
Uma projeção tática e geopolítica sobre a guerra na Ucrânia: depois de conquistar o Donbass, a Rússia suspende as hostilidades ao longo da linha de frente, um cenário que, paradoxalmente, atende aos interesses estratégicos de ambos os lados e sinaliza o fim de uma guerra que nenhuma das partes pode sustentar indefinidamente.
Este artigo apresenta uma projeção baseada em uma análise objetiva das condições táticas na linha de frente da Guerra Russo-Ucraniana, do tabuleiro geopolítico e da dinâmica social de ambos os países.
Como se trata de uma avaliação de cenário, não deve ser considerada como concretamente factível, já que é uma perspectiva de alta probabilidade, porém sujeita à não concretização devido à circunstâncias diversas de ordem política, militar e social – especialmente considerando o envolvimento direto da OTAN na guerra de desgaste contra a Rússia e o interesse das elites européias e norte americanas em usar o máximo de recursos humanos ucranianos para o infligir o maior desgaste possível à Federação da Rússia.
O principal problema para uma resolução pacífica é que nem Kiev, nem Moscou estão atualmente dispostas a fazer concessões significativas para uma solução de compromisso resolutivo. Para Kiev, a linha vermelha é a rendição voluntária de territórios. Para Moscou, é a renúncia voluntária às reivindicações sobre o Donbass, que inicialmente era um dos principais objetivos da intitulada “Operação Militar Especial”. Além disso, o regime de Kiev exige reparações e garantias de segurança permanentes de países integrantes da OTAN (principalmente dos Estados Unidos), enquanto Moscou exige a “desnazificação”, a “desmilitarização” e a não incorporação da Ucrânia à OTAN. Nem uma nem outra são possíveis sem uma derrota militar completa de uma das partes.
Considerando as forças, os recursos e as perdas humanas que as partes já despenderam nesta guerra, estamos confiantes de que nenhuma delas fará voluntariamente tais concessões, já que os custos aplicados na guerra foram enormes em escala e volume de perdas humanas e materiais. Dessa forma, qualquer concessão, ainda que parcial, à força adversária poderia acarretar seriamente em uma convulsão social com riscos graves de colapso do país ou mesmo guerra civil.
Ao mesmo tempo, a própria lógica da guerra mudou fundamentalmente nos últimos três anos.
A partir de aproximadamente a segunda metade de 2023, após o fracasso da contraofensiva ucraniana, houve uma mudança tecnológica que influenciou toda a dinâmica tática e operacional, principalmente em relação às operações de controle de área. Essa mudança tecnológica se correlaciona com a massificação da era dos drones no curso das operações de armas combinadas e guerra sistêmica. Formações de tanques, grandes unidades blindadas e operações ofensivas clássicas deixaram de determinar o resultado das ações de combate, ao passo em que as novas tecnologias robóticas e de drones das mais variadas modalidades fortaleceram significativamente o lado defensivo, permitindo compensar a inferioridade de sistemas de artilharia, aeronaves de combate e até mesmo infantaria.
É por isso que a Rússia está atualmente gastando recursos colossais para obter um avanço territorial limitado quando comparado aos padrões de avanço de conflitos do século XX. De acordo com plataformas como a Mediazone, com uma narrativa muito crítica da Rússia, mas com rigor metodológico sério na avaliação de baixas russas nessa guerra, houve mais de 230 mil mortos nas unidades de combate de todos os espectros de funcionamento na Rússia, um número certamente impactante.
Por outro lado, a julgar pela retórica de funcionários oficiais e pela forma de condução da guerra de atrito prolongado que conduz na Ucrânia, Moscou espera que, mais cedo ou mais tarde, a escassez de recursos humanos na Ucrânia leve ao colapso da frente. No entanto, até o momento, isso não aconteceu. Realmente, o regime de Kiev enfrenta sérios problemas de pessoal, com perdas recentemente desclassificadas e publicadas em diversos veículos de comunicação de cerca de 2,4 milhões de mortos, mas ninguém pode dizer quando exatamente o ponto crítico será atingido – se em um ano ou em cinco anos –, pois isso depende da capacidade de mobilização forçada da Ucrânia com apoio do Ocidente.
