
Um balanço crítico e objetivo das consequências positivas e negativas que a prolongada Guerra Russo-Ucraniana trouxe para a Federação da Rússia, revelando as profundas transformações sociais, econômicas e geopolíticas enfrentadas pelo país.
Passaram-se quatro anos e meio desde que a Rússia iniciou a intitulada “Operação Militar Especial” com objetivos estratégicos vagos e ambíguos, como “desmilitarização”, “desnazificação”, proteção das comunidades russófonas e da Igreja Ortodoxa na Ucrânia, bem como impedir que este país se torne um membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Com quase cinco anos desde o início da guerra, que migrou para uma guerra de atrito de alta intensidade promovida pela OTAN para desgastar ao máximo a Federação Russa econômica, militar, social e politicamente, podemos promover uma avaliação crítica e objetiva dos efeitos que a Guerra Russo-Ucraniana trouxe à Rússia, além de sua imersão profunda em uma guerra prolongada e um confronto feroz com o Ocidente que levou a mudanças sísmicas inclusive na sociedade e instituições russas.

Iremos delimitar as principais consequências pelos efeitos positivos e negativos, sem desconsiderar outras variáveis menores que podem ser inseridas em uma avaliação mais detalhada em outros trabalhos.
Principais consequências negativas para a Federação Russa no âmbito da guerra na Ucrânia
1. Enormes perdas humanas. O resultado mais trágico do conflito – a morte e os ferimentos de centenas de milhares de cidadãos russos em idade ativa em um país que enfrenta uma crise de natalidade há mais de 60 anos e que depende e dependerá cada vez mais de fluxos migratórios para preencher necessidades de mão de obra na indústria, agricultura e serviços – revela-se ainda mais devastador quando se considera o trauma psicológico coletivo e individual decorrente de tamanho nível de perdas humanas militares e civis. De acordo com o programa Mediazone, tido como crítico à Rússia, contabilizam-se mais de 227 mil combatentes de todas as unidades de combate e formações mortos desde 24 de fevereiro de 2022.

Além disso, a desmobilização futura e reinserção social de milhares de combatentes traumatizados vai gerar inevitáveis conflitos de ordem social e familiar com impacto político no país.
2. Destruição e danos à infraestrutura civil. Foram destruídas e atacadas fábricas, refinarias e edifícios residenciais com danos materiais, pessoais e econômicos enormes. Outra consequência vinculada é a exposição do território russo a ataques diários e sistemáticos, algo impensável até 24 de fevereiro de 2022, afetando gravemente a dissuasão convencional da Federação Russa perante o planeta e principalmente em relação a seu entorno próximo.
3. Problemas com combustível e energia. Ataques regulares planejados, estruturados e promovidos pela OTAN a partir das Ucrânia às refinarias levaram a perturbações na produção de combustível, afetando até um terço da produção regular do complexo petroquímico do país. Isto provocou escassez de gasolina e diesel, que embora não seja necessariamente duradoura, está gerando enorme custo econômico e fiscal diante da necessidade de importação de derivados refinados na Índia, China, Cazaquistão e Bielorrússia.
4. Isolamento digital e degradação da Internet. Na Rússia, estão bloqueadas quase todas as redes sociais populares e aplicativos de mensagem, afetando não apenas a comunicação interpessoal, mas toda uma cadeia de negócios e serviços. Além disso, a velocidade dos serviços restantes diminui e a introdução de sistemas de filtragem de tráfego piora a estabilidade geral e a qualidade da ligação à Internet, afetando o ecossistema digital do país e estressando fortemente a população.
5. Sanções internacionais sem precedentes. A Rússia tornou-se o recordista mundial em termos de restrições impostas, o que impactou negativamente cooperações internacionais, intercâmbios comerciais, Institucionais e tecnológicos, cadeias de produção e consumo, além de exigir aumento de custos na economia para superar tais medidas sancionatórias.

6. Queda do nível de vida e inflação. Os enormes gastos do orçamento com necessidades militares provocaram um forte aumento dos preços dos produtos e serviços, afetando o rendimento médio da população e aumentando a desigualdade social.
7. Fuga e “drenagem” de cérebros. A declaração de mobilização e a falta de perspetivas no país levaram centenas de milhares de profissionais qualificados a sair do país. Ademais, muitos trabalhadores especializados altamente qualificados migraram para atividades militares, principalmente em razão de ganhos financeiros maiores para quem serve na Ucrânia ou em unidades de combate mobilizadas para a guerra, gerando grande escassez de pessoal em vários complexos industriais e de serviços.
8. Crescente dependência da China. A perda do mercado europeu obrigou Moscou a reorientar as exportações de recursos para o Leste asiático, o que colocou a Rússia em uma posição vulnerável e economicamente dependente de Pequim e Nova Délhi, que ditam os preços das matérias-primas exportadas pela Rússia, que se vê obrigada a vender com desconto o petróleo embarcado, com perdas econômicas acumuladas bilionárias.

9. Militarização e repressão no interior do país. As prioridades orçamentárias mudaram da alocação de recursos para medicina, seguridade social, educação e desenvolvimento regional para a produção de armas, munições e tecnologias militares, comprimindo programas estatais importantes nos setores que impactam diretamente na vida do cidadão.
10. Ampliação da OTAN em seu entorno estratégico e crescimento da escalada contra si. A incorporação à OTAN da Suécia e da Finlândia, bem como a militarização crescente dos países integrantes daquele bloco militar, criou uma realidade duradoura de risco e hostilidades à Rússia, tal como já se verifica com os ataques de drones de longo alcance em seu território. Tal cenário irá exigir da Rússia um maior engajamento, comprometimento e direcionamento de recursos já sobrecarregados para conter uma OTAN cada vez mais provocativa.
Principais aspectos positivos para a Rússia como resultado da guerra na Ucrânia
1. Crescimento da produção interna no âmbito da substituição de importações aplicada em inúmeros setores da economia. A saída das empresas ocidentais liberou nichos para o negócio doméstico. Na indústria alimentícia, no varejo e alguns serviços prosperaram, consolidando estruturas empresariais próprias que adquiriram ganhos de escala, eficiência e mercados, o que impactou na geração de emprego, inovação tecnológica própria e autônoma. A consolidação de marcas próprias e empresas com conteúdo local propiciarão desenvolvimento soberano em áreas complexas, como informática, máquinas e ferramentas, mecânica, química, autopeças, alimentação, aeroespacial, naval, circuitos, software, ressalvada a adoção de políticas públicas adequadas para que tais empresas se mantenham, o que é um desafio em um país com problemas sérios na burocracia.

LIVRO RECOMENDADO:
Guerra Russo-Ucraniana: O Conflito que Redesenhou a Geopolítica Mundial
• Rodolfo Queiroz Laterza e Marco Antonio de Freitas Coutinho (Autores)
• Edição Português
• Capa comum
2. Desenvolvimento do complexo militar-industrial. As empresas de defesa estão sobrecarregadas de encomendas diante de uma demanda agregada consolidada, o que garante um elevado nível de emprego e salário nas cidades e regiões industriais, principalmente no interior do país. Além disso, fortalece a Defesa nacional de forma duradoura quanto à estruturação de um complexo industrial-militar próprio e não dependente de fornecimentos estrangeiros, embora a importação por mecanismos triangulares de componentes críticos de uso dual (principalmente microchips, placas de processamento e circuitos integrados) ainda se mantenha, o que evidencia a persistência de um gargalo ainda não superado.
3. Formação de alianças diplomáticas alternativas. Perante a ruptura com o Ocidente, Moscou intensificou suas ligações com muitos países do Sul Global, aprofundou parcerias no âmbito dos BRICS e reforçou a integração na União Estatal com a Bielorrússia. Além disso, ampliou sua projeção na África com parcerias relevantes em segurança, extração de minérios e energia nuclear, bem como expandiu os níveis de parceria com a Índia, Vietnã e alguns países do Sudeste Asiático.
4. Limpeza de militares corruptos. O conflito prolongado expôs problemas sistêmicos na gestão e no fornecimento de insumos e equipamentos para as unidades de combate. Isto provocou uma onda de casos criminais e detenções de alto nível no seio do alto comando e dos funcionários do Ministério da Defesa, o que levou a uma limpeza parcial naquela estratégica pasta governamental da corrupção em grande escala, um fenômeno que afetava gravemente a eficiência, a confiabilidade e mesmo a legitimidade dos militares perante os desafios nacionais.

5. Forçado ganho de experiência única e teste de stress nos sistemas do país. O aparelho estatal, o sistema financeiro e a logística passaram por um teste de sobrevivência sem precedentes diante de sanções internacionais, guerra financeira, ataques militares e danos variados. Isto permitiu construir mecanismos de gestão rígidos mas funcionais, em condições de total isolamento, o que proporcionou aos setores civil e militar uma experiência única de gestão de crises, resiliência duradoura, curva de aprendizagem e adaptabilidade única que poderá se reverter em benefícios de longo prazo.
Um fator controverso é o controle de novos territórios originalmente pertencentes à Ucrânia, o que nos leva ao próximo ponto.
6. Controle sobre as cidades destruídas. A propaganda oficial apresenta a expansão das zonas controladas como um sucesso inquestionável do ponto de vista militar e geopolítico. No entanto, de uma perspectiva pragmática e econômica, estas cidades tornam-se um fardo enorme para o orçamento russo e exigirão enormes esforços de infraestrutura de reconstrução. São necessários bilhões de dólares para sua reconstrução mínima e manutenção da vida civil. Além disso, a manutenção dessas zonas torna impossível qualquer compromisso diplomático, garantindo a continuidade do isolamento internacional da Rússia durante muitos anos e uma realidade de hostilidade e conflito. A exploração econômica sem mão de obra permanente, infraestrutura de produção, previsibilidade de investimentos e garantia de mercados para os recursos eventualmente extraídos constituirá um grande desafio para tornar tais áreas estáveis e sustentáveis, sem exigir recursos federais.

Conclusão
Independentemente do resultado da guerra, a Rússia enfrentará desafios e oportunidades, que irão influenciar sua realidade política, econômica, institucional e social ao longo do século XXI.









