Austerlitz e a campanha russa

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Cristiano Leal.png Por Cristiano Oliveira Leal*

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A Batalha de Austerlitz, obra de François Gérard (Palácio de Versalhes/Domínio Público).

Napoleão era um general soberbo nos campos estratégico e operacional; sua capacidade de manipular o inimigo de forma a manter a iniciativa mesmo em situação tática defensiva, obrigando os russos a atacar quando e onde ele queria era magistral e foi fundamental para o sucesso em Austerlitz. Os russos, porém, compreendendo que Napoleão supria seu exército in loco, adotaram a estratégia de “terra arrasada”, usando a imensidão do território russo para amortecer a força do exército francês e negaram-lhe a iniciativa, furtando-se ao combate e aguardando a oportunidade certa para lutar.


Neste artigo farei um comparativo das atuações de Napoleão Bonaparte e Mikhail Kutuzof durante a batalha de Austerlitz e na campanha da Rússia, onde esses dois comandantes se enfrentaram.

Após a sagração de Napoleão como Imperador, a Inglaterra formou a terceira coalizão antifrancesa, juntamente com Rússia, Áustria, Nápoles e Suécia. Como um desembarque em solo britânico era impossível, principalmente depois da derrota na batalha naval de Trafalgar, e como os aliados da terceira coalizão ameaçavam seriamente o império com um ataque combinado contra Hannover (40 mil russos, suecos e ingleses), no Danúbio (180 mil austríacos e russos) e no norte da Itália (142 mil austríacos), Napoleão coloca em prática uma estratégia para destruir os exércitos inimigos e impedi-los de se juntar, contra-atacando em duas frentes, Itália e Alemanha.

Napoleão tomou Viena, ficando perigosamente longe de suas bases de apoio, mas lá encontrou grande quantidade de suprimentos e equipamentos, bem de acordo com sua estratégia logística, de os exércitos suprirem suas necessidades in loco. O imperador austríaco Francisco I bateu em retirada para se unir ao czar Alexandre I na região da Morávia. A Prússia, que até então permanecera neutra, mobilizou seu exército, o que representava um grande risco para os franceses, obrigando Napoleão a um combate decisivo.

Para convencer os russos a atacar, ele posicionou em frente à Kutuzof 50 mil homens em preparação para retirada, enquanto os demais regimentos estavam nas proximidades prontos para convergirem para o local do combate. Os russos e austríacos, vendo possibilidade de vencer o exército francês, morderam a isca, e lançaram-se ao ataque. O plano de Kutuzof era um ataque principal sobre o flanco direito de Napoleão, com um ataque secundário ao esquerdo.

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Os franceses, posicionados em um platô a oeste de Austerlitz, respondiam com fogo os ataques no vale, ao mesmo tempo em que apoiavam o ataque ao platô que dominava todo vale. O “Grande Exército” de Napoleão normalmente posicionava a artilharia o mais próximo possível das linhas inimigas, iniciando os ataques com uma imensa barragem de artilharia para quebrar a coesão das formações. Ao terminar a barragem, a cavalaria atacava sobre os pontos débeis e tentava cortar a retirada, enquanto a infantaria avançava para fazer a dominação do campo de batalha.

Dessa forma Napoleão conseguiu dispersar e dividir os russos, terminando com a perseguição dos dois blocos. Ao norte a retirada russa foi rápida e organizada, mas ao sul os russos foram forçados pelos franceses a recuar por um lago congelado. Napoleão deu ordens para a artilharia abrir fogo, rompendo o gelo em vários lugares. As perdas foram tão grandes que obrigaram austríacos e russos a assinarem um armistício dois dias depois. A Rússia passou a colaborar com Napoleão, aderindo ao “Bloqueio Continental”, instrumento pelo qual Napoleão buscava enfraquecer seus rivais ingleses.

Porém, em 1812, Alexandre I rompeu com Napoleão, abandonou o bloqueio e mandou um ultimato que, entre outras coisas, exigia a desocupação da Prússia. Ultrajado, Napoleão decide marchar contra a Rússia.

Os russos conheciam o poder do exército francês e a estratégia de Napoleão de abastecer seus exércitos com recursos que encontravam ao longo da marcha, por isso os comandantes Barclay de Tolly e Bagration adotaram uma estratégia de atrito, evitando o combate, recuando e destruindo tudo que pudesse ser usado pelos franceses, atraindo-os para o interior do imenso território russo. Napoleão então foi obrigado a depender apenas de comboios de suprimentos, e o abastecimento se tornava mais e mais difícil à medida que avançavam. Muitos soldados adoeceram. Outros desertaram. Muitos cavalos morreram por falta de forragem, dificultando o transporte de equipamentos. Em dois meses Napoleão perdeu 150 mil homens sem entrar em combate.

Os russos somente pararam de recuar quando chegaram próximo a Moscou, em Borodino, dando a Napoleão a chance de travar uma batalha decisiva, como ele gostava. Porém, dessa vez ele fez algo que normalmente não fazia: optou por um ataque frontal, ao invés de buscar manobrar para chegar à retaguarda.

