Incêndio no USS Forrestal

Banner-ADG

Farinazzo-04 Albert-VF1

Cap Fr (FN) RM1 Robinson Farinazzo

Albert Caballé Marimón

Life

Capa da revista Life de 11 de agosto de 1967


“Se Você acha que segurança é caro, experimente um acidente.”


Cinquenta e dois anos atrás, o porta aviões USS Forrestal (CVA-59) ocupava uma posição estratégica na Yankee Station, um ponto no Mar da China ao largo da costa norte vietnamita numa manhã de sábado, 29 de julho de 1967. Na segunda série de surtidas do dia, por volta das 10h50m, um foguete Zuni de 127mm alojado no lançador de um jato McDonnell Douglas F-4B Phantom II disparou inadvertidamente. O projétil atingiu o tanque subalar de um Douglas A-4E Skyhawk, rompendo-o e espalhando combustível de aviação no motor quente, incendiando a seguir esta aeronave (que ainda estava armada com duas bombas de 1.000 libras que caíram da asa). Em segundos, o fogo se espalhou para os aviões vizinhos, formando-se também uma mortal piscina de combustível em chamas no convoo.

As bombas logo começaram a queimar, explodindo daí a 96 segundos e tornando-se uma das maiores tragédias da história da Marinha dos Estados Unidos, em que 134 tripulantes perderam a vida, 161 ficaram feridos e 21 aeronaves de última geração foram completamente destruídas. Um dos sobreviventes ferido no incêndio foi o então Capitão de Corveta John McCain, que, senador pelo estado do Arizona de 1987 a 2018 e candidato à Presidência da República em 2008 contra Barack Obama, faleceu no ano passado, em 25 de agosto de 2018.


McCain&Obama

John McCain na Marinha, à esquerda, e com Barak Obama, à direita, na campanha presidencial (Fotos: Library of Congress e Business Insider)


OS ANTECEDENTES

No dia anterior, 28 de julho, o navio de transporte de munições USS Diamond Head havia reabastecido o Forrestal com 16 bombas de 1000 libras modelo AN/M65A1. Essas bombas foram originalmente fabricadas para a Guerra da Coréia 14 anos antes; passaram parte desse tempo expostas ao calor e umidade em Okinawa ou Guam, e apresentavam sinais de ferrugem e muita poeira. Ainda estavam guardadas nas embalagens originais, que se encontravam bastante deterioradas, e foram entregues sob protestos ao encarregado do Diamond Head no depósito da Marinha em Subic Bay, nas Filipinas.

Dado o histórico de armazenamento, sua estabilidade era duvidosa. Inicialmente, o oficial responsável pelo depósito da Marinha em Subic Bay achou que o Diamond Head iria descarta-las no mar. Ao saber que seriam efetivamente usadas no serviço ativo, protestou veementemente e só aceitou transferi-las para o Diamond Head após receber mensagem por escrito do seu COMIMSUP, (o CINCPAC, United States Indo-Pacific Command) isentando-o da responsabilidade.


Assista ao vídeo 611 do CANAL ARTE DA GUERRA em complemento a este artigo: Incêndio no Porta Aviões USS Forrestal


O Capitão de Mar e Guerra John Beling, comandante do Forrestal, ficou preocupado com a munição que recebeu, mas não via outra saída: era isso ou interromper as missões de bombardeio de que o porta-aviões fora incumbido. Como uma concessão às ponderações de alguns dos armeiros mais experientes de bordo, Beling autorizou o armazenamento das mesmas num paiol à parte, sem contato com o restante das munições do navio. Não fosse isso, talvez o horror que se seguiu tivesse assumido proporções ainda maiores.

Mas operar com bombas cuja confiabilidade era para lá de discutível não era o único dos problemas à bordo do Forrestal. Os foguetes Zuni tinham interruptores de segurança (safety pins) instalados em seus TER (Triple Ejector Rack, plataformas ejetoras tríplices), para evitar que qualquer sinal elétrico chegasse ao foguete antes da decolagem da aeronave. Além do pino de segurança, havia também um pigtail (“rabicho”) conectando a fiação elétrica do foguete ao pod, que o disparava.

Como era sabido pelas tripulações, não era incomum que os pinos de segurança fossem arrancados pelos fortes ventos que comumente varrem o convoo. Por isso, os protocolos de segurança vigentes à época preconizavam que os pigtails só poderiam ser conectados quando a aeronave já estivesse presa à catapulta e pronta para o lançamento (condição em que uma ignição prematura indesejada direcionaria o foguete para o mar).

