Notas históricas sobre o uso do Poder Aéreo como Arma de Interdição (Parte II, Guerra Aérea Contra o Japão)

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Albert-VF1 Traduzido e adaptado para o português por Albert Caballé Marimón*

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Bombardeiros B-29 lançam bombas incendiárias em Yokohama, Japão, em maio de 1945 (Foto: USAF).


Esta é a segunda parte do Relatório de Inteligência da CIA que subsidiava decisões de ações de interdição aérea para a Guerra do Vietnã pela análise dos resultados da guerra aérea contra a Alemanha e o Japão na Segunda Guerra Mundial e contra a Coréia do Norte na Guerra da Coréia, na década de 1950. Na primeira parte da análise, publicamos a Guerra Aérea contra a Alemanha; neste artigo, publicamos a porção referente à Guerra Aérea contra o Japão.


II A Guerra Aérea contra o Japão

No início da Segunda Guerra Mundial, a economia japonesa era relativamente pequena, aproximadamente 10% do tamanho da dos EUA. Apesar de grandes esforços para aumentar a disponibilidade de matérias-primas de fontes domésticas, o Japão era altamente dependente de importações para manter sua planta industrial. A conquista da Manchúria e partes da China ajudou a aliviar materialmente a escassez japonesa de coque, minério de ferro e alimentos, mas as quantidades de minério de ferro e bauxita disponíveis na “zona interna” do Japão eram insignificantes. Os planos para desenvolver uma indústria de petróleo sintético não apresentaram resultados significativos, e o Japão dependia quase totalmente das importações das Índias Orientais holandesas. Havia a mesma dependência do exterior para borracha, ferroligas e manganês, bem como para uma variedade de outros materiais ferrosos e não ferrosos militarmente importantes.

A estratégia do Japão baseava-se no acúmulo de munição, petróleo, aeronaves e navios que poderiam ser acionados essencialmente contra inimigos não mobilizados. A expectativa era que a devastação do golpe inicial resultasse no inimigo demandando paz.

A. O Ataque Aéreo contra o Japão

A maior parte da tonelagem de bombas lançadas pelas forças aliadas na Guerra do Pacífico caiu fora das ilhas domésticas japonesas. Apenas um quarto, ou de 160 mil a 170 mil toneladas, caíram no Japão propriamente dito, lançadas principalmente pelos B-29. Em contraste, 1.360.000 toneladas foram despejadas dentro das fronteiras da Alemanha. O ataque aéreo ao Japão ocorreu muito tarde na guerra e foi muito concentrado. De junho de 1944 a janeiro de 1945, apenas oitocentas toneladas de bombas foram lançadas sobre as ilhas domésticas japonesas pelos B-29 baseados na China. Após a captura das Marianas em agosto de 1944, foi construída uma série de bases para bombardeiros de longo alcance, mas a tonelagem diminuiu e em 9 de março de 1945 totalizou apenas 7.180 toneladas. A revisão básica dos métodos de ataque dos B-29 ocorreu em 9 de março de 1945, quando se decidiu bombardear as quatro principais cidades japonesas à noite com bombas incendiárias. O primeiro queimou 24 quilômetros quadrados da área mais densamente povoada de Tóquio. Esse bombardeio enormemente destrutivo foi seguido quase que imediatamente por outros a Nagoya, Osaka e Kobe. No total, 104.000 toneladas de bombas foram direcionadas a 66 áreas urbanas japonesas, ou cerca de dois terços da tonelagem total lançada nas ilhas nipônicas. Tonelagens muito menores foram direcionadas a alvos industriais e militares selecionados, como a seguir: 14.150 toneladas contra fábricas de aeronaves, 10.600 toneladas em refinarias de petróleo, 4.708 toneladas contra arsenais, 3.500 toneladas contra alvos industriais diversos, 8.150 toneladas em aeródromos e 12.054 minas usadas nas ataques contra o sistema de transporte marítimo.

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B. Efeitos dos Ataques

A destruição física resultante dos ataques aéreos ao Japão foi aproximadamente a mesma que a sofrida pela Alemanha. Os ataques foram mais concentrados no tempo e as áreas-alvo no Japão eram menores e mais vulneráveis. As capacidades defensivas do Japão foram sobrecarregadas, assim como sua vontade e capacidade de reconstrução e dispersão. Cerca de 40% da área construída das 66 cidades atacadas foi destruída e cerca de 30% de toda a população urbana perdeu suas casas. O número total de baixas civis como resultado de nove meses de ataque aéreo foi de aproximadamente 806 mil, incluindo cerca de 200 mil vítimas das bombas atômicas. Essas baixas provavelmente excederam às sofridas em combate pelo Japão.

Os efeitos econômicos dos ataques aéreos são difíceis de especificar porque a perda de navios mercantes essencialmente isolou o Japão de suas fontes de matérias-primas industriais. A maioria das refinarias estava sem petróleo, as fábricas de alumínio sem bauxita, as siderúrgicas tinham com falta de minério e coque e as fábricas de munições tinham pouco aço e alumínio. A economia do Japão estava em grande parte sendo duplamente neutralizada, primeiro pela interrupção das importações e depois pelos ataques aéreos.

