Veneno & Antídoto: o míssil Avangard e o programa Glide Breaker

Albert-VF1 Albert Caballé Marimón*

Ricardo Nunes Barbosa*

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Screenshot de um vídeo do Ministério da Defesa da Rússia mostra o que seria uma ogiva Avangard em simulação computadorizada (Imagem: BBC News).

Visão geral – mísseis hipersônicos

Os mísseis hipersônicos são capazes de voar e manobrar a velocidades de aproximadamente 5.000 a 25.000 km/h entre 30 e 100 quilômetros de altitude. Essas características de alta velocidade, manobrabilidade e alta altitude fazem deles engenhos desafiadores para as melhores defesas antimísseis atuais e, até os últimos minutos de voo, imprevisíveis quanto ao seu destino.

Normalmente classificam-se como “mísseis hipersônicos” os artefatos que superam a velocidade de Mach 5 (aproximadamente 5.500 km/h, a depender da altitude) e são capazes de manobrar durante o voo.

Embora a alta velocidade seja um fator positivo, sua maior vantagem está justamente na capacidade de manter a manobrabilidade durante a maior parte da trajetória, o que faz com que sejam muito mais difíceis de rastrear e interceptar do que os mísseis balísticos tradicionais, que voam numa trajetória previsível que pode ser mais facilmente rastreada.

Existem dois tipos primários de mísseis hipersônicos:

  • Veículo Planador Hipersônico (HGV, Hypersonic Glide Vehicle) que é lançado por um motor foguete, similar ao usado pelos mísseis balísticos, chega até a atmosfera superior ou ao espaço próximo, onde o planador é ejetado e voa para seu destino “deslizando” ao longo da atmosfera superior (entre 30 e 100 km de altitude);
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AGM-183A em um bombardeiro B-52 Stratofortress. Este míssil é um HGV; o planador está encapsulado dentro da cabeça do míssil (Foto: USAF).

  • Míssil de Cruzeiro Hipersônico (HCM, Hypersonic Cruise Missile) é alimentado durante todo o voo de cruzeiro até seu destino por motores a jato avançados, como os Scramjets (Supersonic Combustion Ramjet), que são acionados após uma aceleração inicial fornecida por um pequeno motor auxiliar.
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Um míssil hipersônico X-51A Waverider da Força Aérea dos EUA sob a asa de um bombardeiro B-52H Stratofortress. O X-51A é um HCM (Foto: USAF).

Tanto o HGV quanto o HCM podem ser lançados a partir de plataformas terrestres, aéreas ou marítimas. Enquanto o HGV plana entre 30 e 100 km de altitude a uma velocidade de até Mach 25, o HCM voa entre 30 e 50 km a uma velocidade de até Mach 10, porém com mais flexibilidade e capacidade de manobra do que o HGV.

Portanto, o HGV é mais manobrável do que um míssil balístico, mas menos do que um HCM. O HCM é mais lento por utilizar um motor de menor impulso mas que queima por mais tempo. Isso permite que ele use o motor durante todo o trajeto, o que lhe confere maior manobrabilidade. O HGV é impulsionado por um veículo lançador com motor foguete de maior poder “bruto” e portanto mais veloz, mas ao separar-se do veículo lançador ele viaja com força inercial e por isso tem menor capacidade de manobra; nessa fase o HGV funciona de maneira similar a um planador tradicional, só que a uma velocidade muitíssimo mais alta.

Avangard, o “Veneno”

O míssil russo Avangard, anteriormente conhecido como Projeto 4202 ou Yu-71, é um HGV. Ele vem sendo desenvolvido desde 2004 e testado desde fevereiro de 2015. Supostamente pode atingir velocidades acima de Mach 20 (aprox. 24.000 km/h) e seria capaz de manobras evasivas abruptas em altíssima velocidade; tem alcance de mais de 6.000 km, pesa aproximadamente 2.000 kg e pode entregar carga nuclear ou convencional.

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“Screenshot” de vídeo do Ministério da Defesa da Rússia mostrando o sistema de mísseis estratégicos hipersônicos Avangard (Imagem: Al Jazeera).