OS AGRAVANTES


Untitled-1

Diagrama mostrando o início do acidente, provavelmente ocasionado pelo F-4B 110, à esquerda, e instalação do foguete Zuni em jato F-4B Phantom II (Imagens: US Navy)


Não foi isso o que aconteceu naquela manhã, conforme pode ser visto no diagrama e foto acima. O safety pin do TER foi removido, seja pelo vento, como parecia comum ocorrer, seja manualmente – algumas fontes afirmam que ele foi retirado por equipes de manutenção, para ganhar tempo –, e é fato comprovado que pigtail, também para ganhar tempo, foi conectado antes do preconizado pelos procedimentos de segurança.


cv59-fire04

Restos de um A-4 Skyhawk destruído no acidente (Foto: US Navy)


Quando o piloto do Phantom mudou a fonte elétrica de externa para interna, houve uma sobrecarga que em condições normais seria barrada pelo safety pin do TER, que não estava conectado. Mas o pigtail, enfatizamos, contrariando o protocolo de segurança, já estava conectado, e o foguete Zuni foi acionado. Conforme já foi descrito, o fogo tomou proporções incontroláveis.


image

Danos na blindagem do convoo do Forrestal (Foto: Stars and Stripes/US Navy)


Fato é que a equipe de CAV (Controle de Avarias) do navio estava treinada e preparada para apagar incêndios de bombas de 1.000 lb do tipo Mk 83, mais modernas e seguras, que por sua vez tem um tempo de “cook off” (período em que podem ficar expostas às chamas sem detonar) de dez minutos. As velhas e instáveis M65A1 explodiram em pouco mais de um minuto, matando imediatamente quase todos os experientes militares que combatiam as chamas.

Estas baixas fizeram muita diferença no combate ao sinistro, porque enquanto os poucos especialistas restantes aplicavam espuma para conter o incêndio, os demais tripulantes, por imperícia técnica, varriam o convoo com água salgada a qual, além de dispersar a espuma, espalhava o combustível, agravando o quadro. Vários tripulantes caíram ou pularam no mar e foram recolhidos por helicópteros de navios vizinhos.


USN-1124794

A tripulação tenta combater o incêndio após o desastre no USS Forrestal (Foto: US Navy)


Das nove bombas que detonaram no Forrestal naquele dia, oito eram M65, que explodiam com uma força 50% maior do que o normal, uma tendência que seu agente explosivo apresenta quando velho ou inadequadamente estocado. A série de explosões abriu um rombo no convoo blindado, fazendo com que combustível vazasse para os conveses abaixo, aumentando a amplitude do desastre e fazendo mais vítimas.

Com o empenho de toda a tripulação e auxílio dos navios vizinhos, o fogo foi contido às 13h42m daquele dia, mas os trabalhos de rescaldo continuaram até às quatro horas da manhã seguinte.

AS LIÇÕES DA TRAGÉDIA

Uma Marinha de guerra não é um corpo estático, tratando-se na verdade de um organismo vivo em permanente evolução. Assim sendo, a US Navy procurou aprender com as amargas lições que o acidente do USS Forrestal lhe impôs. Poucos meses depois, foi instalado em caráter experimental no porta aviões USS Franklin Roosevelt um sistema de aspersão de espuma que cobre todo o convoo. Uma vez aprovado, ele foi disseminado para toda a Força Aeronaval.


050615-N-1281L-186

USS Ronald Reagan (CVN 76) testando seu sistema de combate a incêndio de convés de voo, obrigatório em todos os porta-aviões em decorrência do acidente no Forrestal (Foto: US Navy)


Também levantou-se a necessidade de dotar os porta aviões com potentes empilhadeiras blindadas, as quais serão empregadas para o alijamento de aeronaves e bombas no mar, de vez que no Forrestal essa faina foi realizada usando a força manual da tripulação, com graves riscos para a mesma.

Em adição, criou-se o Weapon System Explosives Safety Review Board (WSESRB) Comitê de Revisão de Segurança de Explosivos para Sistema de Armas, um importante órgão destinado a sistematizar o manuseio de munições e diminuir seus riscos operacionais.

Por fim, dado o fato de que todo o acidente foi filmado pelas câmeras de bordo, produziu-se um filme educativo que até hoje é divulgado em diversas Marinhas alertando para os erros e acertos de uma operação de combate a incêndio à bordo: Trial by Fire: A Carrier Fights for Life.


