A República Popular da China

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Soldados do Exército de Libertação do Povo marcham em formação durante o desfile militar que marcou o 70º aniversário da fundação da República Popular da China em Pequim (Foto: Reuters via The National).

Este extenso e acurado ensaio demonstra que, apesar das muitas preocupações com o renascimento do “Império Russo” liderado pelo presidente Vladimir Putin, no contexto de um mundo multipolarizado que está se formando a maior ameaça à liderança dos Estados Unidos parte principalmente da China, liderada por Xi Jinping.


I. Introdução

Um dos maiores desafios para a paz e a estabilidade das relações internacionais nasceu em 1º de outubro de 1949, quando foi proclamada (oficialmente) a República Popular da China (RPC), através da extrema habilidade política e militar de MAO TSÉ-TUNG. Uma ameaça que foi, contudo, surpreendentemente negligenciada por uma visão (geopolítica) embaçada de HARRY TRUMAN, – não obstante persistentes advertências de diversos de seus assessores –, notadamente quando deixou de incluir aquela nação (já, à época, o país com a maior população mundial, contando com cerca de 600 milhões de habitantes) como integrante da área de interesse estratégico (e de segurança nacional) dos Estados Unidos.

Muito embora não seja possível (por absoluta ausência de comprovação documental) associar os eventos do Golpe de Praga1 (ocorrido em fevereiro de 1948) e do Bloqueio de Berlim2 (desenrolado entre 24 de junho de 1948 e 12 de maio de 1949) com os últimos (e decisivos) anos da guerra civil chinesa, – que conduziu à humilhante derrota das forças nacionalistas de CHIANG KAI-SHEK –, é fato que, se não fosse a decisão de JOSEF STALIN de finalmente se inclinar por apoiar MAO TSÉ-TUNG (nos últimos meses do conflito civil chinês), criando uma espécie de santuário para as forças comunistas na Manchúria, muito provavelmente o desfecho do conflito poderia ter sido completamente diferente ou, no mínimo, não tão rápido, como de fato ocorreu, ainda permitindo, mesmo que a destempo, algum tipo de reação ocidental (eventualmente com o emprego de tropas da ONU, a exemplo do que sucedeu na península coreana pouco mais de um ano mais tarde) que fosse capaz de alterar o curso da história.

II. Antecedentes históricos

Na década de 1920, após o colapso da monarquia chinesa, a China viveu um período político muito conturbado, correndo o sério risco de se fragmentar em vários pequenos Estados. Foi então que SUN YAT-SEN, fundador do Kuomintang, – um movimento nacionalista cujo objetivo era manter a unidade da China –, procurou assistência na União Soviética, – recém-vitoriosa em sua revolução bolchevique (1917-22) –, obtendo-a (oficialmente) em 1923.

“A Guerra Civil Chinesa, que durou de 1945 a 1949, encerrou quase meio século de tumulto no maior e mais populoso país asiático. Marcou também a fase decisiva da luta entre nacionalistas e comunistas chineses, iniciada praticamente com o colapso da velha ordem monárquica e feudal da China.

A derrota do país na guerra sino-japonesa (1894-95) desacreditou a dinastia MANCHU, que reinava desde o século XVII e que havia fechado as fronteiras à influência ocidental. O último imperador manchu abdicou após a revolução popular de 1911, instigada pelos nacionalistas radicais, cujo líder, SUN YAT-SEN, instalou uma república em Nanquim, no Sul, e tornou-se presidente. Mais tarde, porém, concordou em renunciar, aceitando a autoridade do governo republicano de Pequim, chefiado por YAN CHE-KAI, ex-conselheiro imperial e hábil político. Foi a súbita morte deste, em 1916, que abriu um longo período de anarquia.

Na parte central e no Norte da China, chefetes regionais que lideravam grupos armados empalmaram efetivamente o poder. Eram os ‘senhores guerreiros’, que exerciam pela força a autoridade civil e empenhavam-se inutilmente em dominar uns aos outros, muitas vezes estimulados por governos estrangeiros que queriam consolidar áreas de influência e abrir as portas da China aos seus interesses. Reunidos desde 1912 no Partido Nacionalista Chinês ou Kuomintang (KMT), os seguidores de SUN YAT-SEN defendiam o nacionalismo, a democracia e as reformas sociais. Mas, fracassando na tentativa de conquistar os ‘senhores guerreiros’, SUN YAT-SEN transformou o KMT em movimento de massa. Auxiliado pelo general CHIANG KAI-SHEK, seu herdeiro espiritual, treinou um exército para unir a China pela força. A vitória dos bolchevistas na Rússia, em 1917, impressionou-o a ponto de adotar a mesma forma de organização em seu partido. Embora o KMT, tido pelo próprio LÊNIN como uma organização progressista, recebesse recursos militares e financeiros dos soviéticos, seus líderes nunca adotaram a ideologia comunista. SUN YAT-SEN permaneceu um democrata liberal até a morte, em 1925, enquanto CHIANG KAI-SHEK, da facção moderada do KMT, passou aos poucos para uma posição reacionária. Enquanto isso, um grupo de intelectuais fundava, em 1921, o Partido Comunista Chinês. Seguindo recomendações do governo soviético, este partido alinhou-se com o KMT contra os ‘senhores guerreiros’ e passou a organizar bases operárias nos grandes centros urbanos. O KMT, adotando ampla coalizão de movimentos progressistas, aceitava a adesão de comunistas apenas como indivíduos.” (MAO e a Revolução, Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, ps. 60-61)

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Contudo, pouco tempo depois, em 1925, após a morte de SUN YAT-SEN, seu movimento foi dividido em dois: de um lado, os nacionalistas, liderados por CHIANG KAI-SHEK, e do outro, os comunistas, encabeçados por MAO TSÉ-TUNG. Em 1927, os comunistas organizaram um violento levante em Nanchang, assim dando início à Guerra Civil Chinesa.

“A história da China moderna remonta a 1911, quando uma revolução derrubou a antiga dinastia MANCHU e o país se tornou uma república. A revolução, contudo, não deu à China o governo forte de que ela necessitava para encerrar anos de inquietação política. A maior parte da China era controlada por senhores da guerra, que agiam como ditadores locais em suas próprias esferas de influência. Em 1926, o principal partido político na república chinesa, o nacionalista Kuomintang, iniciou uma campanha militar contra os senhores da guerra.

Os exércitos do Kuomintang eram comandados pelo general CHIANG KAI-SHEK (1893-1975). Contavam com o apoio do Partido Comunista Chinês, que fora fundado em 1921 e firmara com eles uma aliança. A campanha de CHIANG KAI-SHEK contra os senhores da guerra foi muito bem-sucedida, e, em 1927, ele havia obtido o controle da maior parte da China. Sentindo-se em uma posição fortalecida, ele, então, se voltou contra seus aliados comunistas, de quem sempre desconfiara de suas reais intenções. Esfacelou o partido e matou muitos milhares de comunistas, além de esmagar levantes em cidades como Cantão e Xangai. Os comunistas que sobreviveram à repressão de CHIANG KAI-SHEK fugiram para o campo. Em 1928, CHIANG estabeleceu um governo nacionalista em Nanquim, e, em pouco tempo, foi amplamente reconhecido como governante legítimo do país. Os comunistas continuaram a resistir-lhe, contudo, e estabeleceram um governo próprio na província de Jiangxi, em 1931. MAO TSÉ-TUNG (1893-1976), filho de um camponês, assumiu a liderança do Partido Comunista Chinês. Tradicionalmente, o marxismo ensinara que os operários urbanos deviam ser a figura de proa da revolução, mas MAO afirmou que os camponeses da China poderiam servir de base para uma revolução, promovendo a guerra no campo.” (ADRIAN GILBERT; A China Revolucionária, Enciclopédia das Guerras, São Paulo, M. Books, 2005, p. 276)

O conflito interno se estenderia por dois períodos: de 1927 até 1936, quando ambos os lados acordaram em uma trégua (ainda que CHIANG KAI-SHEK tenha sido, em verdade, compelido por seus comandados a aceitar realizar o acordo com MAO) para combaterem juntos a invasão japonesa; e de 1945 a 1949.

“Após a morte de SUN YAT-SEN, CHIANG KAI-SHEK assumiu a liderança do KMT, passando a encarar como subversivas tanto as atividades dos comunistas nas cidades como as do exército do KMT. Em 1926, enviou tropas ao Norte da China, visando à extinção do poder dos ‘senhores guerreiros’, a unir a China e libertar o país de toda e qualquer influência estrangeira. O avanço desse exército coincidiu com a propagação das ideias esquerdistas entre os soldados e o povo das áreas recém-libertadas, e, em meados de 1927, CHIANG decidiu expurgar os comunistas do KMT, que reagiram fomentando rebeliões em várias cidades, rapidamente esmagadas.

Alguns comunistas passaram à clandestinidade nas cidades, enquanto outros fugiam para partes remotas e desertas da zona rural. O exército do KMT retomou então o ataque, capturando Pequim em 1928. No mesmo ano, CHIANG era empossado presidente de um governo nacional com sede em Nanquim (Nanjing). No entanto, os comunistas e os contingentes armados dos ‘senhores guerreiros’ (antes forçados a aderir ao KMT) insuflaram nova onda de rebeliões urbanas em 1929. Também desta vez não conseguiram a adesão dos operários, e muitos comunistas foram mortos em ação.

Enquanto isso, nas montanhas Chingkang, um jovem político, chamado MAO TSÉ-TUNG, formulava, baseado em estudos, reflexão e experiência prática, uma teoria de revolução pela qual os camponeses pobres poderiam ser usados como força insurgente. Por meio de intensa doutrinação, MAO e seus adeptos conseguiram organizar os camponeses. O objetivo era ganhar-lhes a confiança para que cooperassem como fonte de informações, alimentos, recrutas e outros elementos essenciais para as tropas guerrilheiras.

Em 1930, os maoístas já haviam estabelecido várias bases territoriais no Sul da China, que serviam de refúgio e também de núcleos de ataque a seus inimigos. No final de 1931, MAO era investido da presidência de uma república comunista sediada em Juichin (Ruijin). CHIANG decidiu, então, aniquilar pelas armas a ameaça comunista. Para isso, organizou cinco campanhas. As quatro primeiras, realizadas por antigas tropas dos ‘senhores guerreiros’, falharam. A quinta campanha, desfechada em 1934, foi eficazmente conduzida pelas principais unidades de combate do KMT.

Contra as táticas de guerrilha, foram usados obstáculos físicos e fortificações que restringiam a mobilidade dos comunistas de MAO. A fim de evitar o cerco e a aniquilação total, 90.000 combatentes comunistas chefiados por MAO TSÉ-TUNG, LIN PIAO e CHU EN-LAI iniciaram, em outubro de 1934, uma retirada estratégica para o Norte: a Longa Marcha, através de 9.500 quilômetros de montanhas, vales e desertos. (…) Três quartos da tropa morreram, mas os sobreviventes, tendo chegado à província de Shaanxi, no Norte, no fim de 1935, criaram uma base segura. Esse território teve como capital Yenan (Yanan) e passou a ser defendido pelo Exército Vermelho regular, formado para este fim. Convocados para outra campanha de cerco, os soldados e oficiais de CHIANG relutavam em atacar os comunistas, no momento em que uma invasão japonesa parecia iminente. De fato, em 1936, o governo chinês foi obrigado a concordar com a formação de uma ‘frente unida’, composta pelo KMT e pelos comunistas, para enfrentar o inimigo externo. Essa trégua beneficiou os comunistas, que se reorganizaram.” (MAO e a Revolução, Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, ps. 61-62)

DIAGRAMA 1: a Longa Marcha (Fonte: Wikimedia Commons CC BY-AS 3.0).

Todavia, neste período, JOSEF STALIN acreditava na inevitabilidade da vitória de CHIANG KAI-SHEK (que, inclusive, lhe ofertou várias concessões, como a devolução de Port Arthur), situação que só se modificaria em 1948, quando restou claro que, com apoio soviético, MAO TSÉ-TUNG, protegido na Manchúria contra as forças nacionalistas, poderia vencer, – porém, apenas parcialmente, criando um impasse –, razão pela qual a URSS chegou a propor (informalmente) a divisão territorial da China entre comunistas e nacionalistas, a exemplo do que havia sucedido (na prática) na Alemanha e (ainda que supostamente, naquele momento, de forma provisória) na Coreia.

“A princípio, parecia que os comunistas poderiam acabar escorraçados da China, e, em 1934, eles tiveram de fugir de Jiangxi para evitar o extermínio pelas forças de CHIANG KAI-SHEK. Passadas as tribulações da Longa Marcha, como ficou conhecida a fuga comunista de Jiangxi, eles chegaram à remota província de Shaanxi, em 1935. Ali, eles começaram a conquistar o apoio dos camponeses e se prepararam para atacar o Kuomintang.

O apoio do campesinato foi a chave para a vitória comunista. Ao passo que o Kuomintang (ou os nacionalistas) subtraíam comida dos camponeses, os comunistas costumavam pagar. Eles também libertavam os camponeses do fardo de dívidas e altos aluguéis banindo ou matando oficiais locais que coletavam dinheiro. O Kuomintang era identificado com os senhores da guerra, que os camponeses detestavam enquanto as tropas de MAO mataram milhares de senhores e de outros chamados ‘opressores’.

Em 1937, a situação política foi transformada pela invasão japonesa da China. Os bem armados e disciplinados japoneses fizeram amplas incursões pela China, obrigando MAO e CHIANG (este pressionado por seus comandados) a declarar uma trégua para melhor resistirem ao invasor, criando o Front Unido Antijaponês. Apesar dessa aliança, forças japonesas logo ocuparam a maior parte do norte e do leste da China. Embora confrontos eclodissem ocasionalmente entre nacionalistas e comunistas, a trégua durou basicamente até a expulsão dos japoneses da China, em 1945 (favorecendo os comunistas, que tiveram tempo de se organizarem militarmente).

Os comunistas promoveram eventuais guerrilhas de ataques relâmpago e emboscadas contra os japoneses em área ocupadas da China rural (e souberam usar tais fatos como excelente propaganda política). Isso lhes permitiu difundir sua influência sobre grandes áreas do campo, e, no processo, convencer grandes seções da sociedade rural chinesa de que os comunistas eram os reais defensores da independência chinesa. CHIANG, por seu turno, foi amplamente acusado por não ter impedido a ocupação japonesa antes de qualquer coisa. Em 1945, a guerra entre nacionalistas e comunistas voltou a fremir.

No papel, os nacionalistas tinham forças maiores. Também contavam com o apoio dos Estados Unidos, embora isso não incluísse o envio de tropas norte-americanas para a China. A liderança do Kuomintang, contudo, tornara-se corrupta e impopular; os soldados rasos sofriam de falta de incentivo, e a deserção era comum. Em contraste, os comunistas conseguiam recrutar centenas de milhares de novos soldados em meio às fileiras campesinas.

A União Soviética, que ocupara a província chinesa da Manchúria no final da Segunda Guerra Mundial, permitiu que as forças de MAO ali se estabelecessem, em 1945-46. CHIANG KAI-SHEK, de mau aviso, promoveu uma ofensiva para retomar a Manchúria. Suas tropas conseguiram ocupar as cidades manchurianas, mas, em seguida, foram cercadas por forças comunistas rurais, resultando em uma sucessão de derrotas sofrida pelos nacionalistas. As forças comunistas, conhecidas desde 1946 como Exército de Libertação Popular (ELP), foram fortalecidas por grandes quantidades de equipamentos capturados e pelos desertores nacionalistas, que se alistavam no ELP às dezenas de milhares. Em 1948, o ELP estava em pleno controle da Manchúria. Em seguida, as forças comunistas avançaram para o sul. Elas infligiram uma derrota catastrófica aos exércitos de CHIANG em uma batalha em torno de Jin Xian em outubro, na qual 500 mil soldados nacionalistas foram mortos, feridos ou aprisionados. Por essa altura, a economia nas áreas nacionalistas desmoronava; a paga dos soldados era irrisória, anulando sua única razão de luta. Os exércitos do Kuomintang começavam a ruir.” (ADRIAN GILBERT; A China Revolucionária, Enciclopédia das Guerras, São Paulo, M. Books, 2005, ps. 276-277)

Também é importante consignar que, nos registros históricos, existem indícios de um suposto temor de STALIN de que a China, sob a liderança de MAO, pudesse se transformar em uma potência rival à URSS na liderança global do comunismo, razão do supostamente tímido apoio daquele a este; contudo, esta interpretação encontra-se muito distante da realidade de 1949 e de todo o período stalinista, quando ambos passaram a ser fortes aliados.

Na verdade, a efetiva oposição à invasão japonesa deu-se quase que exclusivamente por intermédio das forças nacionalistas (com a guerrilha de MAO TSÉ-TUNG atuando muito mais na defesa de seus próprios interesses do que propriamente contra o Japão), debilitando-as de tal forma (em face da considerável superioridade militar nipônica) que, desmoralizadas com as diversas derrotas (e eventualmente fustigadas pelas forças comunistas de MAO, que nem sempre respeitavam a trégua estabelecida), tornaram-se, gradativamente, corruptas e providas de baixo poder combativo.

“Os japoneses invadiram a China em 1937, já tendo estabelecido um governo fantoche na Manchúria (Manchukuo) desde 1931, ocasião em que procuraram expandir suas conquistas. Muitos dos melhores efetivos do KMT pereceram em tentativas de defender suas posições, diante dos assaltos dos japoneses. CHIANG KAI-SHEK bateu em retirada para Chungking (Chongqing), no interior. Derrotado, e incapaz de qualquer ação efetiva, o KMT ficou desmoralizado e tornou-se corrupto.

