Conflitos na região do Rio da Prata

Por Francisco Teixeira de Carvalho Neto*


Batalha de Juncal (Jose Murature/Wikimedia Commons).

No início do império brasileiro, o conflito do Prata, embora não tenha representado uma vitória, trouxe conscientização sobre a importância da nacionalização das forças armadas e demonstrou a viabilidade de operações conjuntas entre as forças terrestres e navais, entre outros aspectos.


Introdução

As coroas portuguesa e espanhola tiveram períodos de paz entre si, baseadas numa doutrina mercantilista conduzida por suas monarquias absolutistas. Com a descoberta das Américas, o sistema colonial garante o domínio, posse e exploração econômica da região.

O Tratado de Tordesilhas demarca os limites entre as possessões portuguesa e espanhola. No entanto, as delimitações reais ainda não eram totalmente definidas, e a coroa espanhola abriu mão para que o português Bento Manuel Parente assumisse a capitania do Cabo Norte (atual estado do Amapá).

Desta forma, a Espanha passa a contar com um meio para defender aquela posse e com isso, Portugal obtêm o direito de explorar as terras espanholas de modo pacífico. Portugal, observando que as delimitações não eram tão precisas, reformula seu plano de ocupação e exploração do território, objetivando dominar desde o Cabo Norte até a Bacia do Prata, criando assim a Colônia de Sacramento.

Tratados diversos como Utrecht, Madri e Santo Idelfonso homologaram a posse lusitana ao norte (Cabo Norte) mas, na região do Rio da Prata, Portugal relutou em devolver a Colônia de Sacramento. Essa política negacionista acabou gerando diversos conflitos armados na região envolvendo Portugal, Brasil e os países platinos (que mais tarde se transformariam na Argentina, Uruguai e Paraguai).

Enquanto isso, os espanhóis se ocupavam da Costa Oeste do continente e exploravam as riquezas minerais abundantes, em especial nos altiplanos andinos e organizando expedições colonizadoras na região platina. Ao se estabelecerem na região interior do Rio da Prata, escolhem Buenos Aires como capital, fazendo com que os territórios da Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai se transformem no Vice-Reinado do Prata.

Posteriormente, esse Vice-Reinado se desintegra através de processos de independência e assim surgem:

  1. Províncias Unidas do Prata (atual Argentina), com capital em Buenos Aires;
  2. A Bolívia se reintegra ao Vice-Reinado do Peru;
  3. O Paraguai se torna independente com capital em Assunção;
  4. O Uruguai é absorvido pelo Brasil, sob D. João VI, com a denominação de Província Cisplatina com capital em Montevidéu.

Nas tentativas de restabelecer esse vice-reinado, os portenhos buscam o território do antigo Vice-Reinado do Prata para tentar reconquistar Assunção e, assim, restabelecer aquele território. O general Belgrano tenta, duas vezes, conquistar Assunção sem sucesso. O expansionismo militar é a tônica desse período, e é o que levará a posteriores conflitos no período.

A Guerra Cisplatina

O Delta do Rio da Prata é formado pelo desague dos Rios Uruguai e Paraná. A região da margem norte é o atual território do Uruguai e na margem sul, se localiza a Argentina. A margem norte era chamada de Cisplatina ou “banda de cá” do rio.

No período abordado, esse território pertencia ao Brasil Império. O desenvolvimento da região do Rio da Prata acabou por se tornar alvo de beligerância por parte da Argentina, que entendia que deveria possuir o território da margem norte do delta do Rio da Prata.

A guerra se inicia 19 de abril de 1825. Um grupo, liderado por Juan Antonio Lavalleja, avança sobre o território, declara a separação do Brasil e o anexa à Argentina, que o chama de Províncias Unidas. O grupo, chamado de “Grupo dos 33 Orientais” (FIGURA 1), era oriundo da região das terras à oeste do delta do Rio da Prata.

FIGURA 1: Lavalleja e o juramento dos 33 Orientais (Juan Manuel Blanes/Wikimedia Commons).

Os recursos financeiros vieram dos portenhos, partidários da ideia da retomada do território das mãos do Brasil. Os principais objetivos de ambos os lados eram:

  1. Brasil: pacificar novamente o território, retomando o controle da região;
  2. Uruguai: da parte de Lavalleja, anexar as Províncias Unidas, porém, ainda havia uruguaios favoráveis à independência;
  3. Províncias Unidas: garantir a anexação da Cisplatina a seu território (Argentina).

A marcha de Lavalleja avança em direção a Montevidéu, obtendo aliados locais. No caminho, se destaca a colaboração do coronel Julian Laguna e brigadeiro Frutuoso Rivera, que mesmo estando a serviço do Brasil, aderem aos revoltosos, levando consigo efetivos consideráveis.

O Congresso de Florida, convocado pelo mesmo Lavalleja, vota em 25 de agosto de 1825 a independência da Banda Oriental e, no mesmo dia, a incorporação às Províncias Unidas do Prata. Os tratados entre Brasil e Portugal sobre a região são anulados. Em Buenos Aires, o consulado é atacado por uma população exaltada e o escudo nacional é destruído.

A reação do Brasil começa com o general José dos Santos Abreu (barão do Cerro Largo), que recebe ordens de avançar sobre o Uruguai. Com 1.200 milicianos, chega em Mercedes e dali envia o coronel Bento Manuel às margens do Arroio d’Áquila, em 4 de setembro de 1825. O caudilho Rivera, numa audaciosa operação, ataca de surpresa o Rincão das Galinhas, onde 50 homens guardavam a cavalhada do general Abreu.

Um pequeno grupamento de índios guaranis, que chegava, foi igualmente surpreendido por Rivera, perdendo seus cavalos. Nessa escaramuça, os brasileiros foram derrotados. Nesse embate, morre o coronel Luís Mena Barreto. Em marcha intensa, Bento Manuel alcança Montevidéu e, ao encontrar o general Carlos Frederico de Lecor, se ajustam para atacar as forças inimigas, contando com o apoio de mais 1.500 homens de Bento Gonçalves.

Na manhã de 12 de outubro de 1825, os brasileiros encontram o adversário no Arroio Sarandi. O general Rivera já se havia aliado a Lavalleja, somando, assim, 2.600 homens de cavalaria, alguns atiradores a pé e uma peça de artilharia.

Santana do Livramento é o local escolhido por Bento Manuel para se retirar e reorganizar após a derrota sofrida. A vitória obtida pelos inimigos acirra os ânimos contra o Brasil. Lecor consegue manter as praças de Montevidéu e Colônia do Sacramento em mãos brasileiras. A declaração argentina diz que a região Cisplatina estava sendo anexada às Províncias Unidas do Prata. O Brasil responde com uma declaração de guerra e determina que todos os meios hostis devem ser usados contra essa agressão.

Um grupo militar argentino, chamado Exército de Observação, atravessa o rio na altura da cidade de Salto e se organiza em Durazno. O general Carlos Alvear assumiu o comando de 8.500 homens em 1826 e decide atacar novamente. As forças brasileiras se mantêm na defensiva, porém estacionadas. Essa passividade era questionada pela opinião pública.

D. Pedro I (FIGURA 2), em 12 de setembro de 1826, nomeia o tenente-general Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira Horta (FIGURA 3) como comandante do Exército Brasileiro.

FIGURA 2: D. Pedro I (Lustosa, 2006).

FIGURA 3: Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira Horta (Sébastien Auguste Sisson/Wikimedia Commons).

No entanto, a falta de informações consistentes em ambos os lados causava a aparente letargia no campo da batalha. O principal motivo era a pouca consistência das informações. Isso já havia proporcionado movimentos infrutíferos e inócuos em ambos os lados.

Participação da Marinha do Brasil

A recém formada esquadra desloca vários meios navais para a região. Essas embarcações são comandadas pelo vice-almirante Rodrigo Lobo. No estuário do Prata, a Marinha não combateu somente a Armada Argentina, mas também vários corsários que eram autorizados pelas Províncias Unidas do Rio da Prata, além do exército de Lavalleja, que atacava os navios mercantes brasileiros em nosso litoral.

Sendo uma região sujeita à dinâmica das correntes fluviais que geram e deslocam grandes bancos de areia, dificultando assim a navegação, as forças inimigas desenvolveram uma espécie de guerra de guerrilha naval. Ou seja, ataques e fugas rápidas utilizando os conhecimentos da região que os argentinos e seus aliados possuíam.

Para conter a ameaça portenha, o comando da força naval estabelece um bloqueio naval na região, impedindo qualquer comunicação entre as forças de Lavalleja e a região das Províncias Unidas, além de impedir o contato destes inimigos com o exterior. A força naval inimiga, embora em menor número, tinha a vantagem de conhecer bem a hidrografia da região, além de operar nas proximidades do ancoradouro do Los Pozos, onde eram reparados e reabastecidos.

