Nova crise no Sul do Cáucaso – Parte 3 (final)

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O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e o então presidente iraniano, Hassan Rouhani, em Teerã, capital do Irã, em 4 de outubro de 2017 (Reuters).

Por Hamid Hajizadeh*, traduzido e adaptado por Elizabeth Hautz**.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e o então presidente iraniano, Hassan Rouhani, em Teerã, capital do Irã, em 4 de outubro de 2017 (Reuters).

Leia a Parte 2 deste artigo


Na terceira e última parte do artigo, o autor trata da relação entre o Irã e a Turquia, dois dos principais atores da região que, ao longo do tempo, apresentaram tanto convergências como conflitos de interesse.


A recente crise na fronteira entre o Irã e o Azerbaijão que tomou corpo nas últimas semanas, entre o Irã, por um lado, e a República do Azerbaijão e a Turquia, por outro, foi discutida em termos históricos e da importância da soberania na primeira e segunda partes deste artigo. Nesta terceira e última parte trataremos da relação dos dois principais protagonistas. As relações Irã-Turquia – os dois principais atores da região, que apresentaram convergências e, por vezes, conflitos de interesse na arena circundante – podem ser afetadas por esta crise; assim, vamos nos concentrar nesta questão.

O apoio da Turquia ao Azerbaijão na recente crise colocou o Irã e a Turquia em um novo conflito de interesses. Um breve olhar sobre a história das relações entre os dois países é necessário para entender seu provável futuro.

1. Séculos passados

As relações entre ambos os países sempre foram permeadas por muitos altos e baixos nos últimos séculos, e tiveram início com o estabelecimento do Estado safávida[1] no Irã, há quatrocentos anos; entretanto, durante mais de dois séculos de governo safávida, a ocorrência de inúmeras guerras e a conclusão dos tratados de paz são manifestações proeminentes de períodos sucessivos de guerra e paz entre os dois Estados.

Em geral, os conflitos entre o Irã e o Império Otomano do século XIX até o início da Primeira Guerra Mundial podem ser considerados em dois períodos:

  1. Na era de ABBASS MIRZA, primeiro-ministro do Irã, que levou à conclusão do primeiro Tratado de Erzurum;
  2. Na era de MOHAMMED SHAH, o monarca do Irã, que levou à conclusão do segundo Tratado de Erzurum.

Na Primeira Guerra Mundial, o Irã, com sua política de neutralidade, tornou-se, na prática, palco de atividades e conflitos militares ocasionais das potências beligerantes, ou seja, Rússia, Otomanos, Alemanha e Grã-Bretanha. Finalmente, a ocupação aliada de Istambul acabou com os 600 anos de história do Império Otomano, o que também levou a que partes do exército otomano sob o comando de jovens líderes turcos tentassem estabelecer um novo império, estendendo-se da China a Europa sob o nome de Turquestão ou TURAN.

Essas novas lideranças turcas iniciaram três diferentes conflitos com o Irã, e tentaram ocupar partes do Oeste do país que eram predominantemente de fala azeri[2], bem como possuíam uma maior afinidade cultural com os turcos, na esperança de estabelecer uma república independente; um projeto no qual fracassaram em todas as três tentativas. Após a Primeira Guerra Mundial, a equação mudou a favor do Irã que, primeiramente, reivindicou o domínio sob certos territórios da Turquia na Conferência de Paz de Paris e depois na Conferência Sur. Embora os britânicos tenham rejeitado o pedido, devemos lembrar que a opinião pública turca se ressentiu das ambições iranianas.

2. Passado recente

Após o golpe de Reza Shah no Irã, a presença de líderes como ele e Mostafa Kamal no poder, que tinham traços de personalidade em comum, é um dos fatores importantes de proximidade entre os dois países nas primeiras décadas do século XX. A maioria das diferenças radicais e residuais entre os dois países no passado foram resolvidas como resultado das visões e políticas comuns dessas duas personalidades.

Essas relações continuaram com altos e baixos, com a ocorrência de conflitos muitas vezes limitados às disputas fronteiriças durante o reinado do herdeiro de Reza Shah no Irã; cabe ressaltar que os dois países alcançaram um nível diferente de relação como aliados do Ocidente e dos Estados Unidos.

Quanto às razões para a solidariedade bilateral entre o Irã e a Turquia neste período, podem ser mencionados os seguintes fatores:

  • Supressão da atitude ideológica em relação às questões políticas;
  • Existência de um inimigo comum chamado União Soviética;
  • Orientação de uma política externa de aliança em conjunto e de aliança com o Ocidente;
  • Crença em um compromisso mútuo de não interferência nos assuntos internos um do outro;
  • Estabilidade comportamental e adesão das elites políticas e altos funcionários do governo aos princípios da política externa;
  • Configuração dos arranjos de segurança dos Estados Unidos da América.

