usada pelos policiais para iniciar uma busca sistemática no prédio se não houver força motriz presente para levá-los ao local do atacante.

Equipamento de Resposta Rápida (Go Bags)

Ter o equipamento certo à mão dentro de um local com Atirador Ativo provavelmente significará a diferença entre a vida e a morte de um policial e daqueles que ele/ela está tentando salvar.

Os incidentes do Ataque Ativo se desenrolam com extrema rapidez e não haverá tempo para reunir o equipamento após o início do tiroteio, a menos que tal equipamento tenha sido previamente preparado e colocado em um local de fácil acesso.

Os itens mais cruciais para incluir em uma bolsa são: munição extra, equipamento de arrombamentos, lanterna, luzes químicas para marcar locais de localização de explosivos e áreas desobstruídas, marcadores/post-its para assinalar salas desocupadas, espelho para vasculhar espaços rastejantes e sótãos.

Equipamentos médicos adicionais a serem considerados em malas maiores incluem: maca compacta, vários torniquetes (aprovados pelo TCCC e/ou TECC), luvas médicas, tesouras para traumas, gaze (Kerlix), bandagens (Ace ou Coflex), selos torácicos, manta espacial e gaze de combate infundida com agente hemostático.

Recuperação

Encerrada a etapa de resposta, o processo de recuperação em curto prazo deve se iniciar imediatamente. Seu objetivo, segundo o DHS (2017, p. 2), é restabelecer a segurança e mitigar os impactos físicos, psicológicos e emocionais do incidente.

Os esforços devem ser voltados a atender às necessidades básicas imediatas dos envolvidos. Daí, um local para reunião das pessoas e de seus familiares deve ser providenciado. De preferência, afastado do posto de comando e do local reservado à mídia.

Os policiais que atuam devem ser orientados reiteradamente sobre resiliência e a forma correta de lidar com as vítimas, porque, não obstante uma impecável atuação policial, muitos familiares podem estar com sentimento de revolta buscando responsáveis pela tragédia. Os sentimentos de revolta quando direcionados à Polícia podem consistir em críticas quanto à ineficiência na prevenção, a demora na resposta ou no emprego de medidas de gerenciamento de incidentes estáticos. (RATTI, em elaboração).

Lankford e Madfis (2017) elencaram as principais consequências da cobertura midiática de atiradores ativos:

A cobertura midiática dá aos atacantes o que eles desejam, pois os fazem famosos e propicia um claro incentivo a futuros atacantes em potencial, como, por exemplo, os atiradores de Columbine fantasiavam sobre a atenção que receberiam e acreditavam que filmes seriam feitos sobre a sua vida, o que realmente ocorreu. Ela aumenta a competição entre potenciais atacantes para serem mais letais. Isso porque os atiradores que buscam fama tendem a ser os mais letais, e parecem inclusive explorar com precisão padrões previsíveis no comportamento da mídia (LANKFORD E MADFIS, 2017, p. 3).

Logo, a notoriedade dada aos atiradores ativos leva aos efeitos de contágio e imitação, pois no contexto da análise comportamental, tanto os efeitos de contágio quanto os de imitação se referem às formas que algumas pessoas expostas a um determinado comportamento podem se tornar mais propensas a se comportarem da mesma forma. Como proposta para evitar estas consequências, o autor sugere que, após a ocorrência de um incidente de atacante ativo (LANKFORD E MADFIS, 2017, p. 6):

  1. Não seja pronunciado o nome do agressor;
  2. Não sejam exibidas fotos do atacante;
  3. Cessem-se a utilização de fotos de atacantes pretéritos; e
  4. Sejam divulgadas outras informações sobre os crimes.

Conclusão

O escopo deste trabalho foi o de estudar os incidentes críticos na sua espécie de ataque ativo, para que, assim, possamos ter uma adequada análise situacional a respeito das circunstâncias que o envolvem e, deste modo, passar à exposição de propostas de atuação direcionadas a uma atenção de amplo espectro para este tipo de incidente.

Todas as análises aqui apresentadas foram formuladas considerando-se a atuação dos órgãos de emergência e assistência, dentro da proposta da NIMS 2017, que ensina que toda a sociedade deve trabalhar em conjunto, com uma única terminologia e doutrina, para prevenir, proteger, mitigar, responder e recuperar os efeitos dos incidentes.

Desta forma, com esta parte conclusiva, se pretende apontar propostas de ações práticas, baseadas nos aprendizados advindos de incidentes passados, e que possam ser fácil e rapidamente implementadas pelos diversos órgãos policiais.

Como visto, a NIMS tem por base a padronização da doutrina e o emprego de terminologia comum, para que assim seja criada uma unicidade de pensamento nos Primeiros Interventores. Isso a fim de que todos compreendam a sua missão e entendam também a importância da missão do outro, facilitando, assim, a atuação integrada e o planejamento conjunto, com o objetivo comum de todos sendo este a prevenção, proteção, mitigação, resposta e recuperação.

Para uma prevenção adequada, é necessária a atuação conjunta entre os órgãos de segurança e de assistência, criando e facilitando canais de denúncias que possam auxiliar na detecção precoce de uma pessoa propensa à realização de um ataque ativo. Comportamentos que denotem a inspiração, admiração ou prática de violência devem ser analisados de forma mais séria, e, por conseguinte, hão de conduzir a pessoa problemática até profissionais da saúde mental.

Quanto à proteção, recomenda-se que os responsáveis pelos locais mais propensos a ser alvo de ataques, passem a investir em educação dos seus funcionários e frequentadores, bem como em medidas física que tornem menos atrativa a ideia do cometimento de um ataque, tais como sistemas de controle de acesso, instalação de câmeras de segurança, etc.

No que tange às medidas de mitigação, a implantação do treinamento run, hide, fight se mostra uma alternativa viável para incremento da capacidade de sobrevivência das vítimas em potencial, ao mesmo tempo em que atrasa o desenvolvimento de um ataque e se ganha tempo para a atuação da polícia na próxima fase. Também deve ocorrer um investimento no policial de patrulha, uma vez que a ele estão sendo atribuídas mais responsabilidades. Como medidas de investimento no policial recomendamos: o respaldo normativo e legal para atuar; o investimento em sua formação e aperfeiçoamento técnico e tático; e a dotação de equipamentos e armamentos mais capazes.

Na fase de resposta, é essencial a aquisição de rápida consciência situacional por parte dos Primeiros Interventores no momento do caos, que, como estudado, permeia o início de todos os incidentes críticos, e, no caso dos ataques ativos, dada a sua duração de apenas minutos, acompanhá-lo, por vezes, do início ao término. Também é importante que todos os envolvidos no evento saibam a ordem de prioridades da resposta policial, que consiste em primeiro cessar a ação homicida para, posteriormente, socorrer as vítimas.

Já quanto às medidas de recuperação, recomenda-se a assistência psicológica aos envolvidos no evento e providências no sentido de que seja negada autoria e notoriedade aos causadores deste tipo de incidente, buscando-se evitar comportamentos de contágio e imitação, medida, inclusive, que já foi adotada neste trabalho.

A análise dos incidentes de atirador ativo havidos nos EUA de 2000 a 2021, e o estudo dos casos de ataque ativo havidos no Brasil de 1999 a 2023 evidenciou diversas características e padrões de atuação dos atacantes.

Apesar do aumento de ataques ativos no Brasil pouquíssimas ações e lições aprendidas foram implementadas. Conforme reportagem publicada no site G1 em 29 de março de 2023 no qual alegam estar mesmo com medo, professores e alunos organizam reação e criam grupos de WhatsApp para se proteger, mas não querem a Polícia Militar (PM) na escola e estudantes estão apavorados com a possibilidade de policiais nas escolas.

A história demonstra que atuações policiais em incidentes de ataque ativo, que não se pautaram pela rápida atuação dos Primeiros Interventores para cessar a ação homicida do atacante, tiveram resultados catastróficos. Infelizmente ainda estamos dando total prioridade aos órgãos de segurança pública “especiais”.

Verifica-se então a necessidade de readequação e atualização da doutrina de gerenciamento de incidentes das forças policiais para que possam atuar dentro desta nova sistemática. Foi demonstrada a necessidade da evolução da doutrina de gerenciamento de crises para o sistema de gerenciamento de incidentes de acordo com o modelo do NIMS, focada em princípios e conceitos com suas fases (prevenção, proteção, resposta, recuperação e mitigação).

