
Da teoria de Mackinder à estratégia de Brzezinski, a Eurásia retorna como o grande tabuleiro geoestratégico. A disputa contemporânea pelo Heartland e pelo Rimland define quem controlará os corredores logísticos e energéticos, reconfigurando a hegemonia global no século XXI.
Introdução
A geopolítica clássica retorna ao centro do debate estratégico em meio à mais profunda transformação da ordem internacional desde o fim da Guerra Fria. Entre seus autores mais célebres, Halford J. Mackinder ressurge com vigor renovado. Em seu famoso livro de 1904, The Geographical Pivot of History, Mackinder argumentava que a vasta massa continental eurasiática constituía o “pivô geográfico da história”, um núcleo territorial cuja posse condicionaria a distribuição global do poder. Sua formulação do Heartland, o coração do mundo, volta a ser mobilizada para explicar a crescente centralidade da Eurásia na competição entre grandes potências.
A ascensão da China, a reconfiguração da Rússia como ator revisionista, a intensificação das guerras híbridas e a disputa por corredores logísticos, energéticos e tecnológicos revelam que o conflito contemporâneo não se limita ao controle territorial. Ele se estende ao domínio da conectividade, da infraestrutura crítica e da influência política. Nesse contexto, o pivô mackinderiano recupera relevância não apenas como metáfora geopolítica, mas como estrutura analítica capaz de iluminar a transição sistêmica em curso.
Este ensaio argumenta que o Heartland não apenas retorna ao centro da disputa hegemônica global, mas se converte novamente no epicentro da competição estratégica. A integração das formulações de Nicholas Spykman sobre o Rimland e das análises de Zbigniew Brzezinski acerca da Eurásia como grande tabuleiro geoestratégico demonstra que a lógica de Mackinder foi reinterpretada e operacionalizada ao longo do século XX e início do XXI. A disputa contemporânea, porém, revela uma dinâmica mais complexa. A interação entre Heartland, Rimland e os cinturões de instabilidade da Comunidade de Estados Independentes tornou-se decisiva para a configuração do poder global.
Mackinder, o Heartland e a Evolução da Geopolítica Clássica
A formulação original de Halford J. Mackinder, apresentada em 1904, partia da premissa de que a geografia condiciona o poder e estabelece limites estruturais à ação dos Estados. Em The Geographical Pivot of History, Mackinder identificou a massa continental eurasiática como o pivô geográfico da história, um espaço interior protegido por barreiras naturais e dotado de profundidade estratégica capaz de sustentar um poder terrestre de alcance global. A partir dessa premissa, formulou sua conhecida sequência lógica: quem controla o Leste Europeu domina o Heartland, quem domina o Heartland controla a Ilha do Mundo e quem controla a Ilha do Mundo molda a ordem internacional.
Um elemento central de sua teoria, frequentemente negligenciado, é a ênfase no papel dos meios de transporte. Mackinder argumentava que o avanço das ferrovias e das infraestruturas terrestres reduziria a vantagem histórica das potências marítimas, fortalecendo o interior continental. À medida em que a tecnologia encurtasse distâncias e integrasse regiões antes isoladas, o Heartland deixaria de ser uma fortaleza remota para se tornar o centro articulador da conectividade eurasiática. Essa previsão, formulada no início do século XX, encontra eco direto nos grandes corredores logísticos contemporâneos, como a Iniciativa Cinturão e Rota, o Corredor Internacional Norte-Sul e o India-Middle East-Europe Economic Corridor (IMEC), que transformam infraestrutura em instrumento de poder e materializam a lógica mackinderiana na disputa pela integração da Eurásia.
Mas não devemos nos esquecer que a teoria de Mackinder foi posteriormente ampliada por Nicholas Spykman, que introduziu o conceito de Rimland. Para Spykman, o cinturão costeiro que circunda a Eurásia era tão ou mais importante que o próprio Heartland, pois concentrava rotas marítimas, gargalos energéticos, centros populacionais e polos industriais. O Rimland funcionava como zona de contenção do poder continental e como espaço decisivo para a projeção marítima. Heartland e Rimland passaram, assim, a ser compreendidos como conceitos complementares: o primeiro representando o núcleo estratégico da Eurásia, o segundo constituindo o cinturão que condiciona sua capacidade de expansão.
