Venda de Jatos Chineses ao Uzbequistão Testa Controle Russo na Ásia Central

Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

Por Saima Afzal*

Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

A chegada dos caças chineses J-10CE ao Uzbequistão rompe décadas de dependência militar de Moscou, amplia a influência de Pequim na Ásia Central e transforma a diversificação de fornecedores em um novo teste para o mercado regional de defesa.


O Uzbequistão confirmou que opera caças chineses J-10CE, transformando meses de especulação em um desdobramento significativo para o mercado de defesa da Ásia Central. A aquisição vai além da modernização da envelhecida frota de combate de Tashkent.1 Ela marca a entrada da China em uma das arenas mais importantes de aquisições militares em uma região historicamente dependente de aeronaves soviéticas e russas.

O Uzbequistão é agora o segundo operador estrangeiro confirmado do J-10CE, depois do Paquistão. Pelo menos seis aeronaves apareceram em imagens oficiais divulgadas durante as comemorações do Dia da Independência do país, a evidência mais clara da compra até o momento.

A importância do fato reside em outro aspecto. A aviação de combate do Uzbequistão sempre se baseou em modelos de projeto soviético – MiG-29, Su-27 e Su-25 – e o J-10CE introduz um novo fornecedor, ecossistema de armamentos, infraestrutura de manutenção e dinâmica de treinamento em um sistema com profundas raízes soviéticas e russas.

A questão não é mais se a China consegue vender armas sofisticadas para o exterior. Trata-se de saber se Pequim consegue se estabelecer como uma alternativa confiável de fornecimento de caças avançados.

Avanço nas Exportações

O Paquistão proporcionou ao J-10CE seu primeiro grande avanço nas exportações, iniciando as entregas em 2022 e integrando o caça a uma força aérea que já opera uma quantidade significativa de equipamentos de origem chinesa.

O Uzbequistão representa um desafio diferente: a entrada em um mercado de caças moldado, durante décadas, por plataformas soviéticas e russas.

Tradicionalmente, a Rússia detém vantagens estruturais no mercado de caças da Ásia Central: os estoques da era soviética criaram uma dependência de longo prazo em relação a peças de reposição, manutenção, treinamento e armamentos compatíveis de origem russa. No entanto, essa dependência está deixando de ser automática.

Segundo o SIPRI2, as exportações russas de grandes sistemas de armas caíram drasticamente entre os períodos de 2016-2020 e 2021-2025, na medida em que a guerra na Ucrânia sobrecarregava a indústria de defesa russa e levava alguns clientes tradicionais a diversificar seus fornecedores.


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Isso não significa que a Rússia esteja desaparecendo do mercado de defesa da Ásia Central. Os equipamentos russos permanecem profundamente integrados às forças armadas da região, e Moscou mantém amplos laços institucionais, de treinamento e de segurança. O que está mudando é a premissa de que a Rússia fornecerá automaticamente a próxima geração de grandes sistemas de armas.

A China está bem posicionada para aproveitar essa oportunidade. O Uzbequistão já opera sistemas de defesa aérea e drones chineses; O J-10CE estende essa relação para o âmbito da aviação de combate de linha de frente.

O acordo envolvendo o caça também ocorre em meio a uma expansão mais ampla da influência econômica chinesa. A China tornou-se a maior parceira comercial do Uzbequistão, e os investimentos e joint ventures chineses cresceram rapidamente. Assim, o J-10CE não é uma transação isolada de armamentos; ele acrescenta uma dimensão militar de alto nível a uma relação econômica cada vez mais importante.

As limitações impostas à Rússia pelo conflito atual podem ter ampliado essa oportunidade, mas Pequim passou anos construindo as relações econômicas e de defesa necessárias para aproveitá-la.

O Fator Paquistão

O J-10CE já não é comercializado apenas com base em especificações técnicas e preço. A operação da aeronave pelo Paquistão permitiu que potenciais compradores avaliassem a versão de exportação em serviço ativo; além disso, o desempenho relatado durante o confronto entre Índia e Paquistão, em maio de 2025, parece ter intensificado o interesse internacional pelo caça.

Alegações sobre a perda de aeronaves individuais continuam sendo objeto de disputa política e devem ser tratadas com cautela. Ainda assim, o confronto proporcionou à aviação de combate chinesa algo valioso no mercado internacional de armas: visibilidade operacional.

A aquisição de caças envolve mais do que apenas comprar a célula da aeronave. Governos avaliam sensores, mísseis, capacidades de guerra eletrônica, requisitos de manutenção e a capacidade do fornecedor de manter o sistema operacional por décadas. Portanto, o Paquistão oferece a Pequim uma referência operacional para a comercialização do J-10CE, e a decisão do Uzbequistão sugere que essa referência pode estar ganhando valor.

O próximo teste poderá ocorrer fora da Ásia Central, e isso seria relevante, pois poderia transformar o que hoje parece ser uma história de exportação restrita a dois países em uma prova da existência de um mercado asiático mais amplo para a aeronave.


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Bangladesh caminha para a aquisição de caças J-10CE como parte de um esforço mais amplo de modernização. Daca3 já opera uma quantidade considerável de equipamentos militares de origem chinesa; logo, a transição seria menos drástica do que a ocorrida no Uzbequistão.

A importância desse caso reside em outro aspecto. Se o J-10CE conquistar clientes no Paquistão, em uma ex-república soviética da Ásia Central e em Bangladesh, Pequim poderá demonstrar que seus caças avançados são competitivos em mercados de defesa muito distintos, e não apenas entre os parceiros estratégicos mais próximos da China.

Isso pode aumentar a pressão competitiva sobre os fabricantes russos em mercados onde as aeronaves MiG e Sukhoi têm sido, tradicionalmente, a principal opção de caça não ocidental.

Um Mercado de Armamentos Concorrido

É pouco provável que a China simplesmente substitua a Rússia em toda a Ásia Central. O padrão emergente é de diversificação, não de substituição: a Turquia expandiu sua presença no setor de defesa, especialmente por meio de drones; outros fornecedores também estão encontrando oportunidades; e a Rússia mantém vantagens estruturais significativas, acumuladas ao longo de décadas de integração militar.

Ainda assim, os caças J-10CE do Uzbequistão tornam essa mudança de mercado particularmente evidente. A China já forneceu drones, sistemas de defesa aérea, veículos blindados e outros equipamentos militares a países da Ásia Central. Vender um caça avançado para uma força aérea estruturada em torno de aeronaves soviéticas representa um passo qualitativamente diferente.

Para o Uzbequistão, a diversificação oferece mais opções no processo de modernização de suas forças armadas. Para a Rússia, significa competir em um mercado onde o domínio histórico já não garante encomendas futuras.

Para a China, a importância vai além da venda de alguns poucos caças. O Paquistão proporcionou ao J-10CE seu primeiro cliente de exportação e sua referência operacional. Agora, o Uzbequistão oferece a Pequim algo potencialmente mais relevante: a prova de que a aviação de combate de linha de frente chinesa consegue penetrar em um mercado de defesa anteriormente dominado pela União Soviética.

Caso o Bangladesh siga o mesmo caminho, o J-10CE poderá deixar de ser visto apenas como uma plataforma vinculada a uma parceria estratégica específica para se tornar um caça com um mercado de exportação genuinamente global.


Publicado no Asia Times.

*Saima Afzal é uma analista especializada em segurança no Sul da Ásia e na geopolítica regional do Oriente Médio, do Afeganistão e do Indo-Pacífico. Ela é pesquisadora na Universidade Justus Liebig, na Alemanha.


Notas

1 Tashkent é a capital e maior cidade do Uzbequistão, além de ser o principal polo cosmopolita e o centro mais populoso da Ásia Central.

2 O SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute, ou Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo) é um instituto internacional independente dedicado à pesquisa de conflitos, armamentos, controle de armas e desarmamento.

3 Daca (ou Dhaka), a capital e maior cidade de Bangladesh, é uma das metrópoles mais densas e populosas do mundo, com mais de 23 milhões de habitantes na região metropolitana.

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