Os comunistas, ao contrário do KMT, não utilizaram táticas convencionais de guerra. Deram preferência à guerrilha, concentrando suas ações na retaguarda das forças nipônicas. Essa tática pouco dificultou a ofensiva japonesa, mas teve a vantagem de manter o moral das tropas comunistas. Assim, à medida que o KMT caía no descrédito, os comunistas estabeleciam redes de apoio político e militar nas zonas rurais, por trás das linhas de combate. A única operação de grande porte do Exército Vermelho foi a chamada Campanha dos 100 Regimentos, em 1941. Essa campanha, com voluntários camponeses auxiliando os guerrilheiros e forças regulares atacando guarnições isoladas, terminou em fracasso. A reação dos japoneses foi tão violenta que os comunistas chineses levaram quatro anos para se recuperar, e CHIANG KAI-SHEK aproveitou a oportunidade para desfazer a frente unida e ordenar ataques esporádicos às forças comunistas. (…)” (MAO e a Revolução, Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, p. 62)

Em contraposição, no momento da rendição japonesa, as forças guerrilheiras de MAO TSÉ-TUNG, – de forma diversa dos efetivos nacionalistas de CHIANG –, encontravam-se em excelentes condições para o combate, sendo certo que a ocupação soviética da Manchúria (sem a contrapartida de efetivos ocidentais) foi, adicionalmente, um fator determinante para o desequilíbrio de forças que muito favoreceu a vitória final de MAO na guerra civil que se sucedeu entre 1945 e 1949.

“(…) Quando o Japão se rendeu aos Aliados, em agosto/setembro de 1945, os comunistas chineses estavam prontos para uma ação eficiente. O Exército Vermelho convocou os bem-treinados camponeses, dobrando seus efetivos em apenas duas semanas. Os guerrilheiros tomaram das tropas japonesas rifles e equipamentos militares. Sob o comando de LIN PIAO, foi criado o IV Exército de Campo, que se deslocou para o Norte, para retomar a Manchúria, principal centro industrial da China.

Forças soviéticas, ocupantes da Manchúria, ajudaram os comunistas chineses nesse avanço. Enquanto o IV Exército tomava pontos-chave do território, o II e o III Exército colocavam-se em pontos estratégicos no centro e Norte da China, para retardar o avanço pelo Sudoeste de forças do KMT.

Percebendo que perdia terreno para os comunistas, CHIANG KAI-SHEK pediu apoio aos Estados Unidos, que lhe forneceram transporte aéreo e marítimo. Graças a isso, o KMT pôde dominar as cidades industriais da Manchúria. A essa altura, tanto os EUA como a União Soviética preferiam um acordo entre as duas grandes facções rivais. Os americanos ainda não eram hostis a MAO, e já haviam se cansado das exigências de CHIANG, suspeitando também de suas tendências antidemocráticas. Os EUA, sob a presidência de TRUMAN, defenderam a ideia de coalizão, num governo de unidade nacional, mas fracassaram, porque MAO e CHIANG eram irreconciliáveis. A URSS, sob STALIN, era favorável à divisão da China em dois Estados, por descrer da força dos comunistas para vencer o KMT. Embora não apoiassem uma guerra para resolver o impasse, nenhuma das duas emergentes superpotências foi capaz de evitá-la. MAO e CHIANG estavam convencidos de que o futuro da China teria de ser decidido pela força das armas.” (MAO e a Revolução, Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, p. 62)

Em 1949, após quase 15 milhões de mortes em decorrência da guerra, os nacionalistas que haviam sido expulsos da China continental e se refugiado na pequena ilha de Taiwan fundaram a chamada República da China, enquanto MAO, por sua vez, inaugurou a República Popular da China (RPC)3.

“Em abril de 1949, o ELP cruzou o Rio Yang-tsé e começou a ocupar o sul da China. Nos últimos meses do ano, quase toda a China continental estava sob controle comunista, e, em outubro de 1949, em Pequim, MAO TSÉ-TUNG proclamou a República Popular da China. CHIANG e seus seguidores, que haviam fugido para a ilha de Formosa (Taiwan), continuaram a se proclamar como o legítimo governo chinês. Eles ficaram a salvo de assaltos comunistas graças à proteção (naval) oferecida pelos Estados Unidos, que, até 1972, reconheceram a liderança nacionalista em Taiwan como o governo legítimo de toda a China.” (ADRIAN GILBERT; A China Revolucionária, Enciclopédia das Guerras, São Paulo, M. Books, 2005, p. 277)

Mais uma vez a China seria dominada, – não propriamente por uma potência externa (em face da derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial), como no passado –, mas por um movimento internacionalista que, não obstante ser integrado por chineses (nativos), pouco compromisso revelou possuir com a vontade (democrática) popular, apesar de suas (muitas vezes) convincentes narrativas.

“‘A China é um dragão adormecido’, disse NAPOLEÃO BONAPARTE, ‘e quando ele despertar, o mundo começará a tremer’. Nos 150 anos subsequentes a essa taxativa afirmação, a China adormecida serviu de presa para o engrandecimento das nações ocidentais no século XIX. Despedaçada por conflitos internos, era uma monarquia governada pela incompetente dinastia MANCHU. E, mesmo depois da revolução de 1911, com a república, pouco parecia ter mudado. O governo japonês, fazendo valer sua superioridade militar, dominou a Manchúria em 1931 e daí, a partir de 1937, invadiu a própria China.

Mais uma vez uma grande civilização via-se ameaçada por um decidido agressor externo e incapaz de reagir à altura. O governo do Kuomintang, chefiado por CHIANG KAI-SHEK, foi gradualmente derrotado e debilitado, tornando-se, pouco a pouco, corrupto, com o poder central, como ocorrera em décadas passadas, novamente diluindo-se nas mãos de generais e potentados locais. A guerra civil contra os comunistas prendia a atenção de CHIANG. Embora o governo tenha sido forçado a mudar sua sede para Chungking (hoje Chongqing) e o avanço japonês parecesse inexorável, apenas a adesão às potências aliadas levou CHIANG a sair (simbolicamente) vitorioso do conflito mundial. No entanto, os problemas que haviam assediado os governantes chineses no século anterior logo reapareceram e o regime nacionalista liderado por CHIANG KAI-SHEK sobreviveria apenas mais quatro anos, sendo cabalmente derrotado pelas forças comunistas de MAO TSÉ-TUNG em 1949.” (O Despertar do Dragão, Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, p. 195)

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O Poder da China

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III. O surgimento da China como potência autônoma

STALIN, buscando a estabilização do novo país, – e, consequentemente, de um potencialmente poderoso aliado em sua luta pela dominância comunista internacional –, enviou para a China milhares de engenheiros e trabalhadores especializados, que em um espaço de apenas poucos anos construíram uma extensa e intrincada rede de fábricas, estradas e ferrovias, assim abrindo caminho para a industrialização chinesa. Entretanto, a partir de 1953, com a ascensão ao poder de NIKITA KHRUSHCHEV na URSS, MAO TSÉ-TUNG, – já descontente com o pouco apoio soviético recebido em sua guerra na península coreana –, começou a se afastar de Moscou, acusando os soviéticos de abandonarem as tradições comunistas de LENIN e do próprio STALIN. Isto resultou no gradativo rompimento das relações das duas potências comunistas, uma ruptura que atingiu o seu auge em 1969, quando ambos países estiveram à beira de um conflito bélico e que, em muitos aspectos, serviu, adicional e paradoxalmente para deter as aspirações expansionistas chinesas4.

“Com um ano no poder, MAO introduziu mudanças fundamentais nas relações da China com o mundo exterior. Suas tropas atravessaram o rio Yalu, em 1950, invadindo a Coreia e impondo um recuo às forças das Nações Unidas (basicamente formadas por contingentes americanos). Dessa data em diante, a China adquiriu uma nova importância como potência internacional, após séculos de fraqueza e isolamento. Isso veio a constituir, certamente, a causa de muitas guerras a partir de 1949. Todas as nações limítrofes sentiram os efeitos da nova administração comunista, à medida que a China voltou a reivindicar alguns territórios, interveio em outros e deixou clara sua posição de força na Ásia Oriental.

A intervenção na Coreia em 1950 foi o mais sério dos envolvimentos militares chineses. Levantando-se em armas contra a nação tecnologicamente mais avançada do mundo, os líderes chineses basearam-se na estimativa (correta, como se viu depois) de que os Estados Unidos não atacariam a China, e mesmo um eventual empate militar (como de fato ocorreu) aumentaria o prestígio internacional do novo regime.

Mas a Coreia causou ao Exército chinês baixas enormes, propiciando-lhe uma desagradável lição quanto à natureza da guerra moderna: a tática da luta civil e camponesa dos anos 1940 mostrou-se totalmente inadequada em confronto com o fogo coordenado de artilharia, empregado nas frentes coreanas. Enquanto os exércitos chineses no Nordeste se preparavam para avançar contra a Coreia, nas fronteiras do Sudeste da China ocorria outra intervenção militar. Em outubro de 1950, forças comunistas invadiram o Tibete e rapidamente obtiveram o controle de Lhasa, a capital. O Tibete já vivera sob o domínio MANCHU, mas era independente desde 1913.

Manter o Tibete foi muito mais difícil do que conquistá-lo. Ocupando um país de terreno tão acidentado, as forças maoístas ficaram vulneráveis à mesma tática de guerrilha que praticaram. Houve revoltas em 1954 e conflitos sérios em 1959, em Lhasa, enquanto o povo khamba, do Leste do Tibete, jamais pôde ser completamente subjugado.

A República Popular da China não aceitava a existência da ilha de Formosa (hoje Taiwan) como centro de resistência de CHIANG KAI-SHEK, que, por sua vez, alimentava o sonho de recuperar o país no continente. As ilhas de Quemoy e Matsu, postos avançados nacionalistas próximos à costa continental, foram os pontos atacados. Ali, em 1954 e 1958, baterias comunistas efetuaram intensos bombardeios que pareciam o prelúdio de uma invasão, mas a crise não durou muito e logo arrefeceu.

A fronteira com a Índia foi objeto de um conflito em 1962: em ataques avassaladores, forças chinesas ocuparam regiões na Caxemira e Assam que haviam sido parte do Império MANCHU. Bem-sucedidos, os chineses declararam um cessar-fogo unilateral, com sua vitória já consolidada.

Nas décadas de 1950 e 1960, o mundo comunista sofreu uma grande cisão, quando soviéticos e chineses passaram a divergir quanto aos conceitos, objetivos e métodos do marxismo-leninismo. O processo foi acelerado na China pela Revolução Cultural, em meados da década de 1960. Em 1969, forças chinesas e soviéticas entraram em choque, em face da ocupação por estas da ilha da Damansky, no rio Yalu. Finalmente, no Sul, a tradicional hostilidade sino-vietnamita, combinada com o fato de o Vietnã (amigo da União Soviética) ter invadido com sucesso o Camboja (aliado da China), levou a uma invasão ‘punitiva’ no Vietnã em fevereiro de 1979. Um mês depois, as forças chinesas se retiraram. Portanto, ao longo de todas as fronteiras, a China fez sentir sua presença e até mesmo os Estados não atingidos por uma ação armada direta foram afetados. A Birmânia e o Laos, por exemplo, serviram de refúgio para nacionalistas chineses, e o Paquistão tem na China um aliado natural contra a Índia nas intrigas do Sul da Ásia.” (O Despertar do Dragão, Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, ps. 195-196)

DIAGRAMA 2: Guerras chinesas de fronteira, 1950-83 (Fonte: Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984).

Os EUA se aproveitaram desse distanciamento entre Pequim e Moscou, com RICHARD NIXON (1969-74) realizando, em 1972, uma visita histórica de sete dias à China, pondo fim a um período de 25 anos nos quais os EUA e a nação asiática não tiveram qualquer tipo de relação diplomática, algo que já havia, contudo, sido inaugurado por DE GAULLE, quando a França, em 1964 (em um rompimento com a estratégia norte-americana de isolar Pequim), reconheceu a RPC5. A visita de NIXON abriu caminho para a normalização das relações entre os dois países, levando JIMMY CARTER (1977-81), em 1979, a finalmente restabelecer as relações diplomáticas com Pequim.

“A emergência da China como potência mundial afetou sensivelmente as relações internacionais. O triunfo de MAO TSÉ-TUNG tornou-se um poderoso exemplo para muitos rebeldes anticolonialistas na África e na Ásia, que viram no modelo chinês de revolução camponesa, em vez do modelo soviético de revolução urbana, algo mais viável do que as propostas marxistas tradicionais. Como teórico da Revolução, o líder chinês encontrou milhares de discípulos e inspirou dezenas de insurreições. E quando o comunismo à moda soviética perdeu credibilidade com o esmagamento da rebelião húngara de 1956 e com a devassa da repressão interna stalinista, muitos marxistas adotaram a China como modelo ideal. A ajuda chinesa aos movimentos revolucionários não foi meramente conceitual, mas também de prática efetiva, mediante a provisão, – em escala bem menor do que pela URSS –, de armas, suprimentos e abrigo para rebeldes expatriados. O principal exemplo foi o do Vietnã, onde o Vietminh (Frente pela Independência do Vietnã) recebeu doação de armas chinesas (e auxílio direto com cerca de 320.000 efetivos que ficaram estacionados no território do Vietnã do Norte, permitindo que todo o EVN pudesse ser lançado contra o Vietnã do Sul).” (O Despertar do Dragão, Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, p. 197)

As relações sino-soviéticas iniciaram um processo de distanciamento após a morte de STALIN, em 1953 (não obstante já estarem abalados desde o conflito na península coreana, ocasião em que Pequim ressentiu-se do tímido apoio soviético). Todavia, foi somente com a chegada ao poder de LEONID BREJNEV (1964-82) e com a detonação da primeira bomba atômica chinesa em 1964 (e com a posterior bomba de hidrogênio em 1967) que as fissuras político-ideológicas entre Pequim e Moscou tornaram-se mais evidentes, atingindo seu apogeu com a invasão soviética à Tchecoslováquia em 1968 (veementemente condenada por Pequim, que, inclusive, dispôs-se a enviar tropas para proteger um possível episódio assemelhado na Romênia) e com os incidentes fronteiriços entre 1969 e 1971, que paralisaram o expansionismo chinês e quase conduziram ambos os países a uma guerra total. A partir deste momento, a China e a URSS passaram, cada uma a seu modo, a tentar afetar o outro lado da maneira que podiam. Por exemplo: após o fim da Guerra do Vietnã em 1975, o Vietnã, já unificado, se aproximou da URSS, com os vietnamitas invadindo o Camboja em 1978, na época governado pelos comunistas do Khmer Vermelho (apoiados pelo governo chinês), fato que motivou a China a invadir o Vietnã em 1979 (uma invasão que foi muito criticada por Moscou). Nesta mesma época, a URSS invadiu o Afeganistão, contando com o apoio dos comunistas afegãos pró-soviéticos, o que enfureceu a China, que começou, junto com os EUA, a apoiar os Mujahidin em uma guerra que se estendeu de 1979 a 1989, resultando na derrota do lado apoiado pela URSS.

Entre o final dos anos 1950 e o início dos anos 1970, a China manteve em constante estado de alerta mais de um milhão e meio de tropas na sua fronteira com a URSS, com o mesmo acontecendo do lado soviético, uma vez que os dois esperavam uma invasão (a qualquer momento). Por conta de todos esses conflitos e tensões (com a guerra aberta quase tendo acontecido em 1969), – e com “Guerras por Procuração” no Vietnã, no Camboja e no Afeganistão –, a Guerra Fria (1947-91), a partir da década de 1960, não foi apenas um conflito entre a democracia liberal e o comunismo (de modo geral), mas também um confronto de duas visões ideológicas comunistas distintas (e, para alguns autores, até mesmo de três, com o ingresso de Cuba na órbita do comunismo internacionalista) e de interesses geopolíticos conflitantes, com os soviéticos e os chineses se digladiando por influência global6.

IV. A China após o advento da Nova Ordem Internacional e suas renovadas relações com a Rússia

A partir de 1991, com o fim da URSS, as relações entre a Rússia e a China começaram a melhorar, resultando, em 2001, na assinatura do Tratado de Cooperação e Amizade, levando ambos os países a iniciarem grandes projetos conjuntos, principalmente nas áreas comercial e de energia. Apesar deste (inconteste) progresso diplomático, a Rússia do presidente VLADIMIR PUTIN encara com desconfiança o aumento da influência chinesa na Ásia Central, uma área que tradicionalmente sempre esteve sob influência russa, e também vê, com algum desconforto, o aumento da agressividade chinesa contra países como o Vietnã e principalmente contra a Índia, grandes e tradicionais parceiros econômicos e militares da Rússia.

Por efeito consequente, não obstante ser cediço concluir que as relações entre a China e a Rússia, no presente momento histórico, encontram-se em uma posição muito melhor do que alguma vez o foram, após a morte de JOSEF STALIN em 1953, o projeto expansionista chinês e seu ostensivo desejo de se estabelecer como potência hegemônica até 2050, vem incomodando o presidente PUTIN ao ponto de, em nenhum momento, ele se pronunciar publicamente a favor das reivindicações chinesas no Mar do Sul da China (também conhecido como Mar Meridional da China)7, indicando que a Rússia não pretende apoiar a China em um eventual conflito na região, ainda que tenha celebrado com XI JINPING um suposto acordo (provisório) de divisão temporária do mundo em áreas de influência russa (Europa e Mar Mediterrâneo) e chinesa (Leste do Oceano Pacífico, Mar Meridional da China e Oceano Índico), partilhando, ambas, o Ártico8, a despeito dos interesses estadunidenses.

V. O projeto de dominância global de Pequim

Somente é possível alcançar o denominado “estado pleno de paz” quando todos os potenciais e efetivos contendores, – com sinceridade e desprovidos de “artimanhas” –, assim o desejam. Este é um fato incontroverso e que a história da humanidade já comprovou por inúmeras vezes.

De outra forma, quando o consenso entre as nações não é atingido, a paz somente é possível quando ela é resultado (último) de uma efetiva imposição, como muito bem reconheceu a atual doutrina da ONU, que não mais alude a uma força internacional de manutenção da paz e sim a forças multinacionais de imposição da paz.