Essa evolução teórica é fundamental para interpretar a disputa contemporânea. Os conflitos atuais se distribuem tanto no interior continental, onde se localizam Rússia, China e os corredores terrestres da integração eurasiática, quanto ao longo do Rimland, especialmente no Oriente Médio, Sul da Ásia e Indo-Pacífico. A competição por influência na Comunidade de Estados Independentes, a disputa por rotas energéticas e a crescente militarização dos estreitos marítimos demonstram que a interação entre Heartland e Rimland permanece central para compreender a ordem global do século XXI. A infraestrutura voltou a ocupar o centro da geopolítica, exatamente como Mackinder antecipara.

Brzezinski e a Atualização Estratégica de Mackinder
Zbigniew Brzezinski foi o autor que mais claramente assumiu, reinterpretou e atualizou a herança de Mackinder e Spykman no contexto da ordem pós-Guerra Fria. Em sua obra mais influente, The Grand Chessboard, ele argumentou que a supremacia global dos Estados Unidos dependia de impedir a emergência de um hegemon eurasiático. Para Brzezinski, a Eurásia constituía o grande tabuleiro geoestratégico do mundo contemporâneo e a manutenção da primazia norte americana exigia a gestão ativa das dinâmicas políticas, econômicas e militares do continente.
Brzezinski identificava a Rússia como um pivô geopolítico cuja orientação estratégica poderia alterar o equilíbrio de poder na Eurásia. Considerava a Ucrânia uma peça essencial para limitar a projeção russa, pois sua incorporação a um bloco liderado por Moscou ampliaria significativamente a profundidade estratégica do Heartland. A expansão da OTAN para o Leste, a integração de países pós comunistas às instituições ocidentais e o apoio a reformas políticas no espaço pós-soviético eram, em sua visão, instrumentos necessários para impedir a recomposição de um poder continental integrado. Ao mesmo tempo, reconhecia que o Rimland, especialmente o Oriente Médio e o Sul da Ásia, era decisivo para conter a influência de potências rivais e garantir o controle das rotas energéticas e dos principais corredores marítimos.
Com isso, Brzezinski atualizou a lógica mackinderiana ao integrar Heartland e Rimland em uma estratégia coerente de contenção e gestão da Eurásia. Sua abordagem combinava elementos terrestres e marítimos, articulava alianças regionais e enfatizava a importância de impedir coalizões hostis entre Rússia, China e Irã. A síntese proposta por Brzezinski transformou a geopolítica clássica em um arcabouço estratégico adaptado ao século XXI e consolidou a Eurásia como o espaço decisivo para a definição da ordem global.
A Ruptura Trumpista: Uma Inflexão na Estratégia Eurasiática dos EUA
A gestão Trump introduziu uma inflexão significativa na estratégia eurasiática dos Estados Unidos. Em contraste com a tradição brzezinskiana, que priorizava a contenção da Rússia por meio da OTAN e da estabilidade do Leste Europeu, Trump adotou uma abordagem transacional das alianças e relativizou a centralidade da Europa na política externa norte‑americana. Essa mudança não significou uma retração global, mas uma reorientação estratégica: o foco deslocou‑se para o Oriente Médio, onde Washington buscou reorganizar o Rimland por meio de uma coalizão centrada em Israel e voltada para o isolamento do Irã.
Os Acordos de Abraão constituíram o instrumento diplomático dessa reconfiguração. Ao aproximar Israel das monarquias árabes, os Estados Unidos reduziram o custo político de sua presença regional e criaram as bases para uma arquitetura de segurança que prescinde de grandes intervenções militares. Israel emergiu como pivô operacional dessa estratégia, atuando como contrapeso ao Irã no Levante, no Golfo e no Cáucaso. A aproximação entre Tel Aviv, Riad e Abu Dhabi consolidou um eixo pró‑ocidental que redefine o equilíbrio do Rimland.
