O Fim da História e a Angústia da Velha Ordem

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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Enquanto Washington reage com ansiedade à erosão de sua hegemonia unipolar, Pequim e Moscou avançam com paciência estratégica, consolidando uma arquitetura eurasiática que redefine o equilíbrio de poder global. A história não terminou: ela apenas entrou em uma nova fase multipolar e competitiva.


A rápida sucessão de cúpulas entre Donald Trump e Xi Jinping, seguida poucos dias depois pela visita de Vladimir Putin a Pequim, provavelmente constitui um dos episódios diplomáticos mais reveladores dos últimos anos.

No entanto, o verdadeiro significado estratégico desses encontros reside não apenas nos acordos firmados ou nas declarações oficiais. O fator mais importante é algo completamente diferente: a diferença no clima psicológico e político entre os dois encontros.

Enquanto a visita de Trump foi marcada por tensão, ansiedade e incerteza – produto da crise iraniana, da competição tecnológica, da questão de Taiwan e da crescente perda da liderança global americana –, o encontro entre Putin e Xi transcorreu com uma serenidade quase burocrática.

Paciência e Ansiedade

E é precisamente aqui que emerge um dos elementos centrais da transição geopolítica contemporânea. Potências emergentes negociam com paciência; hegemonias em declínio reagem com ansiedade.

O cenário internacional atual não reflete mais o antigo “momento unipolar” do período pós-Guerra Fria. Pelo contrário, demonstra o esgotamento progressivo do unilateralismo ocidental e o avanço de um sistema internacional cada vez mais multipolar, competitivo e instável.

Durante décadas, os Estados Unidos tentaram consolidar uma ordem global baseada em: supremacia financeira, domínio marítimo, superioridade tecnológica, capacidade militar expedicionária e controle político das instituições internacionais.

A queda da União Soviética levou alguns intelectuais, como Francis Fukuyama, a proclamar o “fim da história”, ou seja, a vitória definitiva do modelo liberal ocidental como o destino inevitável da humanidade.

Paralelamente, grupos de reflexão como o Projeto para o Novo Século Americano desenvolveram doutrinas com o objetivo de preservar indefinidamente a hegemonia global dos EUA que emergiu após 1989. Guerras preventivas, revoluções coloridas, expansão da OTAN e sucessivas intervenções militares serviram amplamente a esse objetivo estratégico.

Outro Caminho

No entanto, a realidade histórica seguiu um caminho diferente.

A China não só resistiu à contenção ocidental, como também alcançou paridade sistêmica com os Estados Unidos em múltiplas dimensões: industrial, tecnológica, comercial e geopolítica. O próprio Washington Post reconheceu recentemente que a cúpula Trump-Xi simbolizou algo que Washington tentou evitar por décadas: o reconhecimento da China como uma potência equivalente aos Estados Unidos. Julian Gewirtz, ex-conselheiro para a China no Conselho de Segurança Nacional durante o governo Biden, chegou a afirmar que “não há volta”. Esse reconhecimento constitui um evento histórico de enorme magnitude.

Porque o verdadeiro problema estratégico para Washington não é apenas a ascensão econômica da China. O que está realmente em jogo é o fim da capacidade dos Estados Unidos de atuarem como árbitro absoluto do sistema internacional.

Unilateralismo

E aí reside a questão mais profunda: o unilateralismo não pode mais ser sustentado materialmente. Esta não é meramente uma crise ideológica ou diplomática. É uma transformação estrutural do equilíbrio global de poder.

A China atingiu massa crítica na indústria e na tecnologia. A Rússia mantém profundidade estratégica, recursos energéticos e capacidades militares. Os BRICS estão expandindo progressivamente sua influência. A Eurásia está fortalecendo sua integração econômica. E o Ocidente está perdendo lentamente o monopólio financeiro e produtivo que sustentou seu domínio global por décadas. Nesse contexto, a parceria entre Moscou e Pequim assume importância decisiva.

A reafirmação da aliança estratégica entre Putin e Xi, juntamente com o avanço do projeto energético Power of Siberia 2, constitui muito mais do que um acordo bilateral. Representa a consolidação progressiva de uma arquitetura eurasiática capaz de reduzir a dependência da China das vulneráveis ​​rotas marítimas do Golfo Pérsico e do Indo-Pacífico.

A geopolítica clássica reaparece aqui com perfeita clareza.

De Halford Mackinder a Zbigniew Brzezinski, a grande preocupação histórica das potências marítimas anglo-saxônicas sempre foi impedir a integração estratégica da Eurásia. A convergência da extensão territorial da Rússia, da capacidade industrial da China e da conectividade energética continental altera profundamente esse equilíbrio histórico.

