Zeitgeist: é Tempo de Grandes Mudanças Geopolíticas?

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

Por Sylvio Pessoa da Silva*

Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

A ascensão de uma Nova Ásia e a consolidação de um “QUAD Asiático” informal – Rússia, Índia, China e Irã – desafiam a hegemonia global, redesenhando a geopolítica do século XXI e ditando o novo espírito do tempo nas relações internacionais.


Antigamente, os homens tinham a impressão de que eram criaturas efêmeras num mundo imutável; as pessoas viviam em terras que seus pais haviam habitado, trabalhavam como eles haviam trabalhado, cuidavam-se como eles foram cuidados, instruíam-se como eles se instruíram, rezavam da mesma maneira, deslocavam-se pelos mesmos meios.” – Amin Maalouf.

Em 1997, a Folha de São Paulo, no caderno Mundo1, publicou um artigo com parte do pensamento do ex-secretário de Estado Henry Kissinger, no qual um dos homens mais influentes do mundo, na segunda metade do século XX, apontava para o Oriente Médio como “a região de maior importância estratégica no século XXI”. As outras regiões de importância seriam a Ásia e os países da OTAN. Segundo Kissinger, em sua visão da época, “nunca se produziram simultaneamente tantas mudanças estruturais no sistema internacional”. Sinais então não tão claros foram identificados por um ator influente, atento observador e arguto estudioso das relações internacionais. Desde a invasão do Afeganistão (2001), até a guerra Israel-EUA-Irã, as previsões de Kissinger, do final do século XX, têm sido confirmadas?

A primeira vez que tomei contato com a palavra de origem alemã zeitgeist foi lendo O Naufrágio das Civilizações, uma obra focada nas incertezas destes tempos de mudanças profundas e impactantes. “O espírito do tempo” (zeitgeist) se refere às mudanças e posturas civilizacionais e, de certa forma, ajuda a explicar o início deste século.

O pensamento de Kissinger se conecta a obra de Amin Maalouf (2020) quando analisamos os dados do Banco Mundial2 (BM) desde 2000, nos quais países como o Iraque e o Afeganistão, da mesma forma, apresentam dados socioeconômicos positivos, reforçando o que parece ser o novo pivô do mundo, a Ásia. Essa “dança das cadeiras”, iniciada nos anos 1990, demonstra a ascensão de países do Sul Global, com destaque para a Índia e a China. As locomotivas do mundo e seus principais vagões têm bandeiras concorrentes no atual cenário.


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Esse protagonismo asiático amaça a hegemonia dos Estados Unidos da América (EUA) e seus aliados. No pós II Guerra Mundial, os EUA adquiriram exponenciais capacidades em todos os campos do poder (social, econômico, político, tecnológico e militar). Ao término da Guerra Fria, com a debacle da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), ficou a impressão de fato consumado.

Nesse novo concerto das nações, foi observado o surgimento da Organização de Cooperação de Xangai e do BRICS (+), dos quais fazem parte Rússia, Índia, China e Irã (RICI). Essa realidade permitiu, por exemplo, que Bangladesh celebrasse o atingimento de novos índices econômicos. O país, recentemente, superou a Índia no que se refere à Renda Nacional Bruta (GNI, Gross National Income), segundo o India Today Global3, ao divulgar dados do Bangladesh Bureau of Statistics. O país teria atingido a renda de USD 3,200 per capita durante o ano fiscal 2025-2026, mais de 9% em relação ao período anterior. No mesmo período, o produto interno bruto (PIB) alcançou USD 501 bi. Pode parecer algo simples, mas sinaliza, como outros exemplos, que há um transbordamento nessa “nova Ásia”.

Essas alterações, com grande probabilidade, pesaram nos cálculos geopolíticos de Washington ao reavivar o Diálogo de Segurança Quadrilateral (QUAD), formado pelos EUA, Japão, Índia e Austrália, um arranjo importante, que porém não parece avançar. Todavia, a região parece ter seu próprio QUAD apesar das disparidades. Este, não formalizado, mas que parece ter mais chances de envolver a região de forma diferenciada.