Foi projetado para ser transportado pelo UR-100UTTKh, RS-26 Rubezh ou RS-28 Sarmat; uma vez em seu apogeu sub-orbital a cerca de 100 km de altitude, o veículo planador se separa do lançador e segue em direção ao alvo pela atmosfera. Não há imagens disponíveis; no entanto, de acordo com o CSIS Missile Defense Project, é provável que ele seja um projeto curto em forma de cunha ou ônibus espacial com pequenas aletas estabilizadoras.

Em março de 2018, o presidente russo Vladimir Putin anunciou que o teste da arma estava completo e havia entrado em produção em série. Na ocasião Putin comparou o sistema a um “meteorito” ou uma “bola de fogo”. Em teste realizado em dezembro de 2018, o Avangard foi lançado da base de mísseis Dombarovsky, nos Montes Urais, e atingiu um alvo a 6.000 km de distância na província de Kamchatka.

Finalmente, em 27 de dezembro de 2019, o Ministério de Defesa da Rússia anunciou a entrada e serviço do primeiro regimento de mísseis Avangard. Putin declarou que o sistema pode penetrar nos atuais e futuros sistemas de defesa antimísseis, e acrescentando que “nenhum país possui armas hipersônicas, muito menos armas hipersônicas de alcance continental”.

Implicações estratégicas

O Avangard é uma arma estrategicamente valiosa tanto por sua manobrabilidade como pela versatilidade. Especula-se que é capaz de contramedidas durante o voo, o que lhe permitiria penetrar defesas antiaéreas e antimísseis praticamente sem ser detectado. Além disso, acredita-se que sua alta precisão e velocidade possibilitariam obliterar alvos menores, como veículos ou determinadas instalações, mesmo sem uma carga explosiva, apenas pela energia cinética. Todas essas características fariam dele uma arma inestimável no arsenal russo.

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“Screenshot” de vídeo divulgado pelo Ministério de Defesa da Rússia mostra míssil planador hipersônico Avangard em separação do veículo lançador (Imagem: ANF News).

No entanto, alguns analistas ocidentais são bastante céticos e especulam que é difícil determinar se o sistema realmente entrou em operação, ou se apenas iniciou uma fase avançada de testes de campo. Ainda assim, afirmam que, se ele realmente entrou em serviço, a Rússia desenvolveu um sistema de mísseis de longo alcance do qual pode ser muito difícil defender-se; e o fato de ser capaz de transportar ogivas nucleares pode prenunciar uma nova corrida nuclear.

Por outro lado, alguns veem o sistema russo como uma estratégia de longo prazo para lidar com o interesse perene dos EUA em defesas antimísseis. Um dos argumentos americanos recorrentes, que seus sistemas de defesa são projetados para combater mísseis de “estados desonestos” como o Irã ou a Coréia do Norte, tem pouca receptividade em Moscou.

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  • Em inglês
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Em 10 de janeiro passado, em uma teleconferência sobre as principais esferas de atividade do Ministério da Defesa da Rússia para o ano de 2020, o ministro da defesa, Sergei Shoigu, afirmou que estava ordenando o monitoramento do desdobramento de mísseis de curto e médio alcance dos EUA. Segundo ele, será realizada uma análise profunda de possíveis ameaças militares com vistas ao delineamento de medidas de melhoria das forças armadas russas. Ele também observou que as forças de mísseis estratégicos da Rússia devem ser reequipadas com os mísseis Avangard e Yars.

Programa Glide Breaker, o “Antídoto”

As forças armadas americanas consideram o desenvolvimento de mísseis hipersônicos manobráveis ​​ como um grande desafio estratégico. Paul Selva, ex-vice-chefe de gabinete da Força Aérea, afirmou no ano passado que um míssil viajando a Mach 13 ao norte da Baía de Hudson tem velocidade residual suficiente para atingir todos os 48 estados continentais dos EUA e todo o Alasca. “Você pode apontar para a esquerda ou direita e atingir o Maine ou o Alasca, ou atingir San Diego ou Key West”, disse ele, classificando a questão como um “problema monstruoso”.

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Representação gráfica do Glide Breaker (Imagem: DARPA – Defense Advanced Research Projects Agency).

Em tese, não é difícil interceptar um sistema de planadores hipersônicos: eles certamente aparecem nos sensores de radar e infravermelho. Eles voam tão rápido quanto ogivas de mísseis balísticos, e sistemas como o THAAD (Terminal High Altitude Area Defense, Defesa de Área de Alta Altitude) e talvez até o Patriot PAC-3 deveriam, teoricamente, ser capazes de intercepta-los. O problema é detectar ameaças em alta velocidade vindo de várias direções, incluindo ar, terra e mar. A capacidade de lançar um grande número de mísseis contra os EUA de direções inesperadas complica a capacidade de derrubar a todos.

Para fazer frente a essas ameaças, os EUA vem aumentando seus investimentos tanto em armas hipersônicas como em sistemas de defesa contra elas. Todos os principais ramos das forças armadas americanas tem programas nesse sentido em conjunto com a DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency). Como parte dessas iniciativas, em 2018 foi lançado o programa Glide Breaker.

De acordo com Thomas Karako, do International Security Program e diretor do projeto de defesa de mísseis do Center for Strategic and International Studies, uma das formas de interceptar um míssil hipersônico manobrável é trata-lo mais como uma aeronave do que como míssil balístico, e a melhor maneira de rastreá-lo é a partir do alto. Por isso é muito importante investir na camada de sensores espaciais, diz ele, referindo-se aos esforços do Pentágono no sentido de obter uma nova constelação de satélites. Ele afirma que um míssil em alta velocidade, sob muita pressão térmica, não é de forma alguma invencível. Ao contrário, “eles têm muitas vulnerabilidades”, acrescentando que “para derruba-lo, pode-se reunir várias abordagens diferentes, incluindo guerra cibernética ou eletrônica”.

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Em 27 de janeiro último, a DARPA concedeu à Northrop Grumman um contrato de US$ 13 milhões para o programa Glide Breaker. Esse contrato prevê pesquisa, desenvolvimento e demonstração de tecnologia capaz de enfrentar as ameaças hipersônicas manobráveis.

A Northrop Grumman vem trabalhando no Sistema Integrado de Comando de Batalha Aérea e de Defesa contra Mísseis (IBCS, Integrated Air and Missile Defense Battle Command System). O IBCS foi projetado para integrar os radares e as armas antiaéreas do exército americano em um único sistema de defesa aérea integrado para defender unidades terrestres contra drones, mísseis de cruzeiro e outras armas ar-terra. Se o sistema puder ser escalado para cobrir uma área muito maior, poderia se transformar na base para a defesa contra mísseis hipersônicos. No entanto, ainda não está claro o que a Northrop Grumman está planejando para o Glide Breaker.

Segundo Karako, os EUA devem levar a ameaça do Avangard a sério, mas ele insiste que é preciso questionar o que a Rússia pode fazer agora que não poderia fazer antes, pois possui um número de ICBM muito mais do que suficiente para atingir os EUA. De acordo com ele, o real valor de uma arma hipersônica é atacar com muita rapidez em conflitos mais próximos do território russo ou chinês, portanto seu valor tático seria bem mais preocupante do que o seu potencial estratégico.

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Referências

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*Albert Caballé Marimón possui formação superior em marketing, é fotógrafo profissional e editor do blog Velho General. Já atuou na cobertura de eventos como a Feira LAAD, o Exercício CRUZEX e a Operação Acolhida. É colaborador da revista Tecnologia & Defesa e do Canal Arte da Guerra, onde, entre outras atividades, mantém uma resenha semanal de filmes e documentários militares. Pode ser contatado através do e-mail caballe@gmail.com.


 

6 comentários sobre “Veneno & Antídoto: o míssil Avangard e o programa Glide Breaker

  1. Tendo em vista que a única coisa que impediu a terceira guerra Mundial foi o acordo para nenhum país desenvolver uma defesa contra as armas nucleares, ela acontecerá nos próximos anos.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Nao entendo porque o Brasil nao desenvolve esse tipo de arma que pode ser o míssil primeiro como o Indiano e Russo Bhamos acho que se escreve assim rs , tambem a MB seus próprios Torpedos o pesado e o leve e tambem seus mísseis antiaéreos nos navios , FAB nos aviões com um míssil de longo alcance, e terra ar dos sistemas antiaéreos nas tres forças .

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