Testemunhas da História

Por Marcelo Francisco Silva Pimentel*


Imagem: adaptada de original do Institute of Arts and Ideas.

A ruína dos grandes impérios normalmente acontece muito mais por fatores internos do que externos. Independente de interferências de fora, são agentes internos que permitem sua infiltração, minando as bases que o construíram e causando sua derrocada. É possível que, infelizmente, estejamos presenciando um momento único na História.


“O que me incomoda, as sopas populares não remedeiam.”
Antoine De Saint-Exupéry

Seja qual for o resultado das eleições nos EUA, parece que veremos, em nosso tempo de vida, a queda de um império, o que poucas vezes aconteceu ao longo da História.

Nas (poucas, infelizmente) décadas que nos restam de vida, dada a velocidade com que os fatos se desenrolam hoje em dia, no passo instantâneo da Internet, creio que poderemos acompanhar esse processo em sua plenitude e veremos, com assombro e profundo respeito, o ocaso de um gigante.

Aconteceu com Roma, com a Inglaterra e, agora, com a América.

A decadência que precede a queda, como em Roma, veio em uma escalada vertiginosa a partir das fraturas dos anos 1960, ao contrário do que aconteceu com a terra dos Césares, que durou séculos em agonia.

É triste ver cair uma Nação que, a despeito de seus interesses nem sempre simpáticos a terceiros e aos diretamente atingidos, foi edificada sobre a ética protestante que lhe conferiu a dimensão moral do extraordinário progresso alcançado e que foi forçada a agir, em desfavor do isolacionismo desejado, em duas hecatombes mundiais e na quente Guerra Fria, para salvar o Velho e os Novos Mundos dos totalitarismos de plantão.

A queda da última superpotência nos traz um sentimento de amargura, pois os que por ela nutriam admiração por sua pujança, modernidade e sobretudo, disposição em defender seus ideais e causas com fervor, sentir-se-ão como órfãos, abandonados à própria sorte, à porta de um abrigo deserto, na terra-de-ninguém, aguardando as hordas do inimigo, sedentas de sangue e vingança.

Porque, como nos ensina a parteira História, a um império sucede-se outro.

O que está por vir, emergindo do Oriente, abala nossa confiança em um futuro mais feliz, justo e livre.

Ao contrário, nos causa o mais profundo sentimento de temor, pois sua ascensão foi construída sobre os alicerces da opressão, da submissão, da fome e da morte.

Seus soldados são herdeiros do livro vermelho do genocida que perpetrou a grande fome, que dissimulou a eugenia no grande salto para a frente e que destruiu as raízes culturais de seu povo, paradoxalmente por meio de uma revolução que chamou de cultural.

Anos depois, estimulados justamente pelos capitalistas que abominavam, encontraram, na exploração do homem pelo homem que rejeitavam e na multiplicação dos lucros que execravam, as bases de um progresso calcado no charlatanismo e na pirataria.

Encontraram a fórmula ideal para escravizar os bilhões da plebe e proporcionar vidas de nababos a seus dirigentes. Enquanto bilhões trabalham nas fábricas, sem qualquer concessão aos  direitos trabalhistas, conquistas da sociedade moderna, a elite do partido vermelho e os empresários parceiros refestelam-se em mansões e viajam pelo mundo deixando seu povo sem liberdades, vivendo sob um estado policial dotado das mais novas tecnologias usadas para conter, segregar, controlar e iludir esse povo.

Dissidentes, etnias que clamam por autonomia, intelectuais e cientistas que pedem por mais liberdades são perseguidos, executados ou internados em campos de concentração dignos da SS de outro império, que sonhava durar mil anos mas acabou na ignomínia após pouco mais de dez.

Lamento o duvidoso privilégio de presenciar a queda do império norte-americano.

O que está por vir não merece a nossa admiração, nem ao menos respeito.

Não tenho a pretensão de saber o que se passa nos planos de Deus, mas confio que Ele não nos deixará à mercê desses adoradores de dragões, inescrupulosos e vazios de Fé.

Orai e vigiai!


*Marcelo Francisco Silva Pimentel é tenente-coronel de Infantaria da reserva do Exército Brasileiro. Formado pela AMAN em 1989, comandou o 3° Contingente Brasileiro da Força de Manutenção de Paz no Timor Leste nos anos 2000/2001, além de servir em diversas unidades do exército e em comissões no exterior. É autor, entre outros, dos livros “Três Missões de Resgate: Son Tay, Mayaguez e Irã” e “Nunca seremos vencidos: A saga da turma Collecchio-Fornovo”.

11 comentários sobre “Testemunhas da História

  1. Orai e vigiai, sempre!
    Tenho comigo que não só veremos a queda de um Império, mas o fim de tudo da forma que conhecemos e estamos acostumados…

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  2. O erro fatal foi abrir mão de seu gigantesco parque industrial e de sua capacidade quase infinita de produção, seu grande trunfo nas guerras mundiais, em troca da falsa comodidade em apenas consumir e em nada mais pensar. Forte abraço!

