Cemitério de Invasores: A Geografia Militar do Iêmen

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

Em um cenário de assimetria extrema, a geografia implacável e a engenharia de guerra subterrânea do Iêmen transformam o país em um pesadelo logístico e um cemitério de invasores, demonstrando que o poder bélico moderno é frequentemente anulado pela resiliência de quem domina o terreno.


Deve-se começar o fácil como se fosse difícil e o difícil como se fosse fácil.” – Aforismo nº 75 de “A Arte da Prudência”, de Baltasar Gracián.

Nesta oportunidade, com um tema relativamente novo e provocativo, investigamos as complexas dinâmicas militares e históricas do Iêmen que justificam sua alcunha secular de “Cemitério de Invasores” (ou Cemetery of Invaders).

Veremos que a citação na epígrafe conecta-se diretamente à análise dos estudos de Estado-Maior Conjunto na Escola Superior de Guerra sobre o tema, pois expõe a necessidade de os planejadores militares reconhecerem que, em cenários assimétricos, o “fácil”, modus operandi da doutrina americana (bombardeio aéreo), pode ser enganoso, enquanto que o “difícil” (guerra de túneis e guerrilha nas montanhas) pode ser mais factível para o defensor do que para o invasor.

Assim, uma combinação entre a engenharia de fortificações subterrâneas contemporânea e o histórico secular de resistência a potências estrangeiras ilustra por que o território permanece politicamente inconquistável. A geografia do Iêmen é considerada um dos cenários mais hostis do planeta para forças expedicionárias.

Para a Arábia Saudita (ao norte), para os vizinhos a leste (como Omã) ou para uma força anfíbia vinda do sul (mar), qualquer tentativa de invasão seguida de ocupação terrestre representa um pesadelo estratégico devido a uma combinação letal de topografia punitiva, assimetria tecnológica e barreiras naturais.

Em uma eventual operação militar de invasão e ocupação terrestre no Iêmen, os Estados Unidos enfrentariam um colapso estratégico previsível, replicando e amplificando os fracassos históricos do Vietnã e do Afeganistão.

Introdução

A análise do Iêmen como “Cemitério de Invasores” transcende o interesse histórico ou regional para se firmar como estudo de caso paradigmático, tanto para os pesquisadores e leitores do Blog Velho General, quanto para os currículos de Segurança Internacional e Defesa da Escola Superior de Guerra (ESG). Isto porque, para a ESG, o tema é crucial, por três razões interligadas:

Primeiro, porque desmonta a falácia da superioridade tecnológica de países do Ocidente como fator determinante para a vitória em conflitos assimétricos, demonstrando que variáveis “intangíveis” – como a geografia extrema, a engenharia social de resistência e as fortificações subterrâneas – podem anular a vantagem operacional de potências globais, exatamente como previsto na doutrina de “Zonas de Exclusão Aérea” e “Guerra Híbrida”.

Segundo, porque expõe as limitações estratégicas do poder militar convencional em cenários de “Estado Falido” ou de “Atores Não Estatais”, como os houthis, demonstrando grande capacidade de negação de área (A2/AD) e forçando o planejamento militar a revisar a interdependência entre os domínios terrestre, marítimo e aéreo, especialmente no que tange à vulnerabilidade logística em estreitos críticos como Bab el-Mandeb.

Terceiro, e mais importante para a ESG, o caso iemenita oferece uma lição clássica sobre o “custo estratégico” e a “sustentabilidade política” de intervenções prolongadas: ao replicar os erros do Vietnã e do Afeganistão, ele reforça a máxima de que ocupações territoriais em terrenos hostis com populações ideologicamente mobilizadas geram um desgaste financeiro, humano e geopolítico incompatível com os interesses nacionais de longo prazo, validando a necessidade de priorizar soluções diplomáticas e de inteligência em detrimento de soluções militares unilaterais.

Assim, o estudo do Iêmen serve como laboratório estratégico para a ESG, onde os oficiais-generais das três forças no Curso de Estado-Maior Conjunto (CEMC) podem extrair ensinamentos sobre planejamento de campanhas, gestão de riscos operacionais e a arte de reconhecer os limites do poder bélico diante de adversários que dominam o terreno físico e o tempo histórico.

O Iêmen

O Iêmen ocupa uma posição singular no imaginário geopolítico e militar global. Conhecido historicamente como Arabia Felix1 pelos romanos devido à sua riqueza em comércio de incenso e especiarias, o território iemenita carrega consigo uma reputação secular que desafia a ambição de conquistadores e impérios.


Mapa temático baseado em dados geográficos do Iêmen e análise estratégica do estreito de Bab el-Mandeb.

Ao longo de mais de dois milênios, de legionários romanos a modernas coalizões equipadas com tecnologia de ponta, o Iêmen demonstrou uma notável capacidade de frustrar invasores, absorver ataques e transformar campanhas militares em atoleiros estratégicos.

Esta alcunha – “Cemitério de Invasores” – não é mera hipérbole retórica, mas um diagnóstico geopolítico enraizado em fatores objetivos: uma geografia implacável, uma estrutura social tribal fragmentada, uma tradição de resistência assimétrica e, contemporaneamente, uma engenharia de guerra subterrânea que neutraliza as vantagens tecnológicas das potências modernas.

Você não entende que estou sentado sobre um ninho de cobras e escorpiões, e verá o que acontecerá assim que eu for embora.” – Ali Abdullah Saleh.

A frase, do ex-presidente iemenita Ali Abdullah Saleh (que governou de 1990 a 2011, e novamente de forma contestada até 2017), captura com precisão cirúrgica a essência da ingovernabilidade do Iêmen, onde sua profecia se cumpriu tragicamente: após sua deposição em 2011 e morte em 2017, o Iêmen mergulhou em uma guerra civil multifacetada que confirmou a natureza “caótica” e “fragmentada” que ele tão vividamente descreveu.

A frase, portanto, dialoga diretamente com o tema do artigo, pois ilustra a complexidade tribal que qualquer invasor subestima, reforça a ideia de que o Iêmen não é um Estado convencional, mas um mosaico de lealdades que se voltam contra forasteiros, e antecipa o fracasso de ocupações estrangeiras, pois o “ninho de cobras e escorpiões” não é uma metáfora vazia: é a descrição de um terreno humano e geográfico que pune quem nele se aventura sem compreender suas dinâmicas profundas.

À luz deste contexto, buscamos analisar de forma sistemática os elementos que compõem essa invulnerabilidade estratégica, partindo das táticas de guerra em túneis nas montanhas de Sadah, passando pelo histórico de campanhas militares fracassadas, e culminando em uma avaliação prospectiva sobre a inviabilidade de uma intervenção militar estadunidense no país. Para tanto, utilizaremos como referência estudos históricos e análises contemporâneas que iluminam as dimensões geográficas, tecnológicas e políticas desse fenômeno.

1. As Táticas de Guerra de Túneis nas Montanhas de Sadah

A província de Sadah, localizada no extremo noroeste do Iêmen, serve como bastião histórico e quartel-general espiritual do movimento Houthi (Ansar Allah). Ao longo de décadas de conflitos internos contra o governo central e forças estrangeiras, os insurgentes transformaram a geologia montanhosa da região em uma rede de defesa assimétrica tridimensional profunda.

A topografia de Sadah é repleta de cavernas calcárias e vulcânicas naturais. Os engenheiros militares do grupo expandiram essas formações usando maquinário de mineração pesado para cavar túneis profundos na rocha sólida, tornando-os imunes às munições perfurantes de bunker convencionais de aeronaves ocidentais e sauditas.

Essa capacidade de escavação representa uma evolução significativa em relação às táticas de guerrilha tradicionais, criando uma infraestrutura defensiva que desafia a própria lógica do poder aéreo moderno (Salisbury, 2018).

É possível que haja células subterrâneas complexas divididas em salas conectadas para operações, dormitórios, hospitais de campanha e comunicações com fios de fibra ótica isolados da internet. Essa arquitetura presumidamente defensiva protege a liderança de assassinatos por drones de reconhecimento, garantindo a continuidade do comando mesmo sob intensos bombardeios. A descentralização dessas estruturas impede que um único ataque aéreo possa decapitar a organização.

Mísseis balísticos de grande porte e drones de longo alcance são estocados e montados inteiramente no subsolo. Plataformas hidráulicas camufladas e poços verticais ocultos na vegetação das encostas permitem que um lançador de mísseis emerja, dispare contra alvos na Arábia Saudita ou no Mar Vermelho, e retorne ao subsolo em poucos minutos.

Esta capacidade de “atirar e sumir” em escala balística representa uma inovação tática que neutraliza a superioridade aérea do inimigo (Orcibal, 2020).

Os túneis conectam diferentes cumes e desfiladeiros montanhosos. Quando infantarias inimigas tentam avançar pelos vales (wadis), os combatentes houthis flanqueiam as tropas através de saídas de túneis ocultas instaladas nas retaguardas ou nas encostas superiores do oponente. Esta mobilidade subterrânea transforma o campo de batalha em um espaço tridimensional onde o defensor detém vantagem tática absoluta.


Infográfico baseado na análise tática da província de Sadah, ilustrando a defesa assimétrica tridimensional (Salisbury, 2018; Orcibal, 2020).

2. Histórico de Campanhas Militares Fracassadas no Iêmen

Com base nas pesquisas realizadas, a resistência geográfica iemenita barrou as ambições imperiais de grandes potências em diferentes épocas históricas, consolidando uma tradição de invencibilidade que perdura até o presente.

O imperador Augusto enviou o general Élio Galo liderando 10.000 legionários romanos para conquistar o território do atual Iêmen (conhecido pelos romanos como Arabia Felix devido ao monopólio do comércio de incenso e especiarias). Assim, guiados por rotas traiçoeiras através do deserto por aliados nabateus não confiáveis, as legiões enfrentaram doenças, desidratação severa e o relevo impenetrável. Galo sitiou a cidade de Marib, mas o colapso logístico forçou uma retirada humilhante, fazendo Roma abandonar planos de conquista terrestre da península de forma permanente (Dresch, 2000).

Os turcos otomanos também tentaram subjugar o Iêmen em duas grandes fases (1538-1635 e posteriormente 1849-1918), com o objetivo de assegurar as rotas comerciais do Mar Vermelho e legitimar o califado nas cidades sagradas vizinhas. Embora tenham controlado áreas costeiras como Aden e Hodeidah, o avanço em direção ao interior montanhoso do norte esbarrou na feroz resistência da resistência Zaidita (ancestrais dos houthis). A guerra de guerrilha nas montanhas causou dezenas de milhares de baixas nas tropas otomanas devido a emboscadas e doenças, gerando o provérbio militar turco de que o Iêmen era o “cadinho onde o exército imperial derretia” (Voltaire, 2015).

A seu turno, o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser enviou um contingente de mais de 70.000 soldados altamente equipados para apoiar os republicanos do Iêmen do Norte contra os monarquistas zaiditas apoiados pela Arábia Saudita.

Como foi a derrota: Munidos de tanques soviéticos e superioridade aérea, os egípcios ficaram atolados no terreno montanhoso, e a insurgência iemenita utilizou o relevo para cortar suas linhas de suprimento e infligir pesadas perdas com táticas de atrito.

Assim, a campanha militar exauriu a economia e o Exército do Egito de tal forma que ficou conhecida na historiografia moderna como o “Vietnã do Egito”, enfraquecendo criticamente as forças de Nasser antes da Guerra dos Seis Dias contra Israel (Brinkley, 2005).

Já a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e outros aliados iniciaram a Operação Tempestade Decisiva com apoio tecnológico ocidental para reverter a tomada de Sana pelos houthis e restaurar o governo iemenita internacionalmente reconhecido.

Como se deu o fracasso: Apesar de anos de superioridade aérea absoluta e intensos bombardeios táticos, a coalizão foi incapaz de retomar o controle terrestre do norte do Iêmen ou de erradicar os sistemas subterrâneos em Sadah. As forças terrestres estrangeiras sofreram pesadas baixas em emboscadas nos desfiladeiros fronteiriços, culminando em negociações diretas de cessar-fogo em que Riad acabou por reconhecer a inviabilidade militar da operação (Salisbury, 2018).


Tabela elaborada com base em Dresch (2000), Voltaire (2015), Brinkley (2005) e Salisbury (2018).

4. Fatores Geográficos e Táticos da Inviabilidade Militar

Para nivelar o conhecimento dos leitores, por exemplo, as Operações Anfíbias da Marinha do Brasil são regidas por quatro princípios basilares de guerra que ditam o emprego integrado de tropas e meios navais, quais sejam:

Mobilidade: O mar é utilizado como espaço de manobra para contornar defesas inimigas, garantindo velocidade e flexibilidade tática ao atacar pontos fracos do litoral.

Massa (Concentração de Meios): Busca-se concentrar poder de combate, homens e fogos em um ponto específico e no momento decisivo para superar a resistência local.

Surpresa: Realização do ataque em locais, horários ou utilizando meios inesperados, dificultando a reação do oponente.

Segurança: Conjunto de medidas adotadas para proteger a Força-Tarefa Anfíbia contra ações de inteligência, sabotagem ou ataques do inimigo durante a travessia e o desembarque.

Avaliando um eventual Ambiente Operacional e Análise de Missão com base na Doutrina de Operações Conjuntas (MD30-M-01/Vol 2ª Edição/2020), a costa iemenita não oferece facilidades para desembarques anfíbios convencionais em larga escala, vejamos:

A Planície de Tihama, na faixa costeira ocidental (Mar Vermelho), é uma planície árida, perfeitamente plana e desprovida de cobertura natural. Qualquer força que desembarque ali fica completamente exposta ao fogo de artilharia e mísseis guiados disparados a partir das montanhas logo adiante.

Além disso, atrás das praias do Mar Vermelho e do Golfo de Aden erguem-se abruptamente as Montanhas Sarawat. Isso significa que, logo depois de sair da água, os invasores enfrentam gargalos de subida (desfiladeiros e estradas sinuosas) controlados por defensores posicionados em pontos elevados. Esta configuração geográfica transforma qualquer operação anfíbia em uma previsível zona de abate.


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Realizar uma aproximação naval contra o Iêmen (especialmente no noroeste, controlado pelos houthis) tornou-se uma missão de altíssimo risco. Apoiados por tecnologia de mísseis antibalísticos, minas navais e drones fornecidos pelo Irã, os defensores locais transformaram o estreito de Bab el-Mandeb em uma barreira de negação de área (A2/AD). Frotas de desembarque e navios de guerra da coalizão correm o risco de serem afundados antes mesmo de colocar tropas na praia.

Ademais, o litoral iemenita é recortado por pequenas enseadas e redes de cavernas costeiras. Os defensores utilizam essa geografia para ocultar lançadores móveis de mísseis e barcos explosivos controlados remotamente, atacando navios invasores com táticas de emboscada marítima que multiplicam o fator surpresa.

Levando mais longe a análise, mesmo que uma força invasora consiga consolidar uma cabeça de praia, avançar em direção ao interior do país ativa o verdadeiro moedor de carne geográfico. O norte e o centro do Iêmen são compostos por montanhas escarpadas que passam dos 3.000 m de altitude, onde se localizam grandes centros urbanos como Sana.

Por consequência, esse terreno anula completamente a principal vantagem da Arábia Saudita e seus aliados: a superioridade em blindados pesados e apoio aéreo mecânico.

Os tanques ficam presos em vales profundos e estradas estreitas, tornando-se alvos fáceis para armas antitanque portáteis. As montanhas são cortadas por milhares de wadis (vales secos que se inundam repentinamente) e redes de túneis naturais.

Por isso comunidades locais e milícias tribais usam o conhecimento milenar desse terreno intransitável para fragmentar as linhas de suprimento do invasor, forçando uma guerra de guerrilha descentralizada que exaure recursos e vidas.

Tentar uma invasão terrestre contornando o mar por terra a partir do norte/nordeste (fronteira saudita) ou do leste esbarra no Rub’ al-Khali (o “Quarto Vazio”). Este é um dos maiores desertos de areia contínuos do mundo. Cruzar essa região exige linhas de suprimento monstruosas de combustível e água através de um vazio demográfico absoluto.

Ao tentar evitar o deserto profundo, as forças terrestres da Arábia Saudita são afuniladas de volta às passagens de montanha na província fronteiriça de Sadah. Esse afunilamento geográfico permite que poucos defensores locais contenham exércitos inteiros usando táticas de obstrução e minas terrestres, tornando qualquer avanço terrestre um exercício de previsível fracasso.

5. Inviabilidade de uma Invasão Americana


Raio operacional de forças adversárias frente ao alcance da artilharia dos houthis.

A princípio, uma eventual operação militar de invasão e ocupação terrestre dos Estados Unidos no Iêmen enfrentaria um colapso estratégico previsível, replicando e amplificando os fracassos históricos do Vietnã e do Afeganistão.

Neste “jogo das classes dominantes”, embora o Pentágono possua capacidade “discutível” para destruir a infraestrutura visível por meio de bombardeios navais e aéreos, a tentativa de dominar o terreno e subjugar o movimento Houthi esbarraria em barreiras geográficas, tecnológicas e assimétricas intransponíveis, que os EUA não teriam condições de suportar sem apoio interno do povo e do Congresso.

Simulando uma correta definição do problema militar e dos objetivos operacionais, temos que, o primeiro estágio do fracasso ocorreria na tentativa de estabelecer e suprir uma base de operações em terra firme.

Mísseis balísticos antinavio, drones submarinos e minas marítimas inteligentes fornecidos pelo Irã criariam uma zona de exclusão letal em torno do estreito de Bab el-Mandeb.

Navios de desembarque anfíbio dos EUA (como as classes Wasp ou America) seriam alvos vulneráveis a ataques de saturação, forçando a frota a operar a centenas de quilômetros de distância da costa.

Para desembarcar blindados e suprimentos pesados, os EUA precisariam capturar portos de águas profundas como Hodeidah. No entanto, a infantaria houthi transformaria a infraestrutura portuária em uma zona de guerra urbana fortificada e minada. Logo, os suprimentos desembarcados teriam que atravessar a sufocante e exposta planície de Tihama, onde comboios logísticos seriam dizimados por emboscadas diárias.

A já defasada espinha dorsal da doutrina militar americana – a superioridade aérea total – seria neutralizada pela geografia subterrânea do norte do Iêmen. Como demonstrado nas montanhas de Sadah, os houthis operam em redes de túneis profundos escavados em rocha vulcânica e granito sólido. Mesmo munições pesadas guiadas por satélite (como as GBU-28) falhariam em colapsar esses complexos, permitindo que a liderança e os arsenais de mísseis do grupo permanecessem intactos.

Satélites e drones de reconhecimento dos EUA teriam extrema dificuldade para rastrear alvos em um relevo tão acidentado. Os houthis utilizam táticas antiquíssimas de “atirar e sumir”, emergindo de poços camuflados para disparar e retornando ao subsolo antes que aeronaves americanas possam reagir.

Com isso, o custo financeiro de empregar mísseis interceptadores de milhões de dólares contra drones de poucos milhares de dólares exauriria o orçamento militar dos EUA a médio prazo.


Gráfico ilustrativo demonstrando a assimetria de custos em operações de negação de área no Iêmen.

Em tese, se as forças terrestres americanas tentassem avançar em direção à capital, Sana, situada a mais de 2.200 m de altitude, o relevo ditaria a destruição de suas colunas blindadas. Tanques M1 Abrams e veículos Stryker ficariam confinados a estradas estreitas e sinuosas que cortam desfiladeiros profundos.

Pontes explodidas e deslizamentos de terra provocados isolariam batalhões inteiros em “zonas de abate”, onde seriam atacados de posições elevadas por equipes de infantaria leve equipadas com mísseis antitanque guiados (ATGMs).

O combatente houthi é historicamente aclimatado às altitudes extremas, possui conhecimento íntimo do terreno fragmentado e é altamente motivado por uma ideologia religiosa anti-imperialista.

Por isso, a infantaria dos EUA enfrentaria exaustão física precoce, linhas de comunicação rompidas e incapacidade de receber apoio aéreo aproximado devido às condições meteorológicas e geográficas das montanhas.

O fracasso militar seria selado pela insustentabilidade política e geopolítica da ocupação. A presença de tropas “infiéis” ocidentais em solo iemenita atuaria como um poderoso catalisador de recrutamento. Facções tribais que hoje rivalizam com os houthis se aliariam a eles temporariamente ou abririam frentes secundárias de guerrilha contra os americanos, transformando o país em um teatro de insurgência total e multifacetado.

Incapazes de deter a máquina de guerra americana em um confronto direto clássico, os houthis e seus aliados regionais (o “Eixo de Resistência”) expandiriam o conflito.

Mísseis e drones de longo alcance atingiriam refinarias de petróleo na Arábia Saudita, portos nos Emirados Árabes Unidos e bases americanas no Catar e no Bahrein, provocando um choque energético global e forçando os aliados regionais de Washington a retirar o apoio à operação.

Com base no “Conceito de Vitória na Guerra Contemporânea à Luz da Teoria da Estratégia” do professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), Sandro Teixeira Moita, a presente investigação sobre o Iêmen sustenta que a vitória militar não pode ser reduzida ao mero controle territorial ou à destruição do inimigo, devendo antes ser compreendida como um fenômeno que integra dimensões políticas, estratégicas e morais indissociáveis.

Aplicado ao caso iemenita, o conceito do professor Teixeira ilumina o paradoxo central que atravessa o artigo: enquanto potências invasoras (romanas, otomanas, egípcias, sauditas e potencialmente americanas) definem vitória em termos operacionais – conquista de capitais, aniquilação de forças adversárias, imposição de governos fantoches –, a realidade do conflito demonstra que tais objetivos são ilusórios diante da geografia implacável e da resiliência assimétrica dos defensores.

À Guisa de Conclusão

Historicamente, o Iêmen ganhou a reputação de “Cemitério de Invasores” da Península Arábica, desde vencer os Otomanos até a frustração das incursões modernas da coalizão saudita. Sua geografia “pune” quem ataca e “protege” quem defende, transformando qualquer tentativa de ocupação total em um sumidouro militar e financeiro inviável.

Em seu clássico tratado Da Guerra (frequentemente citado em conjunto com Os Princípios da Guerra), Carl von Clausewitz descreve a dinâmica entre ataque e defesa baseada na assimetria de vantagens. Para ele, defensores e atacantes devem orientar suas estratégias por dois princípios principais.

Para o defensor, a primazia da defesa, usando o princípio da espera ativa: Clausewitz explica que a defesa é a forma de combate mais forte em sua essência. O princípio central do defensor é absorver o impacto inicial e aguardar o momento em que o atacante “comete erros” ou se desgasta energeticamente (o chamado “ponto culminante”), o que os EUA tem demonstrado fazer com eficiência e eficácia…

Utilização do terreno e economia de forças: é onde o defensor deve usar o espaço geográfico a seu favor para infligir o máximo de baixas ao inimigo utilizando menos recursos, preparando-se para contra-atacar no momento de fraqueza do oponente.

Por conseguinte, uma invasão americana resultaria em um atoleiro militar pior que o do Afeganistão. A geografia do Iêmen aumenta os custos da tecnologia pesada e recompensa a resiliência da infantaria leve nativa, garantindo que qualquer vitória tática inicial dos EUA se dissolvesse em uma derrota estratégica catastrófica de longo prazo, isso sem considerar seu custo energético (petróleo) e de armas de difícil substituição, com insumos críticos (semicondutores e terras raras) e de alto custo de reposição.

A lição que emerge da história militar do Iêmen e pode ser aplicada a qualquer país é clara: o país não é um território a ser conquistado, mas um espaço a ser compreendido em sua complexidade, onde geografia, história e cultura tecem uma trama dramática e existencial de resistência que desafia qualquer pretensão imperial.

Em alto e bom som: O “Cemitério de Invasores” permanece aberto para novos hóspedes, mas sua história sugere que o custo da entrada é invariavelmente superior ao de qualquer saída triunfante, colocando em xeque as grandes potências ocidentais que buscam o último grande chokepoint ainda não controlado.

Nota

1 “Arábia Feliz” (Arabia Felix) era o nome dado pelos romanos à região sudoeste da Península Arábica, cobrindo os atuais territórios do Iêmen e do Omã. A palavra “felix” em latim significa fértil ou afortunada, em contraste com as áreas áridas do norte.

Referências Bibliográficas

DRESCH, Paul. A History of Modern Yemen. Cambridge: Cambridge University Press, 2000. (Obra fundamental para entender o papel do tribalismo, do Zaidismo e a fragmentação geográfica norte-sul). https://catdir.loc.gov/catdir/samples/cam031/00029266.pdf.

MOITA, Sandro Teixeira. Victoria Triumphalis, entre Mars Gradivus e Minerva Victrix: o Conceito de Vitória na Guerra Contemporânea à Luz da Teoria da Estratégia. 2020. Tese (Doutorado em Ciências Militares) – Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 2020. https://bdex.eb.mil.br/jspui/handle/123456789/8220.

MONTEIRO LIMÃO, José Pedro Coelho. O Significado do Iémen no Grande Médio Oriente. 2022. Dissertação (Mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais: Segurança e Defesa) – Universidade Autónoma de Lisboa, Lisboa, 2022. https://repositorio.ucp.pt/entities/publication/f61c5655-985f-4b47-9089-760fa5a4631c.

PINTO, Pedro Miguel Nunes. Conflito no Iémen: A Expansão do Controlo dos Houthis e as Repercussões Geopolíticas para o Médio Oriente: as Relações entre a Arábia Saudita e o Irão (2015-2021). 2022. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) – Universidade Autónoma de Lisboa, Lisboa, 2022. https://repositorio.ulisboa.pt/bitstreams/8311380e-3f40-4544-be1d-528bdda5a46c/download.

SALISBURY, Peter. Yemen: National Chaos, Local Order. London: Chatham House Report, 2018. (Análise contemporânea dos conflitos no Iêmen, a economia de guerra Houthi e a resistência à coalizão saudita). https://www.chathamhouse.org/sites/default/files/publications/research/2017-12-20-yemen-national-chaos-local-order-salisbury2.pdf.

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