Por Giuseppe Gagliano*

Uma Unidade no Coração da História Militar Espanhola
A Legião Espanhola – conhecida como Tercio – ocupa um lugar singular na história militar contemporânea. Criada oficialmente em 28 de janeiro de 1920, por decreto real de Afonso XIII, surgiu de uma necessidade urgente: dotar a Espanha de uma força profissional, voluntária e disciplinada, capaz de combater no terreno desafiador do Protetorado do Marrocos. Embora a influência da Legião Estrangeira Francesa fosse evidente, a Espanha rapidamente transformou o modelo, conferindo-lhe uma identidade distinta, impregnada de um espírito de cavalaria, mística militar e uma poderosa dimensão simbólica. Sob o comando de seu fundador, José Millán-Astray, e de seu segundo em comando, Francisco Franco, a Legião tornou-se a personificação de um ideal guerreiro que deixou uma marca profunda na cultura militar espanhola.

Origens: Um Corpo de Elite para um Império em Crise
As origens da Legião devem ser compreendidas no contexto de uma fragilidade estratégica. Ainda abalada pela perda de Cuba e das Filipinas, a Espanha enfrentava uma insurreição complexa liderada por Abd el-Krim na região do Rife. O Exército regular, composto em grande parte por recrutas mal preparados, sofreu uma série de fracassos e humilhações. Isso deu origem ao conceito de um corpo de elite formado por voluntários veteranos de combate, capazes de suportar condições extremas e realizar operações ofensivas em um ambiente montanhoso e hostil. A escolha do nome Tercio de Extranjeros remetia aos famosos tercios do século XVI – símbolos do poder imperial espanhol sob os Habsburgos. Millán-Astray buscava construir não apenas uma unidade militar, mas um legado, uma tradição e uma narrativa nacional, adequados ao século XX.
Desde os seus primeiros dias no Marrocos, a Legião distinguiu-se por uma agressividade ofensiva e um nível de coesão moral incomuns para o Exército espanhol da época. O espírito de corpo, fomentado por rituais, canções, um código de honra e a imagem do legionário como o guerreiro por excelência, cria um formidável multiplicador de força. As banderas iniciais, compostas por companhias de fuzileiros e metralhadoras, tornaram-se a vanguarda das operações espanholas. Franco, então um jovem oficial, consolidou ali sua reputação como comandante eficaz. A Legião rapidamente se tornou a espinha dorsal do Ejército de África, servindo como o eixo estratégico que permitiu à Espanha estabilizar e, posteriormente, reconquistar suas posições no Marrocos.

Da Guerra Civil ao Declínio Colonial
A Guerra Civil Espanhola (1936–1939) marcou o período de maior expansão da Legião. Composta por 18 banderas e integrada ao Exército da África ao lado das tropas marroquinas Regulares, a Legião desempenhou um papel decisivo nas primeiras ofensivas nacionalistas. Profissional, resistente e disciplinada, proporcionou a Franco o ativo militar de que as milícias republicanas careciam. Seu rápido avanço do sul em direção a Madri deixou uma marca indelével na memória do conflito. Depois de 1939, a Legião retornou às suas guarnições no Marrocos; embora reduzida em efetivo, permaneceu central para a estrutura militar colonial espanhola.
A independência do Marrocos em 1956, junto às guerras de Ifni e do Saara Ocidental, alterou radicalmente a geografia militar da Espanha. A Legião adaptou-se, redistribuindo suas forças para Ceuta e Melilla, e mais tarde participou de operações controversas, como a repressão à manifestação de Zemla em 1970. Com a transição para a democracia, passou por uma profunda transformação de identidade: tornou-se menos política e mais profissional, integrou-se às estruturas da OTAN e participou de missões internacionais na Bósnia, no Afeganistão, no Iraque e no Líbano. Essa evolução demonstra uma capacidade de continuidade e adaptação rara entre as unidades de elite europeias.

Treinamento, Espírito de Corpo e Cultura Legionária
O treinamento do legionário constitui um dos pilares dessa continuidade. Quatro meses de instrução em Cáceres ou Cádiz preparam os recrutas para esforço físico extremo, longas marchas, manuseio de armas, táticas de assalto e combate corpo a corpo. O legionário é forjado por meio de uma combinação de disciplina rigorosa, intensa camaradagem e tradições guerreiras. O título de Caballero Legionario não é meramente honorífico; ele significa pertencer a uma tradição e serve como uma poderosa ferramenta de coesão.
Após o treinamento inicial, os soldados passam por instrução especializada que abrange desde infantaria mecanizada até armamento pesado, e desde tiro de precisão até comunicações. A unidade de maior prestígio, o GOE XIX “Maderal Oleaga”, destaca-se pelo treinamento avançado em operações especiais, incluindo mergulho de combate, contraterrorismo, reconhecimento de longo alcance, paraquedismo HALO1 e cursos SERE2. O treinamento realizado em Fort Bragg, em conjunto com as Forças Especiais dos EUA, eleva ainda mais os padrões de excelência.

Do ponto de vista estratégico, a Legião desempenha um papel vital nas capacidades militares da Espanha. Ela atua como uma força de reação rápida, caracterizada por um espírito tático agressivo e um alto grau de autonomia operacional. Sua estrutura atual, organizada em dois tercios principais na Andaluzia e duas unidades em Ceuta e Melilla, permite combinar o emprego expedicionário com a defesa territorial. No âmbito da OTAN, ela confere a Madri uma credibilidade militar que supera em muito o tamanho global de suas forças. Em missões de manutenção da paz e operações multinacionais, atua como uma unidade de elite capaz de estabilizar áreas instáveis, proteger comboios, treinar forças locais e conduzir operações ofensivas limitadas.

No entanto, a importância estratégica da Legião vai além da esfera puramente militar. Ela serve como um instrumento de influência interna, combinando tradição, identidade nacional e um ethos heroico. Poucas unidades na Espanha despertam um vínculo emocional tão forte. Durante a Semana Santa em Málaga, quando a Legião carrega o Cristo de la Buena Muerte, ela se torna um elemento central da narrativa nacional. Essa dimensão simbólica impulsiona o recrutamento, especialmente entre jovens de origem humilde ou da América Latina, atraídos pela promessa de status, identidade e sentimento de pertencimento.
Hoje, com um efetivo de quase 8.000 militares, a Legião Espanhola permanece central para a estratégia militar de Madri. Ela combina rapidez, tradição e profissionalismo com uma capacidade genuína de adaptação a novos cenários. Do Rife ao Afeganistão, demonstrou como uma unidade nascida em um império em declínio conseguiu atravessar um século de conflitos e transformações políticas sem perder sua essência definidora: o conceito de que um soldado pode ser, simultaneamente, guerreiro, símbolo e herdeiro de uma tradição que transcende sua própria época.
Críticas e Vulnerabilidades Estratégicas, Morais e Jurídicas
Apesar de seu prestígio, disciplina e história quase mítica, a Legião Espanhola continua sendo uma das unidades militares mais controversas da Espanha contemporânea. Seu legado colonial, seu papel na Guerra Civil e uma cultura interna profundamente moldada por códigos simbólicos de uma era passada alimentam debates constantes sobre sua relevância, missão e alinhamento com os valores de um Estado democrático moderno.
Do ponto de vista estratégico, a principal crítica diz respeito à própria razão de ser da Legião em um momento em que a Espanha não trava mais guerras coloniais nem conduz operações de conquista territorial. Sua estrutura, espírito ofensivo e rituais surgiram para enfrentar os desafios do Protetorado no Marrocos, um contexto geopolítico que já não existe. Alguns especialistas apontam que a manutenção de uma força de assalto tão especializada, parcialmente sediada nos enclaves de Ceuta e Melilla, gera tensão constante com o Marrocos e poderia atuar como um catalisador para uma escalada de conflito. Outros argumentam que, no âmbito da OTAN, onde a guerra moderna depende cada vez mais da cooperação tecnológica, da defesa cibernética e da dissuasão avançada, a Legião representa um modelo operacional parcialmente ultrapassado. Embora continue a contribuir para missões internacionais, essa contribuição é limitada por uma doutrina voltada para a ação direta, em vez da estabilização a longo prazo – uma área que, no entanto, é prioritária para as forças armadas europeias.
As críticas são ainda mais contundentes no plano moral. A identidade da Legião está enraizada em um ethos heroico, viril e de autossacrifício, que seus defensores consideram a chave para sua eficácia. Seus críticos, porém, veem essa cultura como um vestígio do militarismo franquista, alicerçado na obediência absoluta, na glorificação da morte e em um culto, por vezes excessivo, à coragem individual. O próprio termo Caballero Legionario reflete uma visão quase romântica do guerreiro, difícil de conciliar com um Exército que deve incorporar os valores de uma sociedade pluralista. A participação da Legião na repressão aos mineiros das Astúrias em 1934, em operações brutais contra os insurgentes do Rife e na violência da Guerra Civil permanece como um peso na memória coletiva que não pode ser totalmente apagado. Alguns observadores veem a persistência de símbolos religiosos, como o Cristo da Boa Morte, como uma diluição das fronteiras entre tradição militar, catolicismo popular e identidade nacional.
Aspectos jurídicos também levantam questões delicadas. Historicamente, a Legião esteve envolvida em episódios cercados de ambiguidade, notadamente a sangrenta repressão à manifestação de Zemla, em 1970, no Saara Ocidental, cujas repercussões jurídicas ainda não foram plenamente reconhecidas. Durante as décadas de 1980 e 1990, diversas investigações trouxeram à tona casos de abuso durante o treinamento; embora punidos posteriormente, tais episódios revelaram uma cultura interna difícil de controlar. A política de recrutamento semiaberta da Legião, em especial no que diz respeito a indivíduos vulneráveis da América Latina, também levanta questionamentos sobre a proteção dos direitos individuais no momento do alistamento, especialmente em um cenário econômico no qual a carreira militar pode parecer a única via para a mobilidade social.
Por fim, uma crítica recorrente diz respeito à compatibilidade cultural e jurídica da Legião com um exército profissional moderno. Suas canções, tradições, cerimônias específicas e a ênfase dada a uma morte gloriosa – morir en el combate es el mayor honor (morrer em combate é a maior honra) – são vistas como problemáticas por uma parcela da sociedade espanhola, que percebe esses elementos como resquícios de um passado autoritário. Embora a Legião tenha se profissionalizado com sucesso e participado de missões internacionais exigentes, permanece dividida entre duas imagens conflitantes: o prestígio de uma elite militar, de um lado, e a sombra de um passado político e colonial, de outro.

Em última análise, a Legião Espanhola continua sendo uma força eficaz e disciplinada, capaz de operar em ambientes desafiadores. Contudo, suas vulnerabilidades – estratégicas, morais e jurídicas – revelam uma tensão não resolvida entre tradição e modernidade. O desafio que ela enfrenta é claro: preservar sua identidade sem se tornar um anacronismo e adaptar-se a um mundo onde o soldado profissional deve incorporar não apenas a força, mas também os valores democráticos que é chamado a defender.
Sucessos e Fracassos Estratégicos: Alguns Exemplos Históricos
A história da Legião Espanhola é marcada por operações caracterizadas por uma combinação de sucessos táticos, resultados estratégicos mistos e custos políticos consideráveis. Certos episódios ilustram essa mistura de brilhantismo militar e fragilidade estratégica.
Entre seus sucessos, a Guerra do Rife destaca-se como um evento decisivo. A Legião desempenhou um papel decisivo na estabilização da frente marroquina no início da década de 1920, quando a insurgência de Abd el-Krim ameaçava provocar o colapso de todo o Protetorado. A criação de uma força profissional capaz de realizar operações ofensivas sustentadas em terrenos difíceis permitiu a Madri reverter uma situação que parecia desesperadora. O ponto culminante foi o desembarque em Alhucemas, em 1925, realizado em conjunto com a França; a Legião participou como força de assalto e ajudou a romper a resistência rifenha. Do ponto de vista tático, foi um sucesso notável, uma das primeiras grandes operações anfíbias modernas, na qual o uso combinado de meios navais, aéreos e de infantaria antecipou métodos posteriormente adotados durante a Segunda Guerra Mundial.
Outro sucesso, embora mais controverso, foi o papel da Legião na Guerra Civil. O traslado de tropas do Exército da África para a Espanha continental, facilitado pelo apoio aéreo alemão e italiano, proporcionou a Franco um núcleo de tropas de elite logo no início do conflito. Como força profissional, a Legião conferiu aos Nacionalistas uma vantagem qualitativa decisiva sobre as milícias republicanas, muitas vezes mal organizadas. Nesse aspecto, a Legião revelou-se um multiplicador de forças que alterou o equilíbrio interno do conflito.
As falhas tornam-se evidentes ao se transitar do campo de batalha para as esferas política e geopolítica. A repressão em Astúrias, em 1934, levada a cabo pelo Exército da África e pela Legião, foi certamente eficaz de um ponto de vista estritamente militar: a insurreição foi sufocada em poucos dias. Contudo, o custo político foi imenso. A imagem de uma unidade de elite empregada contra mineiros e trabalhadores espanhóis deixou uma marca duradoura na memória coletiva e contribuiu para acirrar a polarização do país. Estrategicamente, a operação reforçou a percepção da Legião tanto como um instrumento de coerção interna quanto como uma força de combate externa, um fator que pesaria significativamente sobre a sua legitimidade após a Guerra Civil.
No Saara Ocidental, durante as décadas de 1960 e 1970, a Legião participou de esforços para manter o domínio espanhol diante do crescente nacionalismo saaraui. Militarmente, obteve êxito ao controlar o território por algum tempo e conter os primeiros grupos armados. Estrategicamente, contudo, a Espanha perdeu a disputa: a Marcha Verde, a retirada espanhola e a subsequente guerra entre o Marrocos e a Frente Polisário demonstraram que o controle militar em terra não se traduziu em uma solução política duradoura. O incidente de Zemla, em 1970, marcado pela repressão violenta e letal a uma manifestação, tornou-se um símbolo desse fracasso: uma vitória de curto prazo alcançada pela força, mas uma derrota de longo prazo em termos de imagem e legitimidade.

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Mais recentemente, na Bósnia, no Kosovo e no Afeganistão, a Legião alcançou êxitos que, embora menos visíveis, são significativos. Ela demonstrou capacidade de operar em estruturas multinacionais, interagir com forças aliadas e adaptar-se a missões que envolvem estabilização, proteção de civis e treinamento de exércitos locais. Essas mobilizações reforçaram a credibilidade internacional da Espanha; no entanto, permanecem limitadas em seu alcance e não alteraram fundamentalmente a percepção interna sobre o corpo militar.
Em suma, os sucessos estratégicos da Legião residem principalmente em sua capacidade de oferecer à Espanha, uma potência média, um instrumento militar de elite capaz de exercer influência muito além do peso demográfico e econômico do país. Seus fracassos, por outro lado, surgem quando uma vitória militar se transforma em derrota política, quando o uso da força a curto prazo mina a legitimidade a longo prazo. É precisamente nesse equilíbrio precário, entre eficácia operacional e custo político, que o futuro da Legião Espanhola será definido.
Semelhanças e Diferenças em Relação à Legião Estrangeira Francesa
Comparar a Legião Espanhola com a Legião Estrangeira Francesa é quase inevitável, dada a aura compartilhada por ambos os corpos, definida pela disciplina, pelo heroísmo e pela tradição, mas também por aspectos mais sombrios e controvérsias. Contudo, apesar das semelhanças aparentes, como o mesmo nome e a função de tropas de choque, as trajetórias históricas, a composição do efetivo e o emprego estratégico dessas duas unidades revelam diferenças profundas.
As semelhanças decorrem principalmente da natureza voluntária e de elite de ambas as legiões. Tanto na Espanha quanto na França, ninguém se torna legionário por obrigação; É uma questão de escolha, muitas vezes motivada por uma ruptura pessoal, pelo desejo de um recomeço ou pelo fascínio de um status de guerreiro quase mítico. O esprit de corps (espírito de corpo) é cultivado com um fervor quase religioso: rituais, canções, tradições e uniformes distintos forjam uma identidade à parte do restante do Exército. Em ambos os casos, a unidade é vivenciada como uma família escolhida, que é mais exigente, mas que oferece maior solidariedade, do que a sociedade civil deixada para trás. Além disso, ambas foram concebidas para atuar como tropas de assalto em conflitos árduos, nos quais a disciplina e a resistência importam tanto quanto o armamento.
No entanto, as diferenças são igualmente significativas. A primeira diz respeito ao recrutamento. Desde a sua criação, em 1831, a Legião Estrangeira Francesa foi concebida para acolher estrangeiros, alguns sem documentos, outros em busca de reconstruir um passado despedaçado. Ela oferece uma nova identidade, um novo nome e uma segunda vida. A Legião Espanhola, por outro lado, apesar de sua denominação original, Tercio de Extranjeros, nunca desenvolveu uma missão verdadeiramente universal. Embora tenha aceitado estrangeiros em diferentes graus ao longo dos anos, suas fileiras permaneceram predominantemente hispanófonas e, com muita frequência, compostas por espanhóis. O elemento do exílio voluntário, tão central para a mística da Legião Francesa, desempenha um papel muito mais limitado no contexto espanhol.
A segunda diferença reside na estrutura social e cultural. A Legião Francesa carrega a marca de um cosmopolitismo marcial: russos brancos, alemães, poloneses, norte-africanos e latino-americanos integraram suas fileiras, criando uma comunidade onde a diversidade é elevada pela disciplina. A Legião Espanhola, em contrapartida, vinculou-se desde cedo à identidade nacional, ao espírito castelhano de cavalaria, à tradição religiosa e a uma visão específica de sacrifício heroico. Enquanto a Legião Estrangeira cultiva o desapego do soldado sem passado, a Legião Espanhola constrói uma mitologia que se nutre da história imperial e da devoção religiosa popular.
Diferenças também surgem no seu emprego estratégico. A Legião Estrangeira Francesa opera dentro de uma estrutura imperial e, posteriormente, pós-imperial, centrada na projeção de poder no exterior: Argélia, Indochina, Madagascar, África Subsaariana e operações contemporâneas no Sahel. Ela foi a ferramenta por excelência para a guerra colonial e a estabilização em territórios distantes. A Legião Espanhola, inversamente, permaneceu por muito tempo confinada a conflitos no Protetorado do Marrocos e, subsequentemente, nos enclaves do Norte da África. Seu papel geopolítico era o de uma força de elite dentro do império espanhol, e não o de um instrumento global de projeção de poder. Foi somente após a transição para a democracia e a plena integração à OTAN que ela se tornou uma força internacional, participando de missões na Bósnia, no Iraque, no Afeganistão e no Líbano.

Por fim, a divergência mais significativa é de ordem doutrinária. A Legião Francesa baseia-se em um princípio absoluto: o legionário nada é sozinho, mas torna-se tudo dentro da unidade. Ela apaga origens, identidades e afiliações anteriores; apenas a bandeira verde e vermelha importa. A Legião Espanhola, por sua vez, enfatiza a personalidade, a bravura individual e o ethos do Caballero Legionario, herdeiro de uma tradição que é, ao mesmo tempo, cavalheiresca e mística. A primeira exige a anulação do eu, enquanto a segunda glorifica o compromisso pessoal. Esse detalhe simbólico revela duas concepções de elite militar: uma forjada no silêncio do anonimato, a outra no canto e no heroísmo público.
Em última análise, essas duas legiões encarnam duas formas distintas de conceber a força militar. A Legião Estrangeira Francesa é a espada internacional da França, um corpo onde a origem importa menos do que a lealdade. A Legião Espanhola é um pilar de identidade, uma personificação da tradição nacional e da coesão cultural, onde a unidade de valores é tão fundamental quanto a eficácia operacional.
Publicado no Le Diplomate.Media.
*Giuseppe Gagliano é presidente do Centro Studi Strategici Carlo de Cristoforis, em Como, Itália. É membro do comitê internacional de assessores científicos do Centre Français de Recherche sur le Renseignement (Cf2R).
Notas
1 HALO: High Altitude, Low Opening (Alta Altitude, Baixa Abertura). É uma técnica avançada de paraquedismo militar em que os soldados saltam de grande altitude, mas abrem o paraquedas bem perto do solo. Isso serve para entrar em áreas inimigas de forma secreta sem serem vistos ou detectados por radares.
2 SERE: Survival, Evasion, Resistance, and Escape (Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga). É um treinamento rigoroso que prepara os militares para sobreviver em ambientes hostis, fugir do inimigo e resistir caso sejam capturados.









