
A China integra a IA à soberania científica com o projeto ScienceOne 100; para o Brasil, o alerta é claro: sem política de Estado e controle social, perderemos a corrida por inovação e pelo poder dual na geopolítica do conhecimento.
“Prosperidade compartilhada é verdadeira prosperidade.” – Ditado chinês.
O ditado chinês cima encontra um novo significado na era digital. Isso porque o 15º Plano Quinquenal elevou a autossuficiência tecnológica e o domínio de tecnologias centrais nacionais com riscos controláveis a uma proeminência estratégica sem precedentes.
Do ponto de vista do design de pesquisa, este estudo tem como objetivo analisar o projeto chinês “ScienceOne 100”1 e a estratégia da Academia Chinesa de Ciências para inteligência artificial aplicada à pesquisa científica, identificando implicações estratégicas para o Brasil em termos de soberania tecnológica, política científica e competitividade internacional. Como Pergunta de Pesquisa, busca-se entender o papel dos poderes Executivo e Legislativo e a participação da sociedade por meio de audiências públicas como política de Estado.
A relevância da pesquisa decorre da crescente centralidade da IA na reorganização dos sistemas nacionais de inovação, especialmente no contexto da corrida global por infraestrutura científica automatizada e “AI for Science”, considerada uma nova fronteira da economia do conhecimento. O referencial teórico se baseará no Modelo do Equilíbrio Interrompido, sobre análise de políticas públicas de defesa disruptivas.
A literatura internacional recente aponta que a convergência entre IA, computação científica e descoberta automatizada poderá redefinir a produção científica global nas próximas décadas.
Entretanto, persistem importantes lacunas no caso brasileiro, incluindo: ausência de participação da sociedade em audiências públicas; falta de uma estratégia nacional integrada de IA científica; baixa coordenação entre universidades, empresas e Estado; dependência de infraestrutura computacional estrangeira; limitada capacidade nacional em modelos fundacionais e computação de alto desempenho; insuficiência de políticas de dados científicos abertos; assimetrias regionais em pesquisa e inovação; fragilidade na formação interdisciplinar em IA e ciência; escassez de investimentos contínuos em P&D; e reduzida articulação entre política industrial, defesa tecnológica e transformação digital.
Além disso, o debate brasileiro, especialmente no contexto de um ano eleitoral e partidos políticos, ainda explora pouco os temas emergentes como soberania algorítmica, automação da descoberta científica, agentes autônomos de pesquisa, open source soberano e governança nacional de modelos científicos de IA, tópicos que já ocupam posição central.
Por fim, me baseio na experiência colhida na disciplina “Análise e Formação de Política Pública” do mestrado na Escola Superior de Guerra (PPGSID) ministrada pelo professor doutor Jacintho Maia Neto, sob a perspectiva teórica.
A ausência de uma “pontuação” disruptiva – isto é, de uma mudança abrupta de prioridade estatal –, ajuda a explicar por que o Brasil ainda não consolidou uma estratégia nacional robusta de soberania tecnológica em inteligência artificial, mesmo diante da aceleração global da corrida tecnológica.
Aliás, cabe ressaltar que o planejamento e a apresentação do Plano Quinquenal chinês são um processo compartilhado entre o Partido Comunista Chinês (PCCh), o Conselho de Estado e a Assembleia Popular Nacional.

