Aço ao invés de carne: a influência do tanque na 1ª Guerra Mundial

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Tropas americanas em tanques Renault FT-17 avançam para a frente de combate na floresta de Argonne, França, 26 de setembro de 1918 (Foto: US Army/Domínio Público).

O largo emprego de trincheiras, resultado do desenvolvimento tecnológico das armas de alta cadência de fogo, levou a Primeira Guerra Mundial a um impasse tático e estratégico. A necessidade de um veículo capaz de transpor o terreno e proteger a infantaria do fogo das metralhadoras levou ao desenvolvimento do tanque.


1. Introdução

Quando se fala em Primeira Guerra Mundial a primeira imagem que nos vem à mente é a das trincheiras. Seu emprego nesse conflito foi o ápice de uma tendência que se desenvolvia desde a segunda metade do século XIX, devido ao desenvolvimento tecnológico das armas de fogo. Com o início da Primeira Guerra Mundial essa tendência criou um impasse tanto a nível tático como estratégico, impedindo a definição do conflito e pondo em xeque o modelo de guerra existente. Mas como isso se originou?

Experiências foram feitas ao longo da guerra para desenvolver meios para romper as defesas inimigas, tanto em nível tecnológico quanto operacional. Porém nenhuma se tornou um fator decisivo, servindo apenas para aumentar a crueldade do conflito. Isso só começou a mudar com a introdução do tanque[1], mas de que forma ocorreu?

Entender como esse impasse se formou e colocou em xeque a concepção de guerra que existia; e a importância do desenvolvimento e utilização do tanque durante a Primeira Guerra Mundial para restaurar o caráter ofensivo da guerra e dar a vitória aos Aliados, é o objetivo deste artigo.

2. A formação do impasse

A partir da segunda metade do século XIX, com a Segunda Revolução Industrial, algumas inovações tecnológicas aumentaram significativamente o poder de fogo dos exércitos. Fuzis de retro carga com projéteis encapsulados aumentaram em cerca de cinco vezes a taxa de tiro por soldado. O estriamento de canhões e armas individuais aumentou o alcance e a precisão dos elementos da infantaria e artilharia, dando início a uma grande mudança na forma de se fazer a guerra.

Historicamente, no que se refere às armas de fogo, os militares continuamente buscaram por maior alcance e cadência, e com esse objetivo foram inventados os primeiros modelos do que veio a ser chamado de metralhadora, com destaque para as armas rotativas Gatling, com um mecanismo de tiro movido a manivela, usadas durante a Guerra Civil Americana.

Mas a primeira metralhadora realmente automática, que utilizava os gases da deflagração da munição para municiar e rearmar o mecanismo de disparo, surgiu em 1884 pelas mãos de Hiram Maxim e foi adotada pelos britânicos em 1889 (Figura 1). Essas primeiras metralhadoras eram armas grandes e pesadas, sendo necessário de três a seis homens para manejá-las, e atingiam uma cadência de disparo de 600 tiros por minuto.

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FIGURA 1: as primeiras metralhadoras Maxim a serviço dos britânicos. Royal Armouries, Leeds (Foto: acervo pessoal do autor).

O significativo aumento do poder de fogo dos exércitos levou a uma tendência que já havia sido observada na Guerra Civil Americana, o entrincheiramento (Figura 2). Como foi observado pelo coronel da União Theodore Lyman: “Coloque um homem num buraco e uma boa bateria numa colina atrás dele, e ele repelirá três vezes o seu número mesmo que não seja um soldado muito bom”[2].

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FIGURA 2: soldados confederados mortos numa trincheira em Fredericksburg, maio de 1863 (Foto: Messenger, 1978).

O mesmo foi observado durante a Guerra Franco Prussiana, com o general Helmuth von Moltke afirmando que “sem dúvida alguma, o homem que atira deitado sem se mover tem a vantagem sobre quem atira enquanto avança: o primeiro tem a proteção do solo, ao passo que o outro encontra obstáculos”. Por isso, os tradicionais ataques frontais haviam perdido completamente o sentido, “… portanto tem de voltar-se para os flancos da posição do inimigo”, apontou von Moltke[3].