Os procedimentos ignoram o momento do caos, e em como o Primeiro Interventor consegue identificar a ocorrência de Ataque Ativo. Importante aumentar a quantidade de tempo investido no treinamento em identificar o que está ocorrendo principalmente nos ambientes externos e incluir cenários em que os policiais encontram o atacante do lado de fora pode ajustar a compreensão da situação por parte do treinamento ajudando os policiais a prever com mais precisão os perigos que enfrentam ao responder.

Por fim, costuma-se dizer que da tragédia coisas boas podem fluir. Existe agora reconhecimento generalizado de que precisamos trabalhar cooperativamente se nossas comunidades são atacadas. Vimos em primeira mão o desmoronamento dos barricais que existem há anos. Organizações que tradicionalmente não interagiram bem, agora por necessidade deverão treinar juntas e, portanto, serão mais bem preparadas para responder juntas. Não podemos mais permitir que diferenças mesquinhas comprometam a proteção de nossas comunidades.


*Valmor Saraiva Racorti é coronel da PMESP e instrutor pela Universidade do Texas/Programa ALERRT. Comandou o Batalhão de Operações Especiais, que compreende o GATE e o COE. Realizou o Curso Preparatório de Formação de Oficiais em 1990-1991. Graduado em Direito pela UNISUL, é bacharel, mestre e doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública pelo Centro de Altos Estudos de Segurança “Cel PM Nelson Freire Terra”. Foi comandante de Pelotão ROTA no 1º BPChq de 1994 a 2006, Chefe Operações do COPOM em 2006, Oficial de Segurança e Ajudante de Ordens do Governador do Estado de 2007 a 2014, Comandante de Companhia ROTA no 1º BPChq de 2014 a 2016 e Comandante do GATE de 2016 a 2019. Já atuou em mais de 500 incidentes críticos.

*Adriano Enrico Ratti de Andrade é capitão da PMESP, instrutor pela Universidade do Texas/Programa ALERRT e instrutor de Tiro Defensivo na Preservação da Vida “Método Giraldi” desde 2006. É graduado em Direito pela UNIBAN e especialista em Direito Público pela UNAR, bacharel e mestrando em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública. Possui formação em Negociação de Crises com Reféns pela PMESP, Segurança Multidimensional em Fronteiras pela USP e Fundamentos para Repressão ao Narcotráfico e ao Crime Organizado pela UFSC. Foi comandante de força patrulha e força tática nos batalhões em que serviu de 2004 a 2016 e chefe de seção de investigação na Corregedoria de 2016 a 2018. Desde 2018 desempenha as funções de comandante de companhia e coordenador operacional interino no 44º Batalhão de Polícia Militar do Interior.


Notas

[1] Incidentes críticos dinâmicos são aqueles eventos cujos impactos não se limitam a um espaço geográfico determinado e, em razão de sua natureza, os atores envolvidos encontram-se em movimento, tornando difícil a adoção das medidas iniciais de contenção e isolamento, exigindo uma resposta imediata da primeira força policial interventora a fim de alcançar a cessação dos seus efeitos e, posteriormente, o acionamento das demais ações do Estado e outras organizações (RACORTI, 2019).

[2] O termo “Primeiros Interventores” refere-se aos primeiros profissionais de segurança pública que chegam no local da ocorrência. Surgiu no Relatório pós-ação, produzido pela Comissão de Revisão de Columbine (COLORADO, 2001).

[3] Esta e outras pesquisas do artigo foram extraídas de dissertação produzida no âmbito do Programa de Mestrado Profissional em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública, do Centro de Altos Estudos de Segurança da Polícia Militar do Estado de São Paulo, encontrando-se em fase final de elaboração, não tendo sido ainda defendida.

[4] Modalidade criminal associada ao cangaço clássico em razão de sua característica de banditismo interiorano, e conhecido como tomada de cidades pelas corporações policiais, praticada mediante organização criminosa com divisão de tarefas entre seus membros, tem por escopo executar roubos a instituições financeiras para o sustento da organização criminal. Nesses crimes, são usados fuzis e submetralhadoras, além do uso de reféns como escudos humanos, geralmente, durante o dia, para afastar a ação policial. O alvo é o cofre do banco ou os caixas eletrônicos, casas lotéricas e etc. Quando ocorre à noite, é chamado de novo cangaço noturno, são utilizados explosivos para o rompimento de obstáculo a fim de acessarem os valores (FRANÇA, Alpha Bravo Brasil, 2020).