3. Era contemporânea

As relações entre os dois países tomaram uma dinâmica diferente com a vitória da revolução no Irã. A Turquia optou por uma posição equilibrada na guerra Irã-Iraque, e embora não tenha mediado a guerra sangrenta de oito anos entre seus dois vizinhos, beneficiou-se desta. A redução das capacidades de defesa dos dois países, que tinham grandes exércitos, e seu isolamento político, bem como o papel da Turquia como fornecedora de suprimentos, proporcionou boas oportunidades para os turcos.

Com o passar do tempo, sempre houve pontos nebulosos nas relações entre o Irã e a Turquia após a vitória da revolução islâmica, dentre os quais podemos citar: os processos de independência de várias repúblicas periféricas após a queda da União Soviética, as atividades dos imigrantes iranianos na Turquia e o apoio da Turquia aos opositores da República Islâmica, a questão do islamismo na Turquia, o panturquismo e, finalmente, as relações turco-israelenses que sempre existiram.

Irã nuclear

Do ponto de vista da Turquia, apesar de o Irã operar no âmbito da Agência Internacional de Energia Atômica e ter o direito de enriquecer urânio sob os auspícios desta organização, as posições dos países ocidentais influenciados por pontos de vista políticos afetam esse processo. Isso pode se tornar uma prática no sistema internacional e ter impacto negativo nas atividades nucleares da Turquia no futuro. Embora a Turquia pareça não ter planos de enriquecimento de urânio no futuro próximo, está profundamente preocupada com a posição dos países ocidentais sobre suas atividades. Os legisladores turcos agora acreditam que o Irã, desde que coopere totalmente com a Agência Internacional de Energia Atômica, tem o direito de enriquecer urânio.

Primavera árabe

Em relação aos países árabes, a Turquia, como um importante país muçulmano, procura estabelecer um novo protagonismo na região. De fato, a revolta popular no mundo árabe, conhecida como Primavera Árabe, proporcionou uma nova oportunidade para os líderes de Ancara mediarem e modelarem as configurações geopolíticas da região de acordo com os planos ocidentais. Concomitantemente, o Irã, com seu alinhamento com o Oriente e sua oposição ao Ocidente, adotou uma abordagem diferente para o desenvolvimento dos países árabes. O auge de seu conflito de interesses com a Turquia é bastante evidente na Síria.


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A questão de Israel

A Turquia foi o primeiro país muçulmano a reconhecer Israel em 1949, tendo como objetivo estabelecer relações políticas e econômicas com aquele país. Após as negociações de paz árabe-israelenses, dadas as circunstâncias favoráveis, a Turquia expôs suas relações com o país. Em outras palavras, devido ao ambiente internacional especial, os dois países tentaram expandir suas relações nos campos militar, de segurança e comércio. Em geral, as razões para a cooperação da Turquia com Israel podem ser resumidas da seguinte forma:

  • A Turquia encontrou em Israel uma ponte através da qual poderia ganhar maior apoio dos EUA para garantir seus interesses, especialmente na concorrência com os países vizinhos;
  • A cooperação da Turquia com Israel poderia acelerar o processo de adesão à União Europeia;
  • A Turquia considerou Israel um peso contra a influência ideológica da República Islâmica do Irã;
  • Com o apoio de Israel, a Turquia seria capaz de lidar com as ameaças gregas de forma mais adequada e bem-sucedida.

Em 1996, um acordo de cooperação de segurança militar entre a Turquia e Israel levou a uma parceria estratégica. Essas relações incluíram uma ampla gama de colaborações, desde o uso do espaço aéreo turco pela navegação aérea israelense, até manobras conjuntas.

Embora Israel não tenha uma fronteira comum com a República Islâmica do Irã e nem com a Turquia, através desse acordo Israel também obteve uma via de acesso a setores militares e econômicos turcos e, de certa forma, tornou-se virtualmente fronteiriço com o Irã e os países da ECO[3] da Ásia Central através da Turquia. De acordo com a ótica iraniana, uma das consequências desse acordo é a crescente ameaça a integridade territorial e os interesses nacionais do Irã.

Últimos anos: anos de amizade

Apesar das tensões entre a Turquia e o Irã, a cooperação entre ambos continuou nos últimos anos e até mesmo melhorou em algumas áreas. Talvez o auge de cooperação tenha sido no golpe de estado de 15 de julho de 2016, golpe este que ainda apresenta muitos pontos sombrios, e durante o qual o Irã e a Rússia apoiaram de forma clara e decisiva o governo turco.

O Irã foi um dos primeiros países a tomar uma posição clara contra o golpe e até mesmo se preparar para receber o presidente da Turquia. Especula-se que o Irã prestou assistência de inteligência à Turquia em oposição ao golpe, e Reza Hakan Tekin, embaixador turco no Irã, agradeceu ao governo iraniano quando do primeiro aniversário do golpe. De acordo com o então ministro iraniano das Relações Exteriores, as autoridades iranianas ficaram alertas até a manhã seguinte à tentativa de golpe a fim de acompanhar a situação da Turquia.

Outros pontos notáveis nas relações e posições políticas comuns entre os dois países nos últimos anos incluem a guerra de 44 dias entre o Azerbaijão e a Armênia. O Irã, que tem relações estratégicas com a Rússia, aliada militar da Armênia, ao aconselhar os dois lados a exercer contenção, apoiou o direito do Azerbaijão de reocupar os territórios ocupados pela Armênia em 1990.

