Antropologia do crime organizado no Brasil

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Cel-Montenegro.png Por Fernando Montenegro*

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Foto: Rodrigo Abd/AP.

A compreensão da antropologia do crime organizado, das relações entre os delinquentes, da construção da identidade dos indivíduos e da cultura das organizações criminosas é fundamental no combate às facções que atuam no país.


As técnicas, táticas e procedimentos de guerra irregular usados pelo crime organizado no Brasil foram assimilados pelos revolucionários comunistas na década de 1960 em Cuba, na China, Albânia e outros países da Cortina de Ferro.

Posteriormente, o guerrilheiro brasileiro Carlos Marighella os sintetizou escrevendo o Mini Manual do Guerrilheiro Urbano (1969), conhecido e usado pelas principais organizações terroristas e criminosas do mundo a partir de então. No início da década de 1970 os integrantes da luta armada e criminosos comuns foram acomodados juntos no Presídio da Ilha Grande. Nessa oportunidade os ensinamentos foram difundidos.

Da simbiose entre criminosos políticos e comuns, nasceu a Falange Vermelha, que depois evoluiu, sofisticou-se e tornou-se o Comando Vermelho (CV), primeira facção de crime organizado do Brasil, desenvolvendo conexões internacionais como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Na década de 1990 houve uma proliferação de facções do crime organizado, destacando-se o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Terceiro Comando Puro (TCP), dentre outros. Várias delas passaram a ter alguns procedimentos e comportamentos similares.

As facções de crime organizado possuem sua “cultura” oculta que no fundo as diferencia de outras instituições sociais. Desvendando os valores culturais dessa sociedade criminosa, é viável identificar as motivações de seus integrantes, o grau de dedicação dos seus componentes e as razões do seu sucesso.

Criar uma visão antropológica das facções criminosas tem como objetivos: identificar o conjunto de valores que formam a sua cultura; possibilitar subsídios ao combate às atividades desenvolvidas frente às transformações socioculturais do contexto atual; possibilitar a compreensão da complexidade e diversidade presentes na intensa relação criminoso-facção criminosa-sociedade.

Um estudo das sociedades considera a especificidade da espécie humana e seu universo cultural. A visão cultural-antropológica aproxima os gestores e as organizações da realidade em que vivem, ou seja, dos costumes, das pessoas e do ambiente real.

Antropologia Filosófica é uma disciplina recente. Inicialmente os filósofos gregos preocupavam-se apenas com os mistérios do cosmo e do universo. Sócrates desceu a filosofia do espaço para a Terra, criou a investigação antropológica e definiu o homem como o ser que pensa (animal racional). Seguem-se inúmeras visões sobre o Homem como: a Medieval (predominantemente cristã), a Moderna (baseada nos questionamentos de Emanuel Kant sobre a moral, metafísica, religião e conhecimento) e as diversas especialidades da Contemporânea e seus estudiosos, dentre eles Karl Marx e Sigmund Freud. No entanto, não há necessidade de aprofundar neste assunto aqui.

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Sendo a Antropologia uma ciência que estuda o homem, sua origem, sua natureza, seu modo de vida sobre a situação no mundo, cabe obter uma visão mais ampla do integrante dessa facção criminosa em suas múltiplas e mais profundas dimensões.

O criminoso não nasce pronto, precisa ser criado e optar por esse estilo de vida. Muitas pessoas nascem no mesmo ambiente que os criminosos e não aderem à criminalidade. Às vezes até mesmo entre dois irmãos gêmeos idênticos que possuem a mesma educação e padrão de vida, um escolhe ser bandido e outro não. O que se pretende afirmar é que o fator “livre-arbítrio” nunca deve ser desconsiderado. Também não significa que não existem inúmeros atrativos para que um jovem seja seduzido pelo crime organizado.

O homem é um ser de necessidades biológicas, psíquicas e sociais, satisfeitas na relação que estabelece com o ambiente, consigo mesmo e com a sociedade local. A sociedade de consumo atual instiga seus integrantes a compulsivos hábitos de consumo, criando muitas vezes falsas necessidades materiais que se manifestam na aquisição desnecessária de bens.

As necessidades biológicas dos integrantes dessas facções são supridas pelo seu “trabalho”(atividade criminosa), que provê sua fonte de renda e custeio da sobrevivência. Muitas vezes os integrantes das facções criminosas buscam um consumo acima de suas necessidades ou de artigos extremamente caros para ostentação à comunidade em que vivem. Suas necessidades de locomoção acabam ocorrendo utilizando-se de carros de luxo ou motocicletas de grandes cilindradas. Esse é um rastro que possibilita a sua identificação pelo sistema de inteligência das forças de segurança.