“Após o Conselho de Segurança da ONU autorizar a realização, a partir de 2013, sob o comando de um general brasileiro (CARLOS ALBERTO DOS SANTOS CRUZ), de uma grande operação, na República Democrática do Congo, pela primeira vez, desde 1948, a Organização Mundial alterou o clássico conceito de manutenção para o de imposição da paz. À frente de 22 mil homens (de 20 diferentes países) e com orçamento de um bilhão e meio de dólares, SANTOS CRUZ teve seu trabalho elogiado pela ONU, não obstante ter sofrido diversas críticas por parte de organizações humanitárias nesta operação, como igualmente durante a sua atuação no Haiti (de 2006 a 2009), quando, ao tomar a favela Cité Soleil (um enclave de criminosos em Porto Príncipe), durante dois dias consecutivos de batalhas, registrou um grande número de baixas civis. De uma certa maneira, a exitosa operação anterior no Haiti abriu as portas para a modificação do aludido conceito pela ONU, a partir de 2013, de forças de imposição de paz em lugar da tradicional e consagrada concepção de forças de manutenção de paz.” (REIS FRIEDE; Fragmentos da Palestra “Guerra Assimétrica Reversa e Desafios para o Século XXI”, Proferida na Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica – ECEMAR em 21/03/2018)

Uma política (consistente e crível) de imposição da paz, por sua vez, implica em a entidade estatal encontrar-se (conscientemente) em estado de guerra (eventualmente, de forma contínua) e posicionar-se, permanentemente, na ofensiva.

O advento das chamadas Guerras de Quarta Geração, ao alterar o paradigma do anterior objetivo (universal) de vitória militar para o de manutenção do status quo (ou, mesmo, de sutis alterações da realidade geopolítica estabelecida), consignou uma nova dinâmica conflitual fundamentada na deterrência estratégica (em suas diversas modalidades operativas: dissuasão, contenção passiva e contenção ativa) que, por sua vez, procura (em sua concepção exteriorizante) utilizar todo o potencial do poder nacional (militar, econômico, político e psicossocial), com ênfase em ações diplomáticas. Destarte, o papel do poder militar, nesta nova realidade, passa a se exteriorizar muito mais por meio de demonstrações de eventuais desequilíbrios de poder combativo (em favor daquele que procura impor a paz), do que propriamente em combates de grandes proporções (estes descartados, no mundo pós-Segunda Guerra Mundial, em função da existência das armas de destruição em massa, particularmente as termonucleares), ainda que, alternativamente ou de forma complementar, também possa eventualmente se manifestar em intervenções (e operações) militares pontuais.

Essa foi exatamente a dialética que prevaleceu durante a Guerra Fria (1947-91), nos mais diversos episódios que a humanidade testemunhou, como a Crise de Suez de 1956 (onde as ameaças de retaliação militar soviéticas fizeram com que os EUA pressionassem a França, o Reino Unido e Israel a recuarem de seus objetivos) ou como no emblemático episódio da chamada Primeira Crise dos Mísseis de Cuba de 1962 (em que a ampla superioridade militar de meios estratégico-nucleares norte-americana impediu que Moscou atingisse os seus planos iniciais).

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Destarte, a lição muito bem apreendida pela China, – durante todo este longo lapso temporal histórico, ocasião em que silenciosamente se estabeleceu como a segunda potência econômica do mundo e a terceira potência militar do planeta, almejando (ostensivamente) a hegemonia global até 2050 –, foi a de manter-se em permanente estado de guerra e sempre na ofensiva, ainda que dentro das características (operativas) próprias inerentes às Guerras de Quarta Geração.

A histórica derrota de LEONID BREJNEV de impor a URSS como potência dominante, em decorrência do exitoso contra-ataque de ZBIGNIEW BRZEZINSKI (o brilhante Assessor de Segurança Nacional de JIMMY CARTER) de abrir um novo front muçulmano de confrontação ao expansionismo soviético, – adicionado à posterior política de contraforça inaugurada por REAGAN –, demonstrou claramente às lideranças de Pequim que somente uma política consistente, permanente e, sobretudo, sutil e silenciosa (e que, acima de tudo, considerasse, em seu favor, o processo de transnacionalização dos capitais ou, em termos mais atuais, a globalização em sua vertente política denominada por globalismo) poderia conduzir, no longo prazo, à dominância mundial por parte da China.

A lição, portanto, foi apreendida, e a inteligência de XI JINPING, desde 2012, tem conduzido a brilhantes manobras políticas, neste sentido, como, por exemplo, a instalação (dissimulada) de bases militares em toda a região do Mar Meridional da China (através da construção de ilhas artificiais), além da recente tentativa (ainda não completamente executada) de estabelecer bases chinesas (disfarçadas) em Cuba (o que se convencionou chamar de “anel de pérolas negras”) em uma ameaça direta aos interesses (e à própria segurança) dos EUA.

A China muito bem sabe que não pode confrontar militarmente os EUA e vice-versa, mas conhece muito bem a dialética das chamadas Guerras de Quarta Geração, e o poder que as armas, muito bem empregadas em um contexto de ameaças veladas, possuem dentro da concepção clássica da deterrência estratégica, particularmente em sua versão atualizada e repaginada para o século XXI.

Importante frisar, em necessária adição, que a China jamais vai aceitar a existência de uma República da China (Taiwan) independente, assim como nunca concordará com o domínio da força naval americana sobre o Pacífico Oriental. Em ambas as situações, Pequim possui uma estratégia muito consistente que a médio e longo prazos permitirá completar a sua primeira fase de seu projeto de dominância global, qual seja, a de assegurar o completo controle de seu quintal estratégico, replicando a Doutrina Monroe (1823) de controle das Américas, pelos EUA, no século XIX.

“É provável uma “Segunda Crise de Mísseis Cubanos” (CMC2)? Ninguém na administração KENNEDY (1961/63) foi preparado para o audacioso golpe de KHRUSHCHEV (1953/64) para iniciar um processo que objetivava conduzir ao equilíbrio de poder militar em 1962, e, ao mesmo tempo, criar uma situação nova para negociar a saída das forças aliadas de Berlim (que ficavam dentro da República Democrática Alemã), acontecimento que por pouco não pôs o mundo em guerra e que, posteriormente, levou à remoção (negociada) dos mísseis IRBMs Jupiter americanos na Turquia e o compromisso de Washington de reconhecer Cuba como área de influência soviética. Pequim parece trilhar um caminho semelhante e, apesar dos muitos males produzidos, a URSS não tinha o imperativo sócio-político do ‘problema de Taiwan’, embora ostentasse, em outra escala valorativa, a questão (do ponto de vista soviético) não resolvida (desde o mal sucedido bloqueio em 1948) de Berlim.” (ILARIO PANTANO, The Second Cuban Missile Crisis, 2009, p. 5)

Nesse particular, a silenciosa (e muito bem camuflada) instalação de meios militares (ainda que não necessariamente nucleares) em Cuba, ameaçando diretamente o território continental dos EUA, não deixa de ser uma reedição repaginada da mesma estratégia (ainda que não completamente exitosa) de NIKITA KHRUSHCHEV de criar um fato político para, posteriormente, negociar (à época) a sua saída de Cuba em troca da retirada das forças norte-americanas instaladas dentro do coração da antiga República Democrática Alemã, ou seja em Berlim. Ainda que KHRUSHCHEV não tenha conseguido plenamente o seu intento, limitando-se a aceitar um acordo de retirada dos mísseis norte-americanos IRBMs Jupiter da Turquia (um outro objetivo dos planos de Moscou) e a aceitação, por parte de Washington, da ilha caribenha como área de influência soviética, XI JINPING, aprendendo com as lições do passado, visivelmente pretende negociar, em melhores termos (e utilizando da paciência estratégica, que é uma marca da cultura chinesa), o abandono de Formosa (Taiwan) pelos EUA (e de seus correspondentes compromissos de defesa do arquipélago), pelo reconhecimento de Cuba como uma área de total e plena influência norte-americana.

“As abordagens mais convencionais de como a China pode resolver seu problema de Taiwan, e se essa solução envolverá força, está focada na localidade do Pacífico. Essa notória armadilha decorre de responsabilidades territoriais delineadas em um mapa. Na linguagem do Pentágono: a China é um problema do Comando do Pacífico, que restringe artificialmente cenários e soluções para o Pacífico. Ao estabelecer o conceito de CMC2, sugere-se que uma consideração mais ampla seja dada a um problema que historicamente foi definido de maneira muito restrita.

Um bom guerreiro, ou até mesmo um lutador de rua, sabe que não se deve atacar o ponto forte de seu oponente. Deve-se atacar seu ponto fraco. Você não golpeia o punho do seu inimigo, golpeia a virilha ou sua garganta. É certo que se sabe muito pouco sobre a verdadeira estratégia ou intenção chinesa, apesar de que, há milhares de anos, eles vêm praticando a arte do ‘engano’. Então, porque continuamos a usar ‘sapatos brancos’? Assumindo que a única luta será no momento, local e da maneira que nos for conveniente?

Um estrategista atencioso pode ver a oportunidade de usar Cuba como alavanca em uma troca por Taiwan (como, em alguma medida, foi parte da estratégia de KHRUSHCHEV no caso de Berlim, ainda que sem êxito, posto que somente conseguiu a remoção dos IRBMs estadunidenses da Turquia). Esse confronto pode não ser inevitável, mas não pode ser descartado. Não cometa erros, Cuba é um fracasso econômico, mas diferentemente do Haiti ou de outros países latino-americanos que foram incapazes de encontrar seus caminhos, Cuba logrou em tornar-se um ‘parceiro de dança’ atraente para potências que buscam ameaçar ou marginalizar os interesses dos EUA. Cuba é uma ‘casa danificada’, mas com tinta fresca e um conjunto completo de mísseis, pode alcançar o preço certo de mercado.” (ILARIO PANTANO, The Second Cuban Missile Crisis, 2009, ps. 10-11)

VI. Conclusões

A irreversibilidade das recentes “conquistas territoriais” chinesas no Mar do Sul da China (e seu futuro uso econômico, através da exploração de petróleo e gás, por exemplo) parece não mais permitir qualquer tipo de reação pela Comunidade Internacional e, em especial, por parte dos EUA.

Ademais, tratados celebrados entre as principais potências ocidentais e a China no passado, – como, por exemplo, o relativo à devolução do território de Hong Kong através de um processo gradual de coexistência de “um único Estado com dois diferentes sistemas políticos”, por 50 anos, até 2047 –, estão sendo simplesmente ignorados, em uma atitude de confrontação sem precedentes.

“Reino Unido, EUA, Canadá e Austrália divulgaram texto conjunto acusando a China de violar as obrigações assumidas no acordo que levou à devolução de Hong Kong a Pequim pelos britânicos.” (O Globo, 29/05/2020, p. 19)

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Também, é cediço reconhecer que, muito embora a Europa não seja um objetivo de dominância direta por parte de Pequim no atual momento (muito provavelmente em face de XI JINPING não desejar, ainda, rivalizar com seu aliado russo VLADIMIR PUTIN) –, o velho continente, cada vez mais distante dos EUA, será, em um futuro próximo, uma “presa fácil” para a China.

“Sem a parceria com os EUA, a Europa ficará à mercê da China, reduzindo-se a mero apêndice da Eurásia.” (HENRY KISSINGER apud DEMÉTRIO MAGNOLI; Depois do Vírus, KANT ou HOBBES?, O Globo, 20/04/2020, p. 3)

Por efeito conclusivo, apesar das (ainda) insistentes (e excessivas, ainda que pertinentes) preocupações com o “renascimento” do Império Russo, liderado por VLADIMIR PUTIN, em um contexto de um novo mundo tetra ou pentapolarizado (EUA, Rússia, China, Índia e, eventualmente, uma União Europeia redesenhada), a verdade é que a maior ameaça à Nova Ordem Mundial, inaugurada em 1991, sob a liderança monopolar estadunidense, parte principalmente da China (especialmente a partir de 2012), ocasião em que a estratégia objetivando a dominância global, – reinaugurando o antigo projeto, não completamente exitoso, de MAO TSÉ-TUNG (1949-76) –, foi lançada pelo então novo líder (e reconhecido estadista) XI JINPING.

Notas complementares

1. A invasão soviética à Tchecoslováquia

Segundo a clássica obra Guerra na Paz (Orbis Publishing Co., 1984, p. 122), “em 1947, destoando da regra vigente no Leste europeu, a Tchecoslováquia continuava sendo um país democrático, pluripartidário, com uma indústria desenvolvida e relativamente intacta aos danos da guerra. Além disso, não foi ocupada pelo Exército Vermelho e era governada por um estadista respeitado, EDUARD BENES, que havia passado o período de guerra não em Moscou, mas em Londres.

Embora o primeiro-ministro tcheco KLEMENT GOTTWALD fosse comunista (seu partido obtivera 46% dos votos na primeira eleição do pós-guerra), o governo era uma coalizão que incluía partidos não-comunistas. No entanto, STALIN deixou claro aos correligionários tchecos que, em pouco tempo, deveriam alinhar o país com os outros ‘satélites’ do Leste europeu.

A escalada comunista ao poder começou no dia 20 de fevereiro de 1948. Em protesto contra o comportamento arbitrário do ministro comunista do Interior, doze ministros não-comunistas apresentaram sua renúncia ao presidente BENES, na expectativa de que este os apoiasse, enquanto os comunistas acusavam os outros partidos de planejarem a derrubada do governo.

GOTTWALD insistiu que o presidente aceitasse a renúncia dos doze ministros. Mas, como BENES se manteve firme, GOTTWALD resolveu acionar todo o aparato do Partido Comunista – a polícia, os Comitês de Ação, a Milícia dos Trabalhadores e as massas revoltosas. A polícia, controlada por comunistas, ocupou a estação de rádio de Praga e outros edifícios públicos importantes. Multidões eram trazidas em caminhões de todas as partes da Boêmia, para participar de manifestações. Ordenou-se também a formação de Comitês de Ação nas aldeias, cidades, fábricas e escritórios. A Milícia dos Trabalhadores se armou, pronta para intervir em caso de necessidade. Os Comitês de Ação começaram a assumir o controle de todas as organizações das quais provinham, efetuando mudanças em sua política e nos quadros funcionais, sem consulta ao governo. Foi uma revolução completa, apesar de incruenta.

Os partidos não-comunistas não tiveram como responder a essas iniciativas. Foram impedidos de falar pelo rádio e seus jornais acabaram sabotados. Internamente divididos, não tinham nenhum plano para enfrentar a situação. Tudo passou a depender do presidente e de quem pudesse pressioná-lo.

Em 21 de fevereiro, um domingo, houve mais manifestações de massa. Corriam rumores de que o antigo embaixador soviético em Praga, então vice-ministro do Exterior em Moscou, VALERIAN ZORIN, encontrava-se na cidade participando dos acontecimentos. O presidente BENES encarou sua chegada a Praga como um sinal claro de que STALIN estava determinado a dar apoio total a GOTTWALD. Outros boatos, impossíveis de confirmar, diziam que tropas soviéticas se reuniam na fronteira, chegando mesmo a penetrar na parte oriental do país. Tudo isso aumentava a tensão. Em todo o território tcheco, não-comunistas estavam sendo presos e demitidos dos empregos. No dia 23, quatro ministros não-comunistas foram impedidos de entrar em seus escritórios, e o secretário do Partido Socialista Nacional foi detido. Ao mesmo tempo, os comunistas mantinham manifestações de massa contínuas no centro de Praga.

No dia 25, continuaram as conversações entre GOTTWALD e BENES. Este insistia numa solução democrática e parlamentar, e GOTTWALD proponha a formação de um novo gabinete, com representantes dos partidos não-comunistas escolhidos por ele mesmo. Após nova reunião, à tarde, o presidente, exausto e doente, acabou aceitando a proposta de GOTTWALD e aprovou novo gabinete.

A maior vítima pessoal dessa crise foi o próprio presidente BENES. Após assistir à posse dos novos membros do governo, no dia 27 de fevereiro, anunciou que estava deixando a residência oficial no castelo de Hradcany para ir morar em sua casa no campo. Depois disso, só retornou a Praga para o funeral de seu amigo e aliado, JAN MASARYK, ministro do exterior, encontrado morto no chão de pedras abaixo da janela de seu apartamento, no dia 10 de março. Num inútil ato final de protesto, BENES renunciou à presidência no dia 7 de junho” (Guerra e Paz; Orbis Publishing Co., 1984, p. 122), assistindo, atônito, a indiferença do Ocidente e dos Estados Unidos, em particular, o que muito incentivou a aventura soviética no episódio do Bloqueio de Berlim (ocorrido entre 24 de junho de 1948 e 12 de maio de 1949). BENES morreu três meses depois, no dia 3 de setembro de 1948.

2. O bloqueio de Berlim

Já em fins de 1944, restava claro, especialmente para o Reino Unido, que a União Soviética pretendia restabelecer, – ainda no contexto da própria Segunda Guerra Mundial (e, portanto, antes do seu término) –, seus planos originais de dominância global, através da retomada do expansionismo territorial e ideológico do comunismo, temporariamente interrompido pela invasão alemã ao seu território.

A iminência do colapso da Alemanha e os conflitos referentes à posição anticolonialista norte-americana, ostensivamente defendida por FRANKLIN ROOSEVELT (e mais incisivamente pelo seu vice-presidente, HENRY WALLACE), – e que potencialmente prejudicariam no futuro pós-guerra o Império Britânico (e, em parte, o francês) –, também estavam sendo habilmente explorados por JOSEF STALIN, buscando criar uma (almejada) fratura na aliança anglo-americana, o que inclusive viabilizou um encontro entre WINSTON CHURCHILL (por iniciativa deste) e STALIN, em Moscou, sem a participação de qualquer representante norte-americano, entre os dias 9 e 19 de outubro de 1944 (conhecido como Quarta Conferência de Moscou ou Conferência Tolstoi).

