As Torres do Kremlin: A Remodelação Política da Rússia na Guerra Russo-Ucraniana

Compartilhe:
Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

Na Rússia de Putin, a guerra redesenha o equilíbrio entre serviços de segurança, tecnocratas e grupos econômicos. Entre repressão, controle das elites e disputa por influência, as “Torres do Kremlin” revelam como o poder se reorganiza, e como o regime se prepara para o futuro.


Este breve ensaio analisa a dinâmica do poder político na Rússia sob o contexto de uma guerra prolongada e de crescentes tensões internas. Embora seja frequentemente caracterizado como um regime personalista centrado na concentração de autoridade em Vladimir Putin, o sistema russo apresenta formalmente uma estrutura baseada no sufrágio universal, com eleições legislativas e presidenciais; contudo, as instituições e os chefes das repúblicas que compõem a federação estão subordinados à aprovação do chefe de Estado.

O regime é organizado de modo tecnocrático, com um primeiro-ministro escolhido por Putin – atualmente Mikhail Mishustin – e ministros em diversas áreas, além de agências especializadas de caráter estratégico, como o Serviço Federal de Segurança (FSB, Federal Security Service) e a Rosgvardyia, a Guarda Nacional da Federação Russa. O sistema inclui partidos políticos oficializados que promovem uma oposição institucionalizada, como o KPDF (Partido Comunista da Federação Russa), Rússia Justa, Novas Pessoas, Rodina e o LDBR (Liberais Democratas).

Ademais, organizações da sociedade civil e órgãos com maior proximidade com as comunidades apresentam um grau de autonomia controlado e relativo nas esferas econômica, industrial, cívica, cultural, militar, religiosa e assistencial.

Compreender o funcionamento desse sistema é fundamental para analisar os rumos do exercício do poder na Rússia e as tendências que irão moldar sua política externa, de defesa e de segurança, com implicações estratégicas e geopolíticas de impacto global, diante do status da Rússia como potência global. Infelizmente, no Ocidente, há bastante dificuldade na compreensão do funcionamento do regime russo, sua adequação a situações de crise e como o ocorre o equilíbrio interinstitucional.

O sistema construído por Vladimir Putin ao longo de um quarto de século, com um equilíbrio entre grupos concorrentes, está se transformando cada vez mais em um campo de competição oculta pelo controle de recursos, estruturas de poder e acesso ao próprio “árbitro” do sistema – o próprio presidente. A guerra, as sanções e a necessidade de manter as elites sob controle tornaram essa competição mais intensa e, ao mesmo tempo, mais discreta: conflitos abertos são raros, mas a redistribuição de poderes, prisões realizadas pelo sistema de segurança e mudanças de pessoal são constantes.

A própria expressão “Torres do Kremlin” se consolidou na linguagem política nas décadas de 2000 e 2010 como uma forma de descrever as facções informais existentes na elite governante. Ela surgiu a partir da observação de como, após a ascensão de Putin ao poder, os antigos grupos oligárquicos e regionais foram substituídos por redes formadas em torno dos serviços de inteligência, das grandes empresas estatais e de um círculo próximo de pessoas ligadas a São Petersburgo.

Por trás disso, havia um processo histórico muito específico: a transformação de um regime personalista em um sistema onde as instituições formais – governo, administração, Conselho de Segurança – servem como fachada para os interesses de diversos grupos. Putin conscientemente manteve a competição, não permitindo que nenhum grupo monopolizasse a influência. Essa estrutura recebeu o nome de “Torres do Kremlin”. Hoje, o termo está bem estabelecido: analistas políticos, incluindo pesquisadores russos e ocidentais, o utilizam para se referir às redes de influência reais e não a campos ideológicos abstratos.

Existem várias “Torres” principais na estrutura de poder da Rússia e as fronteiras entre elas são fluidas, mas a divisão funcional é bastante clara.


Modelo analítico das “Torres do Kremlin”, representando os grupos informais de influência que disputam recursos e acesso ao poder, sob a arbitragem central de Vladimir Putin.

A Torre do Poder, que se baseia principalmente no FSB e em estruturas relacionadas – como o Serviço de Inteligência Externa (SVR, Sluzhba Vneshney Razvedki), a Rosgvardyia, o Serviço Federal de Proteção (FSO, Federalnaya Sluzhba Okhrany) –, é responsável pela segurança interna, pelo controle das elites e pela supressão de qualquer sinal de deslealdade para com o sistema político e institucional.