Independentemente das razões dessa postura e das evidências apresentadas na prática, isso agradou ao Azerbaijão e à Turquia.

Outros sinais de crescente cooperação entre os dois países no novo governo iraniano incluem a ajuda do Irã no controle de incêndios na Turquia. Ao enviar um avião de combate a incêndios em agosto, o Irã deu um passo amigável nas relações, ao mesmo tempo em que a questão também foi um pretexto para os críticos domésticos do governo iraniano.

Erdogan, presidente da Turquia, agradeceu oficialmente ao presidente do Irã, Ebrahim Raisi, recentemente.

Relações econômicas entre os dois países

A posição estratégica da Turquia no acesso às rotas marítimas e às águas abertas, bem como seu solo fértil e a prosperidade de sua agricultura, há muito estabeleceu relações contínuas entre turcos e iranianos. Obviamente, o progresso em algumas áreas modernas da economia aumentou a disseminação dessa relação de longa data. A ênfase das autoridades de Teerã e Ancara em aumentar o volume de relações para US$ 30 bilhões é uma questão que especialistas dizem ser a base para o próximo passo no avanço das relações econômicas turco-iranianas e no estabelecimento de um livre comércio entre os dois países. O maior volume de transações comerciais entre eles foi alcançado em 2012 (cerca de US$ 22 bilhões). Acrescente-se a isso o fato de que a Turquia é atualmente o quarto maior parceiro comercial do Irã.

Segundo economistas iranianos, a combinação de mão-de-obra iraniana barata e especializada e a importação de maquinário e conhecimento técnico turcos permitirá ganhos em áreas como petroquímica, vestuário, eletricidade e energia. Acredita-se que a cooperação industrial entre os dois pode levar a um aumento da produção e da exportação de bens complementares para os países da região por meio de joint ventures.

O comércio entre os dois países é outro exemplo das relações convergentes Teerã- Ancara nos últimos anos. Enquanto isso, pode ser interessante saber que o Turkish Statistical Institute (Instituto Turco de Estatísticas), em seu último relatório sobre a balança comercial de seis meses com o Irã, que foi publicado na sexta-feira, 1º de julho, evidencia que o país apresentava cerca de US$ 1,2 bilhão em importações do Irã. Esses dados mostram um crescimento de 153% em relação ao mesmo período do ano passado, ou seja, significa que a importação aumentou mais de 2,5 vezes. Isso, por si só, revela que o nível das relações econômicas não só tem sido bom, como também experimentou um crescimento significativo recentemente.

Novas tensões e danos aos fundamentos da amizade

Indubitavelmente, o comportamento da Turquia nos recentes movimentos na região do sul do Cáucaso, que poderiam limitar o acesso do Irã à Europa, é significativo do ponto de vista iraniano e afetará as relações entre os dois países. A experiência mostrou que a Rússia sempre teve um duplo papel complicado entre o Azerbaijão e a Armênia e tem se beneficiado disso, e se o Irã for afetado nessa nova fase, isso pode afetar suas relações econômicas com a Turquia.

A questão crucial diz respeito a qual caminho poderá trazer mais benefícios para ambos os lados, atuando em um novo jogo com resultados incertos ou buscando a solução para alguns problemas e provavelmente procurando preservar a relação. No entanto, muitos analistas acreditam que estabilidade e amizade, evitar interferências nos assuntos um do outro, bem como evitar prejuízos aos interesses nacionais de países vizinhos, além de desestimular a interferência de países de fora da região à guisa de cooperação militar, têm mais benefícios para ambos.

Nos próximos meses, uma reunião trilateral dos Ministros das Relações Exteriores da Turquia, Irã e Azerbaijão será realizada em Teerã. Espera-se que os dois lados tentem resolver a situação atual, já que nenhum deles está pronto para iniciar uma nova guerra. Além disso, há uma série de projetos que podem trazer benefícios para os três países.


Notas

[1] Dinastia xiita iraniana formada por azeris e curdos, que governaram a Pérsia de 1501/1502 a 1722.

[2] É um idioma do ramo turcomano da grande família das línguas altaicas falado sobretudo pelos azeris, concentrados principalmente na Transcaucásia, especialmente no Azerbaijão e noroeste do Irã, na região conhecida como Azerbaijão iraniano.

[3] Economic Cooperation Organization (Organização de Cooperação Econômica).


Hamid Hajizadeh é jornalista iraniano, escritor e poeta persa residente nos Emirados Árabes Unidos. Hamid é analista político e especialista em Turquia, Afeganistão e nos países do Golfo Pérsico. É formado em engenharia econômica e apresentador-especialista em programas de rádio do Irã.


Elizabeth Hautz é graduada em Administração pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP) e Mestra em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Elizabeth é administradora na Eletrobrás Furnas S.A., e pesquisadora do núcleo de História Antiga e Medieval do CEHAM/UERJ.

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