A gestão de negócios do narcotráfico nas favelas brasileiras

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Cel-Montenegro.png Por Fernando Montenegro*

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Imagem: Flickr – favela/Chris Jones; arma/ARTS_fox1fire.

O imaginário coletivo normalmente tem uma visão simplória do negócio que controla mais de mil favelas no Rio de Janeiro. Costuma-se pensar que são apenas jovens portando um saco de drogas numa mão e um AK-47 na outra. Não é bem assim.


Durante o período em que permaneci ocupando os complexos de favelas do Alemão e da Penha, me dediquei a estudar o negócio do narcotráfico nos morros cariocas. Além da minha vivência como nativo do Rio de Janeiro, contei com minhas observações pessoais no terreno, leituras de diversos textos científicos, entrevistas a subordinados, sociólogos, moradores, policiais, informantes, traficantes, ex-traficantes e ex-presidiários. A intenção era entender melhor a dinâmica do narcotráfico para ter mais êxito no combate.

Tradicionalmente chamado de Firma, a comercialização do narcotráfico nas favelas é um Negócio com “N” maiúsculo, que faz parte de algo muito maior. As principais facções de crime organizado do Rio de Janeiro têm gestão semelhante, buscam adaptar processos bem-sucedidos de empresas tradicionais e exploram ao máximo as brechas da lei e a cultura da sociedade. Buscam sempre a eficácia.

De maneira geral, costumam ter uma hierarquia rígida, com lideranças bem definidas e muito respeito às ordens emanadas pelos líderes que se encontram dentro dos presídios. Um exemplo disso foi o desencadeamento da violenta onda de ataques no Rio de Janeiro em novembro de 2010 que culminou com a ocupação do Complexo do Alemão pelo Exército Brasileiro.

Normalmente, uma das favelas maiores e mais rentáveis que a facção criminosa controla acaba funcionando como uma espécie de sede central e as outras comunidades passam a ser vistas como uma espécie de franquia. Nessa relação, armas, estoques de drogas e os chamados soldados do tráfico podem fazer parte do auxílio entre os partícipes ou parceiros (nas comunidades).

Essas facções costumam ter conexões institucionais com outros parceiros que tenham interesse em comum, sejam permanentes ou momentâneos. De maneira geral, essas facções preferem manter a discrição visando a faturar mais e não chamar a atenção da opinião pública, evitando assim que o Estado desencadeie operações policiais para dar uma satisfação à população. Dessas conexões podem fazer parte, por exemplo, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), outras facções criminosas (nacionais ou internacionais), partidos políticos, organizações terroristas, e ONGs.

Quanto mais rentável o morro, melhor é a estrutura da Firma. O processo de gestão dessas estruturas costuma funcionar de forma semelhante nas facções criminosas rivais. Os principais fatores na decisão da estruturação do negócio costumam ser a geografia do morro e o fator humano.

Não há pretensão de considerar este trabalho um produto acabado, mas apenas ajudar as pessoas a perceber melhor o que se passa nesse ambiente do qual só se vê a ponta do iceberg. Nessa pesquisa foi possível identificar diversos processos que, para manter a eficácia e continuidade do negócio, requererem determinadas estruturas funcionando. Podem-se visualizar estruturas como: staff, segurança, logística, a terceirização de serviços, comercialização das drogas, dentre outras.

Staff

Cada “dono de morro”, assim como qualquer CEO de empresa, gosta de estar cercado de pessoas de sua confiança e que tenham competência para realizar uma função. O tráfico nas favelas funciona como uma escola de negócios que costuma receber seus “alunos” a partir dos seis ou sete anos de idade. Ao longo dos anos, eles passam por várias funções e vão aprendendo a ter uma noção mais abrangente da empresa. Esse grupo de confiança costuma funcionar como um staff para o líder local.

O controle das atividades é realizado por um contador. Não é raro que se descubram pessoas especializadas com formação universitária em contabilidade ou economia prestando serviços nesse ramo. Uma peculiaridade interessante é que esse segmento não costuma usar bancos. Eles estocam dinheiro e metais preciosos em buracos e fundos falsos em lugares estratégicos no interior da própria comunidade que comandam.

Essa é uma das razões que motivam facções criminosas rivais a invadir e tomar o morro. Da mesma forma, integrantes da banda podre das forças de segurança se valem de operações de incursão para saquear esses bens. Essa é uma das principais razões por que as facções criminosas têm armas pesadas – ou seja, para se protegerem das invasões.

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Mas os contadores também controlam outras atividades lucrativas. Um dos processos de gestão desenvolvidos que mais me chamaram a atenção foi a diversificação das fontes de rendimento do narcotráfico. Distribuição de gás, água, TV a cabo e transporte (moto-táxis, vans e kombis) costuma ser monopólio dos donos do morro. Quando isso não ocorre, quem explora estes serviços legalmente paga taxas periodicamente para que seus negócios possam funcionar. Claro que a cobrança é compulsória. Lembro que fizemos algumas experiências e solicitamos a empresas de fora entregas desses serviços no interior e todos nos disseram que estavam proibidos de desenvolver atividades na área.

Ainda no Staff, é comum encontrar advogados e/ou assessores jurídicos muito bem pagos prestando serviços para impedir ou dificultar as prisões, orientar depoimentos ou protagonizar negociações. Normalmente são pessoas que possuem conexões estratégicas e não permanecem no interior das comunidades, mas têm um celular disponível 24 horas por dia.

Percebe-se que sempre há uma espécie de setor de compras e aquisições, principalmente de drogas e armas. Essa é uma atividade logística que lida diretamente com o controle do estoque de drogas, armas e munições. A diversificação de processos de aquisição e de fontes de fornecimento visam garantir a continuidade do negócio, uma vez que se trata de uma atividade de altíssimo risco.

Também se podem identificar pessoas desenvolvendo um trabalho como se fossem assessores de Comunicação Social e de Operações Psicológicas. A meta é conseguir apoio da comunidade, recrutar mais pessoas para trabalhar no sistema, desmoralizar as forças de segurança e as facções rivais.

Para aumentar a aceitação pela comunidade e recrutar voluntários, são desenvolvidas atividades narcopopulistas onde os “donos de morro” buscam se apresentar como benfeitores das comunidades distribuindo remédios, materiais de construção e comida.

Outra atividade é o patrocínio de bailes funk e de festas tradicionais como o Natal e a Páscoa. É comum ouvir, nesses eventos e no interior das comunidades, letras das músicas de funk que fazem apologia ao narcotráfico e ao sexo explícito. Normalmente pessoas são contratadas para desenvolver essa espécie de gênero musical que se tornou um cartão de visita de várias comunidades. Também é normal encontrar artistas, atletas, bandas, cantores e grupos de dançarinos famosos participando dessas festividades.

Essa guerra de propaganda também chegou à internet de diversas formas, incluindo as redes sociais. Vídeos de apologia ao tráfico de drogas são editados com trilhas sonoras e imagens de policiais sendo alvejados, execução de traidores e confraternização da facção com integrantes armados. Um exemplo disso é a série Iraque de Janeiro no YouTube, postada em 2011.

A grafitagem de muros e paredes das comunidades também reforça a popularidade dos líderes e indica qual é a facção criminosa dominante naquele momento. A falta de controle do estado sobre as organizações não governamentais (ONGs) também proporciona uma influência perigosa e a legitimação de atividades e pessoas que possuem envolvimento com o crime e de atividades ilícitas. Às vezes, leva até mesmo a conexões políticas e eleição de parceiros do narcotráfico.

Uma figura de grande importância no Staff é o encarregado de subornar as pessoas da estrutura do Estado que podem criar problemas para a Firma. Esse processo sensível e silencioso costuma ocorrer com a oferta de vantagens pessoais e dinheiro a policiais, políticos, informantes, oficiais de justiça e outros integrantes do sistema. Quando esse procedimento não funciona, passam a pressionar com ameaças à própria pessoa ou à sua família até que cedam ou peçam afastamento da função.

A segurança é uma das atividades de maior destaque dentro do negócio e, normalmente, o “dono do morro” delega isso a seu homem de confiança.

Comando da Segurança de Área

Essa atividade é comandada por uma pessoa da mais absoluta confiança do “dono do morro”. Normalmente esse “comandante” planeja as rotas de fuga, tomada de áreas das facções rivais. Em princípio, uma favela possui dois sistemas distintos que trabalham integrados: Vigilância/Alerta e Força de Reação. Os nomes podem variar, mas as estruturas costumam ser essas.

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Normalmente a vigilância é realizada por crianças e adolescentes desarmados que se posicionam em locais de visão privilegiada com a finalidade de controlar os acessos da comunidade. São conhecidos por olheiros ou falcões, dependendo do lugar. As formas de comunicação são variadas. Para realizar a comunicação ou acionar o alarme, ainda se usam formas mais antigas e rudimentares como mensageiros, fogos de artifício e pipas coloridas empinadas no céu.

Com smartphones, os traficantes enviam mensagens de texto, voz ou imagens. Entretanto, o uso dos rádios tipo talk-about multicanal ainda tem sido o mais comum por ser mais econômico – basta recarregar as baterias.

Essa atividade de apoio ao sistema de vigilância costuma ser a principal porta de entrada do recrutamento e início do plano de carreira na estrutura do narcotráfico. Na verdade, crianças iniciam como mensageiros ou encarregados de recarregar e entregar as baterias dos rádios e smartphones. Só depois de mostrarem eficiência e comprometimento é que vão recebendo outras tarefas na estrutura de vigilância. Na sua maioria, almejam trocar os rádios pelos fuzis. Por isso, alguns desses jovens interrompem temporariamente suas “carreiras” para ingressar nas forças armadas visando a receber treinamento militar e integrar as fileiras de elementos armados.

Os soldados do tráfico desfrutam de certo glamour dentro da comunidade. O símbolo de status é o armamento, que é ostentado nas ruas e bailes funk. Quanto maior o calibre da arma, maior a posição dentro da hierarquia. Essa posição normalmente é conquistada através da amizade, confiança e serviços prestados dentro da estrutura. Esses criminosos recebem bons ordenados, são temidos e assediados por uma significativa parcela das jovens em busca de presentes e status. Essa simbiose também acaba por ser um dos maiores incentivos para o recrutamento dessa juventude carente. O pagamento dos integrantes dessa estrutura costuma ter um valor fixo e ocorre semanalmente.

Basicamente, o trabalho dos soldados consiste em proteger a favelas da invasão das facções rivais e das operações policiais. Quando isso não é possível, têm que ser capazes de fazer o retardamento para que o chefe e seu Staff escapem com segurança por rotas de fuga reconhecidas e planejadas antecipadamente. Cabe aos olheiros prover o alerta oportuno para que a força de reação seja eficaz.

Central de Produção

Dependendo da segurança e tamanho da favela, essa atividade pode ser concentrada em uma ou mais instalações. Quando os diversos tipos de drogas chegam às comunidades, não estão prontos para serem comercializados. Até chegar lá, são transportados das mais diversas formas, como tabletes prensados e impermeabilizados. O controle do estoque também é uma atividade altamente sensível. Um único tablete de PBC (Pasta Base de Cocaína) com 1 kg custa cerca de US$ 1.500 no Rio de Janeiro, e o lucro é de 900%.

A etapa seguinte é a da indolação, quando são diluídos, misturados com outros componentes e colocados nas embalagens conforme as quantidades a serem usadas para venda. Mesmo sendo selecionadas pelo critério da confiança, as pessoas que trabalham nessa atividade costumam ser submetidas a revistas rigorosas ao entrar e sair do local de trabalho.

Visando a aumentar a produtividade e reduzir o desperdício, em alguns lugares estabelecem um dia da semana para a indolação de cada droga. Por exemplo, na segunda e quarta-feira, a cocaína; na terça-feira, a maconha, e assim por diante. As drogas mais populares são cocaína, maconha, haxixe e ecstasy. Sempre que podem evitam comercializar crack pois os clientes se deterioram muito rápido.

Outro procedimento adotado em algumas dessas estruturas é a instalação de uma equipe de cozinheiros. Com isso, os funcionários não saem do lugar de trabalho para realizar as refeições, o que melhora o controle. A central de produção costuma empregar uma parcela significativa de pessoas que recebem de acordo com a produção. Muitas delas trabalham com máscaras e luvas para evitar intoxicação.

Comercialização das Drogas

De maneira geral, existe um “Gerente Geral” da área que nomeia um gerente para cada droga. Cada droga, por sua vez, possui um vendedor para cada preço. Por exemplo, uma pessoa só vende o “pó de quinze” (cocaína de R$ 15,00) e outra só vende o “pó de cinco” (cocaína de R$ 5,00), e assim por diante. O controle é rigoroso e a disputa entre os vendedores é grande, pois são todos comissionados e prestam contas sistematicamente. Dessa forma, pode haver um assédio de mais de um vendedor e de mais de uma droga sobre os viciados que chegam aos pontos de venda. A quantidade dos pontos de venda também depende do tamanho da comunidade, da geografia e da segurança.

Também existe a figura do estica. Normalmente são as pessoas que têm acesso privilegiado a lugares frequentados por pessoas com maior poder aquisitivo e que não estão dispostas a ir até as favelas comprar as drogas. Esses ambientes podem ser colégios, universidades, camarotes VIP em grandes eventos, festas, condomínios de luxo e outros lugares assemelhados.

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Atividades Terceirizadas

Existem vários serviços que são necessários para o funcionamento do negócio, mas podem ser realizados por pessoas de fora da estrutura, que são muito bem pagas para isso. Por exemplo, as pessoas que trabalham num ponto de venda de drogas com seu gerente, vendedores, olheiros e soldados fazendo a segurança precisam de apoio logístico. A alimentação pode ser fornecida pelo restaurante/bar mais próximo ou por uma dona de casa das proximidades, dependendo da conveniência. Da mesma forma, a exploração de banheiros para necessidades fisiológicas também pode ser remunerada. Também existem outras necessidades como recarga de pilhas e baterias dos rádios e smartphones. O transporte é outra atividade que pode ter moto-taxistas prestando serviço para buscar clientes na entrada da comunidade, entregar drogas, enviar mensagens ou mesmo transportar um integrante do sistema.

Conclusão

O negócio do narcotráfico nas favelas possui uma estrutura piramidal com uma hierarquia rígida dentro das diversas estruturas. A quantidade de pessoas que recebe dinheiro de forma direta ou indireta através da venda de drogas é bem razoável, o que indica que uma parcela significativa da população desses lugares tem interesse que essa atividade prossiga. Para obter maior eficiência são usados vários processos adotados pelas empresas legais com formas de gestão específicas para cada um. O recrutamento encontra um universo abundante de recursos humanos carentes, miseráveis, e atua num ambiente em que a ética é relativizada, pois o que conta mesmo é a lealdade à facção criminosa e seu líder.


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*Fernando Montenegro, coronel R/1 das Forças Especiais do Exército Brasileiro, é mestre em Ciências Militares, pós-graduado em Gestão e Direção de Segurança pela Universidade Autónoma de Lisboa e doutorando em Relações Internacionais, Geopolítica e Geoeconomia. Foi oficial de inteligência da Unidade de Contraterrorismo do Exército Brasileiro, instrutor-chefe do Centro de Instrução de Guerra na Selva em 2009/2010 e comandante da força-tarefa Sampaio na pacificação dos Complexos de Favelas do Alemão e da Penha em 2011/2012. É autor do livro “Comando Verde” sobre a ocupação dos Complexos do Alemão e da Penha, auditor de defesa em Portugal, professor da Universidade Autónoma de Lisboa e comentarista da SIC.


5 comentários sobre “A gestão de negócios do narcotráfico nas favelas brasileiras

  1. A intervenção das Forças Armadas no processo de pacificação de favelas na cidade do Rio de Janeiro teve como mais nobre resultado a coleta de informações e o conhecimento do modus operandi do narcotráfico. Esse artigo nos mostra como, utilizando uma boa metodologia, se alcançou esse conhecimento. É uma pena que pouco uso tenha se feito de todo esse aprendizado. Que ações governamentais foram adotadas desde então para atacar as raízes desse problema, aqui tão bem expostas?

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