Soberania em Risco: A Entrega de Ativos Estratégicos e a Urgência de uma Grande Estratégia Nacional

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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A abertura pós-1985 transferiu setores estratégicos brasileiros ao capital estrangeiro, criando dependência crônica e erosão da soberania; sem uma Grande Estratégia de reindustrialização e autonomia tecnológica, o Brasil seguirá um gigante de pés de barro: rico em recursos, mas refém de interesses externos.


Onde erramos?

Nesta oportunidade, este artigo analisa en passant as vulnerabilidades estruturais da economia brasileira, argumentando que, desde o processo de redemocratização, o país tem progressivamente cedido o controle de setores estratégicos para corporações estrangeiras. Através de uma metodologia que combina instrumentos da micro e macroeconomia, da logística e da administração pública, examina-se, prima facie, como decisões políticas e econômicas em áreas como energia, segurança alimentar, infraestrutura e tecnologia criaram uma dependência externa crônica, comprometendo a soberania nacional e o desenvolvimento sustentável.

Como a análise histórica demonstra a posteriori, embora o período militar tenha apresentado um crescimento contínuo, este foi construído sobre um endividamento que preparou o terreno para as privatizações e a abertura que se seguiram, “vendendo” partes cruciais do país e expondo sua espinha dorsal econômica a interesses externos.

Portanto, sem uma Grande Estratégia, nas palavras do meu orientador professor-doutor Guilherme Sandoval Góes, ou um Projeto de Nação como dito pelo comandante Robinson Farinazzo repetidas vezes, e como eu mesmo apresentei pessoalmente ao Supremo Tribunal Federal, nas mãos da Chefe de Gabinete do ministro Luís Roberto Barroso em 2018, que coloque a reindustrialização e a autonomia tecnológica no centro, o Brasil continuará a ser um gigante de pés de barro, rico em recursos, mas pobre em controle sobre sua própria riqueza e desenvolvimento.

Introdução: O Dilema do Desenvolvimento Brasileiro

A trajetória econômica do Brasil é marcada por ciclos de crescimento e estagnação, com um debate persistente sobre os papel do Estado versus do mercado. A questão sobre se o desenvolvimento contínuo ocorreu apenas durante o regime militar (1964-1985) é complexa.


Elaborado com base na análise histórica dos ciclos econômicos. O infográfico contrasta o período de forte crescimento impulsionado por investimentos estatais (1964–1985) com o subsequente processo de abertura e privatizações, que resultou na transferência do controle de setores estratégicos nacionais para o capital estrangeiro e no aumento da dependência externa.

Dados históricos mostram que o chamado “Milagre Econômico” (1968-1973) de fato exibiu taxas de crescimento do PIB superiores a 10% ao ano, um feito notável impulsionado por grandes investimentos estatais em infraestrutura e indústria de base. No entanto, esse crescimento foi financiado por um massivo endividamento externo, que, somado à crise do petróleo na década de 1970, levou à estagnação e hiperinflação nos anos 1980, a “década perdida”.

Com a redemocratização em 1985, o Brasil se viu diante da necessidade de estabilizar a economia e modernizar seu parque industrial, e a solução adotada, em linha com o Consenso de Washington, foi um amplo programa de privatizações e abertura comercial. A premissa era que a venda de ativos estatais e a atração de capital estrangeiro trariam eficiência, inovação e alívio fiscal.

Contudo, neste artigo argumento que essa estratégia, implementada ao longo de sucessivos governos, resultou na venda de setores estratégicos a preços subavaliados e na criação de vulnerabilidades críticas que hoje travam o desenvolvimento nacional, em do interesse estrangeiro.

Energia: O Motor da Economia e o Dreno de Riqueza

Sob a perspectiva geopolítica e da geografia física, a energia é um insumo fundamental para qualquer economia moderna, com impacto direto na competitividade da indústria e no controle da inflação. No Brasil, a política energética, especialmente no setor de petróleo e gás, exemplifica o dilema entre privatização e estatização.

Os maiores investidores estrangeiros na Petrobras incluem grandes gestores de ativos globais, com destaque para a GQG Partners LLC (aproximadamente 7,76% das ações preferenciais) e a BlackRock, Inc., aliás, a mesma empresa interessada na guerra da Ucrânia, que detém fatias significativas tanto de ações ordinárias quanto preferenciais. Fundos dos Estados Unidos e Reino Unido dominam, impulsionados pela produção sólida e dividendos, tornando a estatal uma das preferidas na América Latina.