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O czar afastou Barclay e Bagration, por causa da opinião pública negativa de sua estratégia de atrito, e nomeou Kutuzof como comandante. Ele dividiu suas tropas em torno de três colinas, onde criou fortificações de terra para defender à frente, o Grande Reduto, centro da defesa russa, e as Três Flechas. Ambas foram conquistadas até o meio da tarde. Ao final da tarde, os russos bateram em retirada, mas Napoleão não os perseguiu como de costume, limitando-se a disparar seus canhões contra as tropas de Kutuzof, que se retiravam ordenadamente rumo a Moscou.

Ambos os exércitos tiveram pesadas baixas, com um grande números de oficiais franceses tombando. Mas mesmo perdendo mais soldados, Alexandre I não pediu o armistício esperado por Napoleão, que decide continuar avançando sem dificuldade sobre Moscou.

Ao chegar a Moscou, em 14 de setembro de 1812, ele encontra uma cidade praticamente vazia, pois a maioria da população já a havia abandonado. Na manhã seguinte o governador, conde Rostopchin, manda incendiar a cidade, dificultando a permanência dos franceses. No dia 19 de outubro, Napoleão dá a ordem de retirada até o rio Niemen, para fugir do inverno russo.

Com um frio de 35 graus centígrados negativos, privados de suprimentos, malvestidos, enfraquecidos pela fome, frio, doenças e cansaço, perseguidos por Kutuzof e sob ataques constantes da cavalaria cossaca, os franceses recuaram. No final somente 10 mil, dos mais de 600 mil soldados que integravam o chamado “Imenso Exército” regressaram, sendo esse episódio um dos maiores desastres da história militar.

Comparando as atuações dos dois comandantes nas batalhas de Austerlitz e na campanha da Rússia é possível perceber uma superioridade de Napoleão e seu exército no campo estratégico e operacional. Sua capacidade de manipular o inimigo de forma a manter a iniciativa no combate mesmo numa situação tática defensiva, como em Austerlitz, obrigando os russos a atacar quando e onde queria foi magistral e fundamental para o sucesso naquela batalha.

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Os russos, porém, demonstraram um grande aprendizado sobre o modus operandi de Napoleão, em especial da estratégia de se suprir in loco, adotando a estratégia de “terra arrasada” e usando a imensidão do território russo para amortecer a força do exército francês. Outro êxito foi negarem a iniciativa a Napoleão, furtando-se ao combate, procurando a oportunidade certa para lutar.

Mas é importante notar que mesmo com todo atrito, Napoleão venceu a única grande batalha campal que os russos se propuseram a combater, em Borodino. Nessa batalha, Kutuzof conseguiu forçar Napoleão a um ataque frontal contra suas posições fortificadas, algo que ele normalmente não gostava de fazer por causa do alto número de baixas, como aconteceu em Borodino. Mas mesmo vencendo a batalha, Napoleão não conseguiu dar o golpe final que arrancaria dos russos um armistício, vendo-se forçado a seguir até Moscou em sua busca, enterrando seu exército cada vez profundamente no território russo. Com a chegada do inverno, Napoleão não teve outra alternativa senão bater em retirada, sendo ele desta vez perseguido pelos russos, na tentativa de destruir seu exército.

Bibliografia

CLAUSEWITZ, Carl Von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 930p.

FACCIOLI, Alexandre (dir.). As Grandes Batalhas da História. São Paulo: Larousse, 2009. V2. 216p.

JOMINI, Henri. A Arte da Guerra. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1947. 151p.

MAGNOLI, Demétrio (org.). A História das Guerras. São Paulo: Contexto, 2006. 521p.


*Cristiano Oliveira Leal é aficionado em história e aviação militar desde a infância, iniciando suas primeiras pesquisas ainda na adolescência. Após o serviço militar no 2º Regimento de Cavalaria Mecanizada, cursou graduação em História na Unisinos, período em que passou a estudar Teoria Militar e estagiou durante um ano no Museu Militar do Comando Militar do Sul. Realizou pesquisas em alguns dos principais museus militares britânicos, em especial os da Royal Air Force. É titulado Especialista em História Militar pela Unisul.


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8 comentários sobre “Austerlitz e a campanha russa

  1. É curioso que a estratégia de terra arrasada foi muito usada na terceira invasão francesa a Portugal. Provocando perdas terríveis para os franceses.

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  2. O autor, com formação teórica em história militar, foi muito feliz no tema que nos brindou.
    Napoleão, grande militar, nos deixou ricos ensinamentos em estratégias militares.
    Parabéns ao autor. Sempre aguardo, com expectativas crescentes, novos artigos.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Mais um excelente artigo no Velho General de seus insignes colaboradores !
    O mais espantoso é que os alemães, tal como os franceses, invadiriam a Rússia em 1941 e novamente o frio, a vastidão dos campos sovieticos e a precariedade da infra-estrutura de transporte tornaram sem sentido invadir aquele país e toda uma geração morreu em vão, sem glória e com muito sofrimento.

    Curtido por 1 pessoa

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