A jornada de Boris Johnson

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O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson (Daniel Leal-Olivas/Getty Images).

Por Nikolay Petrov*

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson (Daniel Leal-Olivas/Getty Images).

O primeiro-ministro britânico está tentando criar uma aliança político-militar alternativa.


Tentando se manter no cargo, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson está procurando aumentar sua popularidade com a ajuda da turbulência internacional. Segundo o jornal italiano Corriere della Sera, citando “algumas fontes”, ele desenvolveu um “plano secreto” sugerindo que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky crie uma nova aliança internacional.

Estamos falando de um sistema de acordos políticos, econômicos e militares, uma espécie de commonwealth liderado pela Grã-Bretanha entre países que têm medo de Bruxelas e que apostam na “intransigência máxima com os russos”, como alternativa à União Europeia.

De acordo com o plano, isso incluiria não apenas os países mais russofóbicos da Europa – Ucrânia, Polônia, Estônia, Letônia e Lituânia – mas mais tarde também a Turquia. De acordo com o Corriere della Sera, Johnson está “tecendo sua teia há mais de um mês”. Ele apresentou a iniciativa a Zelensky pela primeira vez em abril, quando o líder ucraniano recebeu o britânico em Kiev.

Segundo o jornal, a Kiev ainda não começou a se posicionar sobre essa proposta. “As negociações continuam após a visita do primeiro-ministro de Londres a Kiev, e a ‘paquera’ da Grã-Bretanha à Ucrânia está se tornando mais insistente”, diz o artigo.

É compreensível que Kiev ainda não tenha respondido. Afinal, já tem um parceiro, ou melhor, um mestre, na figura de Washington, e Zelensky dificilmente mudará para Londres, que, após a saída do Reino Unido da UE em desafio a Bruxelas, está se esforçando para assumir o papel do líder europeu. Continuar a ordenhar Londres, implorando por mais e mais porções de assistência militar é uma coisa, mas por que mudar de proprietário externo? Afinal, por mais inchado que seja o “Boris cabeludo”, como é conhecido, é impossível comparar a Grã-Bretanha, que há muito deixou de “reger os mares”, com os Estados Unidos, seja em termos de potencial militar ou poder econômico.

É claro que Bruxelas não dispõe de tais recursos. E, em geral, não é Zelensky que decide tais questões, mas os Estados Unidos. E dar a Londres a liderança na criação de novas alianças político-militares, paralelas às existentes, não convém a Washington.

Colosso com pés de barro

Portanto, relatando o plano “secreto” de Johnson, o próprio Corriere della Sera coloca em dúvida a possibilidade de sua implementação prática, sugerindo que “o projeto britânico é apenas um colosso com pés de barro, porque Londres não tem recursos como a UE para financiar apoiar a Ucrânia … e não é certo que a Polônia e os países bálticos se envolvam em uma iniciativa que possa comprometer suas relações com Bruxelas”.

A suposição de que a Turquia também poderia ser incluída em tal projeto sob os auspícios de Londres parece ridícula. Seu líder, Recep Tayyip Erdogan, busca desempenhar um papel mais importante na arena internacional e é improvável que concorde em se tornar coadjuvante de Johnson. Além disso, como é sabido, a Turquia já interrompeu as entregas de drones de ataque Bayraktar TB2 para a Ucrânia. Nas últimas três semanas, os voos da cidade turca de Tekirdag não foram realizados, embora anteriormente o fornecimento de drones para as Forças Armadas da Ucrânia fosse realizado uma vez por semana.

Enquanto isso, o plano de Londres é uma nova confirmação das diferenças cada vez mais profundas entre os países europeus em relação à “questão ucraniana”: alguns insistem na necessidade de negociações de paz, enquanto outros clamam pela guerra até o “último ucraniano”, declarando a necessidade de “derrotar a Rússia” por todos os meios.

“Londres”, observa o Corriere della Sera, “está tentando perturbar o equilíbrio do continente e pode, em última análise, expor a fragmentação que agora existe na comunidade europeia. Corre o risco de mostrar desunião entre os países que estão mais determinados a ajudar a Ucrânia, principalmente a Grã-Bretanha e a Polônia, e aqueles que o fazem de forma mais cínica e hesitante”.