A dimensão geoeconômica dessa inflexão materializou‑se no IMEC, o corredor Índia–Oriente Médio–Europa apoiado por Washington. O projeto conecta Índia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Jordânia e Israel até o Mediterrâneo, criando uma rota logística que contorna o Irã, reduz a dependência das rotas marítimas vulneráveis do Mar Vermelho e oferece à Europa uma alternativa às cadeias de suprimentos dominadas pela China. O IMEC fortalece Israel como hub logístico regional, integra aliados árabes sob coordenação norte‑americana e limita a capacidade de Rússia, China e Irã de articular corredores continentais alternativos, como a BRI e o Corredor Internacional Norte-Sul.
Nesse contexto, Gaza adquire importância estratégica renovada. Seu litoral representa o último ponto não integrado ao corredor e, simultaneamente, a chave para a expansão de um eixo logístico mediterrâneo sob influência norte‑americana. A estabilização de Gaza, a neutralização do Hamas e a criação de um porto sob supervisão internacional, discutidas no âmbito do chamado Conselho de Paz de Gaza, devem ser interpretadas não apenas como iniciativas humanitárias, mas como parte de uma arquitetura de conectividade destinada a viabilizar o IMEC. Gaza deixa de ser apenas um foco de instabilidade e passa a ser tratada como ativo logístico cuja governança condiciona o sucesso do projeto.
A CEI como Zona de Fricção e o Novo Cinturão Estratégico
A Comunidade dos Estados Independentes constitui o espaço mais sensível da geopolítica russa. Para Moscou, a CEI não é apenas um cinturão de segurança, mas o núcleo de sua projeção política, militar e civilizacional. A estabilidade do Estado russo depende da manutenção de influência sobre essa região, que funciona como zona tampão, corredor energético, eixo de mobilidade militar e base demográfica e cultural para a continuidade do poder russo. A perda de influência na CEI significaria, para Moscou, não apenas retração geopolítica, mas erosão estrutural de sua condição de grande potência.
A guerra da Ucrânia, porém, abriu uma janela de oportunidade para atores externos. Enquanto a Rússia concentra recursos militares, diplomáticos e econômicos no front ocidental, Estados Unidos e União Europeia avançam de forma coordenada sobre a Ásia Central e o Cáucaso. Programas de cooperação energética, acordos de facilitação comercial, iniciativas de segurança fronteiriça, missões de observação e investimentos em infraestrutura têm ampliado a presença ocidental em países como Cazaquistão, Uzbequistão, Geórgia e Armênia. Esse movimento não é acidental: trata‑se de uma estratégia deliberada para reduzir a profundidade estratégica da Rússia e limitar sua capacidade de reconstruir uma esfera de influência pós‑soviética.
A CEI tornou‑se também o ponto de convergência dos grandes corredores logísticos que estruturam a disputa pela Eurásia. A China avança com a Iniciativa Cinturão e Rota, que atravessa o Cazaquistão e o Cáucaso rumo à Europa. A Rússia, em parceria com Irã e Índia, impulsiona o Corredor Internacional Norte-Sul, que liga o Báltico ao Oceano Índico e oferece uma rota alternativa ao Suez. Em paralelo, o Ocidente promove o IMEC, que contorna a CEI e busca reduzir a dependência europeia das rotas energéticas russas. A sobreposição desses projetos transforma a região em um nó crítico da conectividade continental, onde infraestrutura, energia e comércio se convertem em instrumentos de poder.

Essa competição intensifica a vulnerabilidade russa. A perda de influência na Armênia, a crescente autonomia do Cazaquistão, a aproximação do Uzbequistão com a UE e a presença militar turca no Azerbaijão revelam que a CEI está se reconfigurando em ritmo acelerado. A Rússia enfrenta, simultaneamente, pressões militares no oeste, desafios econômicos internos e erosão diplomática no sul e no leste. A manutenção da coesão da CEI tornou‑se, portanto, questão de sobrevivência estratégica para Moscou.