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Tal fato permitiu que a URSS, de forma compromissada com os britânicos, desistisse da Grécia (algo que efetivamente foi cumprido por Moscou), mas não de seus planos expansionistas sobre outras regiões, inclusive seu projeto de anexação de parte da Polônia (e no estabelecimento de uma área de influência permanente no restante da mesma), à revelia do compromisso e da própria vontade britânica de ver restabelecido o governo oficial polonês, exilado em Londres (desde a invasão daquele país em 1939), e cujas forças tanto contribuíram para o esforço de guerra britânico, inclusive fornecendo pilotos que foram especialmente importantes na vitória do Reino Unido na chamada batalha aérea da Grã-Bretanha.

“O líder soviético JOSEF STALIN ordenou a incorporação de parte do leste da Polônia à União Soviética e, para compensar a Polônia, cedeu a ela uma grande parte da Alemanha a leste da linha Oder-Neisse. Esta área continha grande parte das terras férteis alemãs. O governo da Alemanha ocupada foi coordenado pelas quatro potências através do Conselho de Controle Aliado (ACC).” (ROGER GENE MILLER; To Save a City: The Berlin Airlift, 1948-1949, Texas A&M University Press, 2000, p. 5)

Verificando que STALIN não estava disposto a acatar tudo aquilo que fora decidido em conjunto com CHURCHILL em 1944, especialmente no que concernia à questão polaca, o primeiro-ministro britânico, nos últimos dias de seu mandato, concebeu a famosa “operação impensável”, que objetivava um ataque militar frontal contra as forças da URSS, objetivando libertar o leste europeu das forças de ocupação soviéticas, com especial ênfase no emblemático caso da Polônia.

“‘Operação Impensável’ foi o nome dado a dois planos relacionados, mas não realizados, pelos Aliados Ocidentais contra a União Soviética. A criação dos planos foi ordenada pelo primeiro-ministro do Reino Unido WINSTON CHURCHILL em 1945 e desenvolvida pela equipe de planejamento conjunto das Forças Armadas do Reino Unido no final da Segunda Guerra Mundial na Europa.

Supunha-se um ataque surpresa às forças soviéticas estabelecidas na Alemanha para ‘impor a vontade dos Aliados Ocidentais’ aos soviéticos. ‘O testamento’ foi qualificado como ‘um acordo para a Polônia’, o que provavelmente significava impor o acordo recentemente assinado na Conferência de Ialta. Quando as probabilidades foram julgadas ‘fantasiosas’, o plano original foi abandonado.” (Operation Unthinkable: ‘Russia: Threat to Western Civilization’, British War Cabinet, Joint Planning Staff, Public Record Office, CAB 120/691/109040 / 002 – 11 de agosto de 1945, Department of History, Northeastern University)

Todavia, a relutância de TRUMAN (que ainda interpretava como importante o apoio soviético na luta contra o Japão, especialmente na Manchúria) e resistências entre os próprios militares britânicos fizeram com que uma “linha arbitrária” (com negociações “vagas”) acabasse por se estabelecer na Europa, principalmente na Alemanha, que passou a ser dividida e ocupada em quatro setores, estendendo-se o mesmo conceito a Berlim, que ficava totalmente no interior da zona soviética.

“Com o término da Segunda Guerra Mundial em 8 de maio de 1945, tropas soviéticas e ocidentais (americanas, britânicas e francesas) encontravam-se espalhadas pela Europa, aquelas a leste, estas a oeste, formando uma linha divisória arbitrária no centro do continente. Na Conferência de Potsdam, os aliados acordaram dividir a Alemanha derrotada em quatro zonas de ocupação (conforme os princípios previamente definidos na Conferência de Ialta), conceito também aplicado a Berlim, que foi então partilhada em quatro setores, o setor francês, o setor britânico, o setor americano e o setor soviético. Como Berlim havia ficado bem no centro da zona de ocupação soviética da Alemanha (que viria a tornar-se a Alemanha Oriental), as zonas americana, britânica e francesa em Berlim encontravam-se cercadas por território ocupado pelo Exército Vermelho.

A zona soviética produzia muito dos abastecimentos da Alemanha de alimentos, enquanto o território das zonas britânica e americana tinha que contar com a importação de alimentos, mesmo antes da guerra.” (ROGER GENE MILLER; To Save a City: The Berlin Airlift, 1948-1949, Texas A&M University Press, 2000, p. 4)

“Na zona leste, as autoridades soviéticas forçosamente unificaram o Partido Comunista da Alemanha e o Partido Social-Democrata da Alemanha no Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED), alegando que no momento ele não teria uma orientação marxista-leninista ou orientação soviética. Enquanto a Administração Militar Soviética suprimiu todas as outras atividades políticas, fábricas, equipamentos, técnicos, gestores e pessoal qualificado foram removidos para a União Soviética.

DIAGRAMA 3: os únicos três corredores aéreos admissíveis até Berlim (Wikimedia Commons CC BY-SA 3.0).

Em uma reunião de junho de 1945, STALIN disse aos líderes comunistas alemães que esperava lentamente minar a posição britânica dentro de sua zona de ocupação, que os Estados Unidos iriam se retirar dentro de um ano ou dois, e que nada, então, ficaria no caminho de uma Alemanha unida sob controle comunista dentro da órbita soviética. STALIN e outros líderes disseram ao visitar delegações búlgara e iugoslava, no início de 1946, que a Alemanha devia ser soviética e comunista.” (ROGER GENE MILLER; To Save a City: The Berlin Airlift, 1948-1949, Texas A&M University Press, 2000, ps. 11-13)

As divergências entre Londres e Washington sobre o status do império britânico no pós-guerra foram, entretanto, superadas com a morte de FRANKLIN ROOSEVELT (e a consequente ascensão de HARRY TRUMAN à Presidência dos Estados Unidos) em 12 de abril de 1945 e com a derrota eleitoral de CHURCHILL alguns meses depois (26 de julho de 1945) para CLEMENT ATTLEE.

Com tais fatos, a aliança entre o Reino Unido e os EUA se intensificou, ao mesmo tempo em que as divergências entre norte-americanos e soviéticos foi ampliada, e o próprio CHURCHILL (não mais como o primeiro-ministro, mas ainda detentor de grande popularidade no Reino Unido e no mundo) passou a reconhecer a relativa impossibilidade de confiar em STALIN no que concerne aos acordos firmados.

“Em 1945, Estados Unidos e União Soviética emergiram da guerra como vencedores incontestes, mas estavam separados por interesses antagônicos e conceitos diferentes sobre a reorganização da Europa. Havia divergências quanto ao futuro da Alemanha e, nos países do Leste europeu, apesar das promessas de restauração democrática, o governo de Moscou continuava a impor regimes de partido único, dominados por comunistas fiéis à sua política.

Ao perceber esse processo, o ex-primeiro-ministro britânico WINSTON CHURCHILL (CLEMENT ATTLEE já o havia substituído desde 26 de julho de 1945), comentou, em março de 1946, que uma ‘cortina de ferro’ havia descido sobre parte da Europa, separando o Leste do Ocidente.” (O Bloqueio de Berlim; Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, p. 121)

O foco das divergências quanto ao alinhamento político da Europa acabou concentrando-se em Berlim, com o aumento gradativo das divergências entre as visões anglo-americana e soviética.

“Berlim tornou-se rapidamente o ponto focal dos esforços de ambos, norte-americanos e soviéticos, para realinhar a Europa em suas respectivas visões. Como MOLOTOV observou, ‘o que acontece em Berlim, acontece à Alemanha, o que acontece na Alemanha, acontece à Europa’.

Berlim tinha sofrido um dano enorme e sua população pré-guerra, de 4,5 milhões de pessoas, fora reduzida para 2,5 milhões, mas a cidade podia produzir apenas 2% das suas necessidades alimentares. Os aliados ocidentais não foram autorizados a entrar na cidade, até dois meses após a rendição da Alemanha, durante o qual a população local sofreu tratamento brutal nas mãos do exército soviético.

Depois de um tratamento severo, emigração forçada, repressão política e o inverno particularmente difícil de 1945-1946, os alemães na zona controlada pela União Soviética se tornaram hostis aos esforços soviéticos. As eleições locais, em meados de 1946, resultaram em um voto de protesto maciço anticomunista, especialmente no setor soviético de Berlim. Os cidadãos de Berlim esmagadoramente elegeram membros democráticos ao seu conselho municipal (com uma maioria de 86%), fortemente rejeitando os candidatos comunistas.” (NORMAN DAVIES; Europa na Guerra 1939-1945: Uma Vitória Nada Simples, Rio de Janeiro, Record, 2009; ROGER GENE MILLER; To Save a City: The Berlin Airlift, 1948-1949, Texas A&M University Press, 2000, ps. 6 e 13-145; GEORGE S. PATTON JR.; A Guerra que Eu Vi, Rio de Janeiro, BIBLIEx, 1979; LIDDEL HART; O Outro Lado da Colina: Ascensão e Queda dos Generais Alemães, com Seus Depoimentos Acerca dos Acontecimentos Militares de 1939-1945, Rio de Janeiro, BIBLIEx, 1980)

Ainda assim, foi somente em 1947, – marco temporal (oficial) do início da chamada Guerra Fria –, que restou claro que era impossível convencer a URSS a participar ativamente de uma “Nova Ordem Mundial” em que a mesma renunciasse às suas ambições de dominância global e de irradiação (internacionalista) da ideologia comunista em todas as partes do globo, surgindo a denominada Doutrina Truman de deterrência estratégica na modalidade contensiva.

“Somente em 1947, os governos ocidentais reagiram decididamente ao expansionismo soviético. A primeira atitude clara nesse sentido foi a do presidente HARRY TRUMAN ao anunciar, em março de 1947, que os EUA estavam dispostos a fornecer substancial ajuda militar e econômica a qualquer país que tentasse resistir à invasão comunista. Essa declaração, que se tornou conhecida como Doutrina Truman, foi seguida em junho do oferecimento de maciço auxílio econômico aos países da Europa Ocidental (Plano Marshall).

Uma vez que os americanos não podiam forçar os soviéticos a abandonar o Leste europeu ou persuadi-los a tolerar, ali, um certo grau de liberdade democrática, podiam ao menos empregar a vasta capacidade da indústria americana na tarefa de garantir a prosperidade na Europa Ocidental.” (O Bloqueio de Berlim; Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, p. 121)

A reação soviética foi gradual, objetivando testar a determinação anglo-americana em relação ao confronto direto com a mesma, considerando o monopólio das armas nucleares (ainda) em mãos dos EUA, que só foi quebrado em 29 de agosto de 1949.

“A reação soviética (ao Plano Marshall) deu-se no plano político. Em setembro de 1947, foi anunciada a Agência Comunista de Informações (conhecida como Cominform), ligando os partidos comunistas da Europa Oriental aos seus equivalentes italiano e francês.” (O Bloqueio de Berlim; Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, p. 121)

Em uma ação mais ousada, a URSS arriscou-se na Tchecoslováquia, anexando-a à sua órbita de influência ainda que de uma forma relativamente dissimulada.

“Em fevereiro de 1948, os comunistas tchecos, sob pressão de Moscou, armaram um golpe de Estado que saiu vitorioso, completando assim a ‘comunização’ do Leste Europeu (sem qualquer reação ocidental).

Agora, a Grande Aliança dos tempos da guerra podia ser considerada definitivamente encerrada. EUA e URSS engajavam-se num confronto político e ideológico de proporções mundiais por envolver as respectivas áreas de influência.” (O Bloqueio de Berlim; Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, p. 121)

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A completa ausência de reação a essa investida, contudo, incentivou a URSS a, pela primeira vez, – de forma clara, inequívoca e, sobretudo, agressivamente ostensiva –, romper com os acordos do pós-guerra, sitiando a cidade de Berlim (onde as forças de ocupação dos EUA, do Reino Unido e da França encontravam-se aquarteladas com um efetivo de 6.500 soldados, além de dois milhões e meio de habitantes vivendo em Berlim Ocidental), através de um bloqueio de todas as vias terrestres.

“O Bloqueio de Berlim (24 de junho de 1948 – 12 de maio de 1949) tornou-se uma das maiores crises da Guerra Fria, desencadeada quando a União Soviética interrompeu o acesso ferroviário, rodoviário e hidroviário à cidade de Berlim Ocidental. Seu objetivo era forçar as potências ocidentais a se retirar (em definitivo), permitindo, desta forma, o controle soviético sobre toda a cidade.

Em resposta, os aliados ocidentais organizaram a ponte aérea de Berlim para transportar suprimentos para as pessoas em Berlim Ocidental.” (Journey Across Berlin (1961), Universal Newsreel, 1957; Air Force Story, The Cold War, 1948-1950 (1953), Universal Newsreel, 1953)

“A Força Aérea dos Estados Unidos e os britânicos da Força Aérea Real fizeram mais de 200.000 voos em um ano, com até 4.700 toneladas diárias de suprimentos, como combustível e comida para os berlinenses.” (GARY B. NASH; The Next Steps: The Marshall Plan, NATO, and NSC-68, The American People: Creating a Nation and a Society, New York: Pearson Longman, 2008, p. 828)

“O argumento jurídico utilizado pelos soviéticos para o bloqueio foi de que nunca houve um acordo formal garantindo o acesso ferroviário e rodoviário para Berlim através da zona soviética, uma vez que, no final da guerra, os líderes ocidentais basearam-se na boa vontade soviética para proporcionar-lhes um direito tácito para tal acesso. Na época, os aliados ocidentais assumiram que a recusa soviética em proporcionar outros acessos para o transporte de carga, além da ferroviária, e limitada a 10 trens por dia, era temporária, mas os soviéticos se recusaram a expansão para as várias rotas adicionais que foram propostas posteriormente.

Os soviéticos também concederam apenas três corredores aéreos de acesso a Berlim, a partir de Hamburgo, Buckeburgo e Frankfurt. Em 1946, os soviéticos pararam a entrega de mercadorias agrícolas de sua zona no leste da Alemanha, e o comandante americano, general LUCIUS D. CLAY, respondeu, parando a transferência de indústrias desmanteladas da parte oeste da Alemanha para a União Soviética. Em resposta, os soviéticos começaram uma campanha de relações públicas contra a política americana, e começaram a obstruir o trabalho administrativo de todas as quatro zonas de ocupação.

Até o início do bloqueio, em 1948, a administração TRUMAN não tinha decidido que forças americanas deviam permanecer em Berlim Ocidental, após o estabelecimento de um governo da Alemanha Ocidental, previsto para 1949.” (ROGER GENE MILLER; To Save a City: The Berlin Airlift, 1948-1949, Texas A&M University Press, 2000, ps. 6-7)

“Em 24 de junho de 1948, os soviéticos interromperam todas as comunicações rodoviárias entre as zonas não soviéticas e Berlim. No mesmo dia, também foram paralisados todos os serviços ferroviários e o tráfego de barcaças dentro e fora de Berlim. Em 25 de junho, os soviéticos suspenderam o fornecimento de alimentos para a população civil nos setores não soviéticos de Berlim e também cortaram a eletricidade da cidade, usando o seu controle sobre as usinas geradoras na zona soviética.

O tráfego de superfície para as zonas não soviéticas de Berlim foi totalmente bloqueado, permanecendo abertos apenas os corredores aéreos. Os soviéticos rejeitaram os argumentos de que os direitos de ocupação nos setores não-soviéticos de Berlim e de uso das rotas de abastecimento durante os três anos anteriores tinham dado ao Reino Unido, França e Estados Unidos o direito legal de uso das estradas, túneis, ferrovias e canais.

Depois da guerra, o Reino Unido, a França e os Estados Unidos, aparentemente contando com a boa vontade soviética, nunca haviam negociado um acordo com a URSS para garantir os direitos acesso terrestre a Berlim através da zona soviética. O bloqueio viria a ser o foco das tensões que levariam à dissolução da aliança entre a URSS e as potências ocidentais formada na Segunda Guerra Mundial. A crise arrefeceu quando ficou claro que a URSS não impediria a ponte aérea, organizada e operada pelos Estados Unidos, Reino Unido e França, para levar alimentos e outros gêneros à população da cidade. Na primavera de 1949, esse esforço se mostrava claramente um sucesso, e, em abril, o transporte aéreo estava entregando um volume de carga superior ao que era anteriormente transportado de trem para a cidade. O sucesso da ponte aérea de Berlim parece ter surpreendido os soviéticos. O bloqueio foi finalmente levantado em maio de 1949, com a criação de dois Estados alemães separados, a República Federal da Alemanha (Alemanha Ocidental) e a República Democrática Alemã (Alemanha Oriental), ficando a cidade de Berlim também dividida em dois setores – Berlim Ocidental e Berlim Oriental.” (ROGER GENE MILLER; To Save a City: The Berlin Airlift, 1948-1949, Texas A&M University Press, 2000, p. 32; HENRY ASHBY TURNER; The Two Germanies Since 1945: East and West, Yale University Press, 1987; GARY B. NASH; The Next Steps: The Marshall Plan, NATO, and NSC- 68, The American People: Creating a Nation and a Society, New York: Pearson Longman, 2008, p. 828)

Vale rememorar que, sob muitos aspectos, Berlim foi, segundo o ponto de vista soviético, o problema (mal resolvido) da divisão que se acordou no imediato pós- Segunda Guerra Mundial e, portanto, o “câncer” que necessitava ser extirpado, no contexto da concepção bipolar de Oriente (Segundo Mundo ou Bloco Comunista), que se estabeleceu naquela ocasião.

“Em 1948, embora a Guerra Fria estivesse em pleno vigor, nenhuma das partes havia testado a outra para ver até que ponto se dispunha a ir. Esse teste crucial veio com o colapso da administração conjunta de Berlim (dividida pelos Aliados em quatro setores de ocupação), e com o bloqueio, imposto pelos soviéticos, de todas as comunicações terrestres entre aquela cidade e o Ocidente.