É por isso que a questão energética adquiriu uma centralidade fundamental. Enquanto os Estados Unidos tentam preservar sua hegemonia talassocrática controlando pontos de controle marítimos – os estreitos de Ormuz, Malaca, Suez e Bab el-Mandeb –, a China e a Rússia estão avançando com mecanismos alternativos de integração continental menos vulneráveis ​​a um bloqueio naval ocidental. A energia está, portanto, tornando-se novamente um dos verdadeiros centros de gravidade estratégicos do sistema internacional contemporâneo.


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Nesse cenário, o conflito deixa de ser exclusivamente militar e se desloca para outros setores de atividade, onde prevalecem a coerção econômica e a pressão energética e emergem a inteligência artificial, a desinformação, as operações psicológicas e a “nova” dissuasão nuclear. Todos esses fatores coexistem simultaneamente dentro de uma dinâmica de “escalada controlada”.

Ninguém parece desejar uma guerra mundial aberta. Mas todos estão se preparando para a possibilidade de ela ocorrer. E talvez aí resida a característica mais perigosa de nossa época.

Os exercícios nucleares russos realizados em paralelo com a visita de Putin a Pequim constituem precisamente uma “mensagem estratégica” de advertência indireta ao Ocidente. A mensagem parece clara: Moscou está lembrando a todos que existe um limite máximo para a escalada tanto na Ucrânia quanto no Oriente Médio. Este ponto assume especial importância à luz da crise iraniana.

Contexto Estratégico

Muitas análises ocidentais apresentam o problema unicamente em termos da questão nuclear iraniana ou do conflito regional com Israel. No entanto, o contexto estratégico é muito mais profundo: está em jogo o controle do sistema energético global e a capacidade dos Estados Unidos de manter sua hegemonia marítima global.

O Estreito de Ormuz adquire, portanto, importância decisiva. Não se trata simplesmente de conter o Irã. Trata-se de demonstrar que, sem a presença militar dos EUA, o comércio marítimo global e o sistema energético internacional tornam-se incontroláveis.

Aqui, reaparece a lógica clássica da geopolítica: quem controla os fluxos de energia molda a ordem mundial.

Nesse sentido, as reflexões do professor John Mearsheimer são particularmente relevantes. O principal defensor do realismo ofensivo argumenta há anos que o “momento unipolar” acabou e que o sistema internacional voltou a se estruturar em torno da competição entre grandes potências.

Mearsheimer alertou desde cedo que a expansão ocidental pós-Guerra Fria – especialmente a expansão da OTAN – inevitavelmente geraria tensões com a Rússia e aceleraria o retorno de uma lógica de equilíbrio de poder.

Mas talvez sua observação mais importante seja outra: o próprio processo de globalização impulsionado pelo Ocidente acabou fortalecendo precisamente o principal concorrente sistêmico dos Estados Unidos. A integração econômica global não conteve a China: ela a industrializou, financiou e fortaleceu.

Douglas Macgregor, por sua vez, contribui com outro elemento fundamental: a crescente sobrecarga estratégica ocidental. Macgregor insiste que os Estados Unidos não possuem mais a liberdade operacional absoluta de que desfrutavam na década de 1990. A coexistência da Rússia, da China e do Irã como polos de resistência limita severamente a capacidade de coerção unilateral de Washington.

Portanto, tanto Mearsheimer quanto Macgregor, desde perspectivas diferentes, convergem para a mesma conclusão, que reiteramos diversas vezes nesta coluna: a ordem internacional pós-1991 está entrando em crise.

Um Problema Psicológico

No entanto, o problema contemporâneo não é apenas geopolítico. É também psicológico. O chamado “Ocidente abastado” (para usar o termo de Augusto del Noce) não enfrenta apenas uma relativa perda de poder; enfrenta também a dificuldade de aceitar um mundo onde não é mais o único centro legítimo do sistema internacional. E isso gera ansiedade estratégica, coerção constante e guerras intermináveis. Enquanto isso, a China e a Rússia parecem apostar em uma lógica diferente: baseada no desgaste, na paciência estratégica e na acumulação gradual de poder.

Como podemos ver, a sequência Trump-Xi e Putin-Xi não representou simplesmente dois encontros diplomáticos. Revelou o choque entre duas concepções históricas de poder mundial.

Por um lado, um unilateralismo ocidental que tenta preservar um sistema cuja base material começa lentamente a se deteriorar. Por outro lado, surge uma multipolaridade baseada na convergência pragmática entre as principais potências continentais.

A ansiedade estratégica da velha ordem contrasta com a serenidade tática daqueles que percebem que o tempo histórico começa lentamente a jogar a seu favor. A história não acabou. Ela simplesmente entrou em uma nova fase.


Publicado no La Prensa.

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