Sylvio Pessoa da Silva*

Os Estados Unidos celebram 250 anos de independência como o maior caso de ascensão geopolítica da história: um país forjado por imigrantes, favorecido pela geografia e guerras alheias, que conquistou hegemonia global esquecendo as lições que o alçaram a essa posição.
“Consideramos as seguintes verdades evidentes por si mesmas, a saber, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais figuram a vida, a liberdade, e a busca da felicidade.” – Trecho da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América.
Diante das comemorações dos 250 anos de independência (1776), surgem reflexões sobre alguns eventos que alçaram os Estados Unidos da América (EUA) à condição de potência mundial, no papel de protagonista recente dos destinos da humanidade. O país, com o passar dos anos e de forma crescente, alterou a balança do poder mundial e impôs novas realidades econômicas, sociais, científicas e tecnológicas, e político-militares. A partir desse entendimento, destaco que os homens que decidem, planejam e executam as guerras, nem sempre conseguem visualizar os custos, riscos e consequências indesejáveis.
Como desdobramento das palavras iniciais, selecionamos características nacionais e fatos históricos ricos em ensinamentos, com destaque para os acontecimentos na Europa, que facilitaram a ascensão norte-americana. No início, repudiavam a sociedade imperial e, na República, formaram a maior democracia representativa, ainda que imperfeita. O jovem país nascido de imigrantes na busca da “terra prometida” e dos ideais semeados pelos pais fundadores da nação, substituiu as potências ultramarinas europeias há cerca de um século, após vários períodos de guerra no Velho Continente.
Durante os últimos 250 anos, a população norte-americana tornou-se uma referência quando observamos seu desenvolvimento econômico e protagonismo científico-tecnológico, mas permitiram a ascensão dos trustes. A base de boa parte da economia dos EUA foi alicerçada a partir da criatividade, abnegação, empreendedorismo, capacidade de gestão e geração científica entre outros fatores. No âmbito governamental, destacamos a meritocracia (Lei Pendleton, de 1883), assim como o combate à corrupção e as necessárias reformas do presidente Cleveland (1885-1889), mas que aproximaram políticos e empresários, a mistura mortal de democracia e dólares. Como reação social, surgiram o Movimento Populista e o Partido Populista (para outros detalhes ver KEANE, John. 2010, p. 321), o Movimento Progressista e o Partido Progressista (Bull Moose Party), e a semente do fundamentalismo cristão.
A geografia física tem sido, certamente, um outro elemento que muito favoreceu a defesa desse gigante territorial. A peculiaridade de possuir uma costa no Atlântico e outra no Pacífico se conjuga às fronteiras com apenas dois Estados, México e Canadá. Ainda, o país foi favorecido com riquezas naturais e solos férteis que, em grande parte, atendem às demandas econômicas e à segurança alimentar nacionais.
Também, não se pode esquecer que os EUA têm sido um dos grandes polos de atração de imigrantes de diversas origens e capacidades. Irlandeses, alemães, italianos, indianos, mexicanos, cubanos e brasileiros, entre tantas outras nacionalidades, formam uma força de trabalho multinacional que se interage diariamente, do Alasca à Flórida, do Havaí ao Maine.
A colonização e a imigração foram fomentadas, inicialmente, por companhias privadas que se beneficiavam do comércio exclusivo com a metrópole. A submissão à Coroa Inglesa permanecia, mas os colonos criavam um novo ambiente econômico, político e social. A liberdade religiosa, por exemplo, foi essencial para o acolhimento de muitas famílias não inglesas. A prosperidade econômica, a autonomia político-administrativa e a baixa taxação foram outros elementos de atração que incrementaram a povoação do atual EUA, mesmo diante de muitas adversidades.
Por outro lado, nada do que foi abordado até este ponto teria acontecido se não fossem as disputas e guerras na Europa. A história norte-americana tem sido direcionada por conflitos interestatais, que eclodiram fora dos 9,83 milhões de Km², distante dos 50 estados. As grandes exceções foram as Guerras de Conquista contra o México e indígenas, e a Guerra Civil Americana (1861-1865).