Seu principal representante continua sendo Nikolai Patrushev, atualmente conselheiro do presidente, que mantém sua influência, apesar de ter deixado o cargo de secretário do Conselho de Segurança. Ao lado dele, estão o diretor do FSB, Alexander Bortnikov e os líderes de departamentos-chave, incluindo o Segundo Serviço, que em 2026 recebeu efetivamente poderes ampliados para manter a ordem interna.

Essa “torre” controla o aparato repressivo, os casos criminais contra funcionários e empresários e uma parte significativa dos fluxos de informação sobre ameaças internas. O componente militar, que antes estava intimamente ligado a Sergei Shoigu, enfraqueceu-se após sua transferência em 2024 para o cargo de secretário do Conselho de Segurança: as prisões de seus vice-ministros por corrupção e as mudanças no Ministério da Defesa, sob a liderança de Andrei Belousov, mostraram que o clã militar perdeu sua autonomia anterior e agora opera dentro de um sistema de poder mais rígido.

A Torre Tecno-Política, ligada a Yuri Kovalchuk e Sergei Kirienko, supervisiona a política interna, as nomeações de pessoal, o trabalho com as regiões, os projetos para jovens e parte dos recursos de mídia. Kirienko, como primeiro vice-chefe da administração presidencial, continua sendo uma figura-chave: através dele, são feitas as nomeações de governadores, a gestão de novos territórios e as tecnologias políticas, incluindo o projeto “Novos Russos”1.

Este grupo possui recursos significativos no setor bancário, através de estruturas ligadas ao Banco Rossiya e na indústria nuclear. Sua força reside na capacidade de garantir a governabilidade sem pressão direta, mas, em 2025-26, enfrentou uma crescente resistência por parte dos serviços de segurança, que veem Kirienko como concorrente, corrupto e não confiável, com supostas conexões com empresas sediadas em paraísos fiscais no Ocidente.

A Torre Corporativo-Econômica reúne os líderes das principais empresas estatais. Igor Setchin, através da Rosneft, controla uma parte substancial das receitas de petróleo e dos fluxos financeiros relacionados, possuindo um poder significativo, principalmente em situações de crise de combustível.

Sergey Chemezov, à frente do megaconglomerado Rostec, controla o complexo industrial-militar e uma parcela significativa dos ativos de alta tecnologia. Próximos a essa esfera estão os irmãos Rotenberg, embora sua influência tenha diminuído nos últimos anos devido à redistribuição de ativos e ao fortalecimento de novos aliados. Essa “torre” garante a receita em moeda estrangeira e a capacidade de produção necessárias para a guerra, e portanto, mantém sua importância para o regime russo, apesar da pressão das sanções internacionais.

Um lugar especial é ocupado pelo círculo de ex-seguranças e da “guarda pretoriana” de força, liderado por Viktor Zolotov, comandante da Rosgvardyia. A ele se juntam Alexey Dyumin, assistente do presidente e secretário do Conselho de Estado, Dmitry Mironov e vários outros ex-seguranças. O poder desse grupo informal reside no controle físico da segurança do líder e na capacidade de mobilizar rapidamente unidades de força dentro do país em qualquer risco de crise. Mishustin, como primeiro-ministro, representa a camada tecnocrática de gestão, responsável pela estabilidade econômica e pela execução do orçamento. Sua posição é relativamente estável, pois o regime precisa de um aparelho administrativo funcional.

Nos últimos anos, a distribuição de poder mudou significativamente. A guerra se tornou o principal fator de redistribuição. A “Torre do Poder” se fortaleceu: a repressão contra funcionários regionais, juízes e até mesmo alguns agentes de segurança se tornou rotina devido a casos criminais de corrupção e o FSB ganhou mais liberdade de ação no exercício da repressão qualificada. Patrushev, apesar da transição formal para o cargo de assistente, manteve e até fortaleceu sua influência informal.