Em 1914 teve início a Primeira Guerra Mundial e essa mesma tendência ao entrincheiramento não só se repetiu como se tornou a principal característica desse sangrento conflito. Isso aconteceu devido ao gigantesco tamanho e poder de fogo dos exércitos envolvidos e pela situação estratégica da Alemanha, que precisava enfrentar ingleses e franceses a oeste e russos a leste.

Para enfrentar essa situação, os alemães elaboraram o Plano Schliefen (Mapa 1). O plano previa um grande e rápido movimento através da Bélgica, evitando as defesas da fronteira com a França, para envolverem e conquistarem Paris. Para isso teriam sete semanas, prazo estimado para o término da mobilização da Rússia. Assim esperavam derrotar a França e retirar a Inglaterra do continente ou da guerra, para depois concentrarem-se na guerra contra a Rússia.

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MAPA 1: o Plano Schliefen. Fonte: Shermer, Heiferman, Mayer, 1975.

Na fase inicial da guerra, durante a invasão da Bélgica e França, houve grandes movimentos de exércitos de ambos os lados. Mas a Rússia terminou sua mobilização antes do esperado e atacou a Prússia Oriental. E a desesperada resistência francesa e inglesa durante a primeira batalha do Marne impediram os alemães de concluírem seu plano, apesar de terem se aproximado perigosamente de Paris.

Os alemães viram-se então forçados a dividir suas forças em duas frentes, mandando grande parte para recuperar os territórios perdidos no leste. E no oeste, para assegurar o terreno conquistado, que envolvia o leste de França e quase toda Bélgica, construíram posições defensivas. Franceses e ingleses, impossibilitados de atacar após o extremo esforço durante a batalha do Marne, fizeram o mesmo.

As tentativas de flanqueamento dessas posições levaram a ampliação das mesmas, fazendo com que elas se unissem formando uma única linha defensiva, que se estendia do mar do norte até os Alpes italianos. Por causa disso o flanqueamento de uma posição se tornou impossível, e os comandantes não tinham outra opção a não ser custosos ataques frontais contra as trincheiras inimigas.

A metralhadora se tornou a principal arma nessa forma de guerra. Colocadas em casamatas reforçadas, pequenas equipes podiam varrer grandes porções do campo de batalha com alta cadência de fogo, causando grandes baixas à infantaria atacante. Por causa disso, os infantes nutriam ódio especial em relação às metralhadoras, geralmente matando sem piedade quem as operava (Figura 3).

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FIGURA 3: diorama em escala real de uma equipe inglesa de metralhadora Vickers com máscaras de gás em uma trincheira. National Army Museum, Londres (Foto: acervo pessoal do autor).

A Frente Ocidental entrou em um impasse, com nenhum dos lados conseguindo um rompimento decisivo das defesas inimigas. As tentativas para resolver essa situação se resumiam a longos bombardeios preparatórios de artilharia para tentar destruir as casamatas e no emprego da superioridade numérica de armas e soldados. Mas os resultados eram desanimadores, pois o sacrifício de homens não compensava a pouca conquista de terreno que realizavam. Isso quando conseguiam.

Ambos os lados estavam desesperados em conseguir resultados, e buscaram por novas armas e táticas que lhes dessem alguma vantagem tática ofensiva. Quando era introduzida alguma inovação tecnológica que apresentasse alguma utilidade ela era logo copiada pelo outro lado. Isso serviu somente para aumentar a escala de violência, enquanto o impasse se mantinha.

