Biden ajusta a narrativa da Ucrânia

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Transportador-montador-lançador RS-24 Yars (CSIS Missile Defense Project).

Por M.K. Bhadrakumar*

Transportador-montador-lançador RS-24 Yars (CSIS Missile Defense Project).

O governo Joe Biden está improvisando e atualizando narrativas para lidar com realidades que insistem em se transformar em surpresas desagradáveis.


O artigo de opinião do presidente dos EUA, Joe Biden, publicado no The New York Times na terça-feira sobre a guerra na Ucrânia, começa com um blefe. Ele diz que o presidente Vladimir Putin pensava que a operação especial da Rússia duraria apenas alguns dias. Como Biden chegou a tal estimativa não está claro. Como a narrativa dos EUA sobre a guerra, é amplamente presuntiva.

Os russos estão enraizados – e bem fundamentados – em sua crença de que a Ucrânia se tornou uma colônia americana e que os líderes em Kiev são meros fantoches. Como Putin e seus assessores do Kremlin estimaram que a operação especial seria moleza? Os objetivos centrais da operação especial são tais – um tratado afirmando o status neutro da Ucrânia, seu reconhecimento das repúblicas do Donbass como estados independentes e a Crimeia como parte integrante da Rússia – que uma operação que “duraria dias” não os garantiria.

Moscou sabia que os EUA não tinham absolutamente nenhuma intenção de acomodar as preocupações legítimas de segurança da Rússia em relação à expansão da OTAN na Ucrânia que foram formalmente projetadas em dezembro por escrito.

Essa é a principal razão pela qual os russos não têm cronograma para sua operação especial. Eles adorariam terminar o quanto antes, mas sabiam que a integração das regiões do sul da Ucrânia – Zaprozhia, Kherson, Mykolayiv –, vital para a economia e a segurança da Crimeia e os portos do Mar Negro da Ucrânia, não seria brincadeira de criança e poderia ser de longa duração.

Apenas no quarto mês da operação especial, Putin poderia decretar a simplificação dos procedimentos para a cidadania russa de candidatos nas regiões de Kherson, Zaprozhia, no sul da Ucrânia (aqui e aqui).

A região de Zaprozhia, no sul da Ucrânia, ofereceu à Rússia um aeródromo militar em Melitopol e uma base naval em Berdyansk, na costa do Mar de Azov. A região de Kherson planeja se integrar ao sistema educacional da Rússia. Os carros estão usando placas russas, a internet e telefones operam com cartões SIM russos. Basta para dizer que o sapato está em outro pé.

Foi Biden quem pensou que a Rússia poderia ser descartada como uma peça de tabuleiro de xadrez, mas apenas para perceber tardiamente a realidade da vida. Biden ameaçou transformar o rublo, a moeda russa, em mero entulho e destruir a economia russa. Tendo sido sempre um capanga como político profissional, Biden nunca entendeu realmente a resiliência, fortaleza e coragem do povo russo ou sua consciência histórica e psiquê ao apoiar Putin.

No artigo de opinião do Times, Biden acha que fez um gesto pessoal em relação a Putin, prometendo que “não tentará a sua deposição em Moscou”. No entanto, a aprovação de Putin em seu país é de cerca de 80%, enquanto a de Biden é menos da metade disso – 36%!

Aqui reside a situação da administração Biden. Os EUA estão tateando no escuro sobre as intenções russas na Ucrânia. Ele continua improvisando e atualizando sua narrativa para lidar com realidades emergentes que continuam surgindo como surpresas desagradáveis.

Não se trata apenas da parte militar, mas também do roteiro político da Rússia. A única constante em Washington é fornecer à Ucrânia armamento “avançado” – mas isso também significa regenerar negócios lucrativos para o complexo militar-industrial, alimentando guerras no exterior, ou compensando os aliados da OTAN que transferem seus estoques da era soviética para a Ucrânia.

No entanto, Biden proclama em seu editorial que “manterá o curso” e a ajuda maciça à Ucrânia continuará “nos próximos meses”. Dito isso, ele faz uma apresentação matizada no editorial, onde, além da iteração de catecismos usuais – sobre “uma Ucrânia democrática, independente, soberana e próspera”; unidade aliada; agressão russa não provocada; “ordem internacional baseada em regras”, etc. – ele também envia algumas mensagens a Moscou à medida que a guerra avança para uma nova fase.


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Para começar, ele não faz mais falsas promessas de enviar os russos para a Sibéria. Biden não prevê vencedores e perdedores. Pelo contrário, reconhece que esta guerra só pode ter uma solução diplomática. Ele sinaliza modestamente que essa escala massiva de ajuda militar dos EUA pode colocar Kiev “na posição mais forte possível na mesa de negociações”. Palavras cuidadosamente redigidas.

Em outros lugares, Biden estima que o foco da operação russa é “assumir o controle do máximo possível da Ucrânia” antes do início das negociações. Implícita aqui está a percepção de que os russos mudaram a maré da guerra e não é de se esperar uma reversão da sorte.

É a partir de uma perspectiva tão racional que a esquiva incomum de Biden da retórica vituperativa e beligerante em relação à Rússia (ou pessoalmente a Putin) precisa ser entendida. Ele reafirma categoricamente: “Enquanto os Estados Unidos ou nossos aliados não forem atacados, não estaremos diretamente envolvidos neste conflito, seja enviando tropas americanas para lutar na Ucrânia ou atacando forças russas. Não estamos encorajando ou permitindo que a Ucrânia ataque além de suas fronteiras. Não queremos prolongar a guerra apenas para infligir dor à Rússia”.