Assista ao filme Trial by Fire: A Carrier Fights for Life


Mas talvez uma das atitudes mais comoventes da US Navy tenha sido batizar o Centro de Combate a Incêndios da Marinha em Norfolk com o nome do Chief Petty Officer Gerald W. Farrier. Naquele distante verão vietnamita, ele foi o primeiro a chegar às chamas, e morreu tentando salvar as vidas dos pilotos que estavam presos nas aeronaves.


memorial_1

Centro Farrier, a Escola de Treinamento de Combate a Incêndio, um legado positivo da tragédia que homenageia um marujo excepcional (Foto: Walt Stinner)


*Imagem de capa: o USS Forrestal arde em chamas logo após o acidente (Foto: US Navy)


RECOMENDADOS PELO VELHO GENERAL

Captura de Tela 2019-05-14 às 15.44.01

US NAVY FACT FILE – Aircraft Carriers CVA-59 USS Forrestal

  • US Navy (Autor)
  • Em inglês
  • eBook Kindle

Anúncios

  23 comments for “Incêndio no USS Forrestal

  1. 21/05/2019 às 08:06

    Que tragédia….
    Vcs são muito bons parabéns pelo trabalho, uma sugestão de matéria, a revolta dos negros do USS Kitty hawk….

    Curtido por 1 pessoa

  2. Luiz Reis
    21/05/2019 às 08:06

    Excelente artigo!!!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Kleber Peters
    21/05/2019 às 08:49

    Aprender com os próprios erros. Isto separa os homens dos meninos. Excelente matéria.

    Curtido por 1 pessoa

    • 21/05/2019 às 09:01

      Exatamente Kleber, situações como essa tem que ser estudadas para corrigir erros ou melhorar procedimentos. Obrigado por comentar!

      Curtir

  4. robinsonfarinazzo
    21/05/2019 às 12:27

    Eu sou suspeito para comentar !

    Curtido por 1 pessoa

    • 21/05/2019 às 14:52

      Suspeito mas não culpado! Brazo Zulu!

      Curtir

    • Edson Muniz de Carvalho
      21/05/2019 às 19:50

      Ótimo artigo! A Segurança de Instalações com riscos elevados devem sempre estar em primeiro lugar. Safety First.

      Curtido por 1 pessoa

  5. Emerson Cruz
    21/05/2019 às 12:52

    Excelente matéria! Vale ressaltar que a US Navy aprendeu com os erros.

    Curtido por 1 pessoa

  6. Edson
    21/05/2019 às 15:05

    Ótimo artigo! A Segurança de Instalações com riscos elevados devem sempre estar em primeiro lugar. Safety First.

    Curtido por 1 pessoa

  7. Bruno
    21/05/2019 às 15:47

    Se eu já achava que combater incêndio florestal era complicado, imaginem fazer o mesmo no convés de um navio, cercado de combustível e explosivos.

    Parabéns pela excelente matéria.

    Curtido por 1 pessoa

    • 21/05/2019 às 15:53

      Exatamente! Uma das lições, é nunca menosprezar procedimentos de segurança! Grato por seguir e por comentar!

      Curtir

  8. 21/05/2019 às 17:12

    Dizem que o maior pesadelo de qualquer marinheiro é um incêndio de grandes proporções em alto mar.
    Texto excelente.
    J.Paulo
    @livrosdeguerra

    Curtido por 1 pessoa

    • 21/05/2019 às 19:59

      Dizem que num incêndio em navio, todo marinheiro acredita em Deus! Grato por comentar!

      Curtir

  9. Michael Wu
    21/05/2019 às 19:15

    Excelente Artigo! Sempre aprendo algo novo! Não sabia que John McCain foi ferido neste acidente, meses depois ele seria abatido e ejetou ficando gravemente ferido, sendo repatriado se não me engano ao final da guerra, um verdadeiro sobrevivente!

    Curtido por 1 pessoa

    • 21/05/2019 às 20:00

      Sim, ele passou alguns anos prisioneiro de guerra! Isso dá um post também, vai entrar na fila! Obrigado por comentar!

      Curtido por 1 pessoa

  10. Lucas brito
    21/05/2019 às 19:56

    Excelente comentário…esse acidente serve para provar que as forças armadas não são para ficar brincando já que um erro peguemos pode tomar proporções castastróficas…

    Curtido por 1 pessoa

  11. Vinicius
    23/05/2019 às 18:32

    Igual vocês eu duvido que tenha na internet, tanto o blog, o GBN e o canal no Youtube são excelentes. Agradeço por compartilharem seus conhecimentos, abraço!!!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: