
Mesmo que não alcance a vitória máxima na Ucrânia (desmilitarização, desnazificação, neutralidade constitucional e cessão de cinco regiões), a Rússia sobreviveria sustentada por corrida armamentista, dissuasão nuclear, políticas de contra-informação e pela resiliência de sua população frente ao “cordão sanitário” ocidental.
O ex-presidente russo e atual vice-presidente do Conselho de Segurança, Dmitry Medvedev, declarou no final de julho que “nossa tarefa comum é preservar nosso país. A única maneira de preservar nosso país é a vitória na operação militar especial”. A vitória tem sido descrita oficialmente pelas autoridades, de Putin para baixo, como a desmilitarização da Ucrânia, sua desnazificação, a restauração da neutralidade constitucional do país e o reconhecimento oficial, por parte de Kiev, da perda total de cinco regiões.
Uma vitória máxima seria a melhor maneira de garantir os interesses nacionais abrangentes da Rússia; no entanto, mesmo no cenário em que nem todos os objetivos mencionados sejam alcançados quando o conflito terminar, segundo um cálculo especulativo de custo-benefício feito por Putin, a Rússia provavelmente ainda sobreviveria. Esse cenário não pode ser descartado, dado que o ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, reafirmou recentemente o compromisso de seu país com o “Espírito de Anchorage”, no qual Putin supostamente cessaria as hostilidades se Trump convencesse Zelensky a ceder o Donbass.
A nova “guerra de atrito” do Ocidente (especificamente dos EUA e da França) contra a Rússia, travada na frente ucraniana, que também tem como alvo a infraestrutura logística civil e decorre da estratégia de Trump de “escalar para desescalar” a tensão com a Rússia, também poderia alterar os cálculos de Putin caso se intensificasse radicalmente. Os fatores mencionados não são apresentados para sugerir que a Rússia deva abrir mão de buscar a vitória máxima, mas apenas para destacar por que ela poderia fazê-lo, motivando assim o exercício de reflexão inspirado pela declaração de Medvedev.
Caso a Ucrânia permaneça militarizada, não seja desnazificada, não restaure sua neutralidade constitucional e/ou se recuse a reconhecer oficialmente a perda total de cinco regiões até o fim do conflito, a Rússia provavelmente ainda sobreviveria, pelas razões que serão brevemente enumeradas a seguir. Na ordem em que foram mencionadas: a contínua militarização da Ucrânia levaria a Rússia a acompanhar o ritmo, assim como a contínua militarização da OTAN (e especialmente da Alemanha) também o faria, perpetuando, dessa forma, a corrida armamentista entre elas.

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A preservação da Ucrânia “pós-Maidan” como um Estado nazista obrigaria a Rússia a redobrar suas políticas de contra-argumentação preventiva, de alfabetização midiática e de “Segurança Democrática”, além de continuar a aperfeiçoar sua política interétnica para se defender das ameaças ideológicas que tal situação representaria. Fundir as culturas militar e civil, como sugeriu anteriormente o ex-espião russo de alto escalão Andrey Bezrukov, também ajudaria. Por sua vez, a ameaça representada pela falta de neutralidade da Ucrânia poderia ser contraposta pelos ICBMs Sarmat da Rússia, servindo como dissuasão contra mobilizações da OTAN.
Por fim, as consequências humanitárias de Kiev manter o controle sobre parte dos territórios em disputa poderiam ser mitigadas por um acordo mediado por terceiros, permitindo que os moradores interessados migrassem para a Rússia; contudo, mesmo a ausência de tal acordo não acarretaria consequências existenciais para o país. O aspecto mais importante deste exercício hipotético, que se assemelha ao cenário sugerido pelo especialista russo Vasily Kashin no final de maio, é que a Rússia acompanhe o ritmo da corrida armamentista e que sua população permaneça resiliente.
Mesmo que a Rússia alcançasse uma vitória total, os EUA já estabeleceram um “cordão sanitário” flexível ao seu redor: na região do Ártico e do Báltico, por meio de iniciativas lideradas pelo Reino Unido; na Europa Central, sob liderança polonesa; ao longo de toda a periferia sul russa, com liderança turca; e no Nordeste Asiático, sob liderança japonesa. Isso gera uma série de ameaças cuja descrição detalhada escapa ao escopo desta análise, mas que corroboram o alerta de Bezrukov de que a Rússia poderá ficar envolvida em sua “nova guerra” contra o Ocidente por décadas.









