Europa, Rússia e o Muro Invisível do Ocidente

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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“As nações que se esquecem de quem são acabam subordinadas aos projetos de outros. E aquelas que perdem sua própria visão estratégica deixam de ser atores na história e se tornam meros palcos onde a história se desenrola.”


A guerra na Ucrânia costuma ser explicada por meio de categorias militares, diplomáticas ou econômicas. Fala-se da OTAN, das sanções, do gás russo, da Crimeia, de Donbass ou de mísseis hipersônicos. No entanto, por trás desses eventos, esconde-se uma questão muito mais profunda que raramente chega às manchetes: a relação histórica entre a Europa e a Rússia.

Um recente ensaio de Paolo Falconio revive uma ideia tão antiga quanto perturbadora: a existência de um “muro invisível” que separa a Rússia do resto da Europa. Não se trata meramente de uma fronteira política ou de uma disputa territorial. É uma fratura cultural, espiritual e civilizacional que vem sendo construída há séculos e que hoje parece estar atingindo um de seus momentos culminantes.

O que é notável é que essa interpretação não surge isoladamente. Ao longo dos últimos dois séculos, inúmeros pensadores, de tradições intelectuais muito diferentes e até mesmo conflitantes, alertaram para os perigos de uma ruptura permanente entre a Europa e a Rússia. Entre eles estavam Henry Kissinger, Aleksandr Soljenítsin, Nikolai Berdiaev, Fiódor Dostoiévski, Aleksandr Dugin e, da nossa tradição hispânica, o Padre Alfredo Sáenz.

Cada um observou o problema de uma perspectiva diferente. No entanto, todos parecem convergir para a mesma intuição: a ruptura entre a Europa e a Rússia constitui um dos grandes problemas históricos do nosso tempo.

Durante séculos, a Rússia foi uma realidade incômoda para a Europa. Europeia demais para ser considerada completamente estrangeira, mas demasiado diferente para ser totalmente integrada. A sua tradição ortodoxa, o seu vasto território, a sua concepção de Estado e o seu peculiar desenvolvimento histórico fizeram dela uma espécie de civilização fronteiriça.

Secularização

O grande romancista russo Fiódor Dostoiévski compreendeu este fenômeno com uma profundidade excepcional. Para ele, a Europa estava passando por um processo de secularização que ameaçava esvaziá-la espiritualmente. A substituição da fé pela ideologia, da comunidade pelo individualismo e da transcendência pelo materialismo acabaria por gerar uma crise de proporções históricas. Quando Dostoiévski observou a Europa, não viu simplesmente uma coleção de estados rivais. Viu uma civilização começando a perder aquilo que a constituía há séculos.

As tragédias do século XX parecem ter dado uma dimensão profética a esse alerta. Duas guerras mundiais, regimes totalitários, genocídios e uma persistente crise de identidade europeia alimentaram a percepção de que a crise era muito mais profunda do que uma mera disputa política.

Missão Histórica

Mais tarde, Nikolai Berdiaev desenvolveu uma visão complementar. Segundo o filósofo russo, a Rússia ocupava uma posição singular entre o Oriente e o Ocidente. Não pertencia inteiramente a nenhum dos dois mundos. Sua vocação histórica consistia precisamente em servir de ponte entre essas duas esferas civilizacionais.

Essa condição de fronteira não representava uma fraqueza, mas uma missão histórica.

Nessa perspectiva, uma ruptura permanente entre a Rússia e a Europa não implicava simplesmente um conflito geopolítico. Significava a mutilação de uma parte essencial da própria civilização europeia.

Décadas mais tarde, Aleksandr Soljenítsin abordaria muitas dessas preocupações. Sobrevivente do sistema de campos de concentração soviéticos e uma das grandes testemunhas do século XX, ele criticou simultaneamente o comunismo e o materialismo ocidental.

Sua famosa palestra de 1978 em Harvard constitui uma das críticas mais profundas dirigidas ao mundo ocidental contemporâneo. Soljenítsin argumentou que o Ocidente estava perdendo seus fundamentos espirituais e havia reduzido a liberdade a uma dimensão puramente material.

Não se tratava de uma defesa do autoritarismo russo nem de uma reivindicação do comunismo. Era um alerta sobre o declínio espiritual de uma civilização que havia esquecido suas raízes. Para Soljenítsin, a Rússia e a Europa compartilhavam uma herança histórica comum, cuja ruptura era profundamente antinatural.

Equilíbrio de Poder

De uma perspectiva completamente diferente, Henry Kissinger chegou a conclusões surpreendentemente semelhantes.

O renomado estrategista americano jamais se expressou em termos religiosos ou civilizacionais. Seu pensamento pertencia ao realismo clássico e ao equilíbrio de poder. No entanto, durante décadas, ele insistiu que a Rússia deveria fazer parte de uma arquitetura de segurança europeia estável.