Conflitos Contemporâneos como Expressão da Disputa pelo Heartland e pelo Rimland
A Guerra da Ucrânia como Disputa Direta pelo Heartland
A guerra da Ucrânia constitui a expressão mais clara da disputa pelo Heartland no século XXI. Situada no limiar entre a Europa e o interior da Eurásia, a Ucrânia ocupa o espaço que Mackinder identificava como pivô geográfico da história. Para Brzezinski, sua orientação estratégica definiria o equilíbrio de poder no continente e condicionaria a capacidade da Rússia de atuar como potência eurasiática. O conflito atual confirma essa leitura.
A guerra não envolve apenas território, mas o controle de corredores logísticos, energéticos e militares que estruturam a conectividade eurasiática. A relevância de Odessa, dos portos do Mar Negro, dos oleodutos e gasodutos que ligam a Rússia à Europa e das ferrovias que integram a Eurásia, demonstra que a disputa é também pela infraestrutura que sustenta o poder continental. A ofensiva russa e a resposta ocidental reconfiguram rotas comerciais, redes energéticas e cadeias de suprimentos, afetando diretamente a BRI chinesa e pressionando o Corredor Internacional Norte-Sul, que depende da estabilidade do Cáucaso e do Mar Cáspio.
A guerra trouxe várias consequências geopolíticas: acelerou a militarização da Europa, fortaleceu a OTAN como arquitetura de segurança europeia (até em reação ao desacoplamento norte-americano) e aproximou Rússia e China, ao mesmo tempo em que abriu espaço para maior presença ocidental na CEI. A Ucrânia tornou-se, assim, o epicentro de uma disputa que ultrapassa o campo de batalha e envolve a definição da arquitetura de conectividade da Eurásia. O conflito demonstra que o Heartland permanece como espaço decisivo para a configuração do poder global e que sua estabilidade influencia diretamente a segurança europeia, asiática e do Oriente Médio.
O Conflito Envolvendo o Irã como Disputa pelo Rimland
O Irã ocupa posição central no Rimland, o cinturão geoestratégico que circunda a massa continental eurasiática. Sua localização no Golfo Pérsico, seu controle sobre rotas energéticas vitais e sua capacidade de influenciar o Cáucaso, a Ásia Central e o Levante fazem do país um ator decisivo na disputa pela Ilha do Mundo. O conflito envolvendo o Irã deve ser interpretado como parte de uma competição mais ampla pela conectividade continental e pela definição da arquitetura de poder no Oriente Médio.
O país desempenha papel fundamental no Corredor Internacional Norte-Sul, que liga o Báltico ao Oceano Índico e oferece à Rússia uma rota alternativa ao Suez. Ao mesmo tempo, o Irã constitui o principal obstáculo ao IMEC, o corredor apoiado pelos Estados Unidos que conecta Índia, Golfo, Arábia Saudita, Jordânia e Israel até o Mediterrâneo. A disputa entre esses dois projetos logísticos revela que o conflito envolvendo o Irã não é apenas militar ou ideológico, mas estrutural: trata-se da luta pelo controle das rotas que integram o Rimland ao Heartland.
A influência iraniana no Iraque, na Síria e no Líbano amplia sua capacidade de projetar poder sobre corredores terrestres que conectam o Golfo ao Mediterrâneo. Sua atuação no Estreito de Ormuz, por onde transita parcela significativa do petróleo mundial, reforça sua importância estratégica. A competição entre Estados Unidos, Israel, Arábia Saudita, Rússia e China demonstra que o Rimland permanece como espaço decisivo para a definição da ordem global. O conflito envolvendo o Irã expressa a luta pela supremacia sobre rotas energéticas, corredores logísticos e zonas de influência que conectam o Oriente Médio ao núcleo continental da Eurásia.
O Papel dos Principais Atores na Disputa pela Eurásia
A disputa pela Eurásia envolve um conjunto de atores cujos interesses, capacidades e estratégias moldam a configuração do poder global. Cada um deles atua de forma distinta sobre o Heartland, o Rimland e os corredores logísticos que integram o continente. A seguir, analisam‑se os principais protagonistas dessa competição.