O sistema ferroviário japonês não foi sujeito a ataques substanciais e estava em condições de operação razoavelmente boas no momento da rendição. O sistema de energia elétrica não tinha sido selecionado como alvo, principalmente porque existia em inúmeras pequenas instalações de produção. Portanto, a maior parte da capacidade de geração e distribuição do Japão permaneceu operacional. Uma exceção foi nas áreas urbanas, que foram sujeitas a fortes ataques incendiários.

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C. Moral Civil

Os primeiros sucessos militares japoneses, particularmente a captura de Singapura, foram seguidos por uma onda de otimismo e alta confiança por parte do povo japonês. À medida que a guerra evoluía, derrotas subsequentes foram cuidadosamente ocultadas do povo ou disfarçadas de retiradas estratégicas. A Pesquisa de Bombardeios Estratégicos dos EUA informou que, em junho de 1944, apesar da crescente escassez de alimentos e trabalho exaustivo para apoiar o esforço de guerra, apenas cerca de 2% da população japonesa acreditava que o país enfrentava a probabilidade de derrota. O início dos ataques às ilhas japonesas, juntamente com a derrota militar nas Filipinas e a contínua deterioração do suprimento de alimentos, começaram a refletir-se no moral civil bastante reduzido. A pesquisa relatou que em junho de 1945 quase metade do povo japonês acreditava que a vitória não era mais possível Um efeito marcante dos ataques aéreos às cidades foi a evacuação em massa. Aproximadamente um quarto da população urbana fugiu ou foi evacuada. A redução progressiva do moral foi caracterizada pela perda de fé nos líderes militares e civis, perda de confiança no poder militar do Japão e crescente desconfiança dos comunicados de imprensa do governo. A inter-relação de fatores militares, econômicos e morais era complexa, na qual os ataques urbanos desempenharam um papel importante. Também deve ser lembrado que os efeitos das bombas atômicas foram severos não apenas na população, mas também nas lideranças civis e militares.

D. Destruição do Sistema Japonês de Transporte de Mercadorias

A frota mercante do Japão foi um elo fundamental no fornecimento de matérias-primas para a indústria doméstica, além de ser vital para o apoio às forças armadas. Aproximadamente nove milhões de toneladas (de um total de dez milhões) de navios mercantes, incluindo navios de quinhentas toneladas ou mais, foram afundados ou seriamente danificados na guerra. Aproximadamente 55% dessas perdas ocorreu pela ação de submarinos e aproximadamente 10% foram causadas por minas, a maioria destas lançadas por aeronaves. A maior parte do restante foi devido a ataques aéreos diretos. Assim, o papel do poderio aéreo no isolamento das ilhas domésticas japonesas foi importante, embora tenha sido secundário em relação aos submarinos (ver Figura 2).


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Figura 2 – Efeito do bombardeio aliado na produção de munições e no transporte marítimo japonês (Imagem do documento original).


Como nação marítima com grande comércio interno e externo, o Japão desenvolveu uma marinha mercante moderna de primeira classe. Como o transporte marítimo era altamente desenvolvido e a indústria pesada era estrategicamente situada para usar combustível e matérias-primas vindas através de rotas aquáticas, a malha ferroviária era pequena e o sistema tinha capacidade limitada. Apenas duas linhas ferroviárias principais se estendiam por todo o comprimento da ilha Honshu. A frota de grandes navios oceânicos era complementada por numerosas embarcações menores atuando no comércio costeiro e nas ilhas domésticas.

A conquista do sudeste da Ásia deu ao Japão o controle da maior parte do suprimento mundial de borracha, estanho, antimônio, juta e quinino, além de fontes para mais do que suficiente de suas próprias necessidades de petróleo, minério de ferro, bauxita, açúcar, milho e arroz. Durante a guerra, o Japão extraiu dessa área a maior parte das matérias-primas necessárias à sua indústria.

Apesar de um vigoroso programa de construção, depois de 1942 o Japão não conseguiu manter o nível pré-guerra da tonelagem de navios mercantes. O nível de dezembro de 1941 era de 5,4 milhões de toneladas, excluindo navios-tanque. Um ano depois, esse total foi reduzido para 5,2 milhões e, em dezembro de 1943, a combinação de ataques submarinos e aéreos reduziu a disponibilidade para 4,2 milhões de toneladas. A ofensiva submarina foi intensificada particularmente no outono de 1943.

O ano de 1944 viu o início dos devastadores ataques de porta-aviões contra navios mercantes, originalmente como resultado dos ataques a Truk e Palau. Uma série de operações envolvendo a invasão das Marianas e os ataques com porta-aviões antes da invasão nas Filipinas ocorreu no verão e no outono. As surtidas contra o transporte marítimo de mercadorias realizadas por aeronaves do exército, da marinha e dos fuzileiros, baseadas em terra ou em porta-aviões, aumentaram de 118 mil em 1943 para 327 mil em 1944. Em abril de 1945, as manobras combinadas atingiram um pico mensal de quase 51 mil. Em 1944, a tonelagem comercial flutuante tinha sido reduzida em mais de 50% num período de doze meses e era de apenas 1,5 milhão quando o Japão se rendeu.

