Precisamos de um debate verdadeiro sobre a guerra na Ucrânia

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Por Katrina vanden Heuvel*

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Os que falam de história e contextualizam o papel do Ocidente na tragédia da Ucrânia não estão desculpando o ataque criminoso da Rússia. Não seria mais saudável explorar mais pontos de vista, história e contexto, ao invés de buscar apenas “viés de confirmação”?


É hora de desafiar a visão ortodoxa sobre a guerra na Ucrânia.
À medida que o ataque ilegal e brutal da Rússia entra no quarto mês, o impacto na Europa, no Sul Global e no mundo já é profundo. Estamos testemunhando o surgimento de uma nova ordem mundial político/militar.

A ação climática está sendo deixada de lado à medida que a dependência de combustíveis fósseis aumenta; a escassez de alimentos e outras demandas de recursos estão elevando os preços e causando fome global generalizada; e a crise mundial de refugiados – com mais refugiados internacionais e pessoas deslocadas internamente do que em qualquer momento desde o fim da Segunda Guerra Mundial – representa um enorme desafio.

Além disso, quanto mais prolongada a guerra na Ucrânia, maior é o risco de um acidente ou incidente nuclear. E com a estratégia do governo Joe Biden de “enfraquecer” a Rússia com a escalada de carregamentos de armas, incluindo mísseis antinavio, e revelações de assistência de inteligência dos EUA à Ucrânia, fica claro que os Estados Unidos e a Organização do Tratado do Atlântico Norte estão em uma guerra por procuração com a Rússia.

As ramificações, perigos e custos multifacetados dessa guerra por procuração não deveriam ser um tópico central da cobertura da mídia, bem como da análise, discussão e debate informados? No entanto, o que temos na mídia e no establishment político dos EUA é, na maior parte, uma discussão e debate público unilateral, até mesmo inexistente. É como se vivêssemos com o que o jornalista Matt Taibbi chamou de “zona de exclusão aérea intelectual”.

Aqueles que se afastaram da linha ortodoxa sobre a Ucrânia são regularmente excluídos ou marginalizados – com certeza raramente vistos – na grande mídia corporativa. O resultado é que visões e vozes alternativas e contrárias parecem inexistentes. Não seria saudável ter mais diversidade de pontos de vista, história e contexto em vez de “viés de confirmação”?

Aqueles que falam de história e oferecem contexto sobre o papel precipitante do Ocidente na tragédia da Ucrânia não estão desculpando o ataque criminoso da Rússia.


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É uma medida desse pensamento e da zona de exclusão aérea retórica ou intelectual, que figuras proeminentes como Noam Chomsky, o professor da Universidade de Chicago John Mearsheimer e o ex-embaixador dos EUA Chas Freeman, entre outros, tenham sido demonizados ou caluniados por levantar argumentos e fornecer contexto e história muito necessários para explicar o pano de fundo desta guerra.

Na frágil democracia americana, o custo da dissidência é comparativamente baixo. Por que, então, não há mais indivíduos nos think tanks ou na academia, na mídia ou na política desafiando a narrativa política-mídia ortodoxa dos EUA?

Não vale a pena perguntar se enviar cada vez mais armas aos ucranianos é o caminho mais sábio? É demais pedir mais questionamentos e discussões sobre a melhor forma de diminuir o perigo de um conflito nuclear?

Por que os não-conformistas são difamados por notar, até mesmo reforçados com fatos e história respeitáveis, o papel das forças nacionalistas, de extrema-direita e, sim, neonazistas na Ucrânia? O revivalismo fascista ou neonazista é um fator tóxico em muitos países hoje, desde nações europeias até os Estados Unidos. Por que a história da Ucrânia é frequentemente ignorada, até mesmo negada?

Enquanto isso, como observou um ex-general do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, “a guerra é uma raquete”*. Os conglomerados de armas dos EUA estão fazendo fila para comer no cocho. Antes que a guerra termine, muitos ucranianos e russos morrerão enquanto Raytheon, Lockheed Martin e Northrop Grumman fazem fortunas. Ao mesmo tempo, os noticiários das redes e da TV a cabo dos EUA estão repletos de especialistas e “peritos” – ou mais precisamente, oficiais militares que se tornaram consultores – cujos empregos e clientes atuais não são divulgados aos telespectadores.

*O major-general Smedley Darlington Butler, do US Marine Corps, foi um crítico do aventureirismo militar americano e, até o momento da sua morte, o fuzileiro mais condecorado da história dos Estados Unidos.

O que é muito pouco mostrado nas TVs ou telas da Internet dos americanos, ou no Congresso dos EUA, são visões alternativas – vozes de contenção, que discordam da tendência de ver o compromisso nas negociações como apaziguamento, que buscam uma diplomacia persistente e dura para alcançar um cessar-fogo efetivo e uma resolução negociada, destinada a garantir que a Ucrânia emerja como um país soberano, independente, reconstruído e próspero.

“Diga-me como isso termina”, perguntou o general David Petraeus ao escritor do Washington Post, Rick Atkinson, alguns meses depois do início da guerra no Iraque, que durou quase uma década. Pôr fim à guerra atual exigirá novos pensamentos e desafios às ortodoxias desta época. Como observou certa vez o venerável jornalista americano Walter Lippmann: “Quando todos pensam da mesma forma, ninguém pensa muito”.


Este artigo foi produzido pela Globetrotter.


*Katrina vanden Heuvel é diretora editorial e editora da Nation e presidente do Comitê Americano para o Acordo EUA-Rússia (ACURA). Ela escreve uma coluna semanal no The Washington Post e é comentarista de política internacional e dos EUA para o Democracy Now, PBS, ABC, MSNBC e CNN.

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2 comentários

  1. Quando se fala em (ataque criminoso) se induz alguma lei das naçóes unidas que prevë que o que foi feito, foi crime.
    Náo é isso que ocorreu.
    A Rússia agiu de acordo com os códigos de conduta das Naçóes Unidas para uma açáo militar especial.
    Essa açáo com base no que foi explicado é justificável no código das naçóes Unidas.
    Temos que observar bem o que FALAMOS, usar PALAVRAS AO VENTO é coisa de PTRALHA, gente que náo sabe o que fala, que fala bobagens, sem base do que esta falando, ou seja, apenas mais um curioso.
    Náo é o mesmo que foi feito pelos EUA no Iraque, Syria, Yemen, Somalia, Afeganistáo… Ou seja, quando foi que eu ouvi algo sobre isso em algum meio do ocidente? Nunca.
    Aparentemente todos ficam calados quando o exército americano destrói países inteiros com desculpas esfarradas, náo vi uma base militar do iraque na fronteira dos EUA, ou da Síria, ou do Afeganistáo, mas mesmo assim foram atacados.
    Os traficantes mexicanos fazem mais mal aos EUA do que o Al Qaeda (que a propósito é mantido pela CIA).

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