Mesma Plataforma, Missões Distintas: Veremos Aeronaves Similares em Nossas Fronteiras?

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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A Colômbia retoma o combate aéreo ao narcotráfico com a fumigação de 330 mil hectares de coca, uma medida ousada que expõe as vulnerabilidades das fronteiras amazônicas e levanta questionamentos sobre a governança não-estatal e o impacto direto na segurança brasileira.


Findo o pleito eleitoral na Colômbia, o presidente eleito Abelardo de la Espriella anunciou que, a partir de agosto de 2026, ordenará a fumigação aérea de aproximadamente 330.000 hectares de coca, bem como ataques aéreos para neutralizar acampamentos de insurgentes (ou melhor, narcoterroristas) e a destruição de embarcações ou aeronaves utilizadas no tráfico de drogas.

Há um velho conhecido quando a missão é fumigação: o Air Tractor AT 802. Por sinal, a Polícia Nacional da Colômbia possuía nove exemplares dessa aeronave (AT-802F), entregues pelo governo dos Estados Unidos sendo que, conforme anunciado em junho de 2017, duas delas foram adaptadas para combate a incêndios florestais (conversão feita pela Corporación de la Industria Aeronáutica Colombiana, CIAC), passando a operar naquele ano na Unidade Nacional de Gestão de Riscos de Desastres (Unidad Nacional para la Gestión del Riesgo de Desastres, UNGRD). Com autonomia de 10 horas de vôo, robustas e podendo operar a partir de pistas curtas e não pavimentadas, as aeronaves modificadas contam com contentor com capacidade de 800 galões para água e, para mistura automática, 20 galões de agente retardante, tratando-se de uma excelente ferramenta para esse tipo de missão. As demais aeronaves passaram a ser empregadas em operações de vigilância, monitoramento e proteção ambiental.

Entregues para fumigação de plantações de coca, deixaram de cumprir essa missão para a qual foram inicialmente destinadas.

Estima-se que, das nove, algumas tenham sido perdidas (incluindo uma, em 30 de setembro de 2005, na região de Tarra, norte de Santander, derrubada por integrantes das FARC-EP, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo, enquanto procedia à fumigação em uma plantação de coca, ocorrendo a morte do piloto). A de matrícula PNC4011 teria sido perdida em um acidente durante o pouso (treinamento) em julho de 2020, a PNC4008 em janeiro de 2009 (acidente, durante operação de erradicação de coca), a PNC4000, atingida por fogo de insurgentes durante operação ao norte de Bogotá, em agosto de 2003 (realizando um pouso forçado) e a PNC4001 em maio de 2003 (problemas mecânicos apresentados durante uma operação de fumigação).

Curiosamente, entre os Air Tractor que atuaram na Colômbia nas missões de erradicação de coca, durante o ano de 2013, duas foram perdidas (uma em 27 de setembro1, com a morte de dois tripulantes, após aparente falha mecânica, colidindo com o solo e, outra, em 5 de outubro2, com a morte do único tripulante, derrubada pelas FARC-EP). Tais ativos não pertenciam à Polícia Nacional Colombiana. As aeronaves e os tripulantes eram da DynCorp (uma companhia militar privada norte-americana que atuava em diversos setores e que, em 2020, foi adquirida pela Amentum, também norte-americana, uma das maiores contratadas do governo dos EUA).

Reportagem publicada pelo Los Angeles Times3 em dezembro de 2013 confirmava essas baixas (atribuídas à ação hostil das FARC-EP) e uma suspensão dos vôos de fumigação. Naquela época, ao menos seis pilotos norte-americanos teriam perdido a vida nessas missões (período de 1995-2013). Trata-se de um trabalho perigoso, pois além dos disparos efetuados por insurgentes, há o risco de acidentes pelo perfil de vôo (colisão com fios, solo ou árvores). A Colômbia, particularmente sua Polícia Nacional, também operou o Ayres S2R-T65 Turbo Thrush nesse tipo de missão.