Na Conferência de Potsdam, em julho 1945, TRUMAN, STALIN e CHURCHILL (posteriormente substituído por CLEMENT ATTLEE) haviam chegado a um acordo a respeito da administração da Alemanha. O país seria dividido em quatro zonas (americana, inglesa, francesa e soviética), com uma Comissão de Controle Aliado estabelecida em Berlim. A própria capital seria igualmente dividida em quatro setores entregues à supervisão dos quatro Aliados.

O objetivo implícito nessa solução era impedir o ressurgimento de uma Alemanha unida e forte, com um governo central efetivo. Mas Berlim, desse modo, ficou incrustada na zona de ocupação soviética, a 160 km de distância do ponto mais próximo da zona americana. Todas as comunicações rodoviárias e ferroviárias entre a porção ocidental da Alemanha e os setores a oeste de Berlim tinham de passar pelo interior da zona soviética, e as comunicações aéreas dependiam de rotas estabelecidas de comum acordo. Isso, na prática, significava que os soviéticos poderiam, se quisessem, isolar Berlim de suas fontes de suprimento ocidentais, das quais dependiam cerca de 6.500 soldados ingleses, americanos e franceses, além de 2,5 milhões de berlinenses que viviam no lado oeste da cidade.

A administração conjunta dos quatro países funcionou razoavelmente bem de 1946 a 1947. Mas, à medida que aumentava o domínio soviético sobre o Leste europeu e que se deterioravam as relações internacionais, Berlim também ficou ameaçada. No início de 1948, enquanto os países do Leste europeu já estavam todos sob governos-satélites da URSS, esta fazia o possível para controlar politicamente sua área de ocupação alemã.

Reunidos em Londres, em 1948, representantes de seis países (EUA, Grã-Bretanha, França, Bélgica, Holanda e Luxemburgo) formularam um programa de ação que previa a união das três zonas ocidentais e a criação de um governo federal na Alemanha. As áreas americana, inglesa e francesa tornaram-se uma unidade econômica e, em junho de 1948, após uma reforma monetária, adotaram o deutschmark (marco alemão) como moeda comum.

O desinteresse dos soviéticos pelo sucesso da administração conjunta ficou evidente quando, em 20 de março de 1948, seu representante na Comissão de Controle Aliado, Marechal VASILY SOKOLOVSKY, atacou a conduta de seus colegas e passou a não considerar o organismo como símbolo da autoridade dos países ocidentais na Alemanha.

Os representantes dos países ocidentais, surpresos com a virulência desse ataque, revidaram à altura. Após uma acalorada discussão, o alto funcionário soviético recolheu seus papéis e retirou-se da reunião. A pressão soviética continuou quando, no dia 1º de abril de 1948, o trem expresso Frankfurt-Berlim, transportando trezentos oficiais e soldados americanos, além de passageiros civis, foi detido na fronteira por oficiais soviéticos que exigiam documentos aos americanos. Estes recusaram-se a acatar as ordens, alegando que não estavam sujeitos ao controle dos soviéticos. Mas, entre autorizar seus subalternos a utilizar armas para forçar a entrada em Berlim e ordenar que contemporizassem, o general LUCIUS CLAY, comandante das tropas americanas na Alemanha, preferiu a segunda opção.

Àquela altura, na verdade, CLAY não tinha escolha, pois não poderia provocar um conflito aberto sem o aval de seu governo, e Washington era firmemente contra qualquer provocação. O general OMAR BRADLEY, do alto-comando americano, declarou que o Pentágono tinha sérias dúvidas ‘a respeito da disposição do povo americano em iniciar uma guerra com o objetivo de manter nossa posição em Berlim’. Mas CLAY, achando que os EUA não deveriam recuar diante do comunismo, sustentava uma opinião diferente: ‘Se nos retirarmos de Berlim, então depois de Berlim virá a Alemanha’, declarou na ocasião. Em maio e junho, os soviéticos continuaram a perturbar os canais de comunicação ocidentais em Berlim. Ao implantar, no dia 20 de junho, a reforma monetária no setor que controlava, SOKOLOVSKY declarou que a cidade já havia sido ‘integrada economicamente à zona soviética’. O general CLAY por sua vez, replicou: ‘Rejeito totalmente a reivindicação da cidade de Berlim pelos soviéticos’.

Ia ficando claro o plano de provocar a submissão de Berlim e dos berlinenses por meio do corte de suprimentos. E, pouco antes da meia- noite do dia 23 de junho de 1948, a agência de notícias ADN, controlada pelos soviéticos, emitiu este breve e funesto comunicado: ‘A Divisão de Transportes da Administração Militar Soviética vê-se forçada a interromper todo o tráfego de passageiros e de carga de e para Berlim a partir das 6 horas de amanhã, devido a problemas técnicos’. No dia seguinte, as comunicações rodoviárias e ferroviárias com Berlim Ocidental foram bloqueadas e suspendeu-se o fornecimento de carvão e energia elétrica procedentes da zona soviética.” (O Bloqueio de Berlim; Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, ps. 121-123)

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Foi uma arriscada aposta e um teste derradeiro em relação à determinação norte- americana (e ocidental, de modo geral) de, utilizando a sua ampla superioridade militar, especialmente o monopólio bélico-nuclear, restabelecer as ligações terrestres pelas forças das armas, uma vez que a maioria dos militares americanos, – e, particularmente, o general LUCIUS CLAY, comandante das tropas americanas na Alemanha –, acreditavam que se tratava de um “blefe soviético”, considerando que STALIN ainda não se encontrava com musculatura militar e econômica suficiente para um confronto armado de grandes proporções na Europa.

“A reação imediata do general CLAY ao bloqueio de Berlim foi a ameaça de um confronto armado. Naquela noite, declarou a jornalistas na base aérea de Tempelhof: ‘Os soviéticos estão fazendo a pressão final. Mas não conseguirão que nos retiremos sem entrar em guerra’.

Seu plano inicial era abrir uma brecha nas barreiras soviéticas pelo uso da força. Foram tomadas providências para mandar um comboio de duzentos caminhões para a rodovia expressa Helmstedt-Berlim, acompanhado de poderosa escolta militar e de todo o equipamento de engenharia necessário para o conserto de pontes e estradas eventualmente danificadas.

A intenção de CLAY era desmascarar os soviéticos, pois havia a suposição, partilhada por muitos de seus assessores, de que STALIN não estava disposto a desencadear uma guerra por causa de Berlim.” (O Bloqueio de Berlim; Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, ps. 123-124)

Todavia, o comandante inglês, general BRIAN ROBERTSON, não compartilhava da mesma opinião dos militares estadunidenses, e, acreditando que uma reação armada das forças ocidentais conduziria inevitavelmente à guerra, sugeriu, como alternativa, que se utilizasse da ampla superioridade aérea anglo-americana na região para suprir Berlim por via aérea, o que foi executado brilhantemente pelo general CURTIS LEMAY.

“O comandante militar inglês, general BRIAN ROBERTSON, opunha-se ao plano de reação militar sob a alegação de que ele levaria, inevitavelmente, a um conflito armado. Como alternativa, propôs que se enviassem suprimentos por via aérea.

Incrédulo a princípio, o chefe americano convenceu-se de que a proposta era não só exequível como necessária. No dia 25 de junho, convocou o prefeito eleito de Berlim, ERNST REUTER, a seu escritório, e disse-lhe: ‘Talvez eu seja o homem mais louco do mundo, mas o fato é que decidi tentar abastecer esta cidade por via aérea’. Foi uma atitude que demonstrou a determinação ocidental de conter a expansão soviética na Europa, representando uma confrontação direta com STALIN.

A tarefa, descomunal, desafiava ingleses e americanos. Para manter Berlim abastecida e alimentar seus 2,5 milhões de habitantes eram necessárias cerca de 4.500 toneladas de alimento por dia, e a Força Aérea americana só podia dispor, naquele momento, de 102 aviões bimotores Douglas C-47 Dakota, cada um com capacidade de carga de apenas 2.700 kg. Os problemas técnicos implícitos no projeto eram imensos: os aviões requeriam assistência técnica permanente e abastecimento, as pistas de pouso tinham de ser aumentadas e o controle do voo, organizado.

A ponte aérea começou a funcionar no dia 26 de junho de 1948, quando os C-47 do 61º Grupo de Transporte efetuaram 32 voos da base aérea de Wiesbaden ao aeroporto de Tempelhof, no setor americano de Berlim, levando um total de 80 toneladas de leite, farinha e medicamentos. Era um bom começo, ainda que modesto.

Na manhã do dia 30, chegaram a Wiesbaden aviões de carga Douglas C-54 Skymaster, procedentes do Alasca, Havaí e Caribe. No mesmo dia, realizaram a primeira viagem a Berlim. No início de julho, a Real Força Aérea trouxe duas esquadrilhas de hidroaviões Sunderland, baseados próximo a Hamburgo. Em meados de julho, uma nova pista de decolagem começava a ser construída em Tempelhof, enquanto os ingleses acabavam de completar uma pista de 1.800 m de comprimento em Gatow, dentro de seu setor. Os americanos possuíam na ocasião 54 aviões C-54 e 105 aviões C-47, enquanto os ingleses contavam com 40 aviões York e 50 aviões C-47. No final do mês, essa frota transportava mais de 2.000 toneladas diárias a Berlim. Para cargas de combustível líquido, os ingleses usavam três aviões Lancaster adaptados.

A tonelagem transportada aumentava dia após dia. Em meados de agosto, americanos e ingleses excediam, pela primeira vez, as 4.500 toneladas estimadas para a sobrevivência da cidade. No final de agosto, o volume transportado ultrapassava a marca de 100.000 toneladas. Enquanto isso, começava-se a construção de novas pistas em Tegel e Celle, que eram os aeroportos dos setores francês e inglês de Berlim, respectivamente.

Como o inverno se aproximava, os americanos instalaram equipamento de radar, para possibilitar aterrissagens por meio de instrumentos, em caso de mau tempo. No final de novembro, já haviam sido efetuadas 1.316 dessas aterrissagens, só em Gatow. No final do ano, a ponte aérea tinha transportado mais de 700.000 toneladas de suprimentos em pouco mais de 100.000 voos.

Nos primeiros meses de 1949, foram batidos sucessivos recordes de assistência técnica, carga e número de voos. O 61º Esquadrão de Manutenção da Força Aérea americana, sediado em Rhein-Main, anunciou uma façanha em matéria de recondicionamento de motores: 154, apenas no mês de março.

No dia 7 de abril, a torre de comando em Tempelhof liberava um avião a cada quatro minutos, durante seis horas e meia de trabalho ininterrupto. Um avião C-54 vindo de Fassberg completou a viagem de ida e volta a Berlim em apenas 1 hora e 57 minutos.

Em 22 de abril, as entregas feitas por via aérea equivaliam ao que os berlinenses recebiam normalmente por ferrovia antes do início do bloqueio. Durante aquele mês, um total recorde de 232.263 toneladas foi transportado a Berlim, numa média de 7.845 toneladas diárias.” (O Bloqueio de Berlim; Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, ps. 124-125)

Da mesma forma equivocada como foi retratada a chamada Crise dos Mísseis de Cuba 14 anos depois, – como uma pretensa vitória norte-americana –, o evento do bloqueio de Berlim, apesar do inconteste êxito da operação aérea, representou uma relativa derrota ocidental, demonstrando aos soviéticos que era possível a retomada de seus planos expansionistas, incentivando o apoio na Manchúria a MAO TSÉ-TUNG, com a criação da República Popular da China em 1º de outubro de 1949, apenas alguns meses após o acordo celebrado no dia 4 de maio para reabertura das vias terrestres e o fim do bloqueio a Berlim.

Destarte, mais do que qualquer outro episódio, – e sem qualquer sombra de dúvida –, foi o bloqueio de Berlim a primeira (e verdadeira) tentativa de Moscou para se libertar das amarras que (de acordo com seu ponto de vista) limitavam sua atuação ofensiva, em prol do expansionismo soviético e, em particular, de seu grande projeto de implantação do comunismo em todo o mundo (iniciado com a vitória da revolução bolchevique em 1922 e, sobretudo, com a consolidação da mesma no final da década de 1920), interrompido, todavia, com a ascensão dos movimentos nazifascistas na Europa e, particularmente, com a invasão alemã à URSS – Operação Barbarossa, em 22 de junho de 1941.

“Tornara-se evidente, desde janeiro de 1949, que os soviéticos começavam a reconhecer que o bloqueio de Berlim não surtiria o efeito desejado. Embora recorressem a diversos expedientes para molestar os pilotos ingleses e americanos em sua difícil tarefa, não chegaram a derrubar nenhum avião. Houve muitos casos de perseguição em voo, interferência nas comunicações radiofônicas e até disparos, porém nenhum dos acidentes com colisões de aeronaves ocorridos durante a ponte aérea foram atribuídos diretamente à intervenção da URSS.

Os soviéticos não estavam buscando um confronto efetivo com seus ex-aliados e, no dia 21 de março de 1949, o representante soviético na ONU deu a entender que o bloqueio poderia ser suspenso em breve. No dia 4 de maio, os quatro países chegaram a um acordo. Oito dias depois, reabriam-se as ferrovias e rodovias para Berlim, mas a ponte aérea continuou a funcionar até o dia 30 de setembro, para possibilitar a ampliação de estoques na cidade.

No balanço final, a ponte aérea tinha envolvido 692 aviões (441 americanos e 251 ingleses, dos quais 104 eram aeronaves civis), efetuado 227.804 voos e transportado 2.325.000 toneladas de alimento e carvão. Inicialmente certos de que americanos e ingleses não se empenhariam a fundo em permanecer em Berlim, STALIN e seus assessores não imaginariam que os países ocidentais optariam por furar o bloqueio pelo ar, onde tinham supremacia. Além disso, os EUA possuíam grandes estoques de todos os gêneros necessários à manutenção de Berlim.

Realista como era, STALIN reconheceu que a aquela batalha não poderia ser ganha naquele momento. Ante a perspectiva de um conflito armado, acabou recuando.” (O Bloqueio de Berlim; Guerra na Paz, Orbis Publishing Co., 1984, p. 125)

Vale pontuar que STALIN sempre foi um brilhante estrategista, porém muito cauteloso em suas ações. Quando lhe pareceu que uma linha contensiva encontrava-se (efetivamente) estabelecida na Europa em 4 de abril de 1949, com a criação da OTAN, seus olhares voltaram-se para oportunidades na Ásia, ocasião em que incentivou seu mais novo aliado chinês a se expandir territorialmente, invadindo o Tibete em outubro de 1950 e anexando-o no mesmo mês do ano seguinte (impondo ao seu povo a ideologia comunista), e a Coreia do Norte a invadir a República da Coreia (ou Coreia do Sul, a única entidade reconhecida, à época, pela ONU) em 25 de junho de 1950 e, pouco antes, a tentar invadir o arquipélago de Taiwan, onde estavam os remanescentes das forças nacionalistas chinesas.

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Somente após uma nova contenção norte-americana na região, STALIN habilmente voltou-se novamente para a Europa, isolando as fronteiras da recém criada República Democrática Alemã (7 de outubro de 1949) do restante do território alemão, agora unificado através da República Federal da Alemanha (23 de maio de 1949).

Porém, foi somente com a vitória eleitoral do general DWIGHT EISENHOWER em 1952 que STALIN se viu, todavia, impedido, – uma vez resolvido (provisoriamente) o impasse na Coreia em 27 de julho de 1953 através de um armistício –, de proceder a uma nova abordagem direta sobre Berlim. Assim, optou por erguer sobre a fronteira (demarcada, porém, não fechada fisicamente) da Alemanha Oriental, em novembro de 1953, um autêntico “muro de ferro”, substituindo a metafórica “cortina de ferro”, o que foi empreendido, na prática, por seu sucessor, considerando que STALIN faleceu em 5 de março de 1953.

3. A evolução histórica da República Popular da China

Em 1949, MAO TSÉ-TUNG liderou uma revolução comunista com fulcro no campesinato (distinta, portanto, da soviética, baseada em uma mobilização urbana) que mudou para sempre os rumos de seu país e do mundo. MAO foi líder de um movimento de guerrilha rural que objetivava assumir o governo na China desde 1920. O poder que foi, em grande medida, exercido de 1912 a 1949 pelo partido nacionalista, o Kuomintang, simplesmente ruiu diante do avanço comunista liderado por MAO, mormente após JOSEF STALIN resolver apoiar o movimento, concebendo um “santuário” para as forças comunistas chinesas na Manchúria, e os Estados Unidos resistirem a prover mais apoio a CHIANG KAI-SHEK, que viu suas forças enfraquecidas pela luta (direta) contra a ocupação japonesa (valendo lembrar que MAO poupou seus efetivos, atacando tropas japonesas apenas quando taticamente lhe convinha) e pela crescente corrupção que solapava as lideranças governistas.

“Entre 1927 e 1949, MAO TSÉ-TUNG desenvolveu uma teoria de guerra popular, baseada em sua experiência da luta na China e de sua leitura de antigos autores militares chineses. Ele acreditava que uma guerra revolucionária tinha de começar no campo. Suas forças comunistas sobreviveram entre os camponeses, para usar suas palavras, ‘como peixes no mar’.

Embora mais fracos militarmente que seus inimigos, os revolucionários tinham maior flexibilidade na luta. Negando-se a firmar terreno diante de forças inimigas superiores, os guerrilheiros revolucionários só travavam batalha quando tinham no local uma vantagem suficiente em números e armas para garantir a vitória.

