Por Giuseppe Gagliano*

Diante de pressões externas e conflitos prolongados, Israel busca transformar sua excelência tecnológica em produção em massa, visando a autonomia na fabricação de munições para garantir sua sobrevivência estratégica e reduzir a dependência de aliados, sem abrir mão das parcerias essenciais.
Quando a Dependência se Torna uma Fraqueza Estratégica
A questão levantada por Benjamin Netanyahu não é meramente industrial; ela atinge o próprio cerne da segurança de Israel. Durante décadas, o Estado judeu construiu sua superioridade militar sobre um alicerce duplo: forças armadas tecnologicamente avançadas e uma aliança com os Estados Unidos que garante acesso aos sistemas de armas mais decisivos. No entanto, a hesitação de Washington, os debates internos no Congresso, as pressões diplomáticas em relação a Gaza e as limitações de produção na indústria de defesa dos EUA expuseram uma realidade da qual as autoridades israelenses já estavam cientes, mas muitas vezes relutavam em admitir publicamente: não se pode contar com nenhuma potência – nem mesmo um aliado – como fonte incondicional de armamentos durante uma guerra prolongada.
Ao declarar seu objetivo de alcançar a independência na produção de armas, Netanyahu não está falando apenas aos seus oficiais militares. Ele está enviando uma mensagem aos Estados Unidos, ao Irã, aos fabricantes de defesa israelenses e ao público em geral. Ele reconhece que a guerra moderna não é vencida apenas pela qualidade das aeronaves, dos sistemas de inteligência ou das unidades de forças especiais, mas pela capacidade de sustentar operações ao longo do tempo. Contudo, sustentar operações exige a capacidade de produzir, estocar, reparar, substituir e adaptar. Acima de tudo, significa ter munição suficiente disponível quando os arsenais estrangeiros se tornam politicamente pouco confiáveis ou estão com sua capacidade industrial sobrecarregada.
A Autonomia é Impossível em Certas Áreas
Seria irrealista, no entanto, acreditar que Israel pode alcançar independência total. Seu setor de aviação de combate permanece profundamente vinculado aos Estados Unidos. Caças F-35 e F-15, aviões-tanque de reabastecimento em voo, peças de reposição, manutenção, atualizações de software e parte do armamento associado formam um ecossistema que a indústria de defesa israelense não consegue replicar sozinha. Apesar de sua experiência excepcional em eletrônica, sensores, guerra digital e sistemas embarcados, Israel continua dependente de plataformas americanas.
Essa dependência é mútua, porém assimétrica. Os Estados Unidos precisam das tecnologias israelenses, particularmente nas áreas de defesa antimísseis, inteligência, cibersegurança, drones e sistemas de proteção ativa. Por outro lado, Israel precisa dos Estados Unidos para manter sua superioridade aérea regional. Embora Washington possa desacelerar, impor condições ou atrasar certas entregas, seria muito mais difícil romper completamente essa relação sem enfraquecer sua própria postura estratégica no Oriente Médio.
O setor naval apresenta outra dependência: desta vez, em relação à Alemanha. Os submarinos israelenses e certas capacidades de superfície dependem fortemente da expertise alemã. Berlim não pode simplesmente optar por não participar, uma vez que essa cooperação está enraizada em um contexto histórico, político e estratégico singular. No entanto, isso evidencia um fato óbvio: nos setores que envolvem os equipamentos mais pesados, dispendiosos e complexos, a autonomia de Israel permanecerá parcial.
Munição: a Força Vital da Guerra
O esforço principal deve, portanto, concentrar-se na munição. As guerras recentes demonstraram isso de forma brutal: conflitos de alta intensidade consomem vastas quantidades de projéteis, mísseis, bombas guiadas, foguetes, interceptadores, cargas explosivas, peças de reposição e componentes eletrônicos. Mesmo um exército altamente moderno pode encontrar-se estrategicamente limitado se carecer de capacidade industrial suficiente.
Para Israel, há dois aspectos em jogo. Primeiro, a necessidade de evitar a vulnerabilidade política. Cada remessa atrasada, cada votação parlamentar em Washington e cada debate público na Europa ou nos Estados Unidos tornam-se fontes de pressão sobre a condução da guerra. Segundo, a necessidade de evitar a vulnerabilidade operacional. Ao enfrentar o Irã, o Hezbollah, grupos armados palestinos, milícias iraquianas, os Houthis e outros representantes regionais de Teerã, Israel precisa ser capaz de sustentar operações em múltiplas frentes, por vezes simultaneamente, sem depender inteiramente do cronograma de um aliado.
Tal autonomia não implica isolamento. Significa a capacidade de escolha. Um país que produz sua própria munição mantém maior margem de manobra política. Pode negociar com seus aliados sem ficar em uma posição de dependência vital. Também pode adequar suas operações aos seus interesses militares, em vez de depender dos estoques disponíveis de um fornecedor estrangeiro.

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Adotando uma Economia de Guerra
O chamado de Netanyahu também implica uma mudança econômica. Impulsionar a produção nacional de armamentos exige investimentos maciços, contratos governamentais de longo prazo, a mobilização da indústria privada, cadeias de suprimentos seguras e uma capacidade ampliada de estocagem. Isso tem um custo elevado. No entanto, o custo da dependência pode ser ainda maior quando uma guerra se prolonga.
Israel já possui uma poderosa indústria de defesa, impulsionada pela inovação, pelas exportações e pela rápida integração tecnológica. Empresas como Rafael, Israel Aerospace Industries e Elbit Systems construíram uma reputação global em sistemas antimísseis, drones, eletrônica de defesa, sensores, munições guiadas e soluções de comando e controle. A nova abordagem envolveria a transição de um modelo de excelência tecnológica para um de escala industrial, indo além da produção de equipamentos meramente sofisticados para produzir em quantidade suficiente, com rapidez e a longo prazo.
Essa escolha poderia abrir oportunidades comerciais significativas. O equipamento militar israelense possui uma vantagem formidável no mercado internacional: foi testado em combate. Em um mundo onde exércitos europeus reabastecem seus estoques, a Ásia se rearma, as monarquias do Golfo diversificam seus fornecedores e nações que enfrentam ameaças híbridas buscam sistemas eficazes, Israel pode transformar sua experiência militar em um ativo econômico.
O Risco de uma Militarização Permanente
No entanto, essa estratégia também traz riscos. Uma indústria de defesa fortalecida proporciona profundidade estratégica, mas também pode prender o país em um estado de guerra perpétua. Quanto mais central se torna a indústria militar, maior é sua influência nas decisões políticas, orçamentárias e diplomáticas. Israel deve, portanto, encontrar um equilíbrio difícil: garantir sua autonomia sem transformar toda a sua política nacional em uma mera extensão de um estado de emergência.
A verdadeira questão não é se Israel pode prescindir dos Estados Unidos. A resposta é não. A verdadeira questão é até que ponto Israel pode reduzir os pontos de pressão externa que limitam sua liberdade de ação. A dependência permanecerá alta nos setores de aviação e naval. Contudo, a autonomia pode avançar rapidamente em áreas como munições, drones, sistemas eletrônicos, defesa antimísseis, sensores e certas tecnologias de combate.
A Mensagem Estratégica de Netanyahu
Ao falar com futuros comandantes sobre independência militar, Netanyahu também busca restaurar um princípio fundamental da doutrina israelense: o Estado judeu não pode confiar sua sobrevivência a ninguém além de si mesmo. A aliança com os EUA continua sendo essencial, mas não deve mais ser vista como uma garantia automática. O apoio alemão permanece valioso, porém é insuficiente para resolver a questão da soberania industrial. A inovação israelense continua impressionante, mas agora precisa ser acompanhada por uma capacidade de produção em massa.
A guerra contra o Irã e seus aliados regionais está longe de terminar. Trata-se de um conflito de longo prazo, definido pelo desgaste, pela multiplicidade de frentes e por uma disputa de arsenais. Para Israel, portanto, a autonomia em relação a munições não é apenas um slogan; é uma condição para a sobrevivência estratégica, uma alavanca econômica e um instrumento de poder. Contudo, isso também sinaliza um novo mundo, no qual nem mesmo os aliados mais próximos garantem mais a abundância, a rapidez e a continuidade do suprimento. Nesse mundo, a soberania não se proclama; ela se produz.
Publicado no Le Diplomate.Media.
*Giuseppe Gagliano é fundador e presidente do Centro Studi Strategici Carlo de Cristoforis, em Como, Itália, com o objetivo de estudar a dinâmica de conflitos nas relações internacionais sob uma perspectiva realista. A rede concentra-se em inteligência e geopolítica, inspirando-se no trabalho de Christian Harbulot, fundador e diretor da Escola de Guerra Econômica (EGE). Ele é colaborador do Centro Francês de Pesquisa em Inteligência (CF2R), a Universidade da Calábria (como parte de seu programa de mestrado em Inteligência) e o IASSP, em Milão.