Kissinger compreendia que a Rússia era poderosa demais para ser ignorada, vasta demais para ser isolada e importante demais para ser humilhada. A estabilidade do continente europeu exigia algum tipo de entendimento entre a Europa e a Rússia. Em diversas ocasiões, ele alertou que transformar a Ucrânia em um campo de batalha permanente entre Moscou e o Ocidente poderia ter consequências imprevistas.

Não se tratava de justificar a Rússia ou negar o direito da Ucrânia de decidir seu próprio destino. Tratava-se de reconhecer uma realidade geopolítica fundamental: a segurança europeia jamais poderia ser construída inteiramente contra a Rússia. A história recente parece demonstrar a validade dessa advertência.


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Crise Espiritual

Além disso, o Padre Alfredo Sáenz incorporou uma dimensão particularmente relevante para a tradição hispânica.

Em suas obras sobre a Rússia e sua missão histórica, ele revisitou Dostoiévski, Soloviov e Berdiaev para refletir sobre a crise espiritual do Ocidente. Segundo Sáenz, o problema central de nosso tempo não é econômico ou tecnológico, mas essencialmente metafísico.

O Ocidente vivencia uma crise de sentido que afeta suas instituições, suas elites e sua capacidade de compreender sua própria identidade. Sob essa perspectiva, a Rússia surge como uma civilização que, apesar de suas contradições, preserva certos elementos tradicionais que grande parte do Ocidente abandonou.

Não se trata de idealizar a Rússia ou transformá-la em um modelo político. Trata-se de reconhecer que a dimensão espiritual permanece um fator relevante na história.

A política internacional não pode ser explicada apenas por meio de variáveis ​​econômicas ou militares. As civilizações também possuem memória, crenças, símbolos e projetos históricos. É precisamente nesse ponto que Aleksandr Dugin se destaca. Embora sua figura gere forte controvérsia, é impossível ignorar sua influência em certos círculos intelectuais russos.

Dugin interpreta a história contemporânea como um confronto entre duas grandes esferas civilizacionais.

De um lado, o mundo atlântico liderado pelos Estados Unidos. Do outro, a esfera eurasiática representada pela Rússia. Além das críticas que podem ser feitas a essa visão, Dugin levanta uma questão relevante: o ressurgimento das civilizações como atores estratégicos de primeira ordem.

Por décadas, acreditou-se que a globalização produziria um mundo homogêneo governado pelas mesmas regras, os mesmos valores e as mesmas instituições. No entanto, os eventos recentes parecem apontar em uma direção diferente.

A China está afirmando sua própria tradição civilizacional. A Índia está fazendo o mesmo. O mundo islâmico continua a operar segundo lógicas culturais específicas. A Rússia afirma a sua singularidade histórica. E o Ocidente enfrenta crescentes dificuldades na definição de uma identidade comum.

Sintoma de Transformação

Nesse contexto, a guerra na Ucrânia deixa de ser simplesmente uma guerra por território. Torna-se um sintoma de uma transformação histórica muito mais profunda.

O paradoxo reside no fato de que, enquanto a Europa e a Rússia se confrontam, o centro de gravidade do sistema internacional parece deslocar-se para a Ásia.

A China emerge como a principal beneficiária estratégica dessa fratura. A Europa perde profundidade geopolítica. A Rússia acelera a sua mudança para o Oriente. Os Estados Unidos são forçados a manter simultaneamente compromissos estratégicos na Europa, no Oriente Médio e na região Indo-Pacífica. O resultado é um realinhamento global cuja magnitude ainda é difícil de mensurar.

Talvez a grande lição de Kissinger, Dostoiévski, Berdiaev, Soljenítsin, Sáenz e, em certa medida, até mesmo de Dugin, seja a de que as civilizações não podem ser compreendidas unicamente através de estatísticas, balanços econômicos ou capacidades militares.

As nações também são impulsionadas por sua memória histórica, sua identidade e sua autoimagem. A guerra na Ucrânia não criou uma ruptura entre a Europa e a Rússia. Ela simplesmente tornou visível uma cisão que vinha se formando há séculos.

E talvez a verdadeira questão estratégica do século XXI não seja quem vencerá na Ucrânia, mas se a Europa será capaz de reencontrar algum tipo de equilíbrio histórico com a Rússia antes que o eixo principal da história mundial se desloque definitivamente para outras regiões do planeta.

Para países como a Argentina, geograficamente distantes desses conflitos, mas profundamente afetados por suas consequências, a lição é clara. Em um mundo onde civilizações estão retornando, vastos espaços geopolíticos estão emergindo e disputas pelo poder global estão se intensificando, a política externa e a defesa nacional devem ser fundamentadas em três princípios duradouros: interesse nacional, soberania e autodeterminação.

Porque as nações que se esquecem de quem são acabam subordinadas aos projetos de outros. E aquelas que perdem sua própria visão estratégica deixam de ser atores na história e se tornam meros palcos onde a história se desenrola.


Publicado no La Prensa.

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