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Não é coincidência que um observador da Bloomberg tenha dito anteriormente que foram Boris Johnson e sua comitiva que impediram uma solução pacífica da situação na Ucrânia. E de acordo com Arianna Antezzi, pesquisadora do Instituto Kiel para Economia Mundial, durante o conflito, a Grã-Bretanha forneceu maior apoio financeiro e militar a Kiev em comparação com os países da UE. E a Polônia ajudou a Ucrânia mais do que a Alemanha, França e Itália. Assim, as divergências entre os parceiros da OTAN e da UE sobre esta questão são evidentes.

Recentemente, no entanto, a Alemanha começou a defender a “guerra até o último ucraniano”. Na quinta-feira no Fórum Econômico Mundial em Davos, o chanceler alemão Olaf Scholz disse que “não haverá paz imposta. A Ucrânia não aceitará isso, e nós também não”. Ele também observou que o líder russo subestimou a unidade e a força da OTAN e da Europa.

Embora seja claro que não importa quanto barulho seja feito na Europa, a decisão de como o Ocidente continuará a se comportar em relação aos eventos na Ucrânia é desempenhado, é claro, não por Bruxelas ou Londres, mas pelos Estados Unidos, cujo objetivo principal é a destruição da Rússia.

O próprio Boris Johnson entende isso muito bem. Suas manobras na arena da política externa são apenas uma tentativa de desviar a atenção dos britânicos da deplorável situação interna, onde as dificuldades econômicas crescem e a popularidade do primeiro-ministro, já manchada pelo escândalo sobre o comportamento do partido em violação às restrições anti-covid, vem caindo cada vez mais.

Segundo o YouGov, em 25 de maio, após o escândalo cerca de 59% dos britânicos, apesar das constantes desculpas e explicações de Boris Johnson, querem que ele deixe o cargo. De acordo com o Politico, 39% dos cidadãos votariam hoje nos trabalhistas e 33% nos conservadores. Mas a dinâmica da pesquisa mostra que as classificações dos conservadores começaram a cair meses antes do escândalo ser descoberto: no início de dezembro de 2021, esses dois principais partidos ainda desfrutavam de apoio igual – 36% cada, e depois a vantagem passou para a oposição.

O jornal Observer já escreveu que, ao surfar nos problemas com a Ucrânia, Londres está tentando desviar a atenção da sociedade britânica das dificuldades dentro de seu próprio país e da crise política interna vivida pelo governo de Boris Johnson.

“A agenda doméstica agora está focada em um governo que tem problemas, um governo que, honestamente, tem histórico de organizar notícias sensacionalistas para desviar a atenção de suas próprias dificuldades”, disse David Clarke, ex-conselheiro do Ministério das Relações Exteriores britânico.

Três coelhos com uma só cajadada?

Comentando a notícia sobre a ideia de Boris Johnson de criar uma aliança político-militar com Kiev e outros russófobos europeus, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, falou sarcasticamente. “Neste caso, isso provavelmente significaria que ele está propondo tal ‘cabala’ para minar a posição da UE, ou seja, a posição de uma associação pan-europeia que a própria Grã-Bretanha deixou”, disse Peskov.

Truques sujos de Johnson contra os ex-parceiros da União Europeia poderiam ser esperados. Afinal, na hipótese de ele realmente emplacar essa iniciativa, mataria dois coelhos com uma só cajadada. Em primeiro lugar, colocaria um “bode na sala” em Bruxelas, que já não é chefe de Londres e, em segundo lugar, desviaria a atenção dos britânicos de agudos problemas políticos internos.

Mas é possível que Boris, que está em campanha na Europa, tenha uma terceira “lebre” na mira. Na ausência de um líder claro na Europa após a saída de Angela Merkel do cargo de chanceler alemã, o próprio Johnson não se opõe a preencher essa vaga. Mas será merecido?


Publicado no jornal online Século.


*Nikolay Petrov é professor e chefe do Laboratório de Metodologia de Avaliação do Desenvolvimento Regional da Escola Superior de Economia de Moscou. Foi acadêmico residente no Carnegie Moscow Center e dirige o Centro de Pesquisa Político-Geográfica. Petrov é colunista da agência de informação RBC, membro do Programa de Novas Abordagens para Pesquisa e Segurança na Eurásia, membro do Conselho Consultivo Científico do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais e membro dos conselhos científicos de diversas entidades. Foi consultor do parlamento russo e da presidência russa. Petrov é autor ou editor de inúmeras publicações analisando o regime político da Rússia, a transformação pós-soviética, o desenvolvimento socioeconômico e político das regiões da Rússia, democratização, federalismo e eleições, entre outros tópicos.

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