Estados Unidos
Os Estados Unidos buscam impedir a formação de um bloco eurasiático integrado, pois consideram que a consolidação de um poder dominante na Eurásia comprometeria sua primazia global. A tradição estratégica norte‑americana, influenciada por Brzezinski, sempre priorizou a contenção da Rússia, a expansão da OTAN e a manutenção da Europa sob a proteção de Washington. Contudo, a gestão Trump introduziu uma inflexão ao questionar a expansão da OTAN, relativizar o valor estratégico da Ucrânia e adotar uma abordagem transacional das alianças. Ao mesmo tempo, reforçou a presença norte‑americana no Oriente Médio por meio de Israel, buscando conter o Irã, limitar a influência sino‑russa no Rimland e ancorar o corredor IMEC como alternativa à BRI e ao Corredor Norte-Sul. Os EUA passaram a atuar de forma assimétrica, com retração relativa no Heartland e reforço no Rimland. Essa reorientação alterou o equilíbrio da disputa eurasiática e contribuiu para a aproximação estratégica entre Rússia, China e Irã.
União Europeia
A União Europeia procura garantir estabilidade em sua vizinhança oriental e reduzir dependências energéticas que historicamente a vinculam à Rússia. A definição da Rússia como principal ameaça funciona como catalisador político e como elemento de coesão interna, especialmente em um contexto de incerteza sobre o compromisso norte‑americano com a segurança europeia.
A guerra da Ucrânia acelerou a militarização da União Europeia, reforçou sua dependência da OTAN e expôs suas limitações como ator estratégico autônomo. A UE tenta ampliar sua presença no Cáucaso e na Ásia Central, aproveitando a distração russa no front ucraniano, mas enfrenta dilemas internos que limitam sua capacidade de ação, como divergências entre Estados‑membros, vulnerabilidades industriais e dependências logísticas. Sua atuação concentra‑se em instrumentos normativos e econômicos, que têm impacto, mas não alteram substancialmente o equilíbrio de poder na Eurásia.
Ucrânia
A Ucrânia tornou‑se o epicentro da disputa pelo Heartland. Sua orientação estratégica define o equilíbrio de poder na Eurásia. Para o Ocidente, representa a fronteira avançada da ordem liberal e o ponto de contenção da influência russa. Para a Rússia, constitui parte essencial de sua profundidade estratégica, de sua identidade histórica e de sua capacidade de atuar como potência continental. A guerra transformou o país em peça central da transição sistêmica global e em símbolo da disputa entre modelos de ordem internacional. Além disso, a Ucrânia tornou‑se elemento crítico da disputa por corredores logísticos, energéticos e comerciais que conectam o interior da Eurásia ao Mediterrâneo e ao Mar Negro, afetando diretamente a BRI, o Corredor Norte-Sul e a arquitetura de conectividade europeia.
Rússia
A Rússia busca preservar sua esfera de influência e impedir o avanço de alianças ocidentais em sua vizinhança. Sua estratégia combina poder militar, controle energético, integração regional e parceria estratégica com a China. Para Moscou, a disputa pelo Heartland é existencial, pois envolve sua segurança, sua identidade e sua posição no sistema internacional. A Rússia procura manter a CEI como cinturão de segurança e impedir que o Ocidente consolide posições estratégicas em seu entorno imediato. A guerra da Ucrânia, porém, abriu espaço para maior presença ocidental na Ásia Central e no Cáucaso, pressionando a Rússia em múltiplas frentes. Nesse contexto, o Corredor Internacional Norte-Sul tornou‑se instrumento vital para garantir acesso ao Oceano Índico e reduzir a dependência de rotas vulneráveis ao controle ocidental.
China
A China procura consolidar sua projeção continental por meio da Iniciativa Cinturão e Rota, reduzir vulnerabilidades marítimas e construir uma arquitetura eurasiática alternativa. Sua parceria com a Rússia fortalece sua posição no Heartland, enquanto sua presença no Oriente Médio, na África Oriental e na Ásia Central amplia sua influência no Rimland. A China é o ator que mais se beneficia da integração continental, pois transforma infraestrutura, comércio e tecnologia em instrumentos de poder. Sua estratégia combina conectividade, diplomacia econômica e presença militar seletiva, articulando uma rede de corredores que desafia a primazia norte‑americana e reduz a autonomia estratégica europeia.