O AT-802 é uma aeronave versátil. Realizou seus primeiros vôos em outubro de 1990 nos Estados Unidos e desde então passou a ser extensamente empregada em diversas partes do mundo, quer seja como aeronave agrícola, quer seja em combate a incêndios.

Realmente possui predicados, tanto que a Força Aérea americana a selecionou (com modificações) para sua unidade de Operações Especiais, o AFSOC4 (Air Force Special Operations Command).


Originalmente uma aeronave agrícola, o polivalente Air Tractor AT-802 também possui capacidade para combate a incêndios florestais. A Polícia Nacional da Colômbia recebeu nove exemplares para realizar fumigação de plantações de coca. Posteriormente, algumas foram adaptadas para combate a incêndios, com outras permanecendo em missões de vigilância. Já nos EUA, uma versão modificada e armada (designada pelo fabricante como AT-802U) foi concebida para atuar em missões especializadas, como contrainsurgência, sendo designada OA-1K Skyraider II (Policia Nacional de Colombia/Oklahoma National Guard).

O AFSOC aceitou, em 3 de abril de 2025, seu primeiro OA-1K Skyraider II operacional. A informação foi reforçada pela publicação, em 22 de abril de 2025, pela Guarda Nacional de Oklahoma, na qual se lê que a 492ª Ala de Operações Especiais (Flórida), em parceria com a 137ª Ala de Operações Especiais da Guarda Nacional Aérea (Guarda Nacional Aérea de Oklahoma, Base Will Rogers), estaria recebendo uma aeronave polivalente, afinal proporcionaria apoio aéreo aproximado, inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR, Intelligence, Surveillance and Reconnaissance), bem como capacidade de ataque de precisão. Note-se que, inicialmente, a 492ª Ala era vocacionada para treinamento, estando em um processo de modificação para efetivamente se tornar uma “ala de projeção de poder” do Comando de Operações Especiais da Força Aérea dos EUA, detendo a missão de executar, entre outras, ataques e integração ar-solo de Forças de Operações Especiais e prover ISR.

O Skyraider II é uma versão modificada (com capacidade de transportar armas) do conhecido AT-802 (designação do fabricante AT-802U5). Tanto a Air Tractor como a L3Harris (uma das maiores contratadas do governo do Pentágono, com sede em Melbourne-FL) entregaram um vetor interessante, resistente e de baixo custo relativo. O fato de poder ser “desmontada” e transportada nos C-5 ou C-17 permite sua rápida implantação em áreas de interesse distantes de sua base.


Air Tractor L3Harris AO-1K Skyraider II. No sítio eletrônico da Air Tractor, é designado como AT-802U SkyWarden (U.S. Air Force, Air Force Special Operations Command).

Adequado notar que Abelardo de la Espriella citou uma aérea de aproximadamente 330.000 hectares de coca como foco de sua atenção. Em seus relatórios, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, United Nations Office on Drugs and Crime) cita que, em 1994, o cultivo de coca englobava 44.700 hectares6. Em 1995, 50.900 hectares. Cinco anos depois, ou seja, no ano de 2000, o UNODC indicava que essa área mais do que triplicou, chegando a 163.000 hectares. Décadas depois, em seus levantamentos no ano de 2022, a área de cultivo totalizava 230.000 hectares, crescendo para 253.000 no ano subseqüente. A região do Pacífico, conforme o relatório (UNODC)7 de 2023 detinha 107.078 hectares e Putumayo (área de fronteira com o Peru e Equador), 56.933 hectares. Assim, a área de cultivo de coca, apesar de decrescer em alguns períodos, teve um grande aumento, de praticamente oito vezes, em pouco mais de três décadas.

Da mesma forma, no decorrer dos anos, verificou-se grande decréscimo da área onde ocorreu a erradicação na Colômbia. Se em 2021 foram 103.257 hectares, no ano seguinte, 68.893. Já em 2023, somente 20.325 hectares (cinco vezes menos que em 2021). Ressalta-se também que há considerável território onde é constatada a presença de grupos armados não- estatais. Em algumas localidades, mais de um. Além da questão de soberania, há um claro impacto na criminalidade (e, por conseguinte, no número de homicídios, bem como no deslocamento de um considerável contingente humano buscando melhores condições de vida) e na própria economia nacional. Onde se encontram tais grupos, além da violência e atividades ilegais, prospera também o mercado informal.


