Porta-aviões chineses: marinha de “águas azuis”?

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Albert-VF1 Por Albert Caballé Marimón*

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Porta-aviões chinês Liaoning (Foto: UK Defence Journal).

Com dois porta-aviões em operação, um terceiro a caminho e um acelerado ritmo de construção de submarinos e combatentes de superfície, muitos analistas especulam que em pouco tempo a PLAN poderá superar a US Navy, ameaçando-a no Mar do Sul da China.


De acordo com uma matéria publicada em janeiro de 2015 pelo SCMP (South China Morning Post, periódico de Hong Kong), o atual Liaoning, primeiro porta-aviões chinês, foi comprado por um empresário de Hong Kong por meio de falsos pretextos. Xu Zengping, o empresário, teria sido convencido por militares chineses a agir como intermediário do governo chinês na compra do ex-soviético Varyag (classe Kuznetsov), na Ucrânia, então com a construção paralisada. Zengping teria se apresentado aos ucranianos como se pretendesse transforma-lo num empreendimento turístico, depois repassando-o ao governo chinês.

A matéria parece basear-se principalmente em depoimentos do próprio Zengping, que afirmou que especialistas da marinha chinesa lhe disseram que seu acordo com os ucranianos ajudou o país a economizar ao menos quinze anos de pesquisa científica. Levar o navio à China foi outra aventura, e o porta-aviões levou quase três anos até ser entregue, numa verdadeira odisseia.

Independentemente da forma pela qual foi obtido, o Liaoning (Tipo 001) vem servindo como uma espécie de laboratório para que a China desenvolva suas próprias tecnologias, táticas e doutrina de emprego para porta-aviões. Recentemente, colocou em serviço também o Shandong (Tipo 002), seu segundo porta-aviões (o primeiro totalmente construído no país), e está construindo o terceiro, o Tipo 003.

O Liaoning foi comissionado em 2012, desloca aprox. 55.000 toneladas, mede 304,5 metros e é capaz de operar até quarenta aeronaves incluindo asas fixas e rotativas incluindo o caça Shenyang J-15 (variante chinesa russo Sukhoi Su-33) e helicópteros de guerra antissubmarina, vigilância e patrulha e emprego geral. Em comparação, o Shandong desloca aprox. 70.000 toneladas, mede 315 metros e opera uma ala aérea semelhante.

Ambos empregam o sistema STOBAR (Short Take-Off Barrier-Arrested Recovery, Decolagem Curta e Recuperação por Arresto), com uma rampa para assistir nas decolagens (ski ramp), sistema que limita a carga útil na decolagem, impondo portanto algumas restrições à capacidades ofensivas.

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A PLAN (People’s Liberation Army Navy, Marinha do Exército de Libertação Popular), ciente das restrições da tecnologia STOBAR, está construindo o Tipo 003, com deslocamento estimado de 85.000 toneladas e propulsão convencional que, como seus antecessores, deverá ter capacidade de transportar uma ala aérea também por volta de quarenta aeronaves, mas já operando com sistema CATOBAR (Catapult Assisted Take-Off But Arrested Recovery, Decolagem Assistida por Catapulta e Recuperação por Arresto) e talvez catapultas de lançamento eletromagnético. Espera-se que este navio seja lançado ainda em 2020 e entre em serviço em 2023.

Além disso, a China planeja o Tipo 004 (ou Tipo 00X), consideravelmente maior, também com sistema CATOBAR, deslocando mais de 100.000 toneladas e que deverá operar uma ala aérea com entre 70 e 100 aeronaves. A exemplo dos porta-aviões americanos classe Ford, terá propulsão nuclear com excedente de força suficiente para atender às demandas das armas de energia direcionada (laser) e canhões eletromagnéticos (railguns) atualmente em desenvolvimento.