O Paradoxo do Refino e a Dependência de Importados: Terra Brasilis

A Petrobras, criada por Getúlio Vargas em 1953, foi por décadas o símbolo da soberania energética nacional. No entanto, a partir dos anos 2010 e com aceleração após 2016, a empresa passou por um profundo processo de desinvestimento, focando na exploração e produção de óleo bruto (especialmente no pré-sal) e negligenciando a etapa de refino.

O resultado, como todos sabemos, é um paradoxo logístico e econômico: o Brasil se tornou um dos maiores produtores de petróleo do mundo, mas depende da importação de derivados como diesel e gasolina para abastecer o mercado interno.

Logo, essa dependência expõe o país à volatilidade dos preços internacionais e da taxa de câmbio. Mesmo com a adoção da política de Preço de Paridade de Importação (PPI) em 2016 atrelando os preços dos combustíveis no Brasil diretamente ao mercado global e ao dólar, tornando-se um dos principais vetores inflacionários, estudos demonstram que o aumento dos combustíveis e da energia elétrica, em grande parte privatizada, teve impacto significativo no IPCA, corroendo o poder de compra da população e aumentando os custos de produção em toda a cadeia produtiva.

Dividendos vs. Investimentos: A Riqueza que Mina para o Exterior

O foco da Petrobras na maximização de lucros para os acionistas, em detrimento do investimento estratégico, é um ponto central da vulnerabilidade. Entre 2021 e 2024, a empresa distribuiu centenas de bilhões de reais em dividendos, com uma parcela significativa destinada a investidores estrangeiros, que detêm uma grande porcentagem das ações via American Depositary Receipts (ADR) negociadas na Bolsa de Nova York. Uma reportagem de 2025 da Associação dos Engenheiros da Petrobras, informa que a empresa pagou R$ 64,2 bi em dividendos em 2024, mais do que lucro de R$ 53,65 bilhões.

Em 2021 e 2022, a razão entre dividendos pagos e investimento líquido chegou a alarmantes 804%.


Elaborado com base no “Comparativo de dividendos, investimentos e participação estrangeira na Petrobras” (Associação dos Engenheiros da Petrobras, 2025). A visualização mostra a desproporção entre o volume de lucros distribuídos aos acionistas, com forte participação estrangeira via ADRs, e os valores efetivamente reinvestidos na capacidade produtiva da estatal.

Ora, esse capital, ao invés de ser reinvestido na ampliação da capacidade de refino ou em novas tecnologias, é remetido para o exterior, drenando a riqueza gerada a partir de um recurso natural brasileiro.

Segurança Alimentar e Infraestrutura: Pilares Fragilizados

A mesma lógica de dependência se repete em outros setores críticos para a soberania e o desenvolvimento do país, vejamos:

Fertilizantes: A Lavoura em Mãos Estrangeiras

O agronegócio é um dos principais motores da economia brasileira, mas sua base é extremamente vulnerável, na medida em que o Brasil importa cerca de 90% dos fertilizantes que consome, com a dependência de potássio chegando a 97%. Ainda que essas importações venham de um país aliado como a Rússia, nossas Linhas de Comunicações Marítimas são vulneráveis, dada a distância entre os países, e não temos capacidades de escoltas navais sobre nossa Marinha Mercante, exatamente porque os países em conflito são também nossos aliados!

Pois bem, essa fragilidade foi exposta durante a Guerra Russo-Ucraniana, que ameaçou o fornecimento global e elevou os custos de produção.

A situação foi agravada pelo fechamento de Fábricas de Fertilizantes Nitrogenados da Petrobras (FAFENs) nos últimos anos, movimento que aprofundou a dependência externa em nome de uma reestruturação de portfólio da estatal. Embora o Plano Nacional de Fertilizantes tenha sido lançado para mitigar essa dependência, ele avança lentamente, mantendo o país refém da geopolítica e da logística internacional.