O ciclo de elaboração ocorre em três etapas principais:
Partido Comunista (Propostas): O Comitê Central do PCCh (liderado pelo secretário-geral) define as diretrizes políticas e estratégicas e aprova as recomendações iniciais.
Conselho de Estado (Minuta): O Conselho de Estado, que é o gabinete executivo do governo chinês, elabora o rascunho detalhado do plano com base nas diretrizes do partido, coordenado principalmente pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (CNDR/NDRC).
Assembleia Popular Nacional (Aprovação): O esboço final do plano é apresentado e votado anualmente durante as “Duas Sessões” (reuniões conjuntas do poder legislativo) para ser revisado, aprovado e formalizado em lei.
Isto posto, a disputa tecnológica do século XXI deixou de ser apenas industrial ou comercial. Ela passou a ser científica, estratégica e civilizacional. Nesse contexto, a China vem estruturando uma política nacional de inteligência artificial (IA) profundamente integrada ao planejamento estatal, à pesquisa científica e à soberania tecnológica.
O caso recente mais emblemático é o projeto ScienceOne 100, desenvolvido pela Chinese Academy of Sciences, considerado um dos sistemas mais avançados do mundo em “IA para ciência” (AI for Science).
O projeto surge em meio ao 15º Plano Quinquenal chinês (2026-2030), que elevou “a autossuficiência tecnológica e o domínio de tecnologias centrais nacionais com riscos controláveis” a uma prioridade estratégica sem precedentes.
Percebe-se que a China está construindo um novo paradigma científico baseado em inteligência artificial integrada à pesquisa avançada. A proposta representa uma mudança histórica: a IA deixa de ser apenas ferramenta auxiliar e passa a funcionar como força motriz central da produção científica.
Introdução
Uma publicação na Springer, uma das maiores editoras científicas do mundo, incluindo a prestigiada revista Nature, fundada em 1842 em Berlim2, de Ding, Lawson e Shapira de 2025, concluiu que publicações relacionadas à Inteligência Artificial Generativa (GenAI) e suas aplicações estão se expandindo para além da ciência da computação, abrangendo uma ampla gama de disciplinas, e que pesquisadores dos EUA produziram quase dois quintos das publicações e aplicações globais de IAG, enquanto pesquisadores chineses contribuíram com quase um terço.

Concluiu também que diversas economias avançadas de pequeno e médio porte também demonstram níveis relativamente altos de aplicações de GenAI em pesquisa, e que a aplicação de GenAI está positivamente associada a equipes maiores (p<0,001) e a maiores taxas de colaboração internacional (p<0,05).
Referencial Teórico
O avanço da inteligência artificial científica na China pode ser interpretado, à luz do Modelo do Equilíbrio Interrompido (Punctuated Equilibrium Theory), como uma ruptura abrupta em um longo período de estabilidade nas políticas de ciência e tecnologia. Proposta pelos paleontólogos Niles Eldredge e Stephen Jay Gould em 1972 e adaptada por Frank Baumgartner e Bryan Jones em 1993, este modelo teórico oferece um arcabouço analítico robusto para compreender mudanças significativas em agendas políticas.
A teoria sustenta que sistemas políticos e institucionais tendem a permanecer em equilíbrio por longos períodos, realizando apenas mudanças graduais, até que choques tecnológicos, econômicos ou geopolíticos provoquem mudanças rápidas e profundas nas prioridades governamentais.
No caso chinês, a ascensão da IA generativa, a competição tecnológica com os Estados Unidos e a percepção de vulnerabilidade estratégica em semicondutores, computação avançada e infraestrutura científica atuaram como “eventos disruptivos” capazes de redefinir radicalmente a agenda estatal.

O ScienceOne 100 emerge justamente como expressão dessa inflexão crítica: a IA deixa de ocupar uma posição periférica como ferramenta de apoio e passa a constituir um núcleo estruturante da política científica nacional, impulsionada pelo 15º Plano Quinquenal e pela centralização estratégica do Estado chinês.
Aplicando esse referencial ao Brasil, observa-se que o país ainda permanece em uma fase de equilíbrio incremental, caracterizada por políticas fragmentadas, baixa coordenação institucional e investimentos limitados em IA científica.
1. O que é o ScienceOne 100
O ScienceOne 100 foi lançado oficialmente pela Academia Chinesa de Ciências em 2026 como um ecossistema completo de IA para pesquisa científica. O sistema combina:
• Modelos fundamentais de IA;
• Modelos especializados por disciplina;
• Ferramentas científicas automatizadas;
• Agentes inteligentes de pesquisa;
• Plataformas integradas de análise de dados científicos.