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    1. Ao transferir a produção industrial para a Ásia, a economia americana ganhou em produtividade. Pode se concentrar na inovação tecnológica enquanto e criar uma economia baseada em serviços de alto valor agregado.
      Veja, os EUA transferiram sua produção industrial pra Ásia mas ainda possuem o maior PIB, que cresceu vertiginosamente desde os anos 80, quando as fábricas estavam indo pra Ásia.
      O grande problema da economia americana a longo prazo está na sua política monetária expansionista. É essa política monetária expansionista que está aumentando a concentração de renda e causando problemas sociais. Essa elevada concentração de renda, que só tende a crescer, pode criar convulsões sociais que podem levar à eleições de líderes populistas, que vão prometer soluções fáceis para problemas complexos. E aí o país passar a adotar políticas econômicas cada vez mais destrutivas.

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      1. Sim, ganhou muito em produtividade, não há dúvidas; porém, ao entregar “know-how” e tecnologia aos chineses, passou alimentar o dragão que eventualmente o devorará. De fato, a política monetária do FED é bem difícil de ser mantida a longo prazo, os resultados se veem na insatisfação da população economicamente ativa, mesmo em tempos de pleno emprego (pré COVID-19). Mais do que concentração de renda, os megainvestidores e metacapitalistas são os que dão as cartas neste jogo. Abraço!

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  3. Acredito que os EUA vão cair mas antes vão tentar se unir com o vaticano e “todas” as outras igrejas e religiões do para emplementar um sistema politico religioso com a desculpa de proteger a familia humana e o meio ambiente seguido de todas as outras nações do mundo.
    Acredito nisso piamente pois é me ensinado desde a minha mais tenra idade que averia uma união politica religiosa nos EUA (rompendo com as bases da nação americana que é a liberdade religiosa)e se espalharia pelo mundo como fogo mas fico feliz pois não vai durar muito pois jesus vai vir para liberta os seus.
    Gostei muito do texto e concordo com o senhor que os imperios caem primeiro pela corrupção e depravação interna principalmente e por ultimo por fatores internos.
    Peço ao senhor com todo respeito que pesquise sobre o ecominismo no canal do michelson borges e sobre o decreto dominical a proximidade dos eua com o vaticano o fim da reforma protestante ou acordo entre lideres protestantes e catolicos o ecumenismo.
    Mas o melhor é orar e vigiar pois os tempos são dificeis o que vim vai vim mas nos estaremos firmes na rocha que éo nosso senhor e salvador jesus cristo cordeiro de Deus e leão da tribo de judá um abraço para todos do velho general e os que o acompanham.

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  4. Do ponto de vista econômico não há a menor chance da China liderar o mundo. O modelo econômico chinês não é sustentável.
    A China pode até vir a ser o maior potência militar do planeta e até ter o maior PIB, mas não terá a hegemonia econômica que os EUA ostentam desde o pós segunda guerra.
    Os EUA se tornaram tão ricos por terem uma economia que fazia sentido: respeito a propriedade, liberdade para empreender e fazer negócios, instituições confiáveis, moeda instável e uma sociedade que confiava no país e suas instituições. Não a toa se cunhou o termo “viver o sonho americano”. Pessoas do mundo todo que iam pra “terra da liberdade” para empreender, trabalhar, investir e prosperar.
    Os americanos ganharam mais metade de todos os prêmios Nobel, são sede de mais de 1/3 das mil maiores empresas do mundo. Possuem mais milionários que a toda a Ásia junto, incluindo China, Japão, Coréia, etc.
    E ainda são o país pra onde trabalhadores com e sem qualificação querem imigrar
    A China por outro lado não está nem entre as 100 economias mais livres. O estado tem um grande peso na economia. A China é um país de renda média que tem níveis de dívida de pais rico. Ao contrário dos EUA, trabalhadores qualificados chineses emigram, Austrália e EUA são os principais destino.
    Não há na China a mesma confiança no sistema legal e nas instituições como há nos EUA.
    Sob incentivo do governo chinês dezenas de cidades e gigantescas infraestruturas foram construídas. Muitas viraram cidades fantasmas, um gigantesco desperdício de capital. Isso dá uma ideia da produtividade e racionalidade das decisões da alocação de capital na economia chinesa.
    Vivemos numa época de juros baixo e políticas monetárias não convencionais. Empresas zumbis sendo sustentadas a base de crédito e juros artificialmente baixos. E eu tenho uma séria desconfiança de que a China é mais um caso de algo insustentável que está se mantendo de pé a base de crédito. Quando os juros subirem no mundo desenvolvido, aí teremos uma visão real da economia chinesa.

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  5. A queda dos eua se devem a eles mesmo por permitir que o socialismo se infitrasse e destruísse a sociedade americana e se deve a inteligência dos políticos e policymakers que privilegiaram a China para ganhar um aliado na sua luta contra a união soviética e agora o resultado está ai. Minha torcida é que tecnologias como o bitcoin e a informação cada vez mais barata e descentralizada anule as narrativas e o poder do estado mundial que está surgindo.

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