[5] Pode ser conceituado como uma nova modalidade de conflito não convencional, tipicamente brasileiro e advindo da evolução de crimes violentos contra o patrimônio (novo cangaço), na qual grupos articulados compostos por diversos criminosos, divididos em tarefas específicas, subjugam a ação do poder público por meio do planejamento e execução de roubos majorados para subtrair o máximo possível de valores em espécie e/ou objetos valiosos ou o resgate de detentos de estabelecimentos prisionais, utilizando ponto de apoio para concentração dos criminosos, artefatos explosivos, armas portáteis de cano longo e calibre restrito, veículos potentes e blindados, rotas de fuga predeterminadas, miguelitos, bloqueio de estradas, vias e rodovias com automóveis em chamas, além da colaboração de olheiros (RODRIGUES, Alpha Bravo Brasil, 2020).

[6] O incidente ocorreu durante a produção deste artigo, podendo haver posterior mudança no número de vítimas fatais.

[7] Estão com iniciais maiúsculas, dada a importância desta função.

[8] Traduzido como “Armas e Táticas Especiais”, consistem em equipes policiais especializadas, criadas por diversos departamentos de polícia nos EUA, para lidar com incidentes críticos que ultrapassassem as capacidades dos policiais de patrulha.

[9] Como definição, temos que o ICS é: Uma abordagem padronizada para o comando, controle e coordenação do gerenciamento de incidentes no local que fornece uma hierarquia comum dentro da qual o pessoal de várias organizações pode ser eficaz. O ICS especifica uma estrutura organizacional gerenciamento de incidentes que integra e coordena uma combinação de procedimentos, pessoal, equipamento, instalações e comunicações (NIMS, 2017).

[10] BRASIL, 2016.

[11] A doutrina entende como solução aceitável a preservação de vidas e a aplicação da lei (MACHADO, 2014, p. 25).

[12] Traduzida como “Agência Federal de Gerenciamento de Emergências”, é uma agência norte-americana responsável por auxiliar as pessoas, antes, durante e depois de desastres.

[13] Traduzido como “Sistema Nacional de Gerenciamento de Incidentes”, é um sistema norte-americano que guia todos os níveis governamentais e não governamentais a atuarem de forma conjunta, prevenindo, protegendo, mitigando, respondendo e se recuperando de um incidente (FEDERAL EMERGENCY MANAGEMENT AGENCY, 2017).

[14] Incidentes críticos estáticos como eventos que se limitam a um espaço geográfico determinado que, por sua natureza, permitem a adoção das medidas iniciais de contenção e isolamento pela primeira força policial interventora, permitindo o acionamento das unidades especializadas sem que haja a necessidade de implementação imediata de uma alternativa tática para a sua solução.

[15] Para fixar bem de modo um tanto matemático: tempo = vida.

[16] Força motriz significa informações ou evidências de que uma matança ativa está ocorrendo no local do ataque. Pode ser o som de tiros, gritos ou informações pertinentes fornecidas pelo despacho e/ou por já evacuados. Informações que levem a vítimas gravemente feridas com necessidade urgente de cuidados médicos também são consideradas como uma força motriz, mas devem ser secundárias em prioridade a qualquer força motriz que leve a um atirador ativo.


Referências

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RATTI, A. E. A. Treinamento do Policial Militar da Matriz Operacional I para atuar como Primeiro Interventor em incidentes de agressor ativo. Em fase de elaboração. Dissertação (Mestrado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública) – Centro de Altos Estudos de Segurança, Polícia Militar do Estado de São Paulo, São Paulo.

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4 comentários

  1. Bom dia .
    A necessidade do conhecimento dos procedimentos. A população não tem ideia de como agir diante de uma crise. Fatos que aconteceram nos últimos dias, pouco se fala e com certeza vai ser deixado de lado até o próximo. Mudar esta cultura parece ser algo impossível. Mas não podemos desistir!

  2. Gostaria de agradecer mais uma vez ao site e ao coronel pelo excelente artigo aqui postado. São informações importantes e necessárias para que possamos lidar melhor com as violências do cotidiano.

  3. Agradeço o compartilhamento do material baseado em tão profunda pesquisa e trazida ao público policial.

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