Israel
Israel emergiu como ator central na estratégia norte‑americana para o Oriente Médio durante a gestão Trump. Sua posição geográfica, sua capacidade militar e sua rede de alianças regionais o transformaram em peça fundamental para conter a influência iraniana e limitar a expansão de corredores logísticos sino‑russos na região. Israel atua como guardião de um dos pontos mais sensíveis do Rimland, influenciando diretamente a estabilidade do Levante, do Mediterrâneo Oriental e do Golfo. Ao mesmo tempo, o país tornou‑se o principal hub do IMEC, o que reforça sua importância geoeconômica. O futuro de Gaza, seu porto e sua governança passaram a integrar essa lógica, deixando de ser apenas questões humanitárias e tornando‑se elementos estruturais da disputa pela conectividade regional.
Irã
O Irã é pivô estratégico do Rimland. Controla rotas energéticas vitais, influencia múltiplos teatros regionais e integra corredores logísticos chineses. Sua aproximação com Rússia e China reforça a integração do Rimland ao Heartland e contribui para a formação de uma arquitetura de segurança e conectividade alternativa à ordem ocidental. O Irã atua simultaneamente no Golfo, no Levante, no Cáucaso e na Ásia Central, o que o torna um ator indispensável para qualquer arranjo de poder no Oriente Médio e na Eurásia. Além disso, é o elo central do Corredor Norte-Sul e o principal obstáculo ao IMEC, o que o coloca no centro da disputa entre os grandes projetos de conectividade do século XXI.
Coreia do Norte
A Coreia do Norte atua como peça disruptiva no extremo oriental da Eurásia. Sua capacidade nuclear e sua proximidade com China e Rússia tornam o país fator de pressão constante sobre os Estados Unidos e seus aliados no Indo‑Pacífico. Pyongyang contribui para a instabilidade do Rimland e fortalece a posição de Pequim e Moscou no extremo oriental do continente. Sua presença impede a consolidação de uma arquitetura de segurança regional alinhada aos interesses norte‑americanos e reforça a necessidade de Washington manter presença militar robusta no Pacífico Ocidental.
A Ilha do Mundo como Prêmio Estratégico
A Ilha do Mundo, conceito central da obra de Halford Mackinder, compreende a vasta massa continental formada por Europa, Ásia e África. Trata-se do maior contínuo territorial do planeta, concentrando a maior parte da população mundial, dos recursos naturais estratégicos, das rotas energéticas vitais e dos principais polos industriais e tecnológicos. Para Mackinder, quem controlasse essa imensa região teria condições de moldar a ordem global. No século XXI, essa proposição adquire nova relevância diante da crescente integração logística, econômica e militar da Eurásia.
A ascensão da China como potência continental e marítima, o resgate da assertividade estratégica da Rússia, a expansão das infraestruturas transcontinentais e a intensificação das disputas no Oriente Médio e no Indo-Pacífico reforçam a centralidade da Ilha do Mundo como espaço decisivo da competição hegemônica. A Iniciativa Cinturão e Rota conecta o Leste Asiático ao Mediterrâneo, ao Golfo Pérsico, ao Mar Vermelho e ao coração da Europa, criando uma malha de interdependências que reduz a vulnerabilidade chinesa ao cerco marítimo e fortalece sua presença no interior continental. Essa integração aproxima o Heartland do Rimland e torna a Eurásia mais coesa e menos dependente das rotas marítimas controladas pelos Estados Unidos.
Em paralelo, a Rússia busca consolidar sua influência sobre a Comunidade dos Estados Independentes, o Cáucaso e a Ásia Central, regiões que funcionam como ponte entre o núcleo continental e os corredores energéticos que alimentam a Europa e a China. O Corredor Internacional Norte-Sul, articulado por Rússia, Irã e Índia, emerge como rota estratégica que liga o Báltico ao Oceano Índico e reduz a dependência das rotas marítimas vulneráveis. A guerra da Ucrânia deve ser compreendida também nesse contexto: além de uma questão de segurança nacional russa e ucraniana, trata-se de uma disputa direta pelo controle de um dos principais acessos ao Heartland e de um ponto crítico da conectividade eurasiática.