Segundo a própria academia chinesa, o sistema foi desenhado para atuar em áreas como matemática, física, química, biologia, ciência de materiais e astronomia. O diferencial do projeto está em sua arquitetura integrada. Ao contrário de modelos isolados voltados para tarefas específicas, o ScienceOne 100 cria uma cadeia completa de inovação científica baseada em IA.
O sistema possui ainda três funções centrais:
• Análise e síntese de literatura científica;
• Avaliação de inovação e hipóteses;
• Coordenação automatizada de ferramentas científicas.
A plataforma também incorpora mais de duas mil ferramentas científicas e é capaz de automatizar fluxos completos de pesquisa, desde revisão bibliográfica até simulações computacionais avançadas.
1.1. IA como “Cientista”
A principal inovação conceitual chinesa é o desenvolvimento de um verdadeiro “cientista de IA”. Isso significa construir sistemas capazes não apenas de responder perguntas, mas prioritariamente de:
• Compreender teorias científicas;
• Interpretar fórmulas complexas;
• Analisar dados multimodais;
• Formular hipóteses;
• Conduzir experimentos computacionais;
• Acelerar descobertas científicas.
Segundo os pesquisadores chineses, o sistema já consegue reduzir tarefas de revisão bibliográfica de vários dias para apenas minutos, acelerando o tempo ocioso de pesquisas. A iniciativa representa, assim, uma transição da pesquisa fragmentada para uma ciência orientada por plataformas colaborativas e automatizadas. Em outras palavras, a China está tentando criar uma infraestrutura nacional de inteligência científica.

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1.2. O modelo chinês de código aberto
Outro elemento estratégico é o surgimento de um ecossistema de “código aberto ao estilo chinês”. Diferentemente do modelo ocidental, frequentemente baseado em competição empresarial e propriedade intelectual restritiva, a estratégia chinesa combina:
• Compartilhamento de modelos;
• Colaboração entre institutos;
• Coordenação estatal;
• Infraestrutura nacional de dados;
• Visão coletiva de desenvolvimento tecnológico.
O próprio plano quinquenal chinês afirma que a abertura tecnológica deve coexistir com soberania tecnológica e controle nacional de capacidades estratégicas. Na prática, isso significa que a China busca evitar dependência externa em semicondutores, modelos fundacionais, computação científica e infraestrutura de IA.
1.3. A Centralidade do Estado
O projeto também evidencia uma diferença estrutural em relação ao Ocidente: o papel coordenador do Estado. Doze institutos da Academia Chinesa de Ciências participaram conjuntamente do desenvolvimento do ScienceOne:
• Institute of Automation, Chinese Academy of Sciences;
• Computer Network Information Center, Chinese Academy of Sciences;
• National Science Library, Chinese Academy of Sciences;
• Academy of Mathematics and Systems Science;
• Institute of High Energy Physics;
• Aerospace Information Research Institute;
• Shanghai Institute of Ceramics;
• Institute of Geographic Sciences and Natural Resources Research;
• Shanghai Advanced Research Institute;
• Institute of Zoology;
• National Astronomical Observatories of China.

Além disso, o Plano Nacional chinês articula:
a) Universidades;
b) Institutos de pesquisa;
c) Empresas;
d) Infraestrutura computacional;
e) Financiamento estatal;
f) Metas industriais.
A inteligência artificial é tratada como política nacional de longo prazo, focada no binômio Defesa e Desenvolvimento e não apenas como tendência de mercado.
2. Três Lições Para o Brasil
2.1. O Brasil Precisa Transformar IA em Projeto Nacional de Estado
A priori, a principal lição chinesa é que inteligência artificial não pode ser tratada apenas como pauta empresarial ou iniciativa isolada de startups, mas como uma força motriz central da produção científica com escopo no binômio Defesa-Desenvolvimento.
A China integrou IA à sua estratégia nacional de desenvolvimento, soberania tecnológica e avanço científico. O Brasil ainda possui iniciativas fragmentadas, baixa coordenação entre universidades, baixa participação popular em audiências públicas e entre setor produtivo e Estado, além de dependência tecnológica externa e extrema!
Sem um projeto nacional robusto apolítico, o país corre o risco de tornar-se apenas consumidor de tecnologias estrangeiras. O desafio brasileiro não é apenas “usar IA”, mas construir capacidades nacionais em:
• Modelos especializados;
• Infraestrutura computacional;
• Dados científicos;
• Formação de pesquisadores;
• Computação de alto desempenho.

2.2. Ciência e IA Devem Caminhar Juntas
A China compreendeu algo essencial: a próxima revolução científica será acelerada por inteligência artificial. O ScienceOne mostra que IA aplicada à ciência pode reduzir custos, acelerar descobertas e aumentar produtividade científica. O Brasil, embora possua universidades relevantes e centros de excelência, ainda investe pouco em plataformas nacionais de IA científica.
Áreas estratégicas brasileiras poderiam se beneficiar enormemente:
• Defesa & desenvolvimento;
• Áreas estratégicas: Espacial, Nuclear e Cibernética;
• Agricultura tropical;
• Bioeconomia amazônica;
• Petróleo e energia;
• Saúde pública;
• Novos materiais;
• Clima e biodiversidade.