A defesa havia se tornado mais realizável que o ataque, e a necessidade de realizá-lo, associado a um desconhecimento do potencial mortífero dos novos armamentos, tornou os campos de batalha da frente ocidental em verdadeiros matadouros. Era urgentemente necessário para os comandantes resolver o impasse da guerra de trincheiras, pois segundo o pensamento de Carl von Clausewitz, em sua obra Da Guerra, isso ia contra a natureza da guerra.

Segundo Clausewitz, a guerra é um instrumento político para impor nossa vontade sobre o outro. Essa imposição se realiza através do ataque, ou, segundo o prussiano, “objetivo positivo”; a defesa, por sua vez, visa unicamente à desistência do inimigo em nos impor sua vontade, “objetivo negativo”[4]; e não seu convencimento em não nos atacar nunca mais. Ou, como resumiu Sun Tzu, “A invencibilidade, está na defesa. A possibilidade da vitória, no ataque”[5].

Quando ambos os lados assumem uma postura defensiva, não há combate, sendo assim a própria negação da guerra. A guerra tem como objetivo principal a anulação da capacidade do inimigo resistir à vontade que lhe é imposta. Vontade esta que está incorporada em suas forças armadas. Dessa forma, via de regra, todos os ataques tem como objetivo a supressão ou destruição da capacidade combativa do inimigo.

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3. A solução: o tanque

Para a guerra retomar seu caráter ofensivo os comandantes da Primeira Guerra tinham que resolver um problema fundamental: como diminuir as baixas da infantaria. A solução proposta pelo Almirantado Britânico era um veículo que transpusesse o terreno, protegendo a infantaria do fogo das metralhadoras e que lhes desse apoio de fogo contra pontos defensivos mais resistentes.

Os carros blindados, que muitas vezes consistiam em caminhões com chapas de aço e uma ou duas metralhadoras, já circulavam pelas estradas desde o início da guerra, principalmente no lado Aliado. Mas era impossível empregá-los nos esburacados campos de batalha da frente ocidental. Por isso o novo veículo foi baseado no sistema de lagartas que já era empregado em tratores. Dessas ideias surgiu o tanque.

A aparição do tanque causou reações diversas, que em geral iam da dúvida ao sarcasmo. Mas também houve os que perceberam o potencial da nova arma, como o major inglês J. F. C. Fuller, que escreveu sobre seu primeiro encontro com o tanque: “Ali estava o ‘x’ da equação da vitória. Bastava apenas fazer com que as pessoas vissem o problema…”[6].

A primeira ação de tanques da história ocorreu no dia 15 de setembro de 1916, durante a ofensiva do Somme, envolvendo cerca de 50 tanques pesados Mark I (Figura 4). Os tanques causaram surpresa e mesmo terror por onde apareceram, mas só conseguiram realizar uma penetração de 1.600 m em torno das aldeias de Flers-Courcelette, com muitos enguiçando, atolando ou sendo destruídos pela artilharia alemã.

O desempenho do tanque não foi convincente, e os elementos mais conservadores do exército o relegaram ao papel de acessório em suas táticas tradicionais. Por isso ao longo de 1917 os tanques foram usados apenas em pequenos números, com êxitos variados, em geral com um ou dois tanques enviados para neutralizar um ponto específico de uma incômoda trincheira.

A desconfiança em relação ao emprego dos tanques chegou ao ápice naquele ano, com os péssimos resultados obtidos nos pântanos ao redor de Agincourt, na primavera, e no terrível lodaçal de Passchendaele, no outono, com os Mark I chapinhando lentamente pela lama e ficando atolados até o nível de suas armas laterais. Imobilizados, foram sistematicamente abatidos pela artilharia alemã.

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FIGURA 4: um Mark I chegando para participar da primeira ação da história envolvendo tanques, na área conhecida como Chimpanzee Valley, em 15 de setembro 1916 (Foto: Orgill, 1979).