Antes do início da colonização, as ações inglesas estavam limitadas pela Invencível Armada Espanhola (1588). Era difícil se aventurar nas terras não ocupadas ao norte das Américas. Somente após a frota de Felipe II ser derrotada, os súditos de Elizabeth I começaram a desfrutar das alterações do status quo na Europa, o que permitiu a chegada dos primeiros colonos em Jamestown (Virgínia), em 1607.
Cerca de 170 anos depois, durante as lutas pela independência (1775-1783), a insurgência das Treze Colônias (política e de milícias) contou com o apoio importante de franceses e espanhóis, que arcaram com elevados gastos. Dessa forma, a luta de George Washington, Benjamin Franklin, Samuel Adams, Thomas Jefferson e seus companheiros foi facilitada como consequência do cenário geopolítico europeu, após a custosa Guerra dos Sete Anos (1756-1763). Era o início da influência mundial dos Estados Unidos, inclusive nos processos de independência e de formação de novos Estados nas Américas.
No início do século XIX, outro conflito na Europa orientou os destinos dos EUA. As Guerras Napoleônicas fragilizaram o tesouro francês que precisava de recursos para combater a Inglaterra. A solução encontrada foi a venda da Louisiana (antigo território espanhol) em 1803, uma ampliação territorial que alavancou a capacidade econômica norte-americana. O controle da Bacia do Mississipi favoreceu a integração nacional, a expansão territorial para o oeste e o comércio exterior de forma singular.
Apesar da neutralidade declarada pelos EUA, os ingleses atacaram navios americanos, capturaram as cargas e os marinheiros foram postos a seus serviços. A Flórida tonou-se um dos objetivos estratégicos dos ingleses, mas foram advertidos pelos americanos que temiam a proximidade da antiga metrópole e o crescente clima de guerra. Nesse contexto, os americanos declararam guerra aos ingleses e invadiram o Canadá (1812). Em contrapartida, os ingleses tomaram Detroit e Washington, incendiando a Casa Branca e outras edificações importantes. Para alguns estudiosos, esse período é considerado a Segunda Guerra de Independência. O momento conflituoso despertou o país para a necessidade de elaboração de uma doutrina de segurança nacional.
Ainda no contexto das Guerras Napoleônicas, a derrota da França e da Espanha na Batalha de Trafalgar (1805) confirmou a supremacia naval inglesa e fragilizou as posições espanholas e francesas nas Américas. Uma das consequências foi a independência do México, consolidada em 1821. O jovem país, todavia, não conseguiu conter a expansão americana sobre metade do seu território, perdido na guerra entre 1846 e 1848.
Talvez a Guerra Civil Americana tenha sido o único conflito que chegou a ser uma grande ameaça à construção da nação norte-americana. Se a Confederação do Sul tivesse derrotado a União, muito provavelmente, o país não teria prosseguido no caminho da industrialização mais ampla. Todavia, somente o Império Russo apoiou as forças legais formalmente, enquanto a França e a Inglaterra apoiaram as forças rebeldes de forma velada e sem grande engajamento.
Saltando para o século XX, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) alterou, mais uma vez, o cenário geopolítico europeu. Os EUA, do outro lado do Atlântico, declaravam neutralidade, mas enviavam ajuda financeira, munição e outros produtos industrializados à França e ao Reino Unido, e, em quantidade muito menor, à Alemanha. Os alemães atacavam navios mercantes e tentaram angariar apoio do México em troca da ajuda para recuperar seus territórios perdidos na guerra México-Estados Unidos. O país acabou se beneficiando com a entrada tardia no conflito (1917), diante de uma Europa em decomposição política e econômica. Domesticamente, os mercados de trabalho e consumidor jamais foram os mesmos. Ao término da Guerra, o país tinha deixado de ser devedor e passou a ser o maior credor mundial. Os produtos europeus foram substituídos pelos manufaturados norteamericanos.