Infraestrutura Ferroviária: Trilhos para a Exportação, Não Para a Nação

Historicamente, o Brasil optou pelo modal rodoviário – mais caro e poluente – em detrimento de uma malha ferroviária integrada. Esse foco visava atender a interesses de potências estrangeiras, subestimando o impacto no mercado de trabalho. Priorizou-se o aumento do contingente de caminhoneiros e toda a cadeia produtiva subsequente (gastos permanentes com obras, abertura para concessionárias, postos de combustíveis, manutenção, insumos e pedágios) em vez do baixo custo de manutenção, do menor risco de corrupção e da redução de desvios de verbas típicos do setor ferroviário, enfim.

As privatizações no setor ferroviário nos anos 1990 e o novo Marco Legal das Ferrovias focaram em corredores de exportação para commodities como minério de ferro e soja. Embora o volume de carga transportada tenha batido recordes, a maior parte serve para ligar as zonas de produção aos portos, negligenciando o transporte de carga geral e a integração do mercado interno.

E é exatamente  essa deficiência logística que gera grande parte do tão decantado “Custo Brasil”, que encarece produtos e reduz a competitividade de indústrias não ligadas à exportação de matérias-primas.

Dependência Tecnológica: O Colonialismo Digital

O que tenho defendido junto com outros pesquisadores, como o professor William de Sousa Moreira, da Escola de Guerra Naval, e outros de renome, é a vulnerabilidade mais profunda e talvez mais difícil de reverter: a tecnológica. Explico:

O Brasil é um mero consumidor de tecnologia estrangeira, sem produção relevante de hardware (smartphones, computadores, semicondutores) e com um ecossistema de software amplamente dominado pelas Big Techs internacionais. Mesmo projetos para criar uma indústria nacional de chips, como o CEITEC, fracassaram por falta de investimento contínuo e visão estratégica.

Essa total dependência significa que o Brasil não apenas remete bilhões de dólares em royalties e pagamentos por produtos e serviços, mas também entrega seus dados, sua comunicação e a gestão de sua infraestrutura crítica à espionagem industrial e comercial, e à corporações e governos estrangeiros.

Em um mundo onde a soberania digital é sinônimo de soberania nacional, o país se encontra em uma posição de extrema fragilidade.

Síntese Conclusiva: Chamado à Reindustrialização, ao Desenvolvimento Nacional e à Soberania

Isto posto, a análise histórica e setorial revela um leitmotiv claro: a venda de ativos estratégicos e a abertura indiscriminada ao capital estrangeiro, iniciadas após a redemocratização, criaram um modelo de desenvolvimento que beneficia interesses externos em detrimento da soberania e do bem-estar da população brasileira.

A priorização de dividendos sobre o investimento em refino, a dependência de fertilizantes importados, uma infraestrutura logística voltada para a exportação de commodities e a ausência de uma base tecnológica própria são sintomas de uma mesma  perda de controle sobre o próprio desenvolvimento nacional.

Reverter esse quadro exige uma mudança de paradigma, a participação da sociedade contra os “vendilhões da República”, presentes em todos os partidos políticos, agentes públicos da burocracia estatal, na iniciativa privada, na imprensa “vendida” e nos agentes estrangeiros atuando no pais.

Dito isso, precisamos urgentemente de uma revolução e “tomada do poder” sem sangue e sem violência, apenas respeitando o princípio da soberania popular que se sobrepõe a todos os poderes da República.

É preciso retomar o planejamento estratégico de longo prazo, com políticas industriais que incentivem a produção local em setores-chave, desde o refino de petróleo e a produção de fertilizantes, até o desenvolvimento de tecnologia.

É evidente que isso não significa um retorno ao protecionismo isolacionista, mas uma gestão inteligente da interdependência global, onde o interesse nacional e a soberania são inegociáveis.

Repito: sem uma Grande Estratégia, nas palavras do meu orientador Guilherme Sandoval, ou um Projeto de Nação, como dito pelo comandante Robinson Farinazzo, e como eu mesmo apresentei pessoalmente ao Supremo Tribunal Federal, nas mãos da Chefe de Gabinete do Ministro Luís Roberto Barroso em 2018, que coloque a reindustrialização e a autonomia tecnológica no centro, o Brasil continuará a ser um gigante de pés de barro, rico em recursos, mas pobre em controle sobre sua própria riqueza e desenvolvimento.

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