A Guerra EUA-Israel-Irã tende a resultar em mais uma mudança que favoreceria o continente e o QUAD asiático. O que parecia ser uma civilização a ser devastada tornou-se uma oportunidade para o Irã4. Ainda que não seja um acordo de paz, os riscos de um abismo econômico mundial, de um desastre político de e de um possível “pântano militar” tendem a reforçar o Memorando de Entendimento assinado pelas partes. Resta saber se haverá uma formalização do fim das hostilidades em todas as frentes, pois, eminentemente, a situação e a oposição israelenses não concordam com a assinatura do Memorando.

Retomando o foco no RICI, há diversos elementos que nos permitem pensar nesse QUAD Asiático como uma significativa arquitetura geopolítica (Tabela 1).


Tabela 1: Elementos para reflexão sobre Rússia, Índia, China e Irã como uma “arquitetura geopolítica”.

A “Nova Ásia” alavanca muitos outros países além de Bangladesh e das grandes demografias. A Indonésia é um exemplo no radar de mudanças socioeconômicas, mas a maioria gravita, de uma forma ou de outra, em torno dos quatro vértices RICI, com destaque para RIC.

Naturalmente, isso parece mais um rascunho em papel simples do que um arranjo em processo de maturação. Os conflitos entre Paquistão e Índia, e no Oriente Médio demonstram um longo caminho a percorrer, mas a proeminência política conferida ao Paquistão e o status do qual o Irã tenta se revestir podem auxiliar no congelamento das tensões entre Nova Délhi e Islamabad. A solução é complexa e exige um status quo de confiança antes da colaboração.

Com a tentativa de pôr fim ao conflito no Oriente Médio, a importância da Ásia ficou mais visível, com destaque para o ponto mais ocidental desse QUAD, pois o Irã demonstrou capacidade de agência impensável. Como resultado, os juros dos títulos do Tesouro Americano (T-Bonds) foram afetados, as políticas doméstica e internacional pressionaram as decisões do governo dos EUA, as reservas de petróleo e gás no mundo atingiram um nível muito baixo, os meios militares dos EUA no Oriente Médio ficaram desprotegidos, os inventários militares dos EUA e aliados atingiram um nível perigoso e os aliados dos EUA ficaram descobertos em boa parte do planeta. De certa forma, até o presente, é inescapável comparar esse conflito com a Guerra Russo-japonesa (1905).

Por fim, cabe esclarecer que este ensaio é fruto de leituras, diálogos, discursos e dados que nos levaram a estas reflexões. A verdade cabe a Deus e só o tempo poderá trazer alguma luz sobre as questões tratadas. Há muitos pensamentos contrastantes e dados desconhecidos que não podem ser desconsiderados. De qualquer forma, nestas linhas, o objetivo principal é chamar a atenção para esse QUAD Asiático informal que pode se tornar real, conforme o atual espírito do tempo.


*Sylvio Pessoa da Silva é coronel da reserva do Exército Brasileiro graduado pela Academia Militar das Agulhas Negras. É pós-graduado em Logística pela FGV e em Relações Internacionais pela UFRGS, e mestre em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Foi instrutor de Logística na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais e na ECEME, comandou o 4º Depósito de Suprimento, foi assessor do Gabinete do Comandante do Exército e subchefe do Centro de Obtenções do Exército. Serviu em Angola (UNAVEM III) e no Haiti (MINUSTAH). Foi Adido de Defesa, Naval, do Exército e Aeronáutico no Líbano de 2017 a 2018.

Notas

1Kissinger comenta Oriente Médio”, artigo da Newsweek republicado pela Folha de São Paulo em 20 de janeiro de 1997. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/1/20/mundo/7.html.

2 Disponível em: https://data.worldbank.org/country.

3 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vnj_EL-f9E8&t=1s.

4 Para mais detalhes, veja “‘Guerra foi destrutiva para os iranianos, mas rendeu resultados políticos’, afirma especialista”, citando o professor Danny Zahreddine (Filipe Barini, O Globo, 21 de junho de 2026, disponível em https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/06/21/a-guerra-foi-destrutiva-para-os-iranianos-mas-deu-resultados-do-ponto-de-vista-politico-afirma-especialista.ghtml).

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