As necessidades psíquicas são supridas pela relação consigo mesmo, é a descoberta da individualidade, do EU. Essa percepção implica em autoconhecimento, cultivo da autoestima e cuidados pessoais. Existem várias maneiras de identificar esses aspectos nos integrantes dessas facções. Dentro da hierarquia atual, os principais líderes costumam ostentar grossos cordões de metais nobres (ouro, prata e platina), normalmente com pingentes grandes com iniciais das facções, armas automáticas ou iniciais dos líderes do crime. A gravação de determinados desenhos específicos na pele também é uma forma de manifestação desse aspecto. Após observar os padrões das tatuagens e conversas com moradores das comunidades ocupadas por forças de segurança foi possível perceber que os integrantes do Comando Vermelho costumam se identificar tatuando um índio pele vermelha. Outras tatuagens identificam outros traços de personalidade: caveira para os matadores de policiais e palhaços armados para os assaltantes de banco, dentre outros símbolos.

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As necessidades sociais são supridas pelo estabelecimento de relações de cooperação ou competição, de solidariedade ou individualismo. Existe uma forte dicotomia nessas relações. É normal o assassinato de um parceiro na disputa pelo controle dos “negócios da firma” conforme eles costumam dizer. Quando isso ocorre, praticamente toda estrutura do staff sucumbe com o líder eliminado.

A relação entre os criminosos é a base da construção da identidade do indivíduo e da cultura da organização criminosa. Dentre todas as necessidades supracitadas, uma se impõe sobre todo ato humano: compreender a vida e dar sentido a ela. O estabelecimento dessa função é necessário na rotina do ser humano e promove um sentido a sua vida. O criminoso é fruto de suas vivências e experiências pessoais cotidianas e isso dá significado à sua vida. Essa compreensão é necessária aos integrantes das forças de segurança e órgãos de inteligência se quiserem atingir maior eficácia no combate ao crime organizado. Da mesma forma, esse entendimento tem que fazer parte do estudo ao serem elaboradas estratégias sociais para comunidades reféns do crime organizado.

Publicado na Edição Especial da Revista Diálogo de Outubro 2015.

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*Fernando Montenegro, coronel R/1 das Forças Especiais do Exército Brasileiro, é mestre em Ciências Militares, pós-graduado em Gestão e Direção de Segurança pela Universidade Autónoma de Lisboa e doutorando em Relações Internacionais, Geopolítica e Geoeconomia. Foi oficial de inteligência da Unidade de Contraterrorismo do Exército Brasileiro, instrutor-chefe do Centro de Instrução de Guerra na Selva em 2009/2010 e comandante da força-tarefa Sampaio na pacificação dos Complexos de Favelas do Alemão e da Penha em 2011/2012. É autor do livro “Comando Verde” sobre a ocupação dos Complexos do Alemão e da Penha, auditor de defesa em Portugal, professor da Universidade Autónoma de Lisboa e comentarista da SIC.


6 comentários sobre “Antropologia do crime organizado no Brasil

  1. O texto é extremamente esclarecedor e muito bem elaborado, mas por que colocaram justamente uma arma de competição na figura que ilustra esta matéria? Qual é a intenção que querem transmitir com a imagem?
    Peço-lhes que reavaliem a imagem que ilustra a matéria.
    Obrigado,
    Marcelo Shimomura

    Curtido por 1 pessoa

    1. Marcelo, a imagem era meramente ilustrativa e não houve nenhuma intenção escusa. De qualquer forma, alteramos a imagem. Espero que fique satisfeito. Agradeço por ler e comentar, um abraço!

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  2. Parabéns pelo artigo. Muito elucidativo…. Criminoso é criminoso. Seja aqui ou acolá. Precisamos conhecê-los na sua integralidade para melhor enfrentá-los. Gostei.

    Curtido por 1 pessoa

  3. A ausência do estado, que não é de agora, culminou nessa concentração de criminosos. O próprio ambiente favela facilita e muito.
    O homem é um ser movido principalmente pelas suas necessidades, sejam elas essenciais a sua subsistência, ou que envolva questões relacionadas ao prazer de ter, entre outras situações até mesmo fúteis em si.

    Curtido por 1 pessoa

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