A meta final da guerra maoísta era enfraquecer e desmoralizar progressivamente o inimigo, e, chegada a hora certa, abandonar as atividades guerrilheiras em áreas rurais em prol de uma ofensiva militar convencional, para assumir o controle das cidades e ganhar poder.” (ADRIAN GILBERT; A China Revolucionária, Enciclopédia das Guerras, São Paulo, M. Books, 2005, p. 277)

Com a proclamação da nova República Popular da China, – inaugurando uma nova nação de ideologia comunista –, os membros do Kuomintang fugiram para o exílio na ilha de Taiwan. Uma vez no poder, MAO promoveria, – através da implantação de um regime totalitário (buscando reproduzir o exitoso modelo de “brutalidade” stalinista que conduziu uma subdesenvolvida União Soviética à posição de segunda economia do planeta) –, uma série de profundas mudanças sociopolíticas e também econômicas que conduziram a China a enormes conquistas, mas também a grandes desastres.

A China Imperial havia sido marcada pelas acentuadas diferenças econômicas e sociais entre ricos e pobres: não por outra razão, muitos chineses esperançavam em MAO (e no comunismo) o cumprimento de uma promessa de maior igualdade.

A primeira dessas mudanças ocorreu em 1958, com o lançamento de um ambicioso programa chamado de “O Grande Salto Adiante”. Com este programa, MAO impôs uma profunda e radical reforma agrária por todo o país e tentou acelerar ao máximo a industrialização chinesa, – repetindo em parte o Holodomor soviético na Ucrânia na década de 1930 –, por meio de um enorme (e equivalente) custo em vidas humanas (atingidas pela fome crônica). Neste período, todos os latifúndios foram expropriados e divididos pelo Estado comunista. Nos campos e nas cidades, milhões de pessoas foram remanejadas à força, tendo como objetivo acelerar o desenvolvimento industrial a qualquer custo. Tal programa aumentou a repressão ao povo chinês, mas não produziu, – a exemplo das primeiras tentativas de expropriação forçada na URSS no início da década de 1920 –, um aumento significativo na produtividade. No fim, a extrema centralização do planejamento chinês gerou miséria em grande escala no país, com dezenas de milhões de mortos.

O regime buscava se fortalecer dentro e fora da China, especialmente quando as divergências ideológicas entre os dois modelos se tornaram mais evidentes com a morte de STALIN e a assunção do reformador NIKITA KHRUSHCHEV (1953-64) ao poder e, ainda com maior intensidade, quando LEONID BREJNEV (1964-82) retomou a estratégia expansionista soviética e começou a marcar uma forte confrontação com os objetivos geopolíticos de Pequim. Em 1964, a China concluiu com sucesso seu primeiro teste de uma bomba atômica, ainda que tal proeza somente tivesse alcançado êxito com um indispensável auxílio técnico de seus então aliados soviéticos durante a década de 1950. Nos anos seguintes, o país colocaria seu primeiro satélite artificial no espaço. Porém, à medida que desenvolvia seus campos tecnológicos e militares, o regime aumentava os expurgos dos considerados traidores. Entre os anos de 1966 e 1976, a denominada “Revolução Cultural” promoveu perseguições e punições contra aqueles que o governo considerava culpados pelo fracasso do “Grande Salto Adiante”.

A exigência de uniformidade, coesão e compromisso era embalada pelos resultados positivos que a China começou a alcançar a partir da década de 1960. A taxa de mortalidade foi fortemente reduzida; com isto, a expectativa de vida, que em 1960 era de 43 anos, passou a ser de 66 anos em 1978, alcançando 76 anos em 2016. Em 1982, o percentual de chineses alfabetizados era de, aproximadamente, 65%; tal índice chegou a mais de 95% em 2010. Como em outros países comunistas da época, a supressão de liberdades, as prisões políticas e a perseguição de dissidentes eram um preço imposto pelo partido em troca da melhoria dos indicadores sociais.

Todavia, nem mesmo o bloco comunista era coeso: apesar das semelhanças na centralização econômica e da aproximação geopolítica, as diferenças entre China e URSS sempre existiram. Nos anos 1950, a China não desejava ser tratada como um satélite soviético, que tinha feito sua revolução comunista anteriormente, em 1917. Além disto, Pequim e Moscou divergiam sobre limites territoriais. Por fim, a China não recebeu o esperado apoio dos soviéticos quando moveu tropas para a Península da Coreia, – em uma decisão pessoal de MAO (sequer partilhada por todos os membros do Politburo chinês) –, uma guerra de alto custo que teve a participação da Organização das Nações Unidas – ONU, através de efetivos de 20 países, liderados pelos EUA, como contraparte. Este conjunto de desavenças, – e questões fronteiriças e de incômodo soviético com a política expansionista chinesa –, ocasionou o conflito sino-soviético em 1969, que viria a marcar a relação entre as duas potências comunistas até o colapso da URSS, no início da década de 1990.

A grande figura do Partido Comunista da China, MAO TSÉ-TUNG, morreu em 1976. Dois anos após sua morte, DENG XIAOPING assumiu, oficialmente, como Secretário-Geral do PCC, dando início a uma série de reformas objetivando a abertura do partido e do país. Vale lembrar que a China possui um regime de partido único, o que significa que nenhum outro grupo político está autorizado a disputar o poder, devendo todas as deliberações políticas ocorrer dentro do PCC. Esta agremiação única é determinante em todas as esferas da vida em sociedade do país e não apenas na gestão de assuntos burocráticos.

Cerca de 88 milhões de chineses fazem parte, atualmente, do Partido Comunista. Esta estrutura onipresente recruta jovens que participarão da gestão do Estado: estes jovens ascendem na carreira de modo igual a um soldado na hierarquia militar. No topo da estrutura partidária está, teoricamente, o Congresso Nacional do Povo, formado por aproximadamente três mil membros. As decisões estratégicas, no entanto, são tomadas por instâncias bem mais exclusivas: a primeira é o Comitê Central do Partido Comunista, formado por 350 membros; a segunda trata-se do Politburo, formado por 25 membros; por fim estão os sete membros do Comitê Permanente do Politburo; o cargo de Secretário Geral é a figura mais importante na China, exercendo funções presidencialistas.

Desse modo, quando DENG XIAOPING foi aclamado, formalmente, Secretário-Geral em 1978, deu-se início a um período de aceleradas transformações políticas e econômicas. A principal mudança introduzida foi a migração da economia chinesa de um modelo de planificação centralizada (com ênfase na participação do Estado na economia) para um capitalismo de Estado (com ênfase na intervenção do Estado na economia). Neste modelo, o Estado continua exercendo um grande controle sobre a economia em relação às metas de longo prazo e de visão estratégica, gerindo os investimentos e a produção, porém admite que certos setores da economia sejam explorados por entes privados. Tal processo de abertura relativa marcou os anos de 1980 e 1990 na China. O PIB do país, que havia crescido 5,1% em 1981, passou a crescer em patamares triplicados, atingindo 15,1% em 1984.

Para aumentar sua produção, a China deliberadamente passou a violar direitos trabalhistas, a propriedade intelectual e os direitos humanos, além de ignorar problemas afetos ao meio ambiente.

Em 1989, milhares de chineses, em sua grande maioria estudantes, realizaram uma série de protestos por todo o país, especialmente na capital Pequim, e, apesar de toda a repressão, saíram clamando por democracia. Logo, militares e carros de combate foram enviados para reprimir as manifestações. As estatísticas sobre o número de mortos nesse episódio variam entre centenas e milhares, posto que o caráter fechado do regime chinês torna impossível descobrir o saldo do que ficou conhecido como o “Massacre da Praça da Paz Celestial”. Embora possa parecer paradoxal, a opção do presidente GEORGE BUSH (1989-93) foi a de evitar qualquer interferência (e, portanto, apoio ao movimento por democracia na China), preferindo se concentrar na queda do regime soviético (o que, de fato, ocorreu em 1991).

O início da década de 1990 foi marcado pelo aprofundamento das reformas econômicas e de manutenção do crescimento com baixa inflação: em 1992, o PIB chinês cresceu 14,2%. No fim deste período, já em 2001, o país, com irônico aval norte-americano, ingressou na Organização Mundial do Comércio – OMC, passando, posteriormente, a se utilizar desta instituição para, ao arrepio dos objetivos da mesma, proteger os seus interesses comerciais. Em 2008, sediou os jogos olímpicos, recebendo em Pequim quase 12 mil atletas de mais de 200 países, transmitindo ao mundo sua infraestrutura e demonstrando sua extraordinária capacidade de organização. No final dos anos 2000, a economia passou por uma mudança em sua trajetória ascendente. No final de 2008, a demanda internacional por produtos chineses começou a desacelerar; deste modo, o ritmo de crescimento caiu de 14,2% ao ano em 2007 para 9,7% em 2008. A partir de 2010, o PIB da China começou a crescer com taxas cada vez mais baixas, ficando abaixo do patamar de 10% desde então. Paralelamente, o governo passou a estimular o mercado interno: através da melhoria dos salários, buscou dar mais poder de compra aos trabalhadores do país.

Em 2012, XI JINPING tornou-se Secretário Geral do Parido Comunista. Já em 2013, assumiu o posto que equivale ao de presidente da China, depois de ter galgado os maiores postos das estruturas do Partido Comunista. O novo líder trouxe consigo uma importante mudança geracional: ele foi o primeiro dos Chefes de Estado chineses nascidos depois da revolução liderada por MAO TSÉ-TUNG em 1949. O período de XI JINPING vem sendo marcado pela consolidação do poder chinês em nível global. A China retomou antigas reivindicações territoriais, paralisadas pelo poderio militar soviético no início da década de 1970. O líder chinês também criou o ambicioso programa da “Nova Rota da Seda”, o qual pretende ligar o mundo por meio de novos portos, aeroportos e estradas construídas pela China ou por empresas chinesas.

O país avançou sobre novos mercados, não apenas na Ásia e na África, mas também na América Latina, interferindo diretamente com interesses estadunidenses e de outros atores da região. A rivalidade com os EUA se tornou ainda mais aguda a partir da eleição de DONALD TRUMP como presidente dos EUA, em 2016. As projeções estimam que China pode ultrapassar os EUA como maior economia mundial até 2050. Toda esta rivalidade entre Pequim e Washington fez com que TRUMP iniciasse uma guerra comercial contra os chineses. O presidente americano começou, paulatinamente, a impor taxações sobre as importações chinesas e a China, em contrapartida, também vem impondo restrições à produção estadunidense.

Ao ocupar cada vez mais espaço, a China provoca cada vez mais reações. A mudança na ordem mundial, – hoje dominada pela preponderância dos interesses norte-americanos –, trará consigo um rearranjo de forças, e é neste processo que os chineses buscam exercer o papel expansivo e poderoso que o país, segundo a narrativa oficial, já deteve historicamente.

DIAGRAMA 4: taxa de mortalidade chinesa, 1960-2017 (a cada mil homens adultos).
DIAGRAMA 5: expectativa de vida, 1960-2017 (no momento do nascimento).
DIAGRAMA 6: taxa de alfabetização, 1980-2017 (em porcentagem da população acima de 15 anos).

DIAGRAMA 7: crescimento percentual do PIB da China, 1960-2017.

4. As relações Sino-Soviéticas

As relações sino-soviéticas jamais foram uniformemente amigáveis e convergentes: em essência, a verdade factual é que o projeto expansionista stalinista (de dominância global comunista) jamais considerou, em seu planejamento estratégico, uma aliança formal com a China. Muito pelo contrário, JOSEF STALIN não acreditava, inicialmente, na possibilidade de vitória de MAO TSÉ-TUNG (e na própria versão chinesa de um “levante rural” exitoso, apostando, ao reverso, que somente o proletariado urbano, mais esclarecido, poderia conduzir a uma autêntica revolução).

E, de fato, em 1934, os efetivos que se constituíam na força guerrilheira liderada por MAO tiveram de fugir de Jiangxi para escapar de uma iminente derrota pelo poderoso (e organizado) exército de CHIANG KAI-SHEK, – no episódio que ficou historicamente conhecido como a “Longa Marcha” –, e se refugiar na remota província de Shaanxi, onde estabeleceram uma base, em 1935, logrando conquistar o apoio local dos camponeses. Ainda assim, foi a invasão japonesa em 1937, – mais do que qualquer outro fator –, que salvou as forças comunistas de seu extermínio, com CHIANG sendo obrigado a declarar uma trégua, – após pressão de seus principais comandados e, sobretudo, ter sido sequestrado pelo Marechal ZHANG XUELIANG –, através do que ficou registrado como “Front Unido Antijaponês” (ou “Segunda Frente Unida”), permitindo, ainda, que MAO explorasse, em seu favor, o fato de o Japão ter logrado conquistar a maior parte do norte e do leste da China, em desfavor das forças nacionalistas (governamentais), angariando grande simpatia popular contra a liderança do Kuomintang.

Com a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial e a consequente expulsão das forças nipônicas de ocupação, um enfraquecido (e, em parte, desmoralizado) exército nacionalista teve de voltar a lutar contra uma guerrilha que teve oito longos anos para se reorganizar.

Apesar da superioridade bélica das forças nacionalistas (e de um razoável, – porém, limitado –, apoio estadunidense), soldados de baixa patente não tinham qualquer incentivo para lutar, aumentando a deserção, ao mesmo tempo em que escândalos de corrupção governamental tornavam-se mais comuns e eram muito bem explorados pelas forças do Exército de Libertação Popular (ELP), como passaram a ser conhecidas a partir de 1946.

“O ponto central do protagonismo de MAO TSÉ-TUNG deveu-se, sobretudo, à incapacidade das lideranças e intelectuais comunistas chineses, – alinhados ao Partido Comunista da União Soviética –, de obter a adesão dos operários, particularmente após CHIANG KAI-SHEK ser empossado presidente de um governo central com sede em Nanquim em 1928. Nesta ocasião, CHIANG iniciou uma ampla repressão aos comunistas, logo depois de assumir a liderança do Kuomintang após a morte de SUN YAT-SEN (ocorrida em 1925). Com os expurgos realizados em 1927, praticamente foi eliminada a ‘subversão’ nas cidades e expulsa as forças adversárias remanescentes para as montanhas Jinggang (localizadas entre as províncias de Jiangxi e Hunan), o que, entretanto, acabou por incentivar o estabelecimento de bases territoriais no sul da China, viabilizando, em 1931, a proclamação de uma república comunista com capital em Ruijin (província de Jiangxi), baseada em uma nova teoria de organização de camponeses, que logrou recrutar cerca de 90.000 efetivos. Estes foram, entretanto, logo atacados pelo exército nacionalista, obrigando-os a fugir para o norte, percorrendo uma distância de aproximadamente 9.500 km (a famosa ‘Longa Marcha’) em que apenas 25.000 efetivos sobreviveram, permitindo que se estabelecessem, finalmente, em 1935, na província de Shaanxi. A relutância de diversos líderes militares nacionalistas em proceder a um novo ataque (definitivo) e aniquilador contra as forças guerrilheiras remanescentes, em decorrência da iminência de uma invasão japonesa, – permitindo conceber uma aliança (frente unida) entre o Kuomintang e os comunistas –, foi o grande equívoco que permitiu a sobrevivência (e a posterior reorganização) das forças lideradas por MAO TSÉ-TUNG.” (REIS FRIEDE; Fragmentos da Palestra “Guerra Assimétrica Reversa e Desafios para o Século XXI”, Proferida na Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica – ECEMAR em 21/03/2018)

Mesmo assim, STALIN, – mais envolvido com a consolidação de suas conquistas na Europa Oriental e com a chamada “Questão de Berlim” e, ainda, com divergências em relação ao futuro da Alemanha –, preferiu optar, em um primeiro momento, por apoiar as forças nacionalistas de CHIANG, que sinalizava estar disposto a fazer grandes concessões à URSS, inclusive a devolução de Port Arthur (incorporada à China em decorrência de sua vitória na guerra sino-russa de 1904-5).

Os avanços do recém-criado Exército Vermelho Chinês, – que passou a empregar camponeses que tiveram oito anos de trégua para se preparar e que haviam capturado grandes quantidades de armas e equipamentos militares japoneses –, também contaram com um imprescindível apoio das forças soviéticas ocupantes da Manchúria, o principal centro industrial da China (e anteriormente um “Estado Fantoche” japonês chamado “Manchukuo”). Porém, o Kuomintang conseguiu, com apoio logístico estadunidense, recuperar as principais cidades da região, mas foi incapaz de expulsar (e destruir) as forças de MAO.

“A ocupação japonesa da China no contexto da Segunda Guerra Mundial não foi mais que uma pausa, nem sempre desaproveitada, na estratégia da longa marcha, que MAO TSÉ-TUNG, à frente de um movimento de ampla base camponesa, iniciara em 1927 e que levaria ao estabelecimento do socialismo no antigo império. Os comunistas de MAO e os nacionalistas de CHIANG KAI-SHEK haviam estabelecido uma trégua para fazer frente à ocupação. Terminava a guerra mundial com a rendição do Japão, quando os chineses reatavam a sua guerra civil. O general MARSHALL, que se encontrava como embaixador norte-americano em Pequim, pode ver a maquinaria e o armamento que chegavam dos Estados Unidos e que ficavam enferrujando nos portos nacionalistas. Não ignorava que o governo de CHIANG KAI-SHEK estava desmoralizado com a derrota frente ao Japão, minado pela corrupção e que os velhos caciques vendiam ao povo os alimentos que América enviava gratuitamente. Durante a guerra, o dólar atingira valores três vezes superiores nas províncias dominadas pelos comunistas que nas que se encontravam sob controle do exército nacionalista. Divisões inteiras de CHIANG KAI-SHEK passavam-se com seu armamento para o exército de MAO. MARSHALL passou então a advogar a (controvertida) tese de que sem os comunistas seria impossível governar a China. Em 10 de janeiro de 1946, em Nanquim, conseguiu reunir CHIANG KAI-SHEK com MAO TSÉ-TUNG e ZHOU ENLAI. Pretendia conseguir dos três o compromisso de um governo de coligação. Mas as posições eram irreconciliáveis. Apenas conseguiria uma trégua, que nenhum dos lados respeitou.

