O dilema turco: Entre a Rússia e a Ucrânia

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Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da Turquia, Tayyip Erdogan, chegam para uma coletiva de imprensa após suas conversas em Moscou, Rússia, em 5 de março de 2020 (Pavel Golovkin/Reuters).

Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da Turquia, Tayyip Erdogan, chegam para uma coletiva de imprensa após suas conversas em Moscou, Rússia, em 5 de março de 2020 (Pavel Golovkin/Reuters).

Em crise econômica e membro da OTAN, a Turquia, com interesses comerciais com a Rússia e a Ucrânia, procura equilibrar-se em uma corda bamba.


A decisão de Ancara, de acordo com a Convenção de Montreux de 1936, de fechar os estreitos de Bósforo e Dardanelos entre o Mar Negro e o Mar Egeu para a passagem de navios de guerra, não deve afetar significativamente as capacidades da marinha russa em relação ao combate em Ucrânia. A razão é que, a menos que a própria Turquia se torne um participante na guerra, os navios da Rússia implantados em outras arenas têm o direito de retornar à sua base no Mar Negro.

A mudança turca pode afetar a passagem de navios de guerra para outras arenas nas quais a Rússia está envolvida, como a Síria. A medida também tem significado apenas simbólico no contexto do esforço internacional para pôr fim aos combates na Ucrânia. A decisão foi tomada em parte devido ao aumento das tensões entre a Rússia e o Ocidente, bem como os danos russos a vários navios civis no Mar Negro.

No entanto, Ancara ainda está em cima do muro. O governo turco expressou seu desejo de mediar entre as partes e condenou publicamente a violação da soberania da Ucrânia, mas não compartilha o esforço de impor sanções econômicas à Rússia e não fechou seu espaço aéreo para aeronaves russas. Semelhante à sua política de anexação da Península da Crimeia em 2014, o objetivo das medidas práticas que acompanham a condenação é garantir que não causem uma ruptura nas relações Turquia-Rússia. Da mesma forma que as considerações israelenses, Ancara teme que uma crise nas relações com Moscou leve a Rússia a medidas punitivas contra a Turquia na Síria.


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A Turquia, que está em meio a uma crise econômica, também depende da boa vontade russa em áreas vitais para sua economia. Os muitos turistas russos em férias na Turquia constituem uma fonte significativa de renda para o país, e a Rússia é um importante fornecedor de gás natural para a Turquia (um terço da importação turca) e trigo (dois terços da importação turca). Ao mesmo tempo, a Ucrânia também é um importante fornecedor de trigo para a Turquia e grande parte de seu turismo também é uma fonte de renda para a Turquia.

Um aspecto positivo para Ancara pode ser que há evidências do sucesso dos UAVs (Unmanned Aerial Vehicles, veículos aéreos não tripulados) turcos que a Ucrânia possui na guerra contra as forças russas (embora a Ucrânia tenha apenas 20 UAVs Bayraktar). Após o sucesso dos UAVs turcos em confrontos com milícias e militares mais fracos na Líbia, Armênia e Etiópia, os golpes que os UAVs turcos desferiram no exército russo, considerado uma força mais forte, proporcionam boa publicidade e até um sucesso comercial para a Turquia, que pode afirmar que seu produto passou em outro teste. No entanto, parte do processo de produção de drones turcos depende de motores da Ucrânia, e a guerra no país também pode dificultar a produção de armas turcas.

Se a tendência de aumento da unidade dentro da OTAN continuar na esteira dos desenvolvimentos recentes, como muitos antecipam, também poderá ter um impacto positivo na Turquia, que é membro da aliança. No entanto, é provável que o problema subjacente das tensões sobre a reaproximação entre a Rússia e a Turquia desde 2016 continue a representar um desafio significativo.


Artigo publicado originalmente pelo Institute for National Security Studies (INSS), de Israel.


*Gallia Lindenstrauss é pesquisadora sênior do Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS) e especialista em política externa turca. Com Ph.D. no Departamento de Relações Internacionais da Universidade Hebraica, a Dra. Lindenstrauss lecionou na Universidade Hebraica de Jerusalém e no Centro Interdisciplinar, Herzliya, foi pós-doutoranda no Instituto Leonard Davis de Relações Internacionais da Universidade Hebraica e pesquisadora visitante no Bipartisan Policy Center.


*Remi Daniel é pesquisador associado no INSS com foco em política externa turca. Foi estagiário no Instituto de Política do Povo Judeu (JPPI) e assistente de pesquisa no Centro Israelense de Pesquisa do Terceiro Setor da Universidade Ben Gurion do Negev. Daniel é bacharel e mestre em História pela Universidade Paris I Panthéon Sorbonne e pela École Normale Supérieure (Paris), e doutorando no Departamento de Relações Internacionais da Universidade Hebraica de Jerusalém, com uma tese de doutorado sobre as relações Turquia-Israel durante a “Segunda República” turca (1960-1980).

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