O bloqueio naval provocou um combate em fevereiro de 1826, quando 14 embarcações argentinas se depararam com um grupamento naval brasileiro também com 14 navios. As duas colunas trocaram disparos de artilharia à grande distância com pouca efetividade. Ambas se retiraram da região.

O próximo passo foi tentar atacar a Colônia de Sacramento, que se localizava na margem esquerda do Estuário do Prata. Estava guarnecida por 1.500 homens do brigadeiro Manoel Jorge Rodrigues e apoiados por quatro embarcações comandadas pelo capitão-de-fragata Frederico Mariath.

Sete navios argentinos rompem o bloqueio brasileiro e se dirigem para a Colônia de Sacramento, capitaneados pela fragata 25 de Mayo, enquanto forças terrestres adversárias cercam a localidade. Devido a superioridade numérica destes, são desembarcados canhões e soldados para dar combate aos invasores.

No primeiro ataque, canhões da fortificação atingem uma das embarcações argentinas, que inutilizam um de seus navios. Tendo repelido o primeiro ataque, uma escuna foi enviada a Montevidéu para buscar ajuda. No entanto, o vice-almirante Rodrigo Lobo não atende de imediato ao pedido de socorro.

Em 1º de março, a força naval argentina, com apoio de mais seis canhoneiras, tenta desembarcar 200 homens. O resultado desse combate foi a perda de duas canhoneiras, muitos homens e o incêndio de um dos navios brasileiros. O cerco só é suspenso quando o reforço naval brasileiro chega de Montevidéu, em 12 de março, e as embarcações argentinas batem em retirada.

As iniciativas de aumentar o poder naval levam William George Brown, que comandava a esquadra argentina, a tentar capturar navios que se dirigissem à Montevidéu. A nau capitânia 25 de Mayo, junto com dois brigues (FIGURA 4), tentam manobras de captura.

FIGURA 4: Brigue (Pearson Scott Foresman/Wikimedia Commons).

Em 10 de maio, conseguem capturar a escuna Isabel Maria. No dia seguinte, ao perseguir outra embarcação, aproximam-se tanto do porto que são reconhecidos por navios da Marinha do Brasil mesmo usando uma bandeira francesa, um recurso utilizado na época, e foram perseguidos pela fragata Niterói (FIGURA 5) com o auxílio de mais quatro navios.

O fogo dos navios brasileiros se concentrou no 25 de Mayo. Ao cair a noite, os navios argentinos, gravemente atingidos, se refugiam em Buenos Aires, concluindo assim o que ficou conhecido como o “Combate de Montevidéu” (FIGURA 6).

FIGURA 5: Fragata Niterói (Fonte: Pereira e Castro).

Mesmo não tendo tido sorte, Brown, na noite seguinte, se lança numa nova investida para capturar embarcações brasileiras. Sete navios portenhos se dirigem para Montevidéu ao encontro da armada brasileira e, ao tentar identificar seu alvo, acabam por atacar a fragata Imperatriz. Na escuridão, a identificaram erroneamente como se fosse a Niterói. Com toda a tripulação em alerta, a Imperatriz repele o ataque, que culminou na morte do próprio comandante do navio, que tombou devido aos disparos dos navios inimigos.

Em maio de 1826 a esquadra portenha estava fugindo da esquadra brasileira, após furar o bloqueio brasileiro. Os navios argentinos tentaram alcançar o Banco de Ortiz. A estratégia era levar para lá os perseguidores e assim combater na região. No entanto, a primeira a encalhar foi a própria 25 de Mayo, seguida pela Niterói. Assim, encalhadas, entraram em combate, disparando suas armas, contudo, sem nenhum resultado conclusivo para qualquer dos lados. A Niterói se livrou primeiro e, a seguir, a 25 de Mayo.

No dia 13 de maio de 1826, o comando da força naval foi substituído pelo almirante Rodrigo Pinto Guedes, que como primeira medida modificou a disposição da esquadra e fortaleceu o bloqueio naval. Essa disposição se deu em quatro divisões, forçando o inimigo a aceitar a luta.