Os resultados negativos obrigaram os projetistas a realizar melhorias no projeto, dando origem ao Mark IV. Outra mudança importante foi a formação do Corpo de Tanques, em junho de 1917, sob o comando do brigadeiro-general Hugh Elles. O planejamento do treinamento e operação do Corpo ficou a cargo do major Fuller, primeiro oficial de estado-maior de Elles, e coube a ele a tarefa de provar aos céticos o potencial da nova arma.

Uma das principais causas observadas do fracasso dos tanques no teatro de operações era o terreno. As tripulações eram treinadas nas planícies inglesas e colocadas para combater em um terreno lamacento e esburacado pela artilharia, fazendo com que os tanques perdessem a mobilidade. Com frequência atolavam ou caíam em crateras de artilharia. Por isso era necessário empregá-los em grande quantidade e em terreno plano e pouco danificado para que atingissem o grau de eficiência esperado.

Essa nova abordagem foi testada na batalha de Cambrai, iniciada em 20 de novembro de 1917, quando 476 tanques Mark IV foram lançados contra um trecho da Linha Hindenburg. Era uma área bem defendida, por isso quase não foi atacada durante a guerra, o que preservou o terreno. E foi por esse motivo que o Corpo de Tanques escolheu aquele ponto para o ataque.

Não houve a tradicional barragem preliminar de artilharia, o que garantiu o elemento surpresa, com alguns soldados alemães entrincheirados só percebendo o que estava acontecendo quando os tanques apareceram sobre suas cabeças, e debandando em completa desordem. O ataque foi um sucesso, tendo sido conquistados 10 km de território, 100 canhões e 4.000 alemães capturados[7].

O problema foi que a operação que Fuller planejou como uma incursão de tanques contra a Linha Hindenburg evoluiu, por iniciativa do Alto Comando, para a tomada de um saliente que se revelou extremamente difícil de defender, acabando por colocar tudo a perder. O contra-ataque alemão não só retomou o território perdido, como melhorou sua posição com a conquista de parte da linha britânica.

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As lições sobre o uso dos tanques durante a batalha de Cambrai foram assimiladas de diferentes formas por ambos os lados, e acabou por assumir uma grande importância para o andamento da guerra. O sucesso do rompimento das defesas alemãs deixou claro para a maioria dos céticos entre os Aliados que o tanque era um fator decisivo se usado corretamente, e a partir daquele momento passaria a ter um papel cada vez maior nas operações.

Por outro lado, os alemães, acreditando na boa utilização da teoria de Clausewitz, que coloca os aspectos morais acima dos aspectos materiais, chegaram a uma conclusão completamente oposta. O sucesso da artilharia e de soldados armados com granadas levou os alemães a crer que os tanques pouco conseguiriam se confrontados resolutamente. Como consequência, pouco investiram na formação de um corpo blindado próprio.

Com a chegada da primavera de 1918, os alemães, reforçados com as tropas oriundas da frente oriental, lançaram uma grande ofensiva que teve início com a Operação Michael, um violento ataque contra as linhas francesas na região do Somme. Apesar da violência do ataque, problemas de abastecimento fizeram com que o ímpeto da ofensiva fosse diminuindo até parar a 64 km de Paris.

Como a frente britânica ao sul do Somme estava relativamente calma, o comando britânico resolveu dar início a uma pequena ofensiva que tinha como objetivos elevar o moral aliado, mostrando que os alemães não tinham a iniciativa total, descobrir como o moral alemão iria reagir com o desapontamento em conseguir um avanço decisivo na ofensiva da primavera e identificar os melhores pontos de partida para a ofensiva britânica que iria ser realizada mais tarde naquele ano.

O 4º Exército, composto por britânicos e australianos, foi encarregado da ofensiva, cabendo ao tenente-general John Monash (Figura 5), comandante do Corpo Australiano, a preparação da operação. Ele acreditava no uso de qualquer recurso mecânico, na forma de canhões, metralhadoras, aviões e tanques, para minimizar as baixas da infantaria.

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FIGURA 5: tenente-general John Monash, comandante do Corpo Australiano (Foto: Orgill, 1979).