A Rússia, por sua vez, também incorre em custos enormes. Apenas com base em declarações oficiais, cerca de 800 mil russos foram contratados para o serviço militar em 2024-2025. Ao mesmo tempo, as conquistas territoriais permanecem bastante limitadas, inclusive pela necessidade de controlar extensas áreas na Ucrânia e estabilizar um perímetro operacional bastante alargado, sem mencionar as necessidades militares da Rússia para guarnecer áreas do país cada vez mais críticas, como a fronteira com a Finlândia, o Ártico, a proteção de Belarus e os crescentes desafios no sul do Cáucaso diante de um Azerbaijão e uma Armênia cada vez mais hostis.
Acreditamos que a tarefa de obter controle total sobre o Donbass continua sendo alcançável para as Forças Armadas da Federação da Rússia em um futuro próximo, mas apenas sob a condição de decretação, pelo Kremlin, de uma segunda mobilização parcial de pelo menos mais 300 mil soldados. Estimamos que isso pode levar até um ano para se consumar desde uma eventual mobilização decretada em outono deste ano.

No entanto, a continuação da guerra no ritmo atual, com as mesmas perdas e custos, parece absolutamente sem sentido para ambos os países. Isso pode levar a uma crise interna na própria Rússia e também na Ucrânia. Atualmente, especialmente em face de problemas sociais e econômicos crescentes, vem sendo observado um declínio gradual tanto no apoio à “Operação Militar Especial” quanto ao próprio Vladimir Putin. O mesmo ocorre na sociedade ucraniana em relação a Volodymyr Zelensky e à manutenção do conflito.
Enquanto isso, a sociedade russa é informada de que a guerra é necessária para obter controle total sobre o Donbass. No entanto, depois de atingir esse objetivo, será muito mais difícil justificar a continuidade da guerra diante do desgaste crescente, agravado pelos ataques sucessivos e diários de drones e, em menor escala, mísseis, a alvos da infraestrutura crítica em território profundo da Rússia, o que tem ocasionado uma séria crise de escassez de combustíveis.
É por essas razões que consideramos como cenário provável a suspensão da guerra ao longo da linha de frente após a captura total e controle do Donbass pela Rússia.
Paradoxalmente, esse cenário pode ser vantajoso para ambas as partes.
Para Moscou, a suspensão da guerra, mesmo sem o reconhecimento do Donbass pela Ucrânia, ainda permitirá atingir outro objetivo importante da “Operação Militar Especial”: impedir efetivamente a adesão da Ucrânia à OTAN. Sob a fria ótica do cálculo geopolítico, a probabilidade de a Ucrânia integrar a OTAN enquanto suas fronteiras estiverem em disputa é virtualmente nula. A equação de risco da Aliança é clara: admitir um país em conflito ativo significa, na prática, importar uma guerra para o mecanismo de defesa coletiva do Artigo 5º. O precedente de Chipre ilustra essa prudência estratégica. Há mais de meio século, o norte da ilha permanece sob controle turco. Mesmo com suas credenciais ocidentais, o litígio territorial congelado mantém a República de Chipre fora da estrutura militar atlântica, preservando a coesão da Aliança e evitando a importação de um conflito insolúvel.
Além disso, a continuidade da guerra significa um aumento constante da carga orçamentária para a Rússia. O número de veteranos está aumentando e, com ele, os gastos com pagamentos, pensões, assistência médica e apoio social. A longo prazo, esse tipo de carga assistencial inevitavelmente se torna um problema sério para o orçamento.
Com base nesses motivos, acreditamos que, depois de obter o controle sobre o Donbass, a Rússia estará disposta a interromper a guerra. E a Ucrânia poderia concordar com isso, com apoio dos Estados Unidos, embora com resistência do Reino Unido e dos países bálticos.

