De São Petersburgo ao Kremlin

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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A guerra do século XXI transcende o campo de batalha, exigindo integração total entre tecnologia, inteligência artificial e poder militar. Contudo, por trás de toda inovação e da Névoa da Guerra 2.0, o fator humano continua sendo o elemento decisivo para a vitória.


Embora grande parte da atenção da mídia ocidental permaneça focada nos movimentos táticos na frente ucraniana, dois eventos que ocorreram com poucos dias de diferença oferecem uma melhor compreensão da visão estratégica que guia Moscou atualmente. O primeiro foi o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo. O segundo foi o encontro de Vladimir Putin no Kremlin com representantes das tropas da linha de frente que lutam na Ucrânia durante as comemorações do Dia da Rússia.

À primeira vista, podem parecer eventos completamente diferentes. Um reuniu empresários, cientistas, investidores e líderes políticos. O outro reuniu sargentos, oficiais subalternos e combatentes das áreas mais ativas da frente. No entanto, vistos em conjunto, revelam a mesma arquitetura estratégica.

Em São Petersburgo, Putin falou sobre economia, indústria, inovação tecnológica, soberania financeira e um mundo multipolar. No Kremlin, falou sobre drones, satélites, guerra eletrônica, inteligência artificial, logística e táticas. Mas, em ambos os casos, a mensagem foi essencialmente a mesma: a Rússia acredita que a competição estratégica do século XXI será decidida pela capacidade de integrar economia, tecnologia e poder militar em um único esforço nacional (algo que nós, dedicados à defesa da Pátria, conhecemos muito bem).

A guerra na Ucrânia tornou-se, portanto, um gigantesco laboratório onde as formas que futuros conflitos poderão assumir estão sendo testadas.

De uma Economia de Resistência para uma de Superioridade

Durante os primeiros anos do conflito, a prioridade da Rússia era resistir. Resistir às sanções econômicas ocidentais, à pressão diplomática e ao esforço militar conjunto da Ucrânia e dos países da OTAN que a apoiam.

No entanto, as mensagens emanadas de Moscou nas últimas semanas sugerem uma mudança conceitual significativa. Não se trata mais apenas de resistir. A ambição parece ser alcançar uma vantagem tecnológica capaz de alterar o equilíbrio de poder.

Por essa razão, os mesmos conceitos têm aparecido repetidamente tanto em São Petersburgo quanto no Kremlin: inteligência artificial, constelações de satélites, comunicações seguras, drones autônomos, guerra eletrônica e inovação civil aplicada ao combate.

Isso não é coincidência. Os militares russos presentes na reunião expressaram preocupação com drones de grande porte, enlaces via satélite, sistemas antidrone, inteligência artificial aplicada ao combate e comunicações equivalentes ao Starlink (Rassvet é o projeto de rede de internet via satélite em órbita baixa da Terra desenvolvido pela empresa aeroespacial russa Buro 1440). A resposta de Putin foi significativa: a Rússia já possui sistemas semelhantes em desenvolvimento e a prioridade agora é expandir a constelação espacial e acelerar a integração entre indústria, ciência e forças armadas.

Em outras palavras, Moscou parece convencida de que a guerra do futuro será decidida tanto em laboratórios e centros tecnológicos quanto nas trincheiras.

A Surgimento do Quarto Domínio

Por décadas, a teoria militar distinguiu três domínios fundamentais de combate: terra, mar e ar. Posteriormente, o espaço sideral foi adicionado. No entanto, a experiência ucraniana parece estar consolidando um novo domínio decisivo: o domínio da informação.

A informação tornou-se uma arma. As comunicações via satélite são uma arma. Como temos expressado em nosso conceito de Névoa da Guerra 2.0: algoritmos são uma arma, mídias sociais são uma arma e inteligência artificial é uma arma.

A guerra não se resume mais a destruir as capacidades físicas do adversário. Ela também envolve moldar percepções, influenciar decisões políticas e construir interpretações da realidade.

A luta pela dominância cognitiva tornou-se uma dimensão tão relevante quanto a luta por território.

A Batalha pela Narrativa

Durante grande parte do primeiro semestre de 2026, uma parcela significativa da narrativa da mídia ucraniana sobre o conflito se baseou em três ideias centrais.

A primeira sustentava que os ganhos territoriais russos eram insignificantes e obtidos apenas ao custo de enormes perdas humanas. A segunda afirmava que a proliferação massiva de drones havia criado uma barreira tecnológica capaz de impedir qualquer avanço operacional significativo. A terceira insistia que a chamada “Ofensiva de Primavera Russa” havia fracassado.

No entanto, a recente evolução das operações terrestres parece estar desafiando progressivamente essa narrativa. A pressão russa sobre setores como Konstantinovka e outros eixos operacionais da frente oriental está forçando uma reconsideração de alguns desses argumentos.