Para testar suas ideias, Monash escolheu uma crista que corria para o norte, entre Villers-Bretonneux até o rio Somme, dominada pelas ruínas da aldeia de Hamel. Capturada pelos alemães em 4 de abril, essa posição dava aos observadores de artilharia alemães localizados na vila uma ampla visão das posições australianas ao norte do Somme, e por isso deveria ser neutralizada.

Desde o início Monash planejou o ataque como uma operação de tanques, deixando bem claro ao comando que todo o sucesso dependeria deles. Aos tanques coube a tarefa de conquistar o terreno, enquanto a infantaria deveria se deslocar em pequenos grupos atrás dos tanques para auxiliar na destruição de pontos fortes, limpeza e consolidar a posse do terreno conquistado.

Na operação foram empregados 60 novos tanques Mark V da 5ª Brigada de Tanques britânica e 8.500 infantes, um número muito reduzido de soldados para os padrões de ataques que vinham sendo realizados até então. Porém contava com um pesado apoio de artilharia, composto por 320 canhões da campanha e 313 canhões pesados[8].

O apoio aéreo foi fornecido pelo 8º Esquadrão da Real Força Aérea (RAF), que tinha como função lançar munição de paraquedas para os soldados que combatiam em solo. As posições de lançamento foram marcadas com um “V” de pano branco colocados pela infantaria. Também usou quatro tanques como veículos de abastecimento, suprindo as tropas envolvidas na consolidação das posições conquistadas com munição, água, arame farpado e chapas de metal corrugado para reforçar as posições conquistadas.

O ataque teve início às 03h10 da manhã de 4 de julho, com uma curta barragem de artilharia. No início houve certa confusão e dificuldades de entrosamento entre tanques e infantaria por causa da pouca luminosidade, mas à medida que o dia clareava esses problemas foram desaparecendo. E todo o esforço de Monash em treinar e entrosar a infantaria e as equipes dos tanques se justificou.

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Todo estudo e preparação deram resultado, com a batalha terminando pouco mais de uma hora e meia depois com um número considerável de alemães mortos e 1.400 capturados, juntamente com dois canhões, 41 morteiros e 171 metralhadoras, a um custo de cinco tanques, 57 oficiais e 852 soldados aliados mortos ou feridos, sendo a maioria ferimentos leves[9]. Para os padrões da Frente Ocidental era um custo muito pequeno em comparação ao terreno conquistado. Sobre esse sucesso, Fuller escreveu:

“Em rapidez, brevidade e sucesso, nenhuma batalha da guerra pode comparar-se com a de Hamel. As lições que aprendemos são de suma importância… Não é no que ela realizou – a captura de alguns quilômetros quadrados de terreno e 1.506 prisioneiros – que reside o grande valor dessa batalha, mas na ideia subjacente nela. Agora, não há como deixar de ver que tudo se resuma numa questão de bom senso – uma placa de aço detendo uma bala. Esse foi o momento decisivo da nossa tática e a partir de 4 de julho já não havia dúvida quanto ao vencedor da guerra terrestre – a pedra filosofal era nossa(…)” (in ORGILL, 1979, p. 53)

Para o comandante alemão Erich Ludendorff ficava cada vez mais evidente que o tempo não favorecia os alemães, pois a cada dia mais soldados americanos chegavam à França e a situação da falta de recursos se tornava cada dia mais crítica. Por isso resolveu apostar tudo em um novo ataque a leste e oeste de Reims, chamado por ele de Friedensturm, “Ofensiva da Paz”. Apesar da meticulosidade de seu planejamento, pouco fizeram para manter os planos em segredo e logo todo o front ocidental sabia sobre sua preparação.

O ataque foi planejado e executado nos mesmos moldes que os alemães vinham empregando até então, sendo que o único aspecto que distinguiu a Friedensturm dos demais foi o emprego de 14 tanques A7V (Figura 6) – único modelo desenvolvido pelos alemães durante a guerra –, e seis Mark I capturados dos britânicos. Porém todos foram destruídos pela artilharia francesa em poucas horas[10].