A divisão ocorreu da seguinte maneira:

  • 1ª Divisão: cuidaria da linha externa do bloqueio, visando impedir a entrada de navios para abastecer a Argentina e seu exército e capturar os eventuais corsários da região;
  • 2ª Divisão: com navios menores, ágeis e numerosos, visava operar no interior do estuário com o objetivo de bloquear o acesso à Colônia de Sacramento, Buenos Aires e Enseada de Barregã, isolando a força naval inimiga e, assim, estrangular o suprimento para Buenos Aires;
  • 3ª Divisão: com navios apropriados para navegação fluvial, tinha por objetivo defender a Colônia de Sacramento e impedir a linha de suprimento para as forças inimigas;
  • 4ª Divisão: formada pelos navios em reparos em Montevidéu, era a força de reserva.

Essa reorganização se mostrou eficaz na contenção das movimentações da armada inimiga.

FIGURA 6: Combate de Montevideo (Fonte: Marinha do Brasil).

Em 15 de maio de 1826 as forças navais brasileiras já estavam posicionadas. Em 23 de maio, as forças portenhas decidem testar a resistência da 2ª Divisão, que bloqueava Buenos Aires. Ao perceber o avanço, os navios brasileiros assumem posições de combate, mesmo sob o risco de encalhar. Os navios argentinos recuam, percebendo a resolução dos navios brasileiros. Dois dias depois, uma nova tentativa de combate foi feita pela Niterói, novamente sem resultados conclusivos.

A esquadra argentina se recusava a sair do ancoradouro. O almirante Rodrigo Pinto Guedes decide atacar a armada inimiga dentro do porto. Para isso, ele reúne a 2ª e 3ª divisões, com navios menores, que tinham maior facilidade de mobilidade entre os bancos de areia.

Em 7 de junho, as forças navais argentinas, com cinco navios de transporte, suspendem de Buenos Aires com escolta militar e rumam para dar apoio na região cisplatina. Enquanto isso, o restante da esquadra argentina, comandada por Brown, desatraca de Los Pozos a fim de atrair a atenção dos brasileiros. O ardil dá certo, pois nem a 2ª nem a 3ª foram capazes de alcançar os transportes argentinos.

Ainda em 11 de junho, o Brasil consegue recuperar a escuna Isabel Maria. Nesse mesmo período, a esquadra argentina, protegida pelos bancos de areia, fica imune aos ataques brasileiros das 2ª e 3ª divisões, o que leva o comando da missão a desistir dos ataques. Visando livrar Buenos Aires do bloqueio, um ataque noturno é organizado e posto em prática. No entanto, não sendo factível, ambos os lados desengajam do combate, devido à pouca eficácia e à escuridão.

Na manhã seguinte, o combate recomeça. Brown direciona sua embarcação em direção aos navios brasileiros. Somente a escuna Rio de La Plata o acompanha. Os dois navios sofrem uma pesada resistência, tendo ficado inutilizados pelo fogo das armas brasileiras. O chefe dessa força naval é transferido, sob fogo, para outra embarcação. O restante da esquadra retorna ao porto. O combate de Lara-Quilmes foi a última tentativa argentina de destruir os navios da 2ª divisão e desmantelar o bloqueio à Buenos Aires.

A 3ª divisão deu combate aos navios argentinos, com mais facilidade de manobra, e acaba encurralada. Ao recuar, se encontrou na Foz do Uruguai, onde havia mais embarcações argentinas que também sofreram fogo intenso das embarcações do capitão-de-fragata Sena Pereira. Nesse ponto, a 2ª Divisão é direcionada para auxiliar a outra que se via em grande dificuldade. Esse auxílio também teve dificuldades em avançar devido aos bancos de areia. Nesse caso, os barcos maiores da Marinha do Brasil estavam em águas rasas.

A corveta Maceió fica encalhada, tornando-se presa fácil para os argentinos, que direcionam cinco navios para tentar captura-la e transferi-la para a Armada Argentina. A Maceió repeliu o ataque com seus 20 canhões e os argentinos recuaram. A 3ª Divisão continuaria sob risco no Rio Uruguai.

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Em fevereiro de 1827, a divisão brasileira desce o Rio Uruguai para dar combate à força naval que a bloqueara. Esse combate, chamado de Combate de Juncal, resultou na derrota das forças brasileiras, por ter que enfrentar sozinha a força inimiga.

A guerra fluvial continuava sem definição. Embora o bloqueio a Buenos Aires tenha sido exitoso, os argentinos ainda conseguiam sobrepujar as forças brasileiras no âmbito do Rio da Prata e seus traiçoeiros bancos de areia. Em mar aberto, a Marinha do Brasil dá combate aos corsários que fustigavam as embarcações civis do Brasil. A Argentina se via obrigada a ceder seus navios militares para o corso.

