A Grã-Bretanha retorna ao seu passado

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George Friedman*, do Geopolitical Futures.


Imagem: Unsplash/Pexels.

Concluído o Brexit, a Grã-Bretanha deverá encontrar seu lugar no mundo. Embora a administração da União Europeia provavelmente vá procurar dificultar a vida dos britânicos, as perspectivas iniciais podem indicar que o futuro britânico fora da UE poderá não ser tão negro como alguns imaginam. De acordo com esta análise de George Friedman, o Five Eyes, uma aliança britânica com os EUA, Austrália e Nova Zelândia, todos países “descendentes” do Império Britânico, é uma das indicações positivas.


Em 1º de janeiro, a Grã-Bretanha concluiu o processo de desligamento da União Europeia. A UE garantiu que consequências terríveis irão assombrar os britânicos. Certamente, haverá consequências econômicas para o Reino Unido, mas é difícil imaginar que a saída da segunda maior economia europeia não terá consequências significativas também para a Europa. No mínimo, a conclusão da saída da Grã-Bretanha destrói um mito sobre a União Europeia. O nome “União Europeia” tornou-se sinônimo de “Europa”. Isso nunca foi uma equivalência verdadeira, pois havia nações europeias excluídas e desinteressadas em ser membros, como a Suíça e a Noruega, que optaram por uma relação de não-membros.

Mas com a Grã-Bretanha do lado de fora, a sensação de que a UE fala pela Europa já não existe. A Grã-Bretanha é uma parte fundamental da Europa, um de seus libertadores na Segunda Guerra Mundial e, a começar pela invasão romana da Inglaterra, um inimigo e salvador ocasional da Europa. A Grã-Bretanha tem sido uma força definidora na Europa e agora deixa a União Europeia. Isso vai desafiar o bloco de muitas maneiras, a primeira sendo que a UE não é mais equivalente à Europa. Agora existe outra Europa: a Grã-Bretanha.

Desde o referendo, há dois problemas. O primeiro era se os oponentes britânicos do Brexit poderiam derrubar seu resultado. O segundo era se a UE poderia fazer isso, sem parecer excessivamente conciliatória com o resto da União Europeia. Às vezes essas duas forças pareciam trabalhar juntas para bloquear o Brexit. No final falharam, embora Bruxelas provavelmente continue tentando impor dor, até que os britânicos parem de comprar carros Mercedes em favor da Lexus. Nesse ponto, o poder central da Europa, a Alemanha, porá fim às medidas punitivas e a UE seguirá em frente.

A verdadeira questão agora é a Grã-Bretanha definir seu lugar no mundo. Há pouca guerra na Europa no momento, e pouco a temer militarmente das potências europeias. É uma situação estranha. Entre 1945 e 1991, a Grã-Bretanha enfrentou a ameaça soviética. De 1914 a 1945, a Grã-Bretanha enfrentou a ameaça alemã, com uma trégua no meio. Agora, a ameaça que existe é distante e teórica. A Grã-Bretanha continua a ser membro da OTAN, que não é realmente uma entidade europeia, mesmo que a maioria de seus membros sejam europeus. Os Estados Unidos dão poder militar potencial para a OTAN, e a Grã-Bretanha é uma das poucas nações europeias a possuir uma força militar significativa, e até mesmo alcance global, no núcleo da OTAN.


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Os EUA e Grã-Bretanha foram aliados na Primeira e Segunda Guerras Mundiais, Guerra Fria, Tempestade no Deserto, no Iraque e no Afeganistão. Algumas dessas guerras podem não ter sido muito sábias, mas cimentaram as relações entre os militares. Para os países da Europa continental, abalados pelas guerras mundiais e aterrorizados pela Guerra Fria, a questão primordial é o foco na economia e na prevenção de conflitos. A Grã-Bretanha fica do outro lado do Canal da Mancha, encarando uma região que historicamente a levou a conflitos, mas que por um milênio não conseguiu invadi-la. A história da Grã-Bretanha foi moldada pela necessidade de intervir na Europa devido à sua fragmentação. O que é inconcebível para a Europa é uma realidade histórica para a Grã-Bretanha.