OUNODC, em relatório publicado em 2023 demonstrou que em algumas regiões da Colômbia existe a presença de mais de um grupo armado não-estatal. Tais grupos impactam diretamente na violência sofrida pela população, particularmente em relação ao número de vítimas de homicídio. No lado direito verificam-se as áreas onde há cultivo de coca (UNODC).

Conforme informa a Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG), instituição pública vinculada ao Ministério das Relações Exteriores (instituída a partir da Lei Nº 5.717, de 26 de outubro de 1971), a fronteira do Brasil com a Colômbia possui a extensão de 1.644,2 km. O Amazonas é o estado brasileiro que faz fronteira com aquele país.


Inúmeros grupos armados não-estatais (crime organizado/insurgentes) estão presentes em fronteiras. Na região Norte do País, há expressiva presença de integrantes do Comando Vermelho, sendo notória na extensa fronteira com a Colômbia, conforme elucidado pelo portal Amazon Underworld. Se considerarmos outros grupos, como o Primeiro Comando da Capital, Exército de Libertação Nacional (entre vários), há uma percepção impressionante e aterradora sobre governança não-estatal (Amazon Underworld).

No Peru, onde percebemos no mapa disponibilizado pelo portal Amazon Underworld a presença de grupos armados não-estatais, incluindo o Comando Vermelho, a recentemente eleita presidente Keiko Fujimori prometeu em campanha um enfrentamento frontal contra o crime organizado e a retomada de áreas. O Peru possui uma extensa fronteira com a Colômbia. Em relação ao Brasil, possui 2.995,3 km de fronteiras (2.003,1 km por rios e canais, 283,5 km por linhas convencionais e 708,7 km por divisor de águas, conforme elucida a FUNAG). Os estados do Amazonas e do Acre fazem fronteira com o Peru. O Brasil possui, no total, 16.885,7 km de fronteiras com 10 dos 12 países da América do Sul (excluem-se Chile e Equador).

Notemos, portanto, que dois países, que fazem 4.639,5 km de fronteiras com o Brasil (isso somente na região Norte, para deixar claro), possuem dirigentes recentemente eleitos que prometeram enfrentar duramente o tráfico de drogas, grupos insurgentes e proceder à retomada de áreas sob governança não-estatal, sendo notório que pretendem fazer, se necessário, o uso de força militar. Dificilmente terão sucesso sem apoio mútuo ou, mesmo, ajuda externa. Alguns grupos insurgentes se encontram há décadas em atividade.

Presume-se que narcoterroristas, em áreas de fronteira (com as características que encontramos na região Norte do país), provavelmente migrarão para áreas onde enfrentariam menor resistência, bem como diversificar mais ainda suas “fontes de renda”. As notícias que também lemos, como o recorrente contingenciamento de recursos para as Forças Armadas (o que impacta diretamente em missões como a vigilância de fronteiras) não são exatamente um alento a respeito da soberania brasileira. A organização não governamental International Crisis Group, com sede em Bruxelas, da mesma forma que a Amazon Underworld8, alerta sobre a expansão do crime organizado9 na região da Bacia Amazônica. Por sinal, a Amazon Underworld, uma aliança jornalística, informou que 67% dos 987 municípios da Pan-Amazônia (o que engloba Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela), ou seja, 662 municípios, possuem de forma confirmada a presença de grupos armados não-estatais, da mesma forma que cerca de 60% da população amazônica, ou estimadas cerca de 15,4 milhões de pessoas, estariam vivendo em áreas sob influência de, ao menos, um grupo armado. Um dado interessante, apresentado pela Amazon Underworld, é em relação ao Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho: 473 municípios amazônicos contariam com a presença de pelo menos uma das facções. Além do narcotráfico, atuam na exploração de madeira e mineração ilegal, impondo controle em áreas de comunidades indígenas e rotas.

Não será uma tarefa fácil para a Colômbia, e nem para o Peru. A própria fundação colombiana Conflict Responses (CORE) já havia elucidado que o processo de paz envolvendo a desmobilização das FARC-EP não foi rigorosamente um sucesso. Parte delas sequer participou das conversações, que ocorreram principalmente em Havana, iniciadas em 2012. Esses grupos dissidentes deram origem ao Estado Maior Central (EMC). Com o acordo de paz firmado nos idos de 2016, havia a presunção de que, pelo menos, haveria uma diminuição em um conflito de mais de cinco décadas. Poucos anos depois de firmado o acordo, muitos dissidentes retornam às armas e a suas velhas práticas. Surge outra dissidência (2019), a Segunda Marquetalia. Resta esclarecido que não são (a EMC e a Segunda Marquetalia) exatamente aliados. Pelo contrário: competem (e combatem) entre si.

Vale recordar, também, que grupos como Los Choneros (que além do Equador, também se faz presente no Peru), Tren de Aragua, Segunda Marquetalia, FARC-EP e, constando a partir de 5 de junho de 2026, o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, entre inúmeros outros, constam na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras10 (Foreign Terrorist Organizations. FTO) do governo dos Estados Unidos.


A Operação Fênix, que ocorreu no início de março de 2008, causou baixas significativas às FARC-EP. Um acampamento daquele grupo que se encontrava em região próxima a fronteira, porém em território equatoriano, também foi atacado. Além das baixas, foram coletados materiais que proporcionaram acesso a diversas informações (O Estado de São Paulo, edição de 9 de março de 2008).

Há um precedente interessante a ser recordado, quando se trata do enfrentamento a grupos insurgentes: a Operação Fênix. No início de março de 2008, durante a operação, um acampamento das FARC-EP foi atacado por forças colombianas. A ação, porém, ocorreu em território equatoriano, próximo a fronteira, o que gerou uma intensa crise diplomática.

Para finalizar, uma conjectura: em nossos milhares de quilômetros de fronteira, teremos a visita (pelo menos a partir do lado vizinho) de algum Air Tractor, particularmente da versão não dedicada à fumigação ou combate a incêndios?

1 Ver banco de dados do Aviation Safety Network: https://aviation-safety.net/wikibase/160996.

2 Ver banco de dados do Aviation Safety Network: https://aviation-safety.net/wikibase/162771.

3 KRAUL, Chris. Anti-coca spraying halted in Colombia after 2 U.S. pilots shot down. Los Angeles Times, 16 de dezembro de 2013. https://www.latimes.com/world/la-fg-colombia-us-planes-20131217-story.html#axzz2njShb53A.

4 Ver Air Force Special Operations Command: https://www.afsoc.af.mil.

5 Ver https://802u.com.

6 Colombia: Coca Survey for 2002. Preliminary Report, March 2003. United Nations Office on Drugs and Crime. https://www.unodc.org/documents/publications/report_2003-03-01_1.pdf.

7 Colombia: Monitoring of territories with presence of coca crops 2023. United Nations Office on Drugs and Crime; Gobierno de Colombia. https://www.unodc.org/documents/crop-monitoring/Colombia/Colombia_survey_report_EN_2023.pdf.

8 A Amazônia sob ataque: mapeando o crime na maior floresta tropical do mundo. Amazon Underworld, 21 de outubro de 2025. https://amazonunderworld.org/pt-br/?policy-paper=a-amazonia-sob-ataque-mapeando-o-crime-na-maior-floresta-tropical-do-mundo.

9 Um Assalto à Selva: Protegendo a Amazônia contra o Crime Organizado. International Crisis Group, 13 de maio de 2026. https://www.crisisgroup.org/pt-pt/rpt/latin-america-caribbean/amazon-brazil-colombia-peru/111-jungle-heist-shielding-amazon-organised-crime.

10 U.S. Department of State. Foreign Terrorist Organizations. https://www.state.gov/foreign-terrorist-organizations.

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