Na noite de 6 de abril de 1827, um grupamento naval composto de três brigues (República, Congresso e Independencia) e a escuna Sarandi é interceptado e combatido pela 2ª Divisão, com a ajuda das duas outras divisões. Os canhões foram eficazes o bastante para fazer essas embarcações retornarem à Buenos Aires, onde acabaram sendo encurraladas e destroçadas enquanto encalhavam nos bancos de areia.

Os brigues República e Independencia foram abordados e capturados pelas forças brasileiras. O brigue Congresso e a escuna Sarandi conseguiram fugir e se refugiaram em Buenos Aires. Esse golpe final foi decisivo contra a armada argentina, provando que a estratégia do bloqueio foi um sucesso.

As perdas argentinas reforçaram a navegação dos corsários. Isso levou a marinha imperial a dar combate também em mar aberto. Os corsários causaram mais danos à nossa economia do que a marinha convencional argentina. Mesmo assim, a marinha também deu combate às bases dos corsários que se situavam mais ao sul, na Patagônia. E por não ter tanto conhecimento da região, sofreu derrotas frente aos corsos.

Independência do Uruguai

Os argentinos, impossibilitados de continuar uma guerra de longo prazo, acionam seu embaixador para negociar a paz e estabelecer um acordo com o governo imperial. Assim sendo, Manuel José Garcia vai ao Rio de Janeiro para as negociações. Na prática, o acordo de 24 de maio de 1827 causou grandes protestos em Buenos Aires, pois dava ao Brasil condições consideradas injustas perante a Argentina. Isso levou à rejeição do acordo pelo presidente portenho, Bernardino Rivadavia, em decreto de 25 de junho.

No entanto, mediado pela Inglaterra, outro acordo, em 1826, conseguiu que o então presidente, Manuel Dorrego, enviasse ao Brasil os generais Tomás Guido e Juan Ramón Balcarce. E, em 27 de agosto de 1828, foi feito um acordo preliminar de paz entre o Brasil e a República das Províncias Unidas da Argentina, pelo qual se reconhece a independência da Província Cisplatina, denominada República Oriental do Uruguai.

Aspectos geográficos

O Rio da Prata é formado pelos rios Uruguai e Paraná, que criam um corpo de água entre o Uruguai (margem norte) e a Argentina (margem sul). Sua área é de aproximadamente 3.14 milhões km² e é formada pelas sub-bacias de três rios: Uruguai, Paraguai e Paraná (FIGURA 7).

O Rio Paraná define a fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Embora com uma área extensa, à medida que se avança em direção às desembocaduras dos rios a navegação se torna dificultosa devido à presença de numerosos bancos de areia. Durante o período desse conflito, os bancos de areia se tornaram, ao mesmo tempo, uma dificuldade e uma facilidade. Dificuldade por atrapalhar a navegação de ambos os lados; contudo, o conhecimento da região se tornou uma vantagem, principalmente para os portenhos.

Um outro aspecto foi a limitação criada pelo pouco calado da região, que limitava bastante a utilização de embarcações maiores. Com isso esse conflito, em termos navais, se mostrou tremendamente custoso para ambos os lados.

FIGURA 7: Província Cisplatina anexada ao Brasil (Fonte: MultiRio).

As forças em conflito

As Forças Armadas do Primeiro Reinado foram representadas tanto pelo Exército quanto pela Marinha Imperial. Em alguns casos o uso conjunto dessas forças se mostrou útil e eficaz. Contou também com a utilização de armas de fogo de diversos calibres e uso sistemático de embarcações de diversos tipos.

Do lado das Províncias Unidas foram usadas tropas terrestres, não apenas forças regulares, mas também forças nativas regionais, que nutriam um forte sentimento antibrasileiro. Forças navais também foram usadas e, associadas a estas, estavam os corsários (piratas com autorização do governo argentino para fazer ataques). Nesse caso, os portenhos tiveram vantagem naquele teatro de operações (dentro da Bacia do Prata), pelo fato de conhecerem melhor a dinâmica fluvial da região.

Os armamentos eram armas brancas (espadas, etc.), armas de fogo longas e curtas e embarcações de grande e médio porte, com canhões de diversos calibres e alcances. Note-se que as armas de fogo desse período não eram nem precisas e nem práticas.

Em relação aos objetivos desejados, a questão Cisplatina nos remete ao período das guerras napoleônicas, em que a Espanha, por razões diversas, permitiu que as tropas francesas invadissem o território português na Península Ibérica. Com isso, Portugal faz o mesmo movimento, avançando sobre o território cisplatino ao sul do Brasil. Assim, uma nova frente de batalha é criada, trazendo enormes gastos e desgaste ao governo de D. Pedro I.

