
Entre os séculos XVII e XX, o Irã foi sistematicamente transformado em zona tampão e corredor logístico para impérios rivais. Sua posição geográfica estratégica, entre o Heartland e o Rimland, erodiu sua soberania e explica seu papel na atual desordem internacional.
1. Introdução: A Geografia como Destino e Dilema
A posição geográfica do Irã, historicamente reconhecido como Pérsia, constitui desde o período safávida no século XVII o elemento estruturante de sua trajetória política e de suas vulnerabilidades estratégicas. Localizado no eixo de conexão entre a Anatólia, a Ásia Central, o Cáucaso e o Oceano Índico, o território iraniano funcionou como um corredor indispensável das rotas comerciais eurasiáticas, especialmente da Rota da Seda, articulando fluxos de mercadorias, exércitos e ideias. Como observa Floor (2001), o Estado safávida consolidou um aparato administrativo capaz de controlar essas zonas de passagem, mas sua centralidade geográfica também o expôs continuamente às pressões de impérios rivais.
Sob a ótica da geopolítica clássica, essa centralidade adquire significado ainda mais profundo. Mackinder (1904) formulou a tese de que o domínio do pivô geográfico da História, o chamado Heartland, seria decisivo para a hegemonia global, e que as regiões de transição entre o núcleo continental e os mares quentes constituíam zonas de disputa inevitável.
O Irã, situado precisamente nessa área de fricção entre o poder terrestre russo e o poder marítimo britânico, tornou-se um espaço de contenção estratégica. Spykman (1944), ao reformular a teoria mackinderiana, reforçou que o controle do Rimland, o cinturão costeiro que circunda o Heartland, seria determinante para o equilíbrio de poder na Eurásia. Nesse esquema, o Irã aparece como um ponto de estrangulamento geopolítico cuja posse ou influência altera a balança regional.

A tese central deste artigo sustenta que, entre os séculos XVII e XX, a soberania iraniana foi sistematicamente erodida não por fragilidades intrínsecas de sua estrutura estatal, mas pela funcionalidade geoestratégica de seu território para potências externas. A Pérsia foi convertida em estado tampão e em corredor logístico essencial para projetos imperiais concorrentes, perdendo progressivamente autonomia decisória. A disputa russo-britânica no Cáucaso e no Golfo Pérsico, a diplomacia das concessões do século XIX e as violações da neutralidade iraniana nas duas guerras mundiais ilustram a recorrência histórica de uma lógica espacial que subordina o país às necessidades de segurança de atores exógenos.
Além de sua posição geopolítica, o Irã historicamente exerceu influência cultural sobre uma vasta região conhecida como Grande Irã (Mapa 1), ou Iranosfera, que incluía o planalto iraniano, o Sul do Cáucaso, a Ásia Central e partes do subcontinente indiano. Essa esfera cultural, descrita como o “Continente Cultural Iraniano”, formou-se ao longo de séculos de domínio de impérios iranianos, durante os quais populações locais assimilaram elementos linguísticos e culturais persas. A compreensão dessa amplitude histórica é fundamental para avaliar o impacto das perdas territoriais dos séculos XIX e XX, que reduziram drasticamente o alcance geográfico de uma civilização outrora muito mais extensa.

2. A Erosão Territorial: As Guerras Russo-Persas e a Perda da Transcaucasia
A região da Transcaucasia (Mapa 2) assumia importância estratégica singular no período da expansão do Império Russo, pois funcionava como porta de entrada para o Oriente Médio e como plataforma para a projeção de poder em direção ao Golfo Pérsico.
Hambly (1991) destaca que o Cáucaso era percebido por São Petersburgo como zona natural de expansão, tanto por razões geopolíticas quanto por ambições econômicas e imperiais. O Irã, por sua vez, via a Transcaucasia como parte integrante de sua esfera cultural e administrativa desde o período safávida, o que tornava sua perda particularmente traumática.