Como consequência, começa a surgir uma mudança discursiva em direção a outro eixo: a capacidade da Ucrânia de atingir alvos em território russo utilizando drones de longo alcance, ataques de precisão e operações especiais, bem como a possibilidade de interromper as comunicações e a logística russas na Crimeia.


LIVRO RECOMENDADO:

Guerra Russo-Ucraniana: O Conflito que Redesenhou a Geopolítica Mundial

• Rodolfo Queiroz Laterza e Marco Antonio de Freitas Coutinho (Autores)
• Edição Português
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Naturalmente, esses ataques existem e têm significado militar. Mas, ao lado deles, surge outro fenômeno característico da guerra contemporânea: a proliferação de conteúdo manipulado, imagens fora de contexto, reconstruções digitais e até mesmo material gerado por inteligência artificial.

A velocidade de circulação muitas vezes supera em muito a capacidade de verificação. A guerra da informação é travada em tempo real. E, frequentemente, a percepção pública de uma batalha é formada antes que os fatos possam ser verificados.

Névoa 2.0

Carl von Clausewitz usou a expressão “névoa da guerra” para descrever a incerteza inerente ao combate. A guerra na Ucrânia inaugurou uma nova era. Não estamos mais enfrentando uma escassez de informação. Estamos enfrentando uma superabundância.

Milhões de imagens, vídeos, publicações, relatórios e análises circulam simultaneamente todos os dias. Paradoxalmente, quanto maior o volume de informações disponíveis, mais difícil se torna compreender a realidade. Nossos leitores fiéis sabem que chamamos esse fenômeno de Névoa 2.0.

Não se trata de ocultar informações. Trata-se de inundar o espaço informacional com uma quantidade tão grande de dados, imagens, interpretações e narrativas que distinguir entre realidade, propaganda, erro e manipulação se torna cada vez mais complexo.

A guerra não é mais travada apenas no campo de batalha físico. Ela também é travada nas mentes dos tomadores de decisão política, da opinião pública e dos próprios combatentes.

A Mobilização Abrangente do Poder Nacional

Talvez a lição mais importante do Fórum de São Petersburgo e da reunião no Kremlin seja que a Rússia parece conceber o conflito atual como uma guerra abrangente. Não basta produzir mais tanques e mais drones. Não basta controlar mais território.

A vitória depende da capacidade de integrar simultaneamente indústria, ciência, tecnologia, comunicações, espaço, informação e força militar (os recursos humanos).

Para que isso aconteça, as engrenagens precisam funcionar como um relógio: a fábrica produz drones; o satélite fornece informações; a inteligência artificial processa dados; a guerra eletrônica protege ou interfere nos sistemas; e o aparato de comunicações constrói a narrativa. Tudo isso faz parte da mesma arquitetura estratégica.

A Lição para a Argentina

Para a Argentina, a principal lição não reside em tomar partido de um ou outro contendor, mas em compreender a magnitude da transformação em curso.

Conflitos futuros exigirão capacidades industriais, tecnológicas, espaciais, informacionais e militares integradas, dentro de uma estratégia nacional coerente. A soberania não é mais medida apenas (reiteramos: não apenas, mas também…) pelo tamanho territorial ou pelo número de pessoal disponível, mas também pela capacidade de produzir tecnologia crítica, proteger infraestrutura estratégica, controlar informações relevantes e sustentar a tomada de decisões autônomas em um ambiente internacional cada vez mais competitivo. A defesa nacional é um esforço em todo o país para proteger sua soberania (nota do editor: esta observação é válida para o Brasil).

No entanto, a experiência destes anos oferece uma lição complementar que muitas vezes se perde em meio ao entusiasmo tecnológico.

Como podemos ver, drones observam. Satélites comunicam. Inteligência artificial processa informações. A guerra eletrônica protege sistemas e neutraliza ameaças. Mas nenhuma dessas ferramentas ocupa uma cidade, assegura uma posição ou consolida uma vitória. Somente a nobre e leal Infantaria pode fazer isso.

Como Putin lembrou recentemente às tropas de assalto russas, são os soldados de infantaria que, em última análise, avançam, mantêm o terreno e determinam o resultado da missão de combate.

Cuidado com os Vendedores de Fumaça

A tecnologia transforma a guerra, mas não substitui o combatente. O resultado final ainda depende do homem que luta no campo de batalha.

A verdadeira lição estratégica da Ucrânia talvez resida precisamente aí. A guerra do século XXI não supõe substituir o soldado por uma máquina, mas sim uma nova síntese entre tecnologia e o fator humano. Quem conseguir integrar indústria, ciência, informação, espaço, inteligência artificial e vontade de lutar terá uma vantagem decisiva.

Porque, no final da batalha, os algoritmos podem designar o alvo, mas ainda são os homens que escrevem a história. E esses homens, por definição, têm corpo e alma.

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