Um detalhe importante é que o Tipo 004/00X deverá ser capaz de operar aeronaves AEW&C (Airborne Early Warning & Control, Alerta Aéreo Antecipado e Controle) de asa fixa, o que aumentaria de forma significativa as capacidades chinesas. Os atuais porta-aviões chineses operam helicópteros na função de vigilância, com capacidade bastante reduzida em relação à aeronaves operadas pelos porta-aviões americanos. Ainda não há previsão da data de entrada em operação deste Tipo.

No entanto, talvez como consequência de falta de clareza nas informações sobre os planos militares chineses, circula também um boato sugerindo que um segundo porta-aviões CATOBAR e movido a propulsão convencional, igual ou similar ao Tipo 003, estaria sendo construído. Os próximos anos confirmarão ou desmentirão essas notícias.

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Porta-aviões chinês Shandong (Foto: The National Interest).

Dois porta-aviões: marinha de “águas azuis”?

Com o comissionamento do Shandong, vem surgindo uma série de trabalhos de pesquisa discutindo a melhor forma de emprego dos dois porta-aviões, seja em missões de escolta, guerra antissubmarina e diversas outras. Houve inclusive discussões sobre a possibilidade deles atuarem como oponentes em exercícios militares do tipo “Red-Blue”.

Isso mostra a força crescente da PLAN, acompanhando a expansão chinesa dos últimos anos; mas há quem defenda que, como nem o Liaoning nem o Shandong possuem aeronaves de combate suficientes (em comparação com os porta-aviões americanos), poderia ser o caso de ambos operarem em conjunto, de maneira a proporcionar uma força equivalente a uma brigada aérea.

Embora o Liaoning seja eminentemente uma plataforma de testes para a PLAN, juntamente com o comissionamento do Shandong a China preocupa os países da região e, especialmente, os EUA, que parecem cada vez mais preocupados com o ritmo da construção naval chinesa e sua crescente expansão no Mar do Sul da China e na região do Indo-Pacífico.

Para alguns analistas, isso marca uma transição progressiva da PLAN para uma marinha de “águas azuis”; outros questionam se o novo navio não seria uma espécie de “tigre de papel”, visualmente impressionante, mas sem capacidade de desafiar a superioridade dos EUA na operação de porta-aviões.

Doutrina de emprego

O design soviético original previa o Varyag como um cruzador de mísseis com uma pequena ala aérea para proporcionar defesa aérea; Já o conceito chinês mantém a ideia ocidental de uma ala aérea como componente de ataque. Essa diferença de abordagem se reflete na maneira como o Liaoning foi adaptado e desenvolvido a partir de seu design original; seus silos de mísseis antinavio foram removidos para dar lugar ao armazenamento de combustível e armas. Essa diferença também pode ajudar a entender um pouco melhor a forma como os chineses planejaram empregar o Liaoning como uma espécie de laboratório, uma plataforma de aprendizado.

O design do Shandong deriva do Liaoning, mas não é simplesmente uma atualização; ele incorpora refinamentos significativos que indicam seu uso no papel de porta-aviões de ataque: o ângulo do ski jump passou de 14 para 12 graus, otimizado para o caça Shenyang J-15; a ilha teve o tamanho reduzido e a posição alterada para permitir o transporte de mais oito aeronaves; ele possui um segundo convés separando a ponte das operações voo e apresenta um radar AESA (Active Electronically Scanned Array) aprimorado.

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Diferenças

Segundo alguns analistas, o design e a abordagem das operações de porta-aviões chinesas sugerem deficiências críticas que podem limitar o potencial do navio em eventuais engajamentos contra seus rivais norte-americanos ou mesmo os novos HMS Queen Elizabeth e Prince of Wales da Marinha Real Britânica.

Algumas características do Shandong sugerem falta de integração no design operacional entre o porta-aviões e a ala aérea, indicando que cada um deles teria sido projetado em separado e posteriormente adaptado.

Sistema de lançamento

O Shandong usa o sistema STOBAR, da mesma forma que os porta-aviões britânicos. A PLAN pretende operar o Shenyang J-15, que teria que ser lançado com carga de armas muito leve ou realizar reabastecimento aéreo, situação que o coloca em desvantagem frente a caças navais ocidentais como o F/A-18, o Lockheed F-35C e o francês Dassault Rafale.

Por outro lado, tanto os porta-aviões da Marinha dos EUA como o Charles de Gaulle francês empregam o sistema CATOBAR, que elimina o problema do peso máximo de decolagem. Já os navios da classe Queen Elizabeth da Marinha Real, embora também empreguem o sistema STOBAR, foram desenhados e otimizados especificamente para a operação das aeronaves STOVL (Short Take-Off and Vertical Landing, decolagem curta e aterrissagem vertical) Lockheed Martin F-35B Lightning e podem, ao menos em teoria, ser convertidos para um sistema CATOBAR no futuro.

Propulsão

O Shandong é movido a propulsão convencional, o que limita sua autonomia em comparação com os navios americanos. É improvável que seja capaz de gerar a energia necessária para operar um sistema de catapulta eletromagnética (EMALS, Electro Magnetic Air Launch System, Sistema de Lançamento Aéreo Eletromagnético), ou futuros sistemas de armas a laser, tidos como necessários para defender o navio de ameaças emergentes como mísseis hipersônicos.

Ala aérea

Com capacidade para transportar 36 caças J-15, a ala aérea do Shandong é pequena se comparada às 60 a 70 aeronaves de um classe Nimitz dos EUA ou às 48 aeronaves dos classe Queen Elizabeth do Reino Unido. Se forem consideradas variantes como guerra eletrônica (J-15D), o número de aeronaves disponíveis para a função de ataque é ainda mais reduzido.

Gerenciamento de aeronaves e taxa de surtidas

O ski jump do Shandong se estende de bordo a bordo, impedindo o armazenamento de aeronaves à proa, como pode ser feito no Queen Elizabeth. Especialistas dizem que o design da cabine de comando do Shandong restringe o gerenciamento de aeronaves; esses fatores impactariam a taxa de surtidas diárias, que provavelmente será significativamente menor do que aquela que é possível nos porta-aviões dos EUA e do Reino Unido.

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Capacidade AEW&C

Sem operar um sistema CATOBAR, a capacidade AEW&C dos porta-aviões chineses é limitada à vigilância do espaço aéreo pelos helicópteros Z-18J da CAIC (Changhe Aircraft Corporation) e Kamov KA-31. Isso representa uma limitação significativa na capacidade de detecção aérea em comparação aos porta-aviões americanos e os E-2D Hawkeye, aeronaves que operam em qualquer condição climática, podem ser reabastecidos em voo, são capazes de rastrear mais de 2.000 alvos simultaneamente a mais de 400 milhas (640 km) e podem orientar simultaneamente dezenas de engajamentos ar-ar ou ar-superfície.

O futuro

A PLAN tem um programa de testes de catapulta em andamento há algum tempo. O programa iniciou com a instalação do sistema de lançamento a vapor do antigo HMAS Melbourne, um ex-classe Majestic que a China comprou da Austrália em 1985, mas evoluiu para testes de um sistema EMALS, que exerce menor pressão sobre as aeronaves durante o lançamento, mas exige muito mais energia do navio e é tecnicamente mais problemático.

Os futuros porta-aviões chineses, já a partir do Tipo 003, serão CATOBAR, mas, com propulsão convencional, presumivelmente terão problemas de geração de energia se for usado o sistema EMALS. Espera-se que o Tipo 003 incorpore lições de integração entre o porta-aviões e a ala aérea, trazendo uma mudança radical de capacidade.

Considerações finais

O Shandong confere à PLAN o status de marinha de águas azuis? Ainda não. Provavelmente ela ainda não é capaz de competir com seus pares ocidentais. No entanto, o Liaoning e o Shandong são parte de uma jornada, passos importantes no desenvolvimento da capacidade aeronaval da China.

Com uma frota de dez super porta-aviões e outros dois em construção, os EUA ainda detém uma vantagem considerável, tanto em números quanto em experiência de emprego; por outro lado, os planejadores chineses sabem que – ao menos por ora –, não tem necessidade de exercer hegemonia marítima global como os EUA. O futuro próximo mostrará se e quando a trajetória da PLAN suplantará o domínio aeronaval dos EUA na região do Indo-Pacífico.


ASSISTA AO VÍDEO 1.025 DO CANAL ATE DA GUERRA: PORTA AVIÕES DA CHINA: ANÁLISE E PERSPECTIVAS


Referências

Stephen Kuper em Defence Connect, China’s growing blue water naval capabilities raise questions, 21 de outubro de 2019, disponível em: https://www.defenceconnect.com.au/maritime-antisub/4983-china-s-growing-blue-water-naval-capabilities-raise-questions

Zachary Keck em The National Interest, Exposed: How China Purchased Its First Aircraft Carrier, 20 de janeiro de 2015, disponível em: https://nationalinterest.org/blog/the-buzz/exposed-how-china-purchased-its-first-aircraft-carrier-12069

Minnie Chan em South China Morning Post, Mission impossible: How one man bought China its first aircraft carrier, 18 de janeiro de 2015, disponível em: https://www.scmp.com/news/china/article/1681710/sea-trials-how-one-man-bought-china-its-aircraft-carrier

Minnie Chan em South China Morning Post, Mission impossible II: the battle to get China’s aircraft carrier home, 20 de janeiro de 2015, disponível em: https://www.scmp.com/news/china/article/1682731/mission-impossible-ii-battle-get-chinas-aircraft-carrier-home

Ying Yu Lin em The Diplomat, How Will the Chinese Navy Use Its 2 Aircraft Carriers?, 10 de janeiro de 2020, disponível em: https://thediplomat.com/2020/01/how-will-the-chinese-navy-use-its-2-aircraft-carriers/

James MacLaren em The Diplomat, With Its New Aircraft Carrier, Is China Now a Blue Water Navy?, 25 de janeiro de 2020, disponível em: https://thediplomat.com/2020/01/with-its-new-aircraft-carrier-is-china-now-a-blue-water-navy/

Wikipedia, Northrop Grumman E-2 Hawkeye, atualizado em 18 de fevereiro de 2020, disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Northrop_Grumman_E-2_Hawkeye

Rick Joe em The Diplomat, A Mid-2019 Guide to Chinese Aircraft Carriers, 18 de junho de 2019, disponível em: https://thediplomat.com/2019/06/a-mid-2019-guide-to-chinese-aircraft-carriers/

Wikipedia, Type 003 aircraft carrier, atualizado em 22 de janeiro de 2020, disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Type_003_aircraft_carrier

Wikipedia, Type 004 aircraft carrier, atualizado em 20 de fevereiro de 2020, disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Type_004_aircraft_carrier

Oliver B. Steward em UK Defence Journal, The rise of China’s “blue water” navy: Will the Pacific turn Red?, 5 de setembro de 2017, disponível em: https://ukdefencejournal.org.uk/rise-chinas-blue-water-navy-will-pacific-turn-red/

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*Albert Caballé Marimón possui formação superior em marketing, é fotógrafo profissional e editor do blog Velho General. Já atuou na cobertura de eventos como a Feira LAAD, o Exercício CRUZEX e a Operação Acolhida. É colaborador da revista Tecnologia & Defesa e do Canal Arte da Guerra, onde, entre outras atividades, mantém uma resenha semanal de filmes e documentários militares. Entre suas atividades, já proferiu palestras para os cadetes da Academia da Força Aérea. Pode ser contatado através do e-mail caballe@gmail.com.


 

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