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FIGURA 6: o A7V (Foto: Willmott, 2008).

Ao saber dos planos para a ofensiva, o Alto Comando francês deu início à preparação de sua defesa. Sob o comando de Pétain, os franceses adotaram uma estratégia de defesa elástica, cedendo terreno para amortecer o impacto do ataque e atraindo os alemães para longe de sua cobertura de artilharia e de suas fontes de suprimentos. O efeito da adoção dessa estratégia pode ser percebido no relato de um jovem oficial alemão:

“(…) para ali os franceses nos atraíram deliberadamente. Eles não ofereceram resistência na frente. Eles não tinham nem infantaria nem artilharia nessa zona de batalha avançada. Nossos canhões bombardearam trincheiras vazias; nossas granadas de gás asfixiavam posições de artilharia vazias; apenas em algumas dobras do terreno havia postos de metralhadoras, escondidos como piolhos nas dobras de um traje, para dar às forças atacantes calorosa recepção. Após uma luta ininterrupta desde as 05h00 até a noite, continuamente reprimidos pelo cuidadosamente dirigido fogo de artilharia, conseguimos avançar apenas três quilômetros… Não vimos um único francês morto, assim como não foi capturado um só canhão ou metralhadora, e sofremos pesadas baixas (…)” (in ORGILL, 1979, p. 65)

No fim do primeiro dia, devido ao grande número de baixas sofridas pelos alemães sem terem conquistado nada, Ludendorff suspendeu o ataque a leste de Reims. A oeste a situação parecia mais favorável, com os alemães conseguindo cruzar o rio Marne e estabelecer uma firme cabeça de ponte na outra margem, e lá pararam para reorganizar suas forças.

A pausa no avanço deu a tempo para os franceses organizarem suas defesas impedindo maiores avanços. Pétain então ordenou um contra ataque contra os flancos alemães a leste e oeste de Reims, solicitou reforços aos ingleses e lançou o 10º exército do general Mangin para fechar o gargalo do bolsão.

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FIGURA 7: o tanque leve francês Renault FT (Foto: Shermer, Heiferman, Mayer, 1975).

Mangin fez uso de 225 tanques leves Renault FT (Figura 7), causando grande consternação aos alemães. Segundo Ludendorff, “… o movimento rápido dos numerosos e velozes tanques por entre os milharais aumentou o efeito da surpresa” (ORGILL, 1979, p. 72). Porém como eram leves, muitos foram perdidos durante o ataque. O ataque de Mangin animou aos aliados e desanimou os alemães, mas não impediu que eles voltassem a atravessar o rio Marne.

Os Aliados então organizaram um contra ataque no setor de Amiens, para o qual foi escolhido o 4º Exército britânico. Assim como em Hamel, o terreno era favorável para o uso de tanques e as defesas naquele setor eram consideradas fracas. Além disso, a gripe espanhola estava começando a afetar ambos os lados, mas principalmente os alemães, cuja moral começava a fraquejar ao constatarem o crescente número de soldados americanos que vinham enfrentando.

Monash organizou a operação semelhante à realizada em Hamel, mas em escala maior. Novamente a infantaria era a menor força praticável, enquanto os tanques consistiam na força principal, com 400 Mark V para fazerem o rompimento e 96 tanques médios Mark A Whippet (Figura 8) para atuarem como cavalaria e explorarem em profundidade as brechas na defesa alemã. Monash também contava com mais de dois mil canhões da campanha e pesados e 17 esquadrões da RAF para o apoio aéreo, sendo que três destes eram de bombardeiros[11].

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FIGURA 8: o tanque médio britânico Mark A Whippet (Foto: Orgill, 1979).

No dia 8 de agosto teve início o ataque. Novamente uma breve barragem de artilharia garantiu a surpresa do ataque e os soldados da linha de frente debandaram apavorados. Logo os tanques conseguiram romper as defesas e iniciaram a limpeza, apoiados pela infantaria. Os Whippet conseguiram infiltrar-se na retaguarda das linhas alemãs e instauraram o caos, destruindo suprimentos, transportes, interrompendo as comunicações e provocando a retirada desordenada de um corpo completo do exército alemão.

O resultado do primeiro dia de ataque foi estrondoso. A frente alemã cedeu uma extensão de 24 km e cerca 700 oficiais e 27.000 soldados alemães foram mortos, capturados ou seriamente feridos[12]. O moral do exército alemão caiu por terra e unidades inteiras se renderam ou debandaram.

Ludendorff declarou que o dia 8 de agosto de 1918 “foi o dia mais negro do exército alemão na história da guerra”[13]. No dia 11 o ataque foi encerrado, com um total de baixas de mais de 46.000 aliados e 75.000 alemães[14]. Pela primeira vez na guerra os Aliados conseguiram realizar um grande e decisivo avanço, impondo aos defensores alemães baixas maiores que as suas.

O ataque do dia 8 de agosto marcou o colapso do moral alemão e convenceu Ludendorff de que não havia mais esperança de vitória. Obviamente, haviam outros fatores que vinham pressionando o moral alemão, como o bloqueio econômico que estava deixando o povo a beira da fome, e o crescente número de soldados norte americanos que chegavam a cada semana. Mas com certeza o sucesso alcançado pelos aliados nesse dia foi fundamental antecipar a conclusão da guerra[15].

Percebendo a desmoralização dos alemães, no dia 22 o Alto Comando aliado emitiu ordens a todos os setores para avançar (Figura 8): “Não é mais necessário avançar passa a passo em linhas regulares como nas batalhas de 1916-17. Todas as unidades têm de ir direto aos seus objetivos, enquanto que as reservas devem ser lançadas onde estivermos ganhando terreno” (MESSENGER, 1978, p. 152).

FIGURA-9
FIGURA 9: Tanque Mark V canadense avança passando por prisioneiros alemães transportando um colega ferido (Foto: Orgill 1979).

Ainda no início de 1918, ambos os lados faziam planos para a continuação da guerra em 1919. Mesmo com o contingente aliado sendo reforçado pelos Estados Unidos, os alemães acreditavam que através do atrito e de suas bem testadas capacidades defensivas e de contra-ataque poderiam equilibrar a situação, como foi entre 1914 e 1917, a fim de buscar por condições mais favoráveis em uma negociação com os Aliados.

Porém o crescente sucesso na utilização dos tanques desde Cambrai e ao longo de 1918 deixou clara a vantagem tática dos Aliados no campo de batalha, tornando possível a realização de ataques bem sucedidos, proporcionando conquista de grandes áreas de terreno a um custo reduzido para os padrões vigentes até então. E essa capacidade os alemães não tinham.

Enquanto os aliados desenvolviam e testavam seus tanques e táticas, os alemães, devido aos resultados iniciais favoráveis que obtiveram contra os aliados e suas máquinas, subestimaram sua utilidade como fator decisivo. Quando iniciaram seus trabalhos no sentido de utilizar tanques, a desvantagem era demasiada, pois os aliados já tinham mais experiência e eram capazes de produzir e empregar tipos diferentes e tanques em grandes quantidades. E o 8 de agosto evidenciou aos alemães essa desvantagem e a impossibilidade de obter a vitória.

4. Considerações finais

Após anos de impasse, a introdução do tanque em larga escala no front ocidental forneceu a vantagem tática necessária para os Aliados realizarem grandes rompimentos nas defesas alemãs de uma forma que não havia sido vista desde o início da guerra. Como os alemães não tinham essa capacidade, a balança da vitória se desequilibrou em favor dos aliados.

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Dizer que vitória aliada foi o resultado do emprego do tanque é um exagero, pois haviam diversas questões que pressionavam estrategicamente a Alemanha. Os anos de guerra que sugaram recursos materiais e humanos, agravados pelo bloqueio econômico imposto pelos Aliados; e a entrada efetiva dos Estados Unidos na guerra, a partir de 1917, foram fundamentais para a derrota alemã.

A importância da introdução do tanque e o desenvolvimento de uma doutrina para seu emprego naquele conflito residem no fato de ter sido fundamental para convencer o comando alemão da futilidade de prosseguir com a guerra, haja vista os fatores citados acima e o crescente sucesso em seu emprego, desde a batalha de Cambrai até o “8 de agosto”.

Além disso, o tanque restabeleceu o caráter dinâmico e ofensivo natural da guerra, tornando a possibilidade de se realizar ataques eficientes a um custo humano bem menor em uma realidade. Assim, o tanque abriu um novo caminho para a guerra, mas isso só ficou evidente vinte anos mais tarde, ironicamente pelas mãos dos alemães, quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial.

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*Cristiano Oliveira Leal é aficionado em história e aviação militar desde a infância, iniciando suas primeiras pesquisas ainda na adolescência. Após o serviço militar no 2º Regimento de Cavalaria Mecanizada, cursou graduação em História na Unisinos, período em que passou a estudar Teoria Militar e estagiou durante um ano no Museu Militar do Comando Militar do Sul. Realizou pesquisas em alguns dos principais museus militares britânicos, em especial os da Royal Air Force. É titulado Especialista em História Militar pela Unisul.


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Notas

[1] O veículo recebeu esse nome porque seu projeto foi especificado como se fosse um veículo cisterna, de maneira a não chamar a atenção de algum espião mais astuto. Neste artigo, optamos por empregar os termos “Tanque” e “Antitanque” ao invés dos termos oficias “Carro de Combate” e “Anticarro” utilizados no Exército Brasileiro.

[2] in MESSENGER, 1978, p. 9

[3] idem, p. 10

[4] CLAUSEWITZ 2003, p. 467

[5] SUN TZU 2000, p. 43

[6] ORGILL, 1979, p. 19

[7] idem, p. 26

[8] idem, p. 40

[9] idem, p. 53

[10] idem, p. 59

[11] idem, p. 82

[12] idem, p. 120

[13] in SHERMER, HEIFERMAN, MAYER, 1975, p. 211

[14] MESSENGER, 1978, p. 121

[15] SHERMER, HEIFERMAN, MAYER, 1975, p. 214

Referências

CLAUSEWITZ, Carl Von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

FACCIOLI, Alexandre (dir.). As Grandes Batalhas da História. São Paulo: Larousse, 2009. V3.

FARMAN, Christopher (Edit). A Arte da Guerra. São Paulo: Abril Livros, 1993.

FLEMING, Fergus (Edit). O Mundo em Armas. São Paulo: Abril Livros, 1993.

GUDERIAN, Heinz. Panzer Líder. Rio de Janeiro Biblioteca do Exército, 1966.

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos. O breve século XX: 1914-1991. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

JOMINI, Henri. A Arte da Guerra. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1947.

MAGNOLI, Demétrio (org.). A História das Guerras. São Paulo: Contexto, 2006.

McNEILLY, Marc. Sun Tzu e a Arte da Guerra Moderna. Rio de Janeiro: Record, 2003.

MESSENGER, Charles. A Guerra de Trincheiras. Rio de Janeiro: Renes, 1978.

ORGILL, Douglas. Tanques-1918. Rio de Janeiro: Renes, 1979.

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SHERMER, David; HEIFERMAN, Ronald; MAYER, S.L.. As Guerras do Século XX. Rio de Janeiro: Primor, 1975. 511p.

TZU, Sun. A Arte da Guerra. 1.ed. Porto Alegre: L&PM, 2000.

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