Neste sentido, as perdas territoriais sofridas pelo Irã no início do século XIX para o Império Russo não podem ser compreendidas apenas como resultado da superioridade militar russa. Ela decorreu também de fragilidades estruturais da dinastia Qajar, que enfrentava dificuldades administrativas, rivalidades tribais e uma capacidade limitada de centralização estatal. Atkin (1980) observa que o governo Qajar possuía instituições frágeis e dependia de alianças locais para manter a ordem, o que reduzia sua capacidade de mobilização militar. Segundo o autor, “a corte Qajar carecia de mecanismos administrativos capazes de responder ao avanço militar russo” (ATKIN, 1980, p. 112).
Entre 1804 e 1828, duas guerras sucessivas evidenciaram a disparidade tecnológica e organizacional entre os exércitos persa e russo. O Tratado do Gulistão, assinado em 1813, encerrou o primeiro conflito e obrigou o Irã a ceder o Daguestão e a Geórgia oriental. Amanat (2017) ressalta que o Gulistão representou o primeiro grande golpe à autoridade Qajar, pois retirou do país territórios que, embora diversos, mantinham vínculos históricos com a administração persa.
A derrota seguinte foi ainda mais profunda. O Tratado de Turkmenchay, firmado em 1828 após a guerra de 1826 a 1828, consolidou a perda definitiva da Armênia e do Azerbaijão e estabeleceu o rio Aras como fronteira. Além disso, retirou do Irã o controle sobre o mar Cáspio e instituiu um regime de capitulações jurídicas e econômicas que ampliou a influência russa sobre o país. Cronin (2013) observa que Turkmenchay inaugurou um sistema de concessões e extraterritorialidade que limitou severamente a autonomia administrativa de Teerã e abriu espaço para a crescente interferência britânica no sul do país.
As perdas territoriais, portanto, não foram apenas espaciais. Elas inauguraram um ciclo de dependência diplomática e vulnerabilidade estrutural que marcaria todo o século XIX iraniano. A erosão da Transcaucasia não apenas redefiniu as fronteiras da Pérsia moderna, mas também consolidou o país como zona de contenção entre impérios rivais, condição que moldaria sua trajetória geopolítica nas décadas seguintes.

3. O “Grande Jogo” e a Diplomacia das Concessões
A partir da segunda metade do século XIX, o Irã tornou-se peça central na disputa estratégica entre o Império Russo e o Império Britânico, processo que a historiografia consagrou pela designação de “Grande Jogo”. Essa rivalidade, descrita por Hopkirk (1990) como uma longa competição pela supremacia na Ásia Central, subordinou o desenvolvimento político e econômico iraniano às necessidades de segurança das duas potências. O território persa passou a ser visto não como um Estado soberano, mas como uma zona tampão entre interesses imperiais conflitantes.
A lógica do Grande Jogo impôs ao Irã uma paralisia estrutural. A construção de ferrovias, estradas e infraestrutura básica foi sistematicamente bloqueada por britânicos e russos, que temiam que tais obras facilitassem a movimentação militar do adversário. Meyer e Brysac (1999) observam que qualquer modernização que pudesse alterar o equilíbrio estratégico era imediatamente vetada pelas potências, o que impediu o surgimento de um Estado centralizado e autônomo. Spykman (1942) interpreta esse tipo de contenção como característica das zonas de fricção do Rimland, onde o desenvolvimento local é frequentemente sacrificado em nome da estabilidade geopolítica das grandes potências.
Diante desse cerco diplomático, o Irã buscou apoio externo por meio da estratégia da “Terceira Potência”, e esta se configurou como sendo a França napoleônica, que poderia vir a oferecer uma alternativa ao duopólio anglo-russo. O Tratado de Finkenstein, assinado em 1807, prometia assistência militar francesa contra a Rússia. No entanto, a reorientação estratégica de Napoleão após o Tratado de Tilsit anulou qualquer compromisso com Teerã. Como sintetiza Mousavi (2024), “a política francesa para o Irã oscilou entre ambições imperiais e pragmatismo europeu, raramente resultando em apoio efetivo” (p. 87).
Na segunda metade do século XIX, a influência francesa assumiu caráter predominantemente cultural. Missões arqueológicas, instituições educacionais e ordens religiosas, como os Lazaristas, ampliaram a presença francesa no país, mas sem oferecer contrapeso militar ao avanço russo no norte e à consolidação britânica no Golfo Pérsico. Essa presença, embora relevante para a formação intelectual das elites iranianas, não alterou a correlação de forças no tabuleiro geopolítico.

A diplomacia das concessões, intensificada após o Tratado de Turkmenchay, aprofundou a dependência iraniana. Concessões econômicas, privilégios extraterritoriais e acordos assimétricos permitiram que britânicos e russos controlassem setores estratégicos, como alfândegas, bancos, estradas e comunicações. Cronin (2013) destaca que esse regime de concessões reduziu drasticamente a autonomia fiscal e administrativa do Estado iraniano, criando um ambiente em que decisões internas eram condicionadas por interesses externos.
Assim, o Grande Jogo não apenas limitou a soberania iraniana, mas também moldou a estrutura política do país. A ausência de modernização autônoma, a dependência diplomática e a fragmentação administrativa foram consequências diretas de uma disputa imperial que transformou o Irã em campo de batalha silencioso entre duas potências globais. A diplomacia das concessões consolidou essa condição, preparando o terreno para as intervenções ainda mais profundas que marcariam o século XX.
4. O Século XX: O Corredor Persa e a Violação da Neutralidade
Mas a Geopolítica continuava seu processo de evolução, colocando sempre o Irã como epicentro de interesses.
No século XX, a posição geográfica do Irã voltou a colocá-lo no centro das disputas estratégicas globais. Apesar de suas reiteradas declarações de neutralidade, o país foi arrastado para as grandes conflagrações internacionais devido à sua localização entre o Cáucaso, a Mesopotâmia e o Oceano Índico. Abrahamian (2008) observa que a vulnerabilidade iraniana não derivava apenas de sua capacidade militar limitada, mas sobretudo do fato de que seu território funcionava como elo logístico indispensável para as potências envolvidas nos conflitos mundiais.
Durante a Primeira Guerra Mundial, o Irã declarou neutralidade, mas seu território foi rapidamente violado por forças britânicas, russas e otomanas. A Alemanha buscou explorar o ressentimento iraniano por meio de operações clandestinas, como a atuação de Wilhelm Wassmuss, conhecido como o “Lawrence alemão”. A resposta aliada, combinada com a ocupação otomana de partes do oeste iraniano, provocou um colapso econômico e agrícola que resultou na chamada Fome Persa de 1917 a 1919. Keddie (2003) destaca que a crise humanitária foi agravada pela requisição de suprimentos por tropas estrangeiras e pela interrupção das rotas comerciais internas. Estima-se que cerca de dois milhões de civis tenham morrido de forma silenciosa para os observadores ocidentais, o que evidencia o impacto devastador da guerra sobre uma população que oficialmente não participava do conflito.
Mas a Segunda Guerra Mundial aprofundaria essa dinâmica. Em 25 de agosto de 1941, o Irã foi invadido simultaneamente por forças britânicas e soviéticas, apesar de novamente ter declarado neutralidade. A operação, conhecida como Operação Countenance, tinha como objetivo garantir o fluxo seguro de suprimentos do programa Lend-Lease para a União Soviética. O território iraniano transformou-se na chamada Ponte para a Vitória, expressão utilizada pelos Aliados para descrever a importância do Corredor Persa como rota logística. Lenczowski (1990) observa que a invasão também teve motivação política, pois os britânicos desconfiavam da simpatia de Reza Shah pela Alemanha. A abdicação forçada de Reza Shah e a ascensão de Mohammad Reza Pahlavi ao trono foram, portanto, consequências diretas da necessidade aliada de controlar o território iraniano.

O petróleo tornou-se elemento central da geopolítica iraniana no século XX. A Anglo-Iranian Oil Company, controlada pelos britânicos, detinha direitos exclusivos de exploração e refino, o que gerava crescente insatisfação nacional. Yergin (1991) destaca que o petróleo iraniano era considerado ativo estratégico vital para a segurança energética britânica, especialmente após a conversão da Marinha Real para combustíveis líquidos no início do século. Essa dependência reforçou a determinação britânica de manter influência direta sobre o país.
Mas o interesse estrangeiro pelo Irã não viria a cessar.
No contexto da Guerra Fria, o Irã voltou a ser palco de disputas entre grandes potências. Em 1946, a União Soviética recusou-se a retirar suas tropas do Azerbaijão iraniano, apoiando movimentos separatistas locais. A crise só foi resolvida após intensa pressão diplomática dos Estados Unidos, que passaram a ver o Irã como peça fundamental na contenção do expansionismo soviético. Abrahamian (2008) interpreta esse episódio como marco inicial da inserção do Irã na arquitetura de segurança ocidental.
A nacionalização do petróleo em 1951, promovida pelo primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, intensificou as tensões. A decisão ameaçava diretamente os interesses britânicos e alterava o equilíbrio geopolítico regional. Em 1953, a CIA e o MI6 organizaram a Operação Ajax, que depôs Mossadegh e restaurou o poder do xá Mohammad Reza Pahlavi. Cronin (2013) argumenta que o golpe consolidou a dependência iraniana em relação aos Estados Unidos e inaugurou um período de alinhamento estratégico que perduraria até a Revolução de 1979.

Assim, o século XX confirmou a lógica histórica que molda a trajetória iraniana. A neutralidade declarada pelo país foi repetidamente violada devido à sua centralidade geográfica e ao valor estratégico de seus recursos naturais. O Irã tornou-se corredor logístico, zona de contenção e espaço de disputa entre potências globais, o que reforça a tese de que sua soberania foi continuamente condicionada por fatores externos ao longo de todo o período.
5. Considerações Finais: O Irã no “Heartland” e o Peso da Geografia
A trajetória histórica do Irã desde o Século XVII, mas particularmente entre os séculos XIX e XX, confirma a centralidade da geografia como condicionante estrutural de sua soberania (Mapa 3).
A análise histórica desenvolvida ao longo deste estudo demonstra que o Irã ocupa, desde o período safávida, uma posição estruturalmente vulnerável e simultaneamente estratégica no tabuleiro eurasiático. A condição de encruzilhada de impérios, que marcou sua trajetória entre os séculos XVII e XX, não constitui apenas um fenômeno do passado, mas um elemento persistente que continua a moldar seu papel na atual desordem internacional. A geografia iraniana, situada entre o Cáucaso, a Ásia Central, a Anatólia, a Mesopotâmia e o Oceano Índico, permanece como fator determinante para a compreensão de sua política externa e de sua inserção no sistema internacional.

Mapa 3: Mudanças Territoriais da Pérsia/Irã nos Séculos XIX e XX (IZADY (2004/2015), Tradução nossa1).
1 https://gulf2000.columbia.edu/maps.shtml.
As formulações clássicas da geopolítica ajudam a iluminar essa continuidade. Mackinder (1904) argumentava que o controle das zonas limítrofes ao Heartland era decisivo para a hegemonia global, enquanto Spykman (1944) enfatizava a importância estratégica do Rimland. O Irã, localizado exatamente nesse espaço de transição, tornou-se alvo recorrente de disputas imperiais. As guerras russo-persas, a diplomacia das concessões, as invasões das duas guerras mundiais e as intervenções da Guerra Fria revelam um padrão histórico no qual a soberania iraniana foi sistematicamente condicionada por interesses externos. Esse padrão não desapareceu com o fim do século XX.
No contexto contemporâneo, a centralidade geográfica do Irã continua a produzir tensões e oportunidades. O Estreito de Ormuz, por onde transita parcela significativa do petróleo mundial, mantém o país no centro das preocupações de segurança energética global. A crescente presença chinesa na região, por meio da Iniciativa Cinturão e Rota, reforça o papel do Irã como elo entre a Ásia Central, o Golfo Pérsico e o Mediterrâneo. A Rússia busca preservar sua influência no Cáucaso e no mar Cáspio, enquanto os Estados Unidos mantêm políticas de contenção voltadas para limitar a projeção regional iraniana. Brzezinski (1997) observa que a Eurásia permanece o principal tabuleiro geopolítico do sistema internacional, e que Estados situados em pontos de passagem estratégicos tendem a ser alvo de disputas prolongadas. O Irã exemplifica essa condição de forma particularmente clara.

Assim, compreender o papel do Irã na atual desordem internacional exige reconhecer a profundidade histórica de sua posição geopolítica. A condição de eterna encruzilhada de impérios não é apenas uma metáfora, mas uma realidade estrutural que atravessa séculos e continua a influenciar a formulação de políticas, a percepção de ameaças e a busca por autonomia estratégica. A geografia, longe de ser um elemento neutro, atuou e continua a atuar como força estruturante que molda o destino político do país. Ao analisar as disputas geopolíticas dos séculos XVII ao XX, torna-se possível compreender com maior clareza as dinâmicas que definem o comportamento iraniano no século XXI e seu papel central na instabilidade e na reconfiguração da ordem internacional contemporânea.
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