Depois da batalha de Huau Hai, na qual durante três meses (outubro de 1948 a janeiro de 1949) se enfrentaram 600.000 homens de cada lado, o avanço comunista era já incontível. Pequim caiu nesse mesmo mês de janeiro, iniciando-se então a grande ofensiva na direção da margem do Yang-tsé, cujo atravessamento permitiria o domínio dos comunistas sobre todo o território. CHIANG KAI-SHEK, com os restos do seu exército, refugiou-se na ilha de Taiwan. A grande ficção das duas Chinas tem aí o seu início, uma instalada numa ilha que os japoneses ocuparam durante 40 anos, com apenas três milhões de chineses que seguiram o exército derrotado, a qual figurará como membro permanente do Conselho de Segurança; outra, com mais de 600 milhões de habitantes, proscrita da comunidade das nações e ignorada. Em 1º de outubro de 1949, na praça Tiananmen de Pequim, MAO proclamou a República Popular.

Colocados já na zona dos canhões norte-americanos, MAO vincula-se à URSS através de um pacto de amizade, aliança e ajuda mútua (1950).

Em 1954, a URSS passou a auxiliar a República Popular Chinesa a fabricar a sua bomba atômica e os técnicos soviéticos passaram a ser numerosos em Pequim, onde se adotavam formas suaves e antidogmáticas. ‘Nós dizemos aos escritores e aos artistas: deixai que desabrochem cem flores. Aos cientistas dizemos: deixai que cem escolas compitam entre si’, proclamou MAO.

A China, com vocação para se alinhar com o Terceiro Mundo, acolheu mal as críticas feitas por STALIN e, posteriormente, KHRUSHCHEV, pelo que tinham de mau exemplo para países que observavam com interesse a experiência socialista; assim, começa a distanciar-se da URSS à medida que esta avança em direção da coexistência. Não importava, aos dirigentes de Pequim, que pudessem morrer no conflito alguns milhões de chineses. Com o decorrer do tempo, ‘serão os outros que terão mais o que perder’, afirmou MAO. Quando a China organizou suas comunas populares, em abril de 1958, KHRUSHCHEV falou com ironia do ‘atalho chinês em direção do comunismo’. Partindo de estruturas agrárias, ‘o caminho chinês é difícil e penoso’, afirmou KHRUSHCHEV. Enquanto KHRUSHCHEV sonhava em competir com os Estados Unidos em metas de bem-estar e começar a prometer vantagens materiais, os chineses exigiam esforço e voluntariado. Em 1957, ao ser decretado o grande salto para a frente, iniciaram a fabricação de aço em altos fornos caseiros e rudimentares, instalados nos jardins de residências. Em 1960, a URSS retirava seus técnicos da República Popular Chinesa, e 179 projetos industriais seriam abandonados.” (JOSÉ PERNAU; História Mundial desde 1939, Rio de Janeiro, Salvat Editora do Brasil, S.A., 1979, ps. 101-105)

O impasse fez com que a extrema habilidade política de STALIN percebesse que uma vitória total de CHIANG (sobre todo o território chinês) não era mais uma possibilidade realista, o que fez com que passasse a apoiar as forças de MAO, defendendo (cautelosamente, em função do receio de uma intervenção direta dos EUA) a divisão da China em dois Estados, a exemplo do que sucedera com a Alemanha.

STALIN não poderia, – mesmo após o Exército de Libertação Popular (ELP) obter, em 1948, o pleno controle da Manchúria e, posteriormente, rumando para o Sul, infligir uma surpreendente derrota às forças nacionalistas (em outubro do mesmo ano) ao redor de Jinxian, na qual CHIANG sofreu 500 mil baixas (entre mortos, feridos e soldados capturados) –, imaginar que HARRY TRUMAN simplesmente fosse “abandonar” a China (na época um presumível aliado estratégico), que, inclusive, havia sido, – por decisão dos próprios norte-americanos –, alçado à especial qualidade de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, com poder de veto, razão pela qual sempre evitou proceder no sentido de prover um completo (e ostensivo) apoio militar a MAO TSÉ-TUNG.

Portanto, não foi somente STALIN, mas os próprios líderes políticos estadunidenses que foram surpreendidos com a decisão de TRUMAN de negar um auxílio econômico massivo a CHIANG (lembrando que com a derrota na rica região da Manchúria, a economia chinesa entrou em colapso, impedindo até mesmo o regular pagamento dos soldados nacionalistas, retirando sua principal razão para continuar a lutar) e de sequer cogitar o envio de tropas e equipamentos, como, posteriormente, foi compelido a fazer no episódio coreano, um ano depois do colapso do governo nacionalista na China.

“Em meados de 1948, HARRY TRUMAN ainda não era completamente hostil a MAO TSÉ-TUNG, considerando que não vislumbrava uma provável aliança comunista na Ásia e muito menos a natureza internacional (e expansionista) do regime totalitário que o líder chinês desejava impor. Ao contrário, desconfiava (paradoxalmente) das tendências antidemocráticas de CHIANG e das notícias sobre corrupção em seu governo. Sua decisão de abandonar o Kuomintang foi, portanto, muito mais emocional do que propriamente racional.” (REIS FRIEDE; Fragmentos da Palestra “Guerra Assimétrica Reversa e Desafios para o Século XXI”, Proferida na Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica – ECEMAR em 21/03/2018)

TRUMAN jamais foi “perdoado” por esse grande erro estratégico e, mais ainda, quando, – seguindo orientações de seu Secretário de Defesa, general GEORGE MARSHALL (1950-51), e do primeiro-ministro britânico CLEMENT ATTLEE (1945-51) –, impediu o general DOUGLAS MACARTHUR de executar seus planos de bombardear as bases comunistas no sul da China e reintroduzir 600.000 efetivos nacionalistas no território chinês, durante o conflito coreano em 1951, destituindo o mesmo de seu comando em maio do mesmo ano, consolidando, em definitivo, a República Popular da China, que, com o passar do tempo, tornou-se a maior ameaça à segurança nacional norte-americana e à estabilidade mundial, após a fragmentação da União Soviética em 1991. TRUMAN encerrou sua carreira política em 1952, – detendo até hoje o menor índice de popularidade (e, consequentemente, o de maior rejeição popular) de toda a história norte-americana (22%) –, permitindo o retorno do Partido Republicano ao poder nos EUA, com o general DWIGHT EISENHOWER (1953-61).

5. O reconhecimento francês da China Continental em 1964

Em 1958 ocorreu o estabelecimento da Quinta República na França, tendo o general CHARLES DE GAULLE sido eleito presidente do país em dezembro daquele mesmo ano. DE GAULLE perseguia uma política externa independente, atribuindo uma maior importância ao fortalecimento das relações com a China. Autorizado pelo general, o ex-primeiro-ministro francês EDGAR FAURE viajou ao país asiático em outubro de 1963 levando consigo uma carta escrita à mão por DE GAULLE informando que ele, em nome do presidente, discutiria as relações sino-francesas com os líderes chineses.

Durante a visita, FAURE disse que a França estava pronta para reconhecer a República Popular da China e o fato de haver apenas uma China, mas esperava que o governo chinês não insistisse que o país europeu tomasse a iniciativa de romper suas relações diplomáticas com Taiwan primeiro. Depois que a China e a França chegaram a um acordo tácito sobre o governo francês reconhecer o governo da República Popular da China como o único governo legal do país asiático, a China aceitou a proposta francesa, anunciando o estabelecimento de relações diplomáticas sino-francesas primeiro e levando assim à ruptura das relações diplomáticas entre a França e Taiwan. Posteriormente, por meio de negociações na Suíça sobre questões específicas relativas ao estabelecimento de relações diplomáticas, a China e a França finalmente emitiram um comunicado conjunto em 27 de janeiro de 1964, anunciando o estabelecimento de suas relações diplomáticas com embaixadores que seriam nomeados dentro de três meses. Em conformidade com o acordo prévio entre as duas partes, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China foi autorizado a emitir uma declaração em 28 de janeiro sobre o estabelecimento das relações diplomáticas na qual destacou: “estava na qualidade de único governo legal representando todo o Povo Chinês que o Governo da República Popular da China encetou negociações e chegou a acordo com o Governo da República Francesa sobre o estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países. Segundo a prática internacional, o reconhecimento do novo governo de um país implica naturalmente deixar de reconhecer a um antigo grupo governante derrubado pelo povo do país”. Em virtude do ocorrido, as autoridades de Taiwan retiraram sua Embaixada na França e, em um segundo momento, a Charge de Affaires ad interim da Embaixada da China na França chegou a Paris. Desta feita, a França tornou-se a primeira potência ocidental a estabelecer relações diplomáticas formais com a República Popular da China, o que foi visto como um grande avanço nos esforços do país asiático para fortalecer suas relações com a Europa Ocidental e também como um pesado golpe para a política dos Estados Unidos à época de isolar a nação comunista.

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Breve introdução à história da China: Da formação da civilização chinesa ao século XXI

  • Carlos Pinent (Autor)
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Mais recentemente, as relações entre os dois países foram elevadas ao nível de “parceria estratégica global” em 2004, buscando fortalecer o diálogo em áreas como governança econômica mundial, mudanças climáticas e crises regionais. Nos últimos anos, mais assuntos têm sido discutidos, como os intercâmbios acadêmicos, científicos e culturais e a promoção dos direitos das mulheres e da igualdade de gênero.

6. A evolução geopolítica da China

A China está situada na parte leste da Eurásia, entre a Rússia, o Sudeste Asiático Continental, o Subcontinente Indiano e a Ásia Central. Possui uma costa de mais de 14.500 quilômetros que se estende pelo Mar Amarelo, Mar do Leste da China e Mar do Sul da China. É um país com profundas divisões geográficas, sendo a principal delas a fértil planície do leste e os planaltos áridos que a cercam. A principal parte da geografia humana chinesa consiste no núcleo étnico HAN, o qual engloba mais de um bilhão de pessoas. Assim, a estrutura fundamental da geopolítica chinesa é consolidada ao redor da várzea dos Rios Amarelo, Yang-tsé (Azul) e das Pérolas, onde estão algumas das melhores terras aráveis do planeta.

Como tradicionalmente as ameaças ao núcleo HAN advinham das regiões fronteiriças ao norte, a partir da Mongólia, Manchúria e da Ásia Central, os governantes chineses sucessivamente desenvolveram estratégias para integrar os planaltos como zonas-tampão para servirem de pontos de defesa estratégicos, que formam um escudo geopolítico ao redor do núcleo HAN. Para isto, os imperadores chineses, bem como as lideranças pós-dinásticas, sempre tiveram que superar as profundas divisões internas para manter um mínimo de unidade política, organizada o suficiente, para controlar essas zonas-tampão e manter o núcleo HAN protegido.

Tal tarefa demonstrou, contudo, ser demasiadamente difícil, uma vez que cada região interna da China possui sua própria cultura e interesses muitas vezes de difícil conciliação. Assim, a história chinesa é dividida em ciclos de fragmentação e unidade, conseguindo manter a identidade política muito mais em virtude de aspectos culturais do que através do uso da força. Outro fator que pode ser destacado é o fato de que historicamente a China se divide em períodos de contração e expansão, em uma espécie de relação “espasmódica” com seus vizinhos.

Tendo historicamente que se preocupar apenas com ameaças terrestres, a China foi surpreendida a partir do século XVI, com a chegada dos europeus, que passaram a ameaçar sua hegemonia marítima regional, alterando para sempre a preocupação e o planejamento dos geoestrategistas chineses. O ápice desta ameaça deu-se durante as chamadas Guerras do Ópio, travadas, principalmente, entre China e Reino Unido, com a primeira ocorrendo em 1839 e a segunda em 1856, quando o Império Britânico, saindo-se vitorioso, conseguiu obter partes do Império da China, além de legalizar o comércio do ópio. As consequências advindas da liberação do ópio foram impactantes: em virtude do consumo, o número de trabalhadores e mão de obra chinesa despencou, aumentando drasticamente a pobreza e a fome, bem como, por consequência, a criminalidade e a corrupção.

Com a liberação do ópio, a China, que era uma nação próspera, em 80 anos atingiu níveis de pobreza iguais aos de países contemporâneos da África, assolados por guerras civis e fome. O resultado do desgaste interno custou a existência do império chinês, levando à queda da dinastia QING e à tentativa de estabelecer uma república. Contudo, com o país assolado pela violência e corrupção, sem nenhuma autoridade central forte o suficiente para manter a coesão política, a China ingressou em uma guerra civil.

Travada pelos comunistas, liderados por MAO TSÉ-TUNG, e os nacionalistas, liderados por CHIANG KAI SHEK, essa guerra civil teve uma breve pausa no fim de 1936, com a invasão japonesa e o início da Segunda Guerra Mundial; entretanto, com o fim desta, o conflito recomeçou. Este cenário persistiu até o ano de 1949, no qual os comunistas lograram-se vitoriosos, expulsando os nacionalistas da parcela continental do território chinês. Nos anos seguintes, a China procurou projetar sua influência no exterior, ao mesmo tempo em que a liderança comunista também buscou manter a integridade regional, caçando e erradicando potenciais forças de oposição, na medida em que implementava medidas extraordinárias (algumas, porém, fracassadas) de âmbito econômico.

Mesmo com limitada capacidade de estender seu poderio no exterior, MAO não deixou de se arriscar em diversas aventuras militares que visavam testar a capacidade de resposta e a disposição dos países vizinhos, – notadamente os Estados Unidos –, tendo, em um intervalo de 40 anos, se envolvido em conflitos com o Tibete, a Coreia do Sul, a Índia, o Vietnã e a própria União Soviética, momento que sua ânsia expansionista foi temporariamente suprimida, no fim da década de 1960. Contida, na arena geopolítica, e com sua própria sobrevivência em jogo, a China sinalizou positivamente por uma aproximação com os EUA no início da década de 1970. Tal fato conseguiu reorientar seu planejamento geoestratégico e, – em consonância com os interesses geopolíticos norte-americanos no âmbito da Guerra Fria (1947-91) –, neutralizar, sob sua ótica, as ambições soviéticas na Ásia Central.

A ambição expansionista, contudo, retornou após o fim da Guerra Fria, sobretudo, no final dos anos da década de 1990, conforme os interesses estadunidenses passaram a colidir com a rápida (e silenciosa) ascensão econômica chinesa. Destacam-se como símbolo desta crescente tensão o bombardeio da embaixada chinesa em Belgrado pela força aérea americana, em maio de 1999, e a colisão entre aviões de guerra de ambas potências no Mar do Sul da China, em abril de 2001.

Porém, esse crescente tensionamento foi suspenso, em virtude dos atentados ao World Trade Center, em 2001, uma vez que a Guerra ao Terror e a Guerra do Iraque fez com que os EUA remanejassem (em benefício dos interesses de Pequim) o seu poderio militar para o Oriente Médio, onde permaneceram por mais de duas décadas envolvidos em conflitos geopolíticos regionais. Tal acontecimento propiciou precioso tempo e fôlego para que a China impulsionasse e aperfeiçoasse o desenvolvimento de sua máquina de guerra, possibilitando o crescimento de sua marinha, que passou a projetar poder global. A China, de fato, só viria a sentir alguma pressão norte-americana a partir de 2017, com a chegada de DONALD TRUMP ao poder. Porém, desta vez, Pequim encontrava-se em uma situação muito mais confortável do que a existente em 2001, ostentando a segunda posição entre as maiores economias do mundo e a terceira força militar do planeta, superando, inclusive, a soma combinada do poderio militar francês e britânico. Atualmente, o país não detém apenas uma poderosa marinha de guerra, mas também se projeta fortemente para o espaço sideral, disputando de forma acirrada com os EUA a liderança em projetos de inteligência artificial.

Com a capacidade de projeção geopolítica chinesa se ampliando, seus desafios também cresceram. O principal, atualmente, trata-se dos diversos pontos de enforcamento espalhados a partir do Oceano Índico até o Oceano Pacífico. Estreitos que, caso bloqueados, poderiam colocar em xeque a capacidade de defesa do Estado chinês, destacando-se o Golfo de Áden, o Estreito de Ormuz e o Estreito de Malaca.

Para isso, o projeto geopolítico chinês tem focado na estabilização e fortificação de relações diplomáticas e econômicas com os países do Sul da Ásia e da Ásia Central, através da intensificação do ambicioso projeto geopolítico conhecido como iniciativa da “Nova Rota da Seda”, com a construção de vastas malhas ferroviárias, gasodutos e oleodutos na Eurásia, com o propósito de, assim, minimizar a sua dependência marítima, simultaneamente à ampliação de seu poderio econômico (e, em parte, militar) sobre os países destas regiões.

Quando a geopolítica chinesa é colocada sob análise, observa-se que o maior empecilho é o fato de que, apesar de possuir uma geografia favorável, ainda possui restrições de países ao redor que (não sem razão) desconfiam de sua ascensão, como o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas, o Vietnã, a Índia e até mesmo a Rússia. Assim, o grande desafio geopolítico da China no século XXI é contornar esse cinturão de nações que, sob seu ponto de vista, dificultam sua ascensão global e sua ambição de se tornar a potência hegemônica até 2050.

7. Colar de Pérolas: a estratégia chinesa para dominar o Mar do Sul da China e a Região do Oceano Índico

A Região do Oceano Índico (ROI) e o Mar do Sul da China (MSC) se constituem em porções geográficas extremamente importantes sob o prisma geopolítico, uma vez que estas são áreas que compreendem, com ênfase na primeira, a via principal de acesso aos países que, na atualidade, são os maiores produtores de petróleo e gás natural do mundo.

“No século XXI, já não se lutará só sobre o mar, mas também pelo mar.” (HAROLD J. KEARSLEY; Maritime Power and the Twenty-First Century, Aldershot, Dartmouth Publishing Company, 1992)

Nesse contexto, tanto o Mar do Sul da China (local de passagem de 30% do tráfego marítimo internacional e onde se encontram grandes e potencialmente exploráveis reservas de petróleo e gás natural, comparáveis às da Venezuela), quanto a Região do Oceano Índico assumem uma condição estratégica, tanto sob o olhar econômico quanto político, pois agregam-se àqueles fatores, também (e, em contraposição crítica), a importância do petróleo para o provimento energético, sobretudo para a atividade industrial chinesa; a necessidade dos EUA (sob sua ótica) de continuar ostentando sua hegemonia mundial; e, por fim, a emergência de novas potências como a China, no contexto mundial, e a Índia, no espectro regional.