Esse período apresentou vários momentos onde o equilíbrio de forças pendia de um lado para o outro. São eles: o primeiro ataque de Lavalleja e seu Grupo dos 33; a convocação e mobilização de forças terrestres brasileiras para engajar o inimigo e repelir os ataques; as diversas manobras navais com o objetivo de destruir os navios inimigos; o bloqueio naval a Buenos Aires; o ataque final contra as forças navais argentinas e o acordo de Paz que culminou na independência do Uruguai.

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Quanto aos resultados, o governo de D. Pedro I sofreu um grande desgaste, pois criou uma crise econômica profunda, poucos resultados práticos de vitória frente ao inimigo, não exatamente por fraqueza militar, mas por desconhecimento da dinâmica do delta do Rio da Prata.

No entanto, serviu para demonstrar a viabilidade de operações conjuntas entre as forças terrestres e navais, além de capacitar a marinha em combates fluviais e marítimos num mesmo conflito, trazendo assim uma grande experiência militar para as duas forças.

Considerações finais

É possível analisar esse conflito sob duas óticas. Uma delas poderia tratar dos desdobramentos políticos antes, durante e depois. E a outra observar o desdobramento militar. Porém, de uma maneira prática, observa-se que o envolvimento das forças terrestre e naval tiveram eficácia limitada, considerando os resultados ora positivos, ora negativos.

Do ponto de vista das forças terrestres, a utilização foi correta e apropriada, tendo em vista que não houve perda de território durante o conflito, embora muitas vezes sob fogo intenso. Já no campo da força naval observa-se que a falta de conhecimento do ambiente fluvial, onde se deram os combates, requer serviço de inteligência e reconhecimento antes de deslocar meios para a região.

Entre muitas idas e vindas, a marinha imperial acabou prevalecendo, bem como as forças terrestres. No entanto, o ganho final foi nulo ou negativo, pois, após muito negociar, o território cisplatino, que era o objeto de interesse, foi perdido para o movimento de independência do Uruguai, neutralizando, assim, qualquer ganho militar no campo internacional.

No campo interno, esse conflito trouxe uma conscientização sobre a importância da nacionalização da força militar da nação, evitando a contratação de estrangeiros; a organização dos meios terrestres e navais; e a capacitação de pessoal para combater em vários tipos de terreno e região.

O conflito do Prata não significou uma derrota militar, pois quem teve que se deslocar para negociar o término foram os argentinos. Porém, o Brasil acabou perdendo território, não para o inimigo declarado (a Argentina), mas para um movimento de independência que estava represado naquela sociedade e que acabou prevalecendo no momento da negociação final. Deste modo, nem o Brasil, nem a Argentina e seus aliados puderam alardear vitória militar, pois quem se saiu vencedor foram os próprios uruguaios, já que tornaram seu país livre.


*Francisco Teixeira de Carvalho Neto é piloto de helicópteros com 32 anos de experiência em Aviação Offshore. Bacharel em Ciências Aeronáuticas pela UNISUL (Universidade do Sul de Santa Catarina), possui também, entre outros, os cursos “Vietnam War” (Universal Class IACT Provider), “World War I – Aviation Comes to Age” (University of Birmingham), “From World War II to White Heat: the RAF at the Cold War” (Royal Holloway, University of London). É pós-graduando em História Militar pela UNISUL.

Referências

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LUSTOSA, Isabel. D. Pedro I: um herói sem nenhum caráter. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

MARINHA DO BRASIL. História Naval. Disponível em: https://www.marinha.mil.br/historia.

PEREIRA, Rodrigues; CASTRO, Paulo. Da Armada Real para a Marinha Imperial. Rio de Janeiro: Comissão Cultural da Marinha, 2018.

ROCHA, Carlos. O significado de Cisplatina. 2007. Disponível em: https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/o-significado-de-cisplatina/19408.

SILVA, Daniel Neves. Guerra da Cisplatina. Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/guerras/guerra-cisplatina.htm.

SILVA, Darzan Neto; DE PAULA, Luiz Carlos Carneiro. Novos conflitos na região do Rio da Prata. In: BITTENCOURT, A. de S. et al. (Org.). História Militar Brasileira I: do período colonial ao monárquico. Palhoça: UnisulVirtual, 2009. p. 193-217.

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