As lições de Kemal Atatürk, o herói de Gallipoli

Farinazzo-04 Por Cap. Fr. (FN) Robinson Farinazzo*

Nos últimos anos, falou-se muito em Estado Islâmico, terrorismo, massacres e derramamento de sangue, então resolvi escrever sobre um homem que foi uma ilha de ponderação e sensatez no Oriente Médio no conturbado século XX. Seu nome é Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938), e ele foi um oficial do exército e estadista turco que ganhou proeminência em seu país durante os duros anos da Primeira Guerra Mundial (1914-18) ao vencer a Batalha de Gallipoli contra os ingleses, australianos e neozelandeses em 1916. Foi o único general otomano a conseguir uma vitória sobre o Ocidente em oito séculos de história.

Com o termino da guerra em 1918 e consequente derrota e posterior dissolução do império Otomano, a Turquia corria o sério risco de desaparecer como país independente ou se fragmentar por divergências religiosas, étnicas ou políticas. Na balbúrdia que se seguiu, o próprio Kemal, um herói de guerra e homem com excelentes princípios humanitários e visão de estadista, foi condenado à morte. Ele conseguiu virar o jogo e foi guindado ao poder em seu país, transformando-o positivamente ao longo do tempo através de uma série de inovações tais como:

  • Transformou súditos de um Sultanato em cidadãos de uma República;
  • Laicizou e ocidentalizou o país;
  • As leis da sharia islâmica até então em vigor foram substituídas por um código legislativo baseado no modelo da Suíça, com influências do código penal italiano e do código comercial alemão;
  • Reformou o sistema de ensino, combatendo o analfabetismo, ademais promoveu congressos sobre o tema e convidou importantes educadores ocidentais para auxilia-lo na tarefa;
  • Criou instituições e fundamentos de estado que sobrevivem até hoje.
Çerkez_Ethem,_Çerkez_savaşçıları_ve_Mustafa_Kemal_Atatürk,_06-1920

Mustafa Kemal Atatürk e Ethem, o circassiano, a caminho da rebelião de Yozgat, em junho de 1920

Prosseguindo em suas reformas de ímpeto modernizante na Turquia, Atatürk ainda adotou as seguintes medidas:

  • Propiciou as bases econômicas para o surgimento de uma burguesia industrial até então inexistente na Turquia;
  • Desenvolveu um sistema bancário capaz de dar suporte a diversas atividades econômicas;
  • Procurou melhorar a condição social da mulher na sociedade turca;
  • Ao vencer as tropas do Ocidente em Gallipoli, restaurou a confiança do povo no exército. E por paradoxal que possa parecer, ele modernizou seu país adotando instituições e costumes dos inimigos que combatera naquela batalha;
  • Conseguiu manter a independência e integridade de seu país mesmo sendo vizinho da URSS e inobstante às pressões da França e Inglaterra. E o que é mais incrível, em meio ao cenário instável do Oriente Médio;
  • Manteve a Turquia livre das tentações totalitárias daquele período histórico: comunismo e fascismo;
  • Os fundamentos políticos e diplomáticos que lançou sobreviveram à sua morte em 1938 e ajudaram a manter a Turquia fora da Segunda Guerra Mundial inobstante a pressão da Inglaterra, da Alemanha de Hitler e da URSS;
  • Com a Convenção de Montreaux em julho de 1936, obtém a soberania sobre os estratégicos estreitos de Bósforo e Dardanelos;
  • Mesmo no combate as atividades contra revolucionárias de seus opositores, soube dosar o uso da força;
  • Priorizou a malha rodo-ferroviária do país;
  • Fez a paz com a Grécia. Em certa ocasião, por exemplo, ordenou a remoção imediata de uma pintura que mostrava um soldado turco enfiando sua baioneta num militar grego, declarando aquela uma cena revoltante. Também estabeleceu tratados de fronteira com o Irã;
  • Em meio a esta vida hercúlea, ainda arrumou tempo para adotar oito crianças órfãs!
  • Embora o conjunto de sua obra fosse excelente, falhou em criar um sistema multipartidário em seu país, e a Grande Depressão de 1929 atrapalhou em muito seus planos econômicos. Em adição, também é bom que se mencione que desde sua morte o exército turco sempre se sentiu guardião de suas conquistas, com consequências nem sempre positivas para o avanço do processo democrático do país;
  • Em 1981, no centenário de nascimento de Atatürk, sua memória foi homenageada pelas Nações Unidas e pela UNESCO, que declararam aquele O Ano Atatürk no Mundo, e adotaram a Resolução sobre o Centenário de Atatürk;
  • Até seus antigos inimigos na Primeira Guerra Mundial o homenagearam: existe o Memorial de Atatürk em Wellington, Nova Zelândia (que também serve como memorial às tropas da ANZAC que morreram em Galípoli) e o Memorial Kemal Atatürk, em Canberra, Austrália.

As duas frases abaixo, ambas de sua autoria, dizem muito a respeito do homem e sua visão do mundo:

“São os professores, somente eles, quem libertam os povos e transformam as coletividades em verdadeiras nações.”

“República significa administração democrática do Estado.”

Atatürk_is_leaving_Dolmabahçe_Palace_(30_September_1929)

Mustafa Kemal Atatürk saindo do Palácio Dolmabahçe em setembro de 1929 (Wikipedia)

Mas como brasileiros, o que podemos aprender com Kemal Atatürk? Há vários pontos de seu trabalho e de sua vida que encerram preciosas lições muito úteis à cena brasileira:

  1. O primeiro dever do estadista é buscar a paz social, equalizando aspirações, distribuindo progresso e buscando propiciar condições para que todos tenham uma vida digna. É o grande papel de qualquer liderança: trazer paz e prosperidade para o seu entorno;
  2. Os governantes devem mostrar à sociedade que educação é prioridade;
  3. Um país não progride se conduzir sua política ao sabor da ideologia dos seus vizinhos. Muito pelo contrário, deve pautar a mesma baseada nos anseios de sua sociedade e condizente com a cultura e aspirações da mesma;
  4. Religião e estado são como água e água e óleo. Não se misturam;
  5. Governa-se para todos , indistintamente de etnia, religião, credo político ou orientação sexual. Um Rei só se legitima no trono se for um bom rei para todos os homens;
  6. Nenhuma conquista é perene se não se construir e fortalecer a noção de ampla cidadania;
  7. A inovação proporcionada por uma liderança fica caracterizada por suas transformações positivas. Atatürk percebeu que os dias de guerras e conquistas da Turquia com seus vizinhos europeus e asiáticos haviam chegado ao fim e que o caminho que se descortinava era o da boa vizinhança, integração e cooperação;
  8. Não é humanamente possível que um homem faça pelos seus semelhantes mais do que sua época permite, mas isto não o exime da obrigação preparar o terreno e semear para que a geração por vir colha bons frutos;
  9. O governante deve se cercar de bons colaboradores, e busca-los onde quer que eles estejam. Assessoria competente não escolhe língua, religião, partido ou sexo;
  10. O estadista precisa ter sensibilidade para enxergar as demandas importantes de seu tempo. E TODAS AS DEMANDAS SOCIAIS SÃO URGENTES. Só se consegue isto conversando, ouvindo, debatendo e indo de encontro as pessoas de espírito aberto e coração desarmado.

Finalmente, gostaria de frisar que não pretendo aqui, numa breve análise, ter a ousadia de pretender conseguir condensar satisfatoriamente em poucas linhas toda uma vida dedicada a servir um país. Apenas procurei mostrar que Atatürk não foi uma liderança qualquer. Foi importante e necessário para trazer paz a região e estabilidade ao seu país. Teve erros e acertos como todas as outras lideranças em qualquer período da história, mas acredito que seu legado foi muito positivo e deve ser estudado.

Pelo menos para que não se repitam seus inevitáveis enganos.


*Robinson Farinazzo é Capitão de Fragata (FN) RM1. Atuou em diversos cargos em sua carreira militar, especializando-se através de cursos, seminários, simpósios e intensa experiência de campo. É palestrante e articulista, com textos publicados em várias revistas e sites especializados. É Editor do Canal Arte da Guerra no YouTube.


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  1 comment for “As lições de Kemal Atatürk, o herói de Gallipoli

  1. dbatta
    17/04/2019 às 11:59

    Homem, estadista, general, LIDER excepcional.
    Devia ser mais estudado no Ocidente

    Curtido por 1 pessoa

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