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Outras operações aéreas tiveram efeito significativo na redução da mobilidade da frota mercante, apesar da disposição do Japão de sofrer perdas no transporte marítimo devido à sua necessidade desesperada de importações estratégicas. A campanha de minagem conduzida pelos B-29 no início de 1945 não apenas reduziu a tonelagem total de navios mercantes, mas também bloqueou certos portos e reduziu bastante a capacidade de manutenção de outros.

As importações de petróleo atingiram seu pico em agosto de 1943. A marinha japonesa perdeu um número significativo de navios-tanque em Truk, e os contínuos afundamentos desses navios criaram uma escassez de combustível desesperadora no outono de 1944. Em abril de 1945, as importações por navios-tanque cessaram completamente. Os estoques foram drenados e rapidamente se esgotaram, o suprimento de combustível para a indústria naval começou a secar e como consequência uma tonelagem considerável de navios menores foi estocada. Apesar do acúmulo de estoques de matérias-primas industriais, mesmo as indústrias de munição sofreram sérias quedas de produção como resultado da interdição do transporte marítimo. Por exemplo, a produção de alumínio caiu 76% num único ano pela paralisação das importações de bauxita.

Finalmente, a nação ficou sem comida. A produção local caiu, em parte como resultado do corte das importações de fertilizantes. A pesca, uma indústria importante antes da guerra, foi reduzida em 50% por vários motivos, incluindo a requisição de navios pela marinha japonesa e a escassez de combustível. Em abril de 1945 a situação se tornou tão aguda que praticamente toda a baixa capacidade de transporte restante foi desviada para a importação de alimentos e sal, sacrificando a pequena quantidade de matéria-prima industrial que ainda conseguia fluir. Em abril de 1945, o Japão estava isolado. As matérias-primas básicas de sua economia haviam sido cortadas, e o país só podia esperar aumento gradual da fome e crescente impotência militar.

E. Ações da Elite para Terminar a Guerra

Embora em teoria o imperador japonês fosse a única autoridade, na prática ele geralmente aprovava as decisões de seus conselheiros. Durante os primeiros anos da guerra, esse grupo foi dominado por oficiais fanáticos do exército e da marinha. A primeira brecha definitiva na coalizão política não ocorreu até a derrota japonesa em Saipan. Dez dias depois, em 16 de julho de 1944, o Gabinete chefiado pelo General Tojo caiu.

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O governo de Tojo foi sucedido por outro chefiado pelo general Koiso. Apesar das instruções originais ao Gabinete de fazer “reconsiderações fundamentais” ao problema de continuar a guerra, Koiso não foi capaz de enfrentar os oficiais mais determinados. Sua maior realização foi a criação de um Conselho Supremo de Direção da Guerra, um grupo interno do gabinete através do qual o problema da rendição acabou sendo resolvido.

A convicção e a força dos partidários da paz aumentaram pelas continuas derrotas militares japonesas após Saipan e pela incapacidade de defender o espaço aéreo japonês contra ataques no final de 1944 e início de 1945. Após o desembarque dos EUA em Okinawa em abril de 1945, o general Koiso foi substituído pelo almirante Suzuki.

Em maio de 1945, o Conselho Supremo de Direção da Guerra iniciou discussões ativas sobre formas e meios de termina-la e começou discussões com a URSS buscando mediação. Em 20 de junho de 1945, o Imperador, por sua própria iniciativa, reuniu o Conselho e ordenou que fosse desenvolvido um plano para acabar com a guerra.

Em agosto foram dados passos decisivos com a bomba atômica caindo sobre Hiroshima no dia 6 e com a URSS entrando na guerra no dia 9. O imperador resolveu rapidamente o conflito em favor da rendição incondicional.

Analisando em retrospecto, é claro que, nos níveis mais altos do gabinete japonês, o movimento para encerrar a guerra começou mais de um ano antes da rendição final. A capitulação do Japão não pode ser imputada a um único dos numerosos reveses que contribuíram em conjunto para a decisão final. As derrotas militares nos campos de batalha; a destruição da frota japonesa e da marinha mercante, que isolaram as ilhas domésticas; a rendição da Alemanha; a destruição causada por armas incendiárias e atômicas; e, finalmente, a decisão soviética de entrar na guerra, todos tiveram um papel.


*Albert Caballé Marimón possui formação superior em marketing, é fotógrafo profissional e editor do blog Velho General. Atua na cobertura de eventos de porte como a Feira LAAD, o Exercício CRUZEX e a Operação Acolhida. É colaborador do Canal Arte da Guerra e da revista Tecnologia & Defesa. E-mail caballe@gmail.com.


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