A Pantomima Nuclear entre EUA e Arábia Saudita Mira o Irã

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

M.K. Bhadrakumar*

Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

Diante de tensões latentes com o Irã, o acordo nuclear entre EUA e Arábia Saudita revela-se uma jogada estratégica de Trump. Ao condicionar o pacto à adesão aos Acordos de Abraão, Washington busca vincular Riad a uma possível guerra contra Teerã, unindo interesses nucleares e geopolíticos no Oriente Médio.


O entusiasmo em torno do acordo nuclear entre os EUA e a Arábia Saudita mostrou-se efêmero. Aparentemente, o próprio presidente dos EUA, Donald Trump, esfriou os ânimos ao acrescentar, na quinta-feira – menos de 24 horas depois –, uma condição: para que o acordo avance, a Arábia Saudita deve primeiro aderir aos Acordos de Abraão. Ou seja, na situação atual, pode parecer que os EUA estão pedindo o impossível.

No entanto, é praticamente certo que Trump só permitiu a assinatura do acordo com os sauditas após consultar o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, como uma última cartada para vincular a Arábia Saudita como participante ou colaboradora – ao lado de Israel (e dos Emirados Árabes Unidos) – na iminente guerra total contra o Irã. Tal conflito poderia, em algum momento, exigir operações terrestres, o que seria inviável sem antes garantir o apoio firme e irrevogável de Riad.

Caso a Arábia Saudita se distancie da guerra planejada por Trump e impeça os EUA de utilizar bases sauditas ou de organizar a logística necessária, os generais do Pentágono enfrentarão grandes dificuldades para conduzir o conflito. Politicamente, a postura saudita também influenciará as atitudes de outras oligarquias regionais do Golfo Pérsico em relação ao Irã, que exerce uma influência avassaladora sobre a opinião pública árabe. Também é preciso levar em conta o momento da reunião, em 15 de julho, entre Trump e o primeiro-ministro iraquiano Ali al-Zaidi, que é favorável aos EUA. Em suma, o Iraque tornou-se uma linha de frente no conflito entre EUA e Irã.

Os sauditas estão furiosos com a perspectiva de o Irã emergir como uma potência regional dominante. Por sua vez, o Irã também observa atentamente as oscilações de humor sauditas, motivadas pela necessidade de não irritar Trump, que está em posição de desempenhar um papel importante caso a questão da sucessão em Riad venha à tona a qualquer momento. Isso sem mencionar os profundos vínculos do petrodólar, cruciais para ambos os protagonistas.

Enquanto isso, o recente conselho do Paquistão a Teerã para evitar ataques à Arábia Saudita, a ameaça dos Houthis contra o reino saudita e o possível fechamento do Estreito de Bab el-Mandeb são sinais claros de tensões latentes entre Teerã e Riad, embora ambos os lados mantenham uma aparência de normalidade. Sem dúvida, a declaração de Trump na quinta-feira, condicionando o acordo nuclear à normalização das relações dos sauditas com Israel, colocou em xeque o próprio acordo. Trata-se de uma reviravolta típica de Trump ou o episódio é apenas mais um anúncio confuso, marca registrada de sua presidência? A verdade pode estar em algum ponto intermediário.

Segundo uma reportagem da AP, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse a jornalistas em um briefing ontem que Trump afirmou que, se os sauditas não aderirem aos Acordos de Abraão, “o acordo está cancelado”. Quando questionada sobre por que essa condição não foi mencionada na quarta-feira, quando o Departamento de Energia anunciou a assinatura do acordo, Leavitt respondeu que isso ocorreu porque Trump “é sempre quem fecha o negócio”.

Minha leitura é a de que Trump está recuando seguindo um roteiro planejado. Ele poderia ter reivindicado o mérito pela condição relativa aos Acordos de Abraão, caso ela já fizesse parte do acordo original. No entanto, faz parte de sua estratégia tentar aumentar seu poder de negociação com os sauditas ao acrescentar essa ressalva abertamente; isso poderia até melhorar o acordo em certos aspectos, como nas cláusulas de enriquecimento ou de verificação, por exemplo.



Os sauditas parecem ter sido pegos de surpresa na quarta-feira, quando o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, assinou o acordo multibilionário, em negociação há décadas, com seu homólogo saudita, o príncipe Abdulaziz bin Salman, ministro de Energia da Arábia Saudita; contudo, isso não deve ser aceito necessariamente pelo valor de face. O negócio incluiria um “Acordo 123” e um “acordo bilateral de salvaguardas” associado, além de prever um estudo de dois anos para avaliar a necessidade de enriquecimento nuclear. Isso parece uma forma de adiar a decisão final. Curiosamente, o gabinete de Netanyahu afirmou que a adesão dos sauditas aos Acordos de Abraão “representaria um salto histórico para a paz no Oriente Médio”.

No geral, Trump tem um acordo em mãos tanto com Riad quanto com Tel Aviv. A ressalva sobre os Acordos de Abraão, implícita no pacto, pode servir para postergar a concretização do acordo, a menos que, e até que, os sauditas abram mão de sua exigência fundamental que vincula a normalização das relações com Israel. Por outro lado, Trump detém poder de negociação, uma vez que os sauditas agora precisam decidir se desejam normalizar as relações com Israel, decisão que dependerá, naturalmente, da trajetória ou do desfecho da guerra contra o Irã que se avizinha.

De fato, os sauditas também estão obtendo um acordo extremamente vantajoso aqui, que não proíbe expressamente o reprocessamento e o enriquecimento de material nuclear, nem exige que a Agência Internacional de Energia Atômica realize suas inspeções. Aparentemente, os sauditas conseguiram evitar a adesão ao protocolo adicional habitual, medida que teria garantido a ausência de fraudes e assegurado que o acordo permanecesse nos trilhos como um programa de natureza pacífica. Na quinta-feira, via Truth Social, Trump afirmou que “não haverá enriquecimento de material”, mas acrescentou que os EUA “não se opõem a instalações nucleares civis (sem enriquecimento)”. É possível imaginar que os EUA mantenham o controle sobre uma eventual instalação de enriquecimento saudita, além de preservar uma presença militar ou de segurança no local.

O Congresso terá um prazo de 90 dias para analisar o acordo. Os legisladores não precisam aprová-lo formalmente, embora possam se opor a ele, algo considerado improvável (consulte o relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso intitulado Prospects for U.S.-Saudi Nuclear Energy Cooperation [Perspectivas para a Cooperação em Energia Nuclear entre EUA e Arábia Saudita], de 11 de março de 2026). Em suma, a tendência é que o acordo “permaneça em vigor sem mudanças substanciais até que os sauditas concordem com algo” em relação a Israel, nas palavras de Bryan Clark, pesquisador sênior do Hudson Institute, um influente think tank sediado em Washington e alinhado a Trump.

A coincidência mais bizarra em toda essa sequência de acontecimentos desde quarta-feira é a sombra que este acordo pode lançar sobre o pacto entre EUA e Irã que se vislumbra no horizonte. Mas isso é apenas uma hipótese, certo? Se Trump pretender deflagrar uma guerra total contra o Irã, não haverá mais negociações sobre um acordo nuclear com Teerã, pois tudo dependerá do desfecho do conflito.

Como partes interessadas, os sauditas podem deixar de resistir aos apelos de Trump para colaborar com o esforço de guerra daqui para a frente, um esforço cujo objetivo seria destruir o Irã de forma abrangente, utilizando todo o poderio militar à disposição de Washington. O príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, já declarou anteriormente que, caso o Irã obtivesse uma arma nuclear, o reino teria de seguir o mesmo caminho.

Diante desse cenário complexo e de variáveis ​​em constante mudança, Netanyahu concluiu que, no momento atual, não há nenhuma razão plausível para Israel tentar inviabilizar o acordo entre EUA e Arábia Saudita, que ainda luta para sair do papel.


Publicado no Indian Punchline.

*M.K. Bhadrakumar foi diplomata de carreira por 30 anos no Serviço de Relações Exteriores da Índia. Serviu na embaixada da Índia em Moscou em diversas funções e atuou na Divisão Irã- Paquistão-Afeganistão e na Unidade da Caxemira do Ministério das Relações Exteriores da Índia. Ocupou cargos nas missões indianas em Bonn, Colombo, Seul, Kuwait e Cabul; foi alto-comissário interino adjunto em Islamabad e embaixador na Turquia e no Uzbequistão.

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