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Guerra Russo-Ucraniana: O Conflito que Redesenhou a Geopolítica Mundial
• Rodolfo Queiroz Laterza e Marco Antonio de Freitas Coutinho (Autores)
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A Ucrânia sofreu perdas humanas e econômicas colossais, com números astronômicos. O país está mergulhando rapidamente em uma crise demográfica, com milhões de perdas humanas irrecuperáveis, mais de 10 milhões de refugiados e mortalidade crescente. A população continua a diminuir, as pessoas estão deixando o país em massa e a taxa de natalidade está estabelecendo novos recordes negativos. Uma parte significativa do orçamento estatal é formada por meio de ajuda financeira externa, inviabilizando qualquer sustentabilidade própria do que sobrar do país.
Nessas condições, recusar até mesmo um cessar-fogo se torna extremamente difícil para o regime de Kiev, ainda que Zelensky e algumas figuras da cúpula apostem na guerra até o último ucraniano. Além disso, Kiev já declarou repetidamente sua disposição de discutir o cessar-fogo ao longo da linha de frente, conforme declarado por Zelensky. Portanto, não vemos motivos para acreditar que essa posição tenha mudado fundamentalmente.
Embora tenhamos mencionado anteriormente que a Ucrânia é teoricamente capaz de manter a defesa por mais alguns anos desde que haja massa humana crítica, financiamento pela OTAN, provisão de dados e inteligência, esse cenário significaria uma destruição contínua do país. A economia se degradaria ainda mais, a taxa de natalidade permaneceria praticamente nula e a emigração anual de jovens levaria à formação de um enorme buraco demográfico que hoje já é insustentável para que o país tenha algum nível de sobrevivência. Atualmente, os graduados das escolas estão cada vez mais associando seu futuro não à Ucrânia, mas à emigração. Em uma perspectiva de 10 anos, isso pode levar à perda de uma geração inteira.
Frequentemente ouve-se a afirmação de funcionários russos de que a Ucrânia representa uma ameaça militar para a Rússia e que, por isso, a guerra não pode terminar. Em nossa opinião, após o término da guerra, de acordo com o cenário descrito acima, essa ameaça será significativamente menor.
Depois de cinco anos de guerra na Ucrânia, surgiu uma demanda social óbvia por paz no que restou da sociedade ucraniana e de uma parcela significativa da sociedade européia. Milhares de homens tentam deixar o país ilegalmente todos os dias. Aqueles que permanecem vivem sob a constante ameaça de mobilização e ataques de mísseis. A retórica oficial permanece agressiva, e certamente existe uma parte da sociedade que defende a continuidade da guerra. No entanto, em nossa opinião, a grande maioria dos ucranianos está interessada na paz, em condições minimamente aceitáveis. Isso é evidente tanto no sentimento social quanto na análise das redes sociais.
Se imaginarmos que a guerra terminou, que as restrições para os homens foram removidas, que as fronteiras foram abertas, que os bombardeios cessaram, e que os aeroportos voltaram a funcionar, nessas condições nenhum “presidente da guerra” ou “partido da guerra” poderá contar com amplo apoio público. Quaisquer apelos para retomar as hostilidades ou recuperar territórios perdidos por meios militares serão recebidos com extremo negativismo por uma parcela significativa da sociedade.

Se, por qualquer motivo, as autoridades optem por uma nova escalada militar, esbarrarão em limites sociais significativos. A memória do trauma ainda está viva, e a severa escassez de efetivos, somada à própria fadiga dos aliados europeus com o conflito, cria um cenário de ruptura. Diante de novas e mais duras exigências de sacrifício, a reação da população tenderá a se dividir entre um novo êxodo em massa e uma forte desobediência civil interna.
A Ucrânia recebeu uma vacina muito dura contra a guerra, e por isso, em nossa opinião, depois do término das hostilidades a demanda social por paz será extremamente alta. Qualquer força política abertamente pró-guerra dificilmente poderá contar com amplo apoio popular. Portanto, consideramos que a ameaça de uma Ucrânia militarizada e existencialmente perigosa para a Rússia foi neutralizada, embora os impasses estratégicos com a OTAN devam continuar.