“Ativos intrínsecos aos espaços marítimos podem polarizar perigosamente interesses de atores internacionais se não houver esforço dissuasório defensivo e trabalho adequado no âmbito da política externa.” (LUCIANO PONCE CARVALHO JUDICE e CLEVELAND MAXIMINO JONES; Clausewitz e a Polarização Marítima no Século XXI, Rev. Marítima Brasileira, vol. 138, no 04/06, abr./jun. 2018, p. 99)

Como é de amplo conhecimento, o acelerado crescimento econômico chinês vem consumindo imensas quantidades de petróleo oriundo, sobretudo, do Golfo Pérsico e da África, orientando àquela nação quanto à elevada necessidade de construir uma força militar, principalmente marítima, capaz de dominar tanto o Mar do Sul da China (MSC), – com sua correspondente e futura possibilidade de exploração de petróleo em plataformas marítimas –, como a Região do Oceano Índico (ROI), garantindo, através de ambas, o tráfego de navios carregados de petróleo para abastecer as crescentes necessidades energéticas direcionadas para o contínuo desenvolvimento chinês.

O Colar de Pérolas (em inglês String of Pearls), desse modo, é a designação nominativa que o Ocidente outorgou à estratégia chinesa de cercar o MSC e a ROI, através da construção de diversas bases navais, – inclusive em ilhas artificiais –, ampliando, desta forma, a presença deste país nestas regiões, objetivando alcançar (em um futuro próximo) uma posição estratégica privilegiada em toda esta porção marítima e territorial do planeta.

A construção desse “Colar”, em muitos aspectos, redefine o jogo de poder na região, posto que o aumento da presença chinesa contrasta com a permanência (histórica) do poderio militar naval e aeroespacial norte-americano e com a ascensão militar da Índia. Esta última, se aproximando (diplomaticamente) dos EUA, especificamente, para contrabalancear a crescente militarização do Oceano Índico promovido pela China. Segundo lições de DEEPAK KUMAR (A Competição no Oceano Índico à Luz do Emergente Triângulo Estratégico; Revista da Escola de Guerra Naval, RJ; 2009, p. 127), “a Região do Oceano Índico tem sua importância estratégica baseada principalmente no seu posicionamento em relação às rotas comerciais”. Aproximadamente 3.500 navios carregando 80% do comércio do Oceano Índico transitam pelos estreitos de Malaca, Bab-el-Mandeb e pelo Cabo da Boa Esperança, principalmente para as potências extrarregionais. Estas embarcações estão carregadas com suprimentos vitais de petróleo e materiais estratégicos e, assim, são objeto de sérias preocupações para as potências interessadas. Mesmo atualmente, 90% do comércio global e 65% de toda produção petrolífera são transportados pelo mar.

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No mesmo sentido, e consoante ensinamento de ROBERT D. KAPLAN (Foreign Affairs; 2009, p. 16), “cerca de 70% do total de tráfego de derivados de petróleo passa pelo Oceano Índico, em seu percurso do Oriente Médio para o Oceano Pacífico. Enquanto tais produtos trafegam por esta rota, eles passam pelas principais linhas mundiais de transporte marítimo de óleo e alguns dos principais pontos focais do comércio mundial: Bab-el-Mandeb e os Estreitos de Ormuz e Malaca. Aproximadamente 40% dos negócios mundiais passa pelo Estreito de Malaca; enquanto 40% de todo o petróleo bruto passa pelo Estreito de Ormuz”.

Vale registrar que esse processo, – inicialmente silencioso –, remonta ao início do século XXI, mas se tornou público particularmente após a chegada ao poder de XI JINPING (2012), quando a China começou a traçar (de forma efetiva e contundente) um audacioso plano estratégico que tem por objetivo ampliar a sua influência mundial, utilizando para tanto uma gradual e ostensiva presença no Mar do Sul da China (MSC) e também na Região do Oceano Índico (ROI).

“O crescente interesse e influência chinesa, desde o Mar da China Meridional até o Oceano Índico e o Golfo da Arábia, pode ser descrito como semelhante a um Colar de Pérolas. Cada pérola no seu respectivo cordão é um nexo da influência geopolítica chinesa ou da sua presença militar. As pérolas importantes são: – Ilhas Hainan, com instalações militares recentemente aprimoradas; Ilhas Woody, localizadas no arquipélago Paracel a cerca de 300 milhas náuticas a leste do Vietnã; porto de Chittagong, em Bangladesh; o porto de águas profundas em Sittwe, Mianmar; e o porto de Gwadar no Paquistão, que é estrategicamente localizado nas proximidades do Golfo Pérsico.” (CHRISTOPHER J. PEHRSON; String of Pearls: Meeting the Challenge of China’s Rising Power, 2006, p. 3)

Desta feita, em 2013, de forma discreta (e dissimulada), os chineses iniciaram a projeção global de seu poder nacional (militar, econômico, político e psicossocial/cultural) por meio, dentre outras iniciativas, da militarização do Mar do Sul da China (MSC), através, particularmente, da inusitada estratégia de construir ilhas artificiais, em uma região extremamente sensível, na qual circula cerca de 30% de todo comércio marítimo internacional e encontra-se provida de grandes reservas de petróleo e gás natural.

“Projetos de construção de portos e campos de pouso, relações diplomáticas sensíveis (e muitas vezes veladas) e a modernização da força naval, formam a essência do ‘Colar de Pérolas’ chinês. A segurança de matérias primas e energia, de modo a dar suporte a política energética da China é a principal motivação por trás do ‘Colar de Pérolas’. Então, percebe-se que essa política está relacionada com a principal Estratégia Nacional da China. A China também possui uma ambiciosa proposta, orçada em 20 bilhões de dólares, para a construção de um canal através do istmo tailandês de Kra, o que permitiria a seus navios um caminho alternativo ao Estreito de Malaca, e ligaria o Oceano Índico à costa pacífica da China – um projeto no nível de importância do Canal do Panamá, e que futuramente pode fazer com que a balança de poder na Ásia penda a favor da China, dando à sua Marinha e à sua frota mercante, um acesso fácil para um vasto e contínuo oceano, expandindo as ligações marítimas do leste da África ao Japão e à península coreana.” (ROBERT D. KAPLAN; Power Plays in the Indian Ocean, Foreign Affairs, Washington, 2009, p. 22)

Além disso, a forte presença da poderosa marinha americana (USN – United States Navy), no Oceano Índico constitui, sob a ótica chinesa, uma constante ameaça, dado que eventuais bloqueios na frota de navios comerciais que transportam recursos naturais para a China poderiam acarretar grandes transtornos para a economia deste país. Assim, esta estratégia do “Colar de Pérolas”, para além do objetivo de assegurar o transporte marítimo de insumos à economia chinesa, perpassa também pela ampliação do leque de opções ao translado, via oceano, com a construção de oleodutos e vias de acesso a portos de outros países.

Destarte, a China passou, mediante esse singular expediente, a reivindicar, – sem qualquer fundamento legal e ignorando solenemente todas as críticas e mesmo condenações nos tribunais internacionais –, áreas a aproximadamente dois mil quilômetros de distância de sua costa, mas, em contrapartida, a apenas poucos quilômetros dos territórios do Vietnã, das Filipinas e da Malásia, e, a partir do estabelecimento (efetivo) destas bases militares na região, a dar início a um processo de ostensiva conquista do Oceano Índico, atravessando o Estreito de Malaca e o Istmo de Kra, passando também, por meio de uma presença econômica massiva, com a construção de oleodutos, ferrovias e rodovias, pela Tailândia.

Uma vez estabelecida no Oceano Índico, a China iniciou e conduziu a construção de um porto marítimo de grande porte ao lado de um gigantesco terminal petrolífero em Mianmar e no vizinho deste, Bangladesh, ampliando, ainda, as instalações de um porto e de um aeroporto, civil e militar, cercando geopoliticamente, por consequência, sua arquirrival: a Índia. Acabou também concebendo instalações no Sri Lanka, Maldivas e Paquistão, onde os chineses estão construindo uma ligação por ferrovias e rodovias entre a sua fronteira e o porto de Gwadar. E, por fim, estendendo sua presença ao nordeste da África, no Djibuti, no qual implantaram uma base militar, e, no Sudão, no qual ampliaram um porto (neste país) na fronteira com a Somália.

Essas são as chamadas “Pérolas” que formam o “Colar” chinês no Oceano Índico e por meio das quais a China ambiciona ter uma presença cada vez mais intensa, alcançando, então, posição de alto destaque no cenário político e militar mundial. Em natural reação, contudo, potências como a Austrália, o Japão, a Coreia do Sul, a Índia (acuada pela presença chinesa em torno de toda sua costa), Singapura e países com menor grau de desenvolvimento como a Indonésia e o Vietnã vêm formando uma aliança (ainda informal), em conjunto com os EUA, contra a presença chinesa no Oceano Índico, – e também no Mar do Sul da China –, tornando estas regiões um novo ponto de tensão geopolítica e possível cenário para o início (ainda que embrionário) de uma Segunda Guerra Fria.

Sob esse aspecto, é possível deduzir que a presente ampliação da inferência chinesa replica, em grande medida, o expansionismo soviético dos tempos da Guerra Fria, o que, historicamente, somente foi contido, no contexto continental da Europa, com a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em 1949, e com a correspondente e forte determinação militar dos EUA, por meio do estabelecimento (e manutenção) de tropas e equipamentos na região. Vale mencionar que a política chinesa de ascensão pacífica (de natureza passiva e não-confrontativa), inaugurada por DENG XIAOPING no final dos anos 1970, foi substituída, em sua essência, pelo atual mandatário, que traçou uma nova estratégia de ascensão pacífica, porém com nítida (e diferenciada) feição ativa e confrontativa, retornando, em alguma medida, à concepção estratégica de MAO TSÉ-TUNG (1949-78), ainda que sem o viés bélico (ativo) que perdurou durante a maior parte de seu governo, e que conduziram às guerras da Coreia (1950-53) e do Vietnã (1964-75) e aos diversos confrontos no estreito de Taiwan. Nesse contexto analítico, é cediço concluir que, assim como no passado, as novas ameaças, produzidas pelas aspirações globais chinesas, somente poderão ser efetivamente contidas, no contexto da denominada deterrência estratégica, através da criação de uma nova (e inédita) aliança formal de segurança e cooperação (através de um modelo arquitetônico semelhante ao pacto da OTAN), liderado pelos EUA, com a necessária participação do Japão, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Filipinas, Singapura, Tailândia e Índia, incluindo, ainda, eventuais ex-adversários norte americanos, como o Vietnã; o que, em alguma medida, já vem, sutilmente, ganhando forma com o chamado Diálogo Quadrilateral de Segurança (QUAD), um fórum informal entre os EUA, Japão, Austrália e Índia iniciado em 2007.

Replica-se, dessa feita, em muitos aspectos, um cenário geopolítico semelhante ao que originou a Guerra Fria em 1947, com o expansionismo soviético, ainda que desprovido do nítido viés de confrontação ideológica que se constituiu na tônica do passado.

8. As atividades (estratégicas) chinesas no Ártico

Faz muito tempo que a China considera o Ártico como uma área geográfica de importância vital para seus objetivos estratégicos, particularmente de natureza econômica e militar. O país procura desenvolver, – a exemplo da construção das ilhas artificiais no Mar da China Meridional –, uma narrativa que (e de acordo com sua interpretação dos tratados legais internacionais em vigor) lhe permita legitimar a livre fruição de prerrogativas sobre a região, alicerçadas sobre pretensas pesquisas científicas, além de direitos de liberdade de navegação, sobrevoo e pesca no alto-mar do Ártico.

Nesse sentido, é cediço reconhecer que, – mesmo antes da atual política chinesa para o Ártico ser revelada –, Pequim já vinha expandindo gradualmente sua presença na região. Não é surpresa, portanto, que os chineses estejam realizando inúmeras expedições ao Ártico desde 1999, e que até mesmo já teriam construído sua primeira base de pesquisa na ilha de Svalbard em 2004.

As atividades árticas mais conhecidas (e ostensivas) realizadas pela China são principalmente econômicas, especialmente uma pública cooperação energética com a Rússia, como parte do esforço de Pequim para eliminar sua dependência de carvão para geração de energia e reforçar, de modo geral, a segurança energética. Não por acaso, em dezembro de 2019, os chineses inauguraram o gasoduto “Power of Siberia”, com 3.000 km de extensão, ligando os rincões siberianos da Rússia ao nordeste da China.

Empresas chinesas também desempenham papéis importantes no Ártico: estão desenvolvendo naquela região o segundo maior projeto de gás natural do mundo. Além da energia, há, ainda, a colaboração da China com a Rússia no estabelecimento de um corredor de transporte global pela rota do Mar do Norte que, surpreendentemente, nos últimos tempos, não tem chamado muito a atenção. Ainda assim, especialistas acreditam que esta rota seria cerca de 40% mais rápida que a mesma jornada pelo Canal de Suez (controlado, em parte, pelo Ocidente), assim reduzindo significativamente os custos com combustível e ampliando a segurança chinesa, de modo geral.

Um discurso proferido pelo Secretário de Estado dos Estados Unidos, MIKE POMPEO, na reunião do Conselho do Ártico, em maio de 2019, alertou para os perigos do investimento chinês na região do Ártico: “os EUA têm feito expedições para adicionar informações novas e atualizadas referentes ao crescente banco de dados de conhecimento da China sobre as condições climáticas e meteorológicas, geomagnética e ambientais na região”.

Desde 2014, a Academia Chinesa de Ciências trabalha em um programa de pesquisa acústica (inclusive para a detecção de submarinos estratégicos SSBNs) na região gelada (que foi incluído nas inúmeras expedições à região) e envolveu a colocação de sensores para observação oceânica a longo prazo. É preciso observar que a China possui um certo interesse em criar uma rede de observação oceânica em escala global. Estas atividades de vigilância oceânica, – supostamente de caráter civil, segundo a própria China –, provocaram, inevitavelmente, preocupações: autoridades dinamarquesas de inteligência de defesa alertaram, em novembro de 2019, que a China está cada vez mais utilizando pesquisas científicas como meio de ingresso (militar) no Ártico, descrevendo estas atividades não apenas como uma questão puramente científica, e sim com um objetivo duplo.

Por meio do Relatório Anual do Departamento de Defesa de 2019, os EUA afirmaram que a “pesquisa científica da China” poderia servir para apoiar uma forte presença militar chinesa no Oceano Ártico, e que também poderia incluir a implantação de uma força de submarinos nucleares na região, inclusive com capacidade de transportar mísseis balísticos (SLBMs). Vale destacar que assim como BARACK OBAMA (2009-17) foi ludibriado com as falsas motivações exclusivamente civis para a construção das ilhas artificiais no Mar do Sul da China, Pequim parece também desejar ocultar suas verdadeiras intenções com seus persistentes pedidos para evitar a militarização (internacional) da região.

A insistência da China em realizar suas expedições no Ártico, ainda que com relativa cautela, – pois o país reconhece a dificuldade de realizar atividades militares sem receber alguma reação adversa dos líderes mundiais e da Comunidade Internacional, especialmente no que tange à construção de bases militares na região –, parece indicar, todavia, as reais intenções chinesas de médio e longo prazos no que concerne ao domínio do continente ártico.

Dessa feita, é forçoso admitir que as atividades de pesquisa científica (com dupla finalidade) pela China provavelmente continuarão acontecendo à revelia das crescentes críticas e desconfianças internacionais. O próximo passo do país seria o uso de sua guarda costeira; isto incluiria os chineses na participação do Fórum da Guarda Costeira do Ártico como uma forma de aumentar a voz de Pequim e seu papel na administração do continente. Ao que parece, o país vem se preparando para esse acontecimento, uma vez que no final de abril de 2020, a guarda costeira chinesa realizou um exercício para (supostamente) proteger cabos submarinos de internet, além de outras atividades correlatas.


*Reis Friede é desembargador, presidente do Tribunal Regional Federal da Segunda Região (biênio 2019/21), professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e professor Honoris Causa da Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica, professor emérito da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército (EsAO) e Conferencista Especial da Escola Superior de Guerra (ESG). É autor do livro Ciência Política e Teoria Geral do Estado. E-mail: reisfriede@hotmail.com.

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6 comentários

  1. Reis Friede ,parabens pelo super artigo.
    É um super estudo sobre um tema importante que deve ser lido com atenção e estudo profundos e sem pressa!!!
    Li parte continuarei o estudo depois
    Não é bajulando o velho general e o canal arte da guerra , porém é um fato a qualidade em ambos é outro nivel ,por isso sempre os recomendo para todos que posso!!!

  2. Esse artigo é uma aula de história. Parabéns pelo artigo.

    A longo prazo eu duvido do modelo econômico chinês. Não acho que a China será hegemônica economicamente. Mas só o tempo irá dizer se minhas teorias econômicas estão corretas.

    Acho que serão um grande player geopolítico e uma grande economia. Mas não terão a hegemonia econômica que um dia teve os EUA que chegaram a ter sozinhos mais de 50% do pib mundial.
    Até 2010 os eua ainda representavam 35% do PIB mundial.
    Acho possível a China suplantar o PIB americano. Mas não irá muito longe com seu modelo econômico. Seu renda per capita deve continuar sendo renda média.

  3. TERMINEI DE LER ESSE SUPER ARTIGO, EXCELENTE, ALTO NÍVEL !
    NÃO SE VÊ ISSO NA IMPRENSA OU OUTRO CANAL.
    PARABÉNS BLOG DO VELHO GENERAL !

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