É claro que Washington “continuará cooperando” com aliados em relação a sanções – “as mais duras já impostas a uma grande economia” – mas Biden não avaliará sua eficácia. Ele promete “trabalhar com nossos aliados e parceiros para lidar com a crise global de alimentos que a agressão da Rússia está piorando”, mas não vai mais alegar que a escassez mundial de alimentos é criação da Rússia. Ele ajudará aliados europeus e outros a “reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis russos”, mas também vinculará isso a “acelerar nossa transição para um futuro de energia limpa”. Não há aspereza.

No que diz respeito às questões de segurança, Biden reitera a política dos EUA de continuar “reforçando o flanco leste da OTAN com forças e capacidades” e congratula-se com os pedidos da Finlândia e da Suécia para ingressar na OTAN – “um movimento que fortalecerá a segurança geral dos EUA e transatlântica, adicionando dois parceiros militares altamente capazes” – mas se abstém de vincular diretamente qualquer um deles à agressão russa.

Mais importante, Biden se retrata do dramático prognóstico do diretor da CIA, William Burns, de que, sob pressão militar, Putin poderia ordenar o uso de armas nucleares táticas na Ucrânia.

O tom sombrio das palavras de Biden está em nítido contraste com suas próprias observações intemperantes e tendenciosas do passado. Essa abstenção da imagem do “grande macho durão” revela que algum grau de realismo está aparecendo na narrativa oficial dos EUA. Mas, por outro lado, Biden também divulga em seu editorial que os EUA fornecerão aos ucranianos “sistemas de foguetes e munições mais avançados que lhes permitirão atingir com mais precisão alvos-chave no campo de batalha na Ucrânia”.

Tudo isso resulta em um sinal calculado para Moscou, sem dúvida. Mas não é fácil ressuscitar as inclinações atlanticistas no Kremlin. As tortuosas procrastinações políticas sobre a expansão da OTAN ao longo do último quarto de século custaram muito caro à Rússia em vidas e erário. Essa insensatez ou ingenuidade – dependendo do ponto de vista – não deve se repetir.

Mais uma vez, paralisar o ímpeto da operação especial neste ponto acarretaria riscos imensos. A operação quase perdeu força nos arredores de Kiev em março devido à abordagem “stop-and-go”.

Fundamentalmente, tem havido uma certa inevitabilidade sobre as sanções ocidentais, com ou sem a crise da Ucrânia, destinadas a enfraquecer a Rússia permanentemente. A bússola agora está definida. Portanto, não importa a sobriedade deliberada do editorial de Biden, o quadro geral não pode ser descartado.

De fato, as Forças de Foguetes Estratégicos da Rússia realizaram exercícios na região de Ivanovo, a nordeste de Moscou hoje, um dia após a publicação do editorial de Biden.

O Ministério da Defesa da Rússia disse que cerca de 1.000 militares participaram dos exercícios usando mais de uma centena de veículos, incluindo lançadores de mísseis balísticos intercontinentais que podem operar com o termonuclear RS-24 Yars com capacidade MIRV (Multiple Independently-targetable Reentry Vehicles, múltiplos veículos de reentrada segmentados de forma independente), com alcance de 12.000 km que pode transportar até 10 ogivas em velocidades de até 24.500 quilômetros por hora.


Publicado no Indian Punchline.


*M.K. Bhadrakumar foi diplomata de carreira por 30 anos no Serviço de Relações Exteriores da Índia. Serviu na embaixada da Índia em Moscou em diversas funções e atuou na Divisão Irã- Paquistão-Afeganistão e na Unidade da Caxemira do Ministério das Relações Exteriores da Índia. Ocupou cargos nas missões indianas em Bonn, Colombo, Seul, Kuwait e Cabul; foi alto comissário interino adjunto em Islamabad e embaixador na Turquia e no Uzbequistão.

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2 comentários

  1. O que me parece óbvio em tudo que o bidê fala e “escreve” é que ele não passa de um boneco de ventríloquo, porque em toda a vida dele nunca mostrou competência para raciocinar e agir de forma geopolítica e estratégica.

    Enfim, é exatamente o que se esperava dele: uma marionete a serviço de grupos de interesse nos EUA, grupos esses que fraudaram as últimas eleições presidenciais americanas para não permitirem a reeleição de Trump, pois Trump foi contra os interesses desses grupos.

    Que os brasileiros sejam vigilantes e não permitam que esses mesmos grupos de interesses, que colocaram o bidê no poder, interfira direta ou indiretamente nas eleições brasileiras, colocando um fantoche no lugar do nosso Presidente Bolsonaro, franco favorito à reeleição.

  2. Quem raio é o sr Bide..!? Senhor? Lá por pensar o que pensa do actual presidente americano que conquistou o cargo sabe lá o senhor como! Merece respeito naquilo que o senhor diz com as suas palavras. Ou o senhor não se acha merecedor de respeito? Se a si qualquer pessoa que não o conheça e sua família o devem respeitar com certeza assim o senhor pensará não? Então secalhar se se acha digno de ser respeitado. Deveria practicar o mesmo tipo de respeito ao falar de uma pessoa que pessoalmente o senhor não conhece! Quanto mais não seja ao menos criticar sem se munir de modos desrespeitadores! E passar assim uma postura crítica da sua parte para com o presidente americano: o Sr Joe Biden também com modos de bom exemplo para com as nossas gerações mais novas!! Cultive a crítica com educação para com as nossas gerações mais novas. Os nossos adolescentes portugueses!

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