O problema da Grã-Bretanha é que ela não pode controlar a evolução da Europa por si mesma. Na Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos despojaram a Grã-Bretanha de seu império e limitaram tanto sua força quanto seu alcance. Os britânicos se ressentiram da política pós-guerra dos Estados Unidos, mas conviveram com ela, sendo a Grã-Bretanha mestra em conviver com o inevitável. Alinhou-se com os EUA e, no geral, funcionou bem. Durante a Guerra das Malvinas, as imagens de satélite fornecidas pelos americanos ajudaram os britânicos a obter uma vitória mais rápida. Em guerras recentes, americanos e britânicos lutaram juntos com uma facilidade que nenhum dos dois desfrutou com quaisquer outros países. De operações militares à inteligência, ambos os países estiveram tão intimamente alinhados quanto as nações soberanas podem se permitir. Independentemente de quão teimosos os Estados Unidos foram no império, os dois países travaram um século de guerras juntos contra os alemães, apesar de atritos com os franceses ou outros aliados. Recentemente, os britânicos enviaram um porta-aviões ao Pacífico Ocidental em apoio às operações dos EUA.

A aliança entre britânicos e americanos é mais profunda do que isso. Juntos, fazem parte do Five Eyes, um agrupamento de cinco países – os demais são Austrália, Canadá e Nova Zelândia – comprometidos em compartilhar inteligência. A cooperação militar é valiosa, mas não extraordinária. A disposição desses cinco países de ver as informações coletadas por qualquer um deles é admirável. Também se segue uma cooperação militar. Os canadenses se alternam com os americanos no comando do NORAD (North American Aerospace Defense Command, o Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte). Os australianos operam na mesma região que a China. Os neozelandeses, com força mínima e muito mais cautela, compartilham inteligência. Mas todos esses cinco países lutaram nas guerras mundiais e outros conflitos.

Ao perguntar onde está a Grã-Bretanha, surgem as seguintes respostas. Primeiro, o comércio é importante, mas os mercados da América do Norte são tão grandes quanto a União Europeia. Em segundo lugar, a Europa é altamente imprevisível e frequentemente volátil, enquanto a presença da Grã-Bretanha na OTAN a mantém na Europa ao lado dos Estados Unidos e, portanto, com peso. Por fim, os Five Eyes, descendentes da Grã-Bretanha que evoluíram dentro de suas próprias expectativas, mantém seus membros concentrados em algo que frequentemente é mais importante do que qualquer outra coisa: a guerra e sua prevenção por meio da inteligência.

As questões irlandesas, escocesas e galesas provavelmente serão contidas, mas, por enquanto, usemos este argumento. A Grã-Bretanha não é mais o governante de um império global. Não pode viver com a Europa, mas deve alinhar-se com outros. O Five Eyes, como um alinhamento militar e de inteligência, está em vigor e não precisa ser negociado. A aliança é suficientemente livre para que nenhum membro seja obrigado a fazer nada além de compartilhar inteligência. Também está confinada pela história. E essas cinco nações podem ser uma força a ser reconhecida, bem como um mercado já compartilhado e prontamente aberto. E cada nação tem interesse nisso.

Nunca se deve ficar entusiasmado demais. O atrito é a natureza da besta. Mas essa aliança já existe, e estendê-la à economia (com muitos acordos de livre comércio já em vigor) é o próximo passo lógico.


*George Friedman é analista geopolítico e estrategista de assuntos internacionais mundialmente reconhecido. É fundador e presidente da Geopolitical Futures, um think tank especializado em relações internacionais e política externa americana. É autor de diversas obras, dentre as quais os best-sellers “Os próximos 100 anos” e “A próxima década”.

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13 comentários

  1. Historicamente, desde os celtas, os ingleses seguem uma tradição de resistência à interferência estrangeira. Não se importando em mudar leis, acordos e tradições, ou ir à guerra, para manterem sua autonomia.
    O inglês atual estava politicamente insatisfeito pois alguns aspectos da sua vida estavam sendo determinados em Bruxelas, por pessoas que não haviam sido eleitas por eles, por isso optaram pelo Brexit.
    No fim, a meu ver, o prejuízo será maior para a UE do que para a Inglaterra.

  2. O núcleo da UE (leia-se “teutônicos”, “francos” e congêneres) tem de estar bem entretido e repleto de problemas, para o que o mundo tenha algo de paz. O que os britânicos fizeram foi abrir mão dos parcos benefícios potenciais que teriam ao permanecer nesta união, em troca de abrir horizontes em alianças com seus “descendentes” e aliados de fato no último século. Forte abraço!

    1. Pebso qur parte da explicação é que os britânicos não gostaram de ser regidos por leis criadas por gente em quem eles não votaram. Um abraço Sinclair!

  3. Muito boa materia , parabens Albert

    Mais como seus filhos os Americanos , em questao de quebrar contratos e acordos os dois são mestres . Lembrem -se do acordo que os Americanos não cumpriram quando da guerra das Malvinas .

  4. Quando a Noruega rejeitou em plebiscito a adesão a UE, fizeram previsões de um futuro desastroso para o país. Não aconteceu nada, e o país continuou independente, no controle de suas fronteiras e de seu destino.

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