No Rimland, o Oriente Médio permanece como ponto de fricção permanente. O Irã, posicionado no cruzamento entre o Golfo Pérsico, o Cáucaso e a Ásia Central, desempenha papel estratégico na conectividade eurasiática. Sua aproximação com Rússia e China fortalece a integração continental e desafia a presença ocidental na região. Israel, por sua vez, tornou-se pivô da estratégia norte-americana para o Rimland, especialmente após a inflexão introduzida pela gestão Trump. O IMEC, corredor que conecta Índia, Golfo, Arábia Saudita, Jordânia e Israel até o Mediterrâneo, representa a dimensão geoeconômica dessa estratégia. A estabilização de Gaza e a construção de um porto sob supervisão internacional devem ser interpretadas como parte dessa arquitetura de conectividade, e não apenas como iniciativas humanitárias.

A Índia emerge como ator fundamental para o equilíbrio do Rimland meridional. Sua rivalidade com a China, sua aproximação com os Estados Unidos e sua participação no IMEC fazem do país um elemento-chave na disputa pela conectividade marítima e continental. No extremo oriental da Ilha do Mundo, a Coreia do Norte funciona como uma peça disruptiva, pressionando os Estados Unidos e seus aliados e reforçando a necessidade de Washington manter presença militar no Indo-Pacífico.
A União Europeia, embora economicamente poderosa, enfrenta dificuldades para atuar como ator estratégico autônomo. Sua dependência energética, sua vulnerabilidade logística e sua fragmentação interna limitam sua capacidade de influenciar a disputa pela Ilha do Mundo. A guerra da Ucrânia expôs essas fragilidades e reforçou sua dependência da OTAN e dos Estados Unidos.
Considerações Finais
O século XXI testemunha o retorno pleno da geopolítica clássica e a revalorização do território como fundamento da disputa hegemônica. O Heartland formulado por Halford Mackinder ressurge não apenas como metáfora histórica, mas como chave interpretativa para compreender a competição entre grandes potências em um mundo marcado por transições sistêmicas, rivalidades estratégicas e reconfigurações profundas de poder. A ênfase de Mackinder no papel dos meios de transporte e da conectividade revela-se hoje ainda mais pertinente, pois a evolução das infraestruturas terrestres transformou a integração continental em instrumento central de projeção estratégica.
A atualização teórica promovida por Nicholas Spykman e a síntese estratégica elaborada por Zbigniew Brzezinski consolidaram a ideia de que o controle do Heartland e do Rimland define a arquitetura da ordem global. A disputa contemporânea confirma essa lógica. A guerra da Ucrânia evidencia a persistência do Heartland como espaço decisivo, enquanto o confronto envolvendo o Irã demonstra a importância do Rimland para a estabilidade da Eurásia. A interação entre esses dois eixos estruturantes molda a dinâmica da competição global e condiciona a atuação dos principais atores internacionais.
A inflexão introduzida pela gestão Trump reconfigurou esse quadro ao deslocar o foco estratégico dos Estados Unidos para o Oriente Médio e ao privilegiar Israel como pivô regional. O avanço do IMEC, corredor que conecta Índia, Golfo, Arábia Saudita, Jordânia e Israel até o Mediterrâneo, representa a dimensão geoeconômica dessa estratégia. O projeto busca isolar o Irã, reduzir a influência chinesa e russa e consolidar uma rede de conectividade sob liderança norte-americana. Nesse contexto, Gaza adquire importância renovada. Seu litoral pode integrar o corredor e sua estabilização é condição para a viabilidade do projeto. O futuro porto de Gaza e o chamado Conselho de Paz devem ser interpretados não apenas como iniciativas humanitárias, mas como parte de uma arquitetura logística destinada a ancorar o IMEC no Mediterrâneo oriental.
A disputa pela CEI acrescenta outra dimensão decisiva à transição geopolítica contemporânea. O futuro da Rússia depende diretamente de sua capacidade de preservar influência sobre a Ásia Central e o Cáucaso. A guerra da Ucrânia abriu espaço para uma expansão coordenada da presença europeia e norte-americana nesses países, por meio de acordos energéticos, programas de segurança, investimentos em infraestrutura e mecanismos de cooperação institucional. Esse movimento