Relembrando Max Wolf

Albert-VF1 Por Albert Caballé Marimón*

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Neste post, traduzi um artigo publicado originalmente no site Military History Now. Uma justa homenagem, pois o Sargento Max Wolf Filho é um dos maiores, se não o maior herói brasileiro da Segunda Guerra Mundial.

(Publicado por Mary Jo McConahay** Militaryhistorynow.com em 25/09/2018)


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Eles cresceram numa parte do mundo onde os jovens se juntaram às organizações da Juventude Hitlerista, onde a seção local do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães realizou noites de cinema para exibir filmes de propaganda do Terceiro Reich e onde as mulheres da Liga Feminina nazista fofocavam sobre apfelstrudel e kaffee enquanto seus filhos treinavam para o desfile de aniversário do Führer. Mas não era Munique, Colônia ou Berlim – na verdade, esse lugar ficava a mais de 10.000 quilômetros de distância, na longínqua América do Sul.

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Em 1939, o sul do Brasil abrigou um milhão de pessoas de etnia alemã, os teuto-brasileiros. Ironicamente, um deles faria fama como um dos maiores lutadores do lado aliado na Segunda Guerra Mundial.

Ele era Max Wolf, o filho alto e de olhos azuis de um torrador de café de Viena e neto materno de um coronel do exército brasileiro. Ele se tornou uma lenda entre os praças da Força Expedicionária Brasileira (FEB) ou “Cobras Fumantes”, como ficaram conhecidos.

Num de seus primeiros dias em campo, Wolf deu uma amostra do personagem em que se transformaria. Enquanto percorria a linha de frente com um oficial superior, o humilde sargento quebrou o protocolo e corajosamente saiu à frente de seu comandante.

“O que é isso?”, Perguntou o capitão Adhemar Rivermar de Almeida, o oficial de operações da companhia. “Agora você é meu protetor?”

“Capitão, a sua vida é mais útil para o país do que a minha”, respondeu Wolf cordialmente, mas com uma firmeza que desencorajou a discussão.


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Havia cerca de 800 teuto-brasileiros como Max Wolf entre os 25.000 homens da FEB que foram à guerra em 1944 integrando o Quinto Exército do General Mark Clark. Eles seriam a única unidade latino-americana a lutar ao lado dos Aliados na Europa

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Os brasileiros chegaram em julho com pouco treinamento, pouca experiência ou conhecimento do armamento ou táticas americanas. Suas primeiras batalhas foram pouco encorajadoras. Finalmente, sua determinação, juntamente com uma liderança sólida, se fizeram valer e a FEB acabou esmagando a Linha Gótica do Eixo. Terminaram a guerra em 1945 tendo capturado 14 mil soldados alemães e três generais, e libertando aldeias na Toscana e Emilia-Romagna. No meio disso, Max Wolf e seus companheiros teuto-brasileiros lutaram contra outros alemães – possivelmente até mesmo alguns do Brasil.

Antes da guerra, as famílias alemãs na América do Sul muitas vezes enviavam seus filhos – especialmente os homens – de volta à pátria para visitar parentes e freqüentar escolas. Outros retornaram à pátria ancestral em busca de progresso na carreira. Os que foram azarados o suficiente para estarem no Reich no início da guerra logo foram recrutados para o exército de Hitler.

Berlim considerava os filhos e netos de alemães como cidadãos do Terceiro Reich, com todos os deveres associados. É verdade que muitos brasileiros foram para a Alemanha especificamente para servirem como voluntários nas forças armadas alemãs. De fato, um relatório de inteligência da polícia de São Paulo intitulado “Punhal Nazista no Coração do Brasil” afirmava que médicos pró-nazistas no Brasil chegavam a realizar exames médicos para qualificar jovens as vésperas de sua partida para o serviço militar na Alemanha.


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O número exato de teuto-brasileiros que lutaram voluntariamente pelo Terceiro Reich permanece um mistério, dada a relutância de muitos sobreviventes em falar sobre seu serviço durante a guerra. O que está claro é que os pracinhas, particularmente os de origem alemã, lutaram ferozmente. Max Wolf era um deles.

Como vários de seus camaradas, Wolf se alistou na FEB, pelo menos em parte, para seguir o carismático tenente-general Euclides Zenóbio da Costa. Um soldado de carreira de 51 anos, Zenóbio levou os brasileiros à sua primeira vitória na Itália, em Camaiore. Ao que parece um modelo para Wolf, Zenóbio comandou “com um pouco de imprudência … não se preocupando com os perigos que o rodeavam”, escreveu Floriano de Lima Brayner, chefe do estado-maior do exército.

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Wolf havia se provado há muito tempo sob ataque, sendo gravemente ferido enquanto lutava ao lado de Zenóbio nas forças do governo na revolução de 1932 no Brasil. Quando chegou às linhas italianas cobertas de neve em dezembro de 1944, ele e os demais recém-chegados foram imediatamente enviados numa tentativa malsucedida de tomar o morro fortificado de 980 metros chamado Monte Castelo. Muitas das tropas inexperientes entraram em pânico no primeiro encontro com o inimigo e dispararam freneticamente, revelando suas posições e chamando a atenção dos artilheiros inimigos.


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Wolf, no entanto, estava entre os que mantiveram a coragem. Quando baixou a fumaça do primeiro tiroteio, ele se ofereceu para liderar uma unidade de reabastecimento que transportava munição para posições avançadas, recolhendo mortos e feridos no retorno. Foi a primeira de muitas missões especiais que Wolf assumiu nas semanas seguintes, num dos piores invernos da história da Europa. Seus homens estavam sempre dispostos a segui-lo, seja no reconhecimento de posições inimigas ou emboscando patrulhas alemãs.

Quando Zenóbio pediu voluntários para recuperar o corpo de um oficial morto que estava sendo usado como isca pelos alemães – snipers inimigos atiravam em quem tentasse recuperar as baixas – Wolf liderou uma pequena unidade na escuridão e retornou com o capitão morto. Logo, Wolf recebeu dos praças o apelido de “Rei dos Patrulheiros”.


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Em março de 1945, os Pracinhas sofreram com o que provavelmente foi seu pior momento da guerra. Numa operação noturna, uma companhia de infantaria brasileira entrou num campo minado. As explosões atiraram homens pelos ares. Em poucos instantes, treze estavam mortos. As explosões também derrubaram as linhas telefônicas usadas para a comunicação das tropas na linha de frente com o comando na retaguarda. Sem ninguém capaz de recuperar os feridos ou consertar as linhas danificadas, Wolf e três voluntários se adiantaram para desempenhar a missão. Ele e seu pequeno esquadrão passaram em segurança pelo campo minado e cumpriram as duas tarefas. O general norte-americano Lucien Truscott, que tinha assumido o lugar de Clark como comandante do Quinto Exército, condecorou Wolf com uma Estrela de Prata por sua bravura.

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Quando os correspondentes de guerra brasileiros chegaram à frente italiana no final da guerra, os jornalistas disputavam para fotografar Max Wolf. Numa foto, ele aparece calmo, quase distraído, usando um capacete e parecendo combater o cansaço. Os homens de sua nova Patrulha Especial – escolhidos por ele a dedo – são vistos à vontade logo atrás dele.

Poucas horas depois, uma tragédia aconteceu quando a patrulha se movia cautelosamente nos arredores da cidade de Montese.

Em meio a um misterioso silêncio no meio da tarde, Wolf posicionou o esquadrão numa linha de escaramuça e se dirigiu para o que parecia uma casa de fazenda abandonada. Wolf avançou sem cobertura. Subitamente, uma rajada de metralhadora foi disparada da casa, atingindo Wolf. Ele se lançou para frente e caiu morto instantaneamente.

Um historiador que escreveu sobre a FEB sugere que Max Wolf pode ter procurado a própria morte. Afinal de contas, ele se arriscou ao atravessar o campo à frente dos seus homens sem cobertura. Os relatórios oficiais, no entanto, não dizem nada sobre sua suposta imprudência. Na verdade, o relatório elogia Wolf por sua “bravura insuperável” em circunstâncias que “não derrotaram seu espírito”.


*Albert Caballé Marimón é fotógrafo profissional e editor do Blog Velho General. Atua na cobertura de eventos com experiências tais como a Feira LAAD, o Exercício CRUZEX e a Operação Acolhida em Roraima. É colaborador do Canal Arte da Guerra e da revista Tecnologia & Defesa. E-mail: caballe@gmail.com.


**Mary Jo McConahay, norte-americana nascida em Chicago, é jornalista e autora de “The Tango War, The Struggle for the Hearts, Minds and Riches of Latin America during World War II” (sem tradução para o português).


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  4 comments for “Relembrando Max Wolf

  1. Filipe do Amaral Monteiro
    02/03/2019 às 18:36

    A fotografia dizendo Monte Castelo é, na verdade, na Torre de Nerone. Sobre a cobra fumando, não foi o Hitler que disse isso, foram os próprios brasileiros (começou justamente no exército). A ideia de que Hitler repetiria um coloquiamos brasileiro que só existe aqui é algo tão ridículo que eu fico surpreso que alguém dê seriedade pra isso.

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    • 02/03/2019 às 20:03

      Felipe, muito obrigado por comentar! O artigo é uma tradução do original da historiadora Mary Jo McConahayo. Se você puder me enviar as referências que embasem sua afirmação, terei prazer em contactar a historiadora para as correções.

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      • Sergio Candido
        29/03/2019 às 11:19

        Bom dia. Me lembro de ter lido um artigo na revista Super Interessante, da Abril, informando que essa frase foi dita por Getúlio Vargas, respondendo a uma corrente de brasileiros que exigia o Brasil na guerra. Nessa fase, Getúlio, ao que parece, nutria certa afeição por Hitler e não queria se envolver na guerra, até que os alemães afundaram navios brasileiros.

        Curtido por 1 pessoa

      • 29/03/2019 às 11:24

        Bom dia Sergio! Talvez seja, mas como é uma tradução, mantive ipsis literis o original. Neste caso, para mim, a importância do artigo está na homenagem feita a Max Wolf, coisa que é dificil vermos por aqui. Muito obrigado por comentar e por acompanhar o blog.

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