Vinte anos depois, com dimensões muitos maiores, a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), definitivamente retirou da Europa Ocidental a primazia das decisões geopolíticas. O conflito parecia inevitável na avaliação do U.S. Government e o país saiu da postura de neutralidade para a condição de não beligerante apoiadora dos aliados. Posteriormente, passou à condição de principal componente militar. Os EUA entraram no conflito em dezembro de 1941 contra as potências do Eixo (Japão, Alemanha e Itália), após o ataque japonês à Base Naval de Pearl Harbor (7 de dezembro de 1941), mas o país não enfrentou outras ameaças em seu território. No entanto, desenvolveu um sistema de gestão e uma capacidade industriais voltadas para a guerra que permitiram apoiar a recuperação da Europa impactada pelo conflito, com destaque para o Plano Marshall (1948-1951). No pós-Guerra, o PIB dos EUA alcançou 50% do PIB mundial. Parecia ser a concretização do instrumento da providência ou do Destino Manifesto.

Este extrato da história dos Estados Unidos permite-nos compreender que há muitos outros pontos a analisar. No que se refere ao assunto abordado, percebe-se que as guerras que envolveram as potências europeias fragilizaram todo o continente, permitiram a colonização dos EUA, sua independência, seu desenvolvimento e a ascensão ao lugar de hegemon do mundo na segunda metade do século XX. Entretanto, o país tem se engajado, quase permanentemente, em conflitos distantes e de elevados custos sociais, diplomáticos, econômicos e militares. Essa postura tem fragilizado os Estados Unidos diante da excessiva exposição militar, desgaste político e acúmulo de inimigos, o que parece ser uma inobservância das lições geopolíticas vivenciadas pelas potências europeias que os precederam.
Referências
A Alienação da Louisiana pela França aos Estados Unidos. 1º de julho de 2008. Voice of America (VOA). Disponível em: https://www.voaportugues.com/a/a-38-2008-07-01-voa5-92243484/1255912.html.
Independência americana: a chegada dos ingleses | E o Resto é História. 7 de julho de 2026. Observador (Canal YouTube). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=sp_jy3cLZJs&t=166s.
Independência americana: a guerra da revolução | E o Resto é História. 21 de julho de 2026. Observador (Canal YouTube). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XG0MEwvaauo.
Independência americana: o corte com Inglaterra | E o Resto é História. 14 de julho de 2026. Observador (Canal YouTube). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cpgFqlSCSVg.
KEANE, John. Vida e morte da democracia. São Paulo: Edições 70, 2010.
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U.S. Department of State. Archive. The Marshall Plan. 20 de janeiro de 2001. https://1997-2001.state.gov/regions/eur/marshall.html.
Office of the Historian. U.S. 1937–1945: Diplomacy and the Road to Another War. Department of State. Bureau of Administration. Disponível em: https://history.state.gov/milestones/1937-1945/foreword.
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LEWIS, Thomas Tandi. World War I and US economic growth. EBSCO. 2021. Disponível em: https://www.ebsco.com/research-starters/military-history-and-science/world-war-i-and-us-economic-growth.
*Sylvio Pessoa da Silva é coronel da reserva do Exército Brasileiro graduado pela Academia Militar das Agulhas Negras. É pós-graduado em Logística pela FGV e em Relações Internacionais pela UFRGS, e mestre em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi instrutor de Logística na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e na ECEME, comandou o 4º Depósito de Suprimento, foi assessor do Gabinete do Comandante do Exército e subchefe do Centro de Obtenções do Exército. Serviu em Angola (UNAVEM III) e no Haiti (MINUSTAH). Foi Adido de Defesa, Naval, do Exército e Aeronáutico no Líbano de 2017 a 2018. Foi analista do Centro de Estudos Estratégicos do Exército.










