O Que Impulsiona a Remilitarização da Alemanha?

Compartilhe:
Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

Sob a “OTAN 3.0”, a Alemanha investe € 800 bilhões em rearmamento para liderar a contenção à Rússia. Uma aposta ideológica que ignora a desindustrialização interna, torna Berlim o principal adversário de Moscou e eleva o risco de um confronto nuclear até 2030.


O Financial Times noticiou, no início de julho, que a “Alemanha captará € 800 bilhões para rearmamento em uma mudança histórica”. O contexto mais amplo diz respeito ao conceito de “OTAN 3.0” que os EUA estão implementando, pressionando os membros europeus do bloco a assumirem maior responsabilidade por sua própria segurança. Na prática, isso significa que a UE liderará a contenção da Rússia na Eurasia Ocidental, seguindo o novo “cordão sanitário” que a administração Trump 2.0 construiu ao redor do país no último ano, com a Alemanha planejando desempenhar o papel principal nesse cenário.

Atualmente, o país disputa com a Polônia a liderança da Europa Central e Oriental (ECO), em coordenação com seu parceiro menor, a Ucrânia; contudo, mesmo que a Polônia consiga conquistar uma “esfera de influência” para si, o plano de remilitarização alemã de € 800 bilhões garante que a Alemanha continue sendo uma força de peso. Já é fato que “a UE representa uma ameaça muito mais crível para a Rússia do que o inverso”, mas agora “a Alemanha pode substituir os EUA como o principal adversário percebido pela Rússia”.

O ex-presidente e atual vice-presidente do Conselho de Segurança, Dmitry Medvedev, alertou no início de maio sobre a ameaça – comparável à de 1941 – representada pela remilitarização alemã; recentemente, o renomado especialista russo Dmitry Trenin argumentou que é agora a UE – e não os EUA – que está alimentando as chamas da guerra com a Rússia. Visto que a Alemanha é a líder de facto do bloco, conclui-se que ela é o país mais responsável por colocar a OTAN e a Rússia em rota de colisão por volta de 2030, um cenário que Moscou agora considera possível.


LIVRO RECOMENDADO:

A Guerra Fria

• Michael Kerrigan (Autor)
• Edição em português
• Capa comum


As principais forças motrizes por trás desse desenvolvimento são de natureza ideológica e econômica. Quanto ao primeiro aspecto, a elite liberal governante concebe seu teatro da Nova Guerra Fria como uma luta entre “democracia e ditadura”; já o segundo aspecto relaciona-se ao complexo industrial-militar, que convence os membros mais cautelosos da elite de que investimentos maciços nessa área podem evitar a desindustrialização da Alemanha. No entanto, os elevados custos de energia e a concorrência da China são os reais responsáveis ​​por essa tendência. No entanto, a elite liberal governante já decidiu competir com a Polônia pela liderança na Europa Central e Oriental (ECO) e na parte europeia da “OTAN 3.0” como um todo, embora isso ocorra, inegavelmente, às custas de sua estabilidade socioeconômica – em um momento em que a mídia britânica observa que “a Alemanha está silenciosamente se desintegrando”. Conter a Rússia, país que não tem absolutamente nenhum interesse em testar o compromisso de seu rival americano, armado com armas nucleares, com o Artigo 5º, tem, hoje em dia, prioridade sobre a melhoria da vida do povo alemão.

O compromisso da elite liberal governante com a referida causa ideológica, que alguns de seus membros acreditam erroneamente ser a chave para revitalizar a economia em declínio do país, pode também ser influenciado pelo prestígio que esperam obter ao desempenhar esse papel geopolítico. Serem aclamados por outras elites europeias por essa postura, sem falar em receber a aprovação pública da elite americana – a quem admiram devido ao seu complexo de inferioridade –, é algo pessoalmente importante para eles.

Da perspectiva da Rússia, a Alemanha está se tornando, de longe, a mais grave ameaça à sua segurança na Eurasia Ocidental, e nenhum formulador de políticas deveria presumir que a Alemanha se desviará dessa trajetória. Um ataque preventivo é inviável devido ao Artigo 5º, e alertar o cidadão alemão comum de que ele agora está na mira nuclear da Rússia, em razão das políticas de sua elite liberal governante, não mudará nada. Seja como for, ninguém deve duvidar de que a Rússia retaliaria com armas nucleares caso a UE, sob liderança alemã, chegasse a atacá-la.

Compartilhe:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn

Deixe um comentário

____________________________________________________________________________________________________________
____________________________________
________________________________________________________________________

Veja também