A ausência de integração entre IA e ciência ameaça reduzir a competitividade brasileira nas próximas décadas.
2.3. Soberania Tecnológica Exige Coordenação Institucional
O modelo chinês demonstra que soberania tecnológica depende de coordenação entre Estado, universidades e empresas. O Brasil possui talento científico, mas enfrenta:
• Descontinuidade de políticas públicas;
• Baixo investimento em P&D;
• Dependência de infraestrutura estrangeira;
• Fuga de cérebros;
• Baixa participação popular em audiências públicas;
• Fragmentação institucional.
A construção de um ecossistema nacional de IA exigiria políticas permanentes entre Executivo e Legislativo, investimentos de longo prazo, controle e participação popular e integração entre pesquisa e indústria.
À luz do Modelo do Equilíbrio Interrompido, o caso chinês demonstra como choques tecnológicos e disputas geopolíticas podem acelerar mudanças estruturais nas políticas nacionais de ciência e inovação. Para o Brasil, a emergência da IA científica representa uma possível inflexão crítica, capaz de redefinir prioridades estatais e impulsionar uma estratégia soberana de desenvolvimento tecnológico no século XXI.
A experiência chinesa mostra que tecnologias estratégicas não emergem espontaneamente apenas do mercado: elas dependem de planejamento nacional consistente.
À Guisa de Conclusão
Como pergunta de pesquisa, o presente artigo buscou entender o papel dos poderes Executivo e Legislativo e da participação da sociedade por meio de audiências públicas como política de Estado, e como objetivo geral, analisamos o projeto chinês ScienceOne 1001 e a estratégia da Academia Chinesa de Ciências para inteligência artificial aplicada à pesquisa científica, identificando as implicações estratégicas para o Brasil em termos de soberania tecnológica, política científica e competitividade internacional.
Com base no exposto, pode-se vislumbrar que o projeto ScienceOne 100 representa mais do que um avanço tecnológico. Ele simboliza uma nova concepção de desenvolvimento científico baseada em inteligência artificial, soberania tecnológica e coordenação estatal.
A China está construindo uma infraestrutura nacional de “cientistas artificiais” capazes de acelerar descobertas científicas em larga escala. Trata-se de um movimento estratégico que poderá redefinir a competição global em inovação nas próximas décadas.
Para o Brasil, se quisermos nos inspirar no projeto para construir uma força motriz central da produção científica, talvez a principal lição seja clara: na era da inteligência artificial, soberania científica e soberania tecnológica tornam-se inseparáveis, mas exigem políticas de Estado com alinhamento entre os poderes Executivo e Legislativo com participação e controle obrigatório da sociedade em audiências públicas, parcerias pragmáticas com países do ocidente e uma postura séria contra todo cerceamento tecnológico praticado contra nossa soberania, reservando as terras raras para nosso desenvolvimento e capacidades de defesa e não para exportação, e uma baixa participação popular em audiências públicas.
O referencial teórico utilizado (Modelo do Equilíbrio Interrompido) demonstra como choques tecnológicos e disputas geopolíticas podem acelerar mudanças estruturais nas políticas nacionais de ciência e inovação. Para o Brasil, a emergência da IA científica representa uma possível inflexão crítica, capaz de redefinir prioridades estatais e impulsionar uma estratégia soberana de desenvolvimento tecnológico no século XXI.
A conclusão beira a inteligência mediana: Quem dominar a IA científica dominará não apenas os mercados digitais, mas também a capacidade de produzir conhecimento, inovação e poder dual econômico-militar.
Notas
1 RUI, Liang; SHUMEI, Leng. “China’s latest AI scientific model highlights unique open-source ecosystem built on tech sharing to tackle global challenges.” Global Times, 18 de maio de 2026. https://www.globaltimes.cn/page/202605/1361310.shtml.
2 DING, Liangping; LAWSON, Cornelia; SHAPIRA, Philip. “Rise of Generative Artificial Intelligence in Science.” Springer Nature Link, 6 de setembro de 2025. https://link.springer.com/article/10.1007/s11192-025-05413-z.
Referências
SCIENCEONE. Scientific Foundation Model. https://www.scienceone.cn/index-en.html.
The State Council Information Office of China. Xi Jinping: The Governance of China. http://english.scio.gov.cn/.