LIVRO RECOMENDADO

As entrevistas de Putin

Oliver Stone (Autor)
• Em português
• Kindle ou Capa comum


Por outro lado, o “clã” militar de Shoigu enfraqueceu-se bastante após 2024: uma série de processos criminais contra seus antigos subordinados e a nomeação de Belousov, um membro do meio econômico-tecnocrático, como novo ministro da Defesa, mostraram que o “peso” puramente militar não é mais uma força independente, principalmente com as grandes reformas introduzidas pelo novo ministro, que trouxeram melhorias qualitativas e tecnológicas para as Forças Armadas da Federação Russa. O grupo Kirienko-Kovalchuk, em geral, manteve suas posições e até expandiu o controle sobre a procuradoria através da nomeação de Igor Gutzan, mas em 2026 enfrentou pressão direta da Segunda Divisão do FSB. Os grupos econômicos ligados a Sechin e Chemezov se beneficiaram da militarização da economia, mas, ao mesmo tempo, ficaram sujeitos a um controle mais rígido: a onda de apreensões de ativos de funcionários e empresários em 2025-26 se tornou uma ferramenta de disciplina e persecução penal diante de mais casos de corrupção desvendados pelo FSB.

Recentemente, conforme pesquisas de fontes russas ligadas a bastidores do poder, Putin realizou uma reunião não divulgada com Surkov, durante a qual discutiram a “reconfiguração” geopolítica.

Uma fonte no Kremlin informou sobre uma reunião confidencial entre Putin e seu ex-assistente, Vladislav Surkov, que coincidiu com a visita à Rússia do diretor da CIA, Ratcliffe. As partes discutiram detalhadamente três áreas-chave: Ucrânia, Transnístria e os países bálticos. Segundo a fonte, Surkov ofereceu pessoalmente seus serviços ao Kremlin para resolver crises nessas áreas.

Apesar da recusa em ocupar cargos, Surkov continua sendo valorizado como um estrategista experiente e profundo. O ex-assistente do presidente está disposto a ser ouvido e envolvido como especialista informal. Além disso, suas análises serão recebidas no mais alto nível, inclusive pessoalmente pelo próprio chefe de estado.

Parece que, em um contexto de confronto prolongado, Moscou está disposta a coletar ideias de todos os grandes estrategistas do passado, mesmo que seu retorno oficial ao jogo seja impossível.

No momento atual, o equilíbrio é mantido pela figura de Putin como o único árbitro. Os agentes de segurança dominam a área de segurança e repressão, os tecnocratas garantem a governabilidade e a propaganda, e os grupos corporativos fornecem os recursos. Nenhuma “torre” possui monopólio e é isso que permite ao regime manter a estabilidade. O cenário mais provável para os próximos anos é a centralização contínua e o fortalecimento do sistema de segurança e defesa, mantendo a gestão tecnocrática da economia. A guerra continua sendo o principal fator que justifica a redistribuição de recursos em favor das forças de segurança e, ao mesmo tempo, mantém as elites em estado de desconfiança mútua e enquadramento perante as necessidades do regime.

A preparação para uma possível transição não ocorre através da nomeação de um único sucessor, mas por meio do desenvolvimento de grupos leais: jovens funcionários, ex-seguranças e a “nova elite” formada por participantes da guerra na Ucrânia, muitos inclusive candidatos a deputados nas próximas eleições legislativas. Nessas condições, qualquer tentativa de uma das “torres” de se fortalecer drasticamente será recebida com decisões de pessoal ou processos criminais. O sistema continua a funcionar de acordo com a lógica de um conflito controlado, onde o vencedor é aquele que controla o acesso ao árbitro do poder – Vladimir Putin – e se submete aos ditames da soberania do Estado.

O mandato de Putin encerra-se formalmente em 2030 e, conforme anunciado publicamente, a nova elite do regime será composta por indivíduos selecionados para as futuras gerações de poder nas instituições e na estrutura econômica, com base em seu desempenho em prol do Estado durante a denominada “operação militar especial”, apresentada como uma nova ideologia nacional da Rússia.

Nota

1 O projeto “Novos Russos” está atrelado às estratégias de tecnologia política e governabilidade da administração presidencial da Rússia. É uma linha de ação gerida por alas do Kremlin para consolidar o controle político, a indicação de governadores alinhados e a gestão de novas diretrizes territoriais.

Compartilhe:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn

Deixe um comentário

____________________________________________________________________________________________________________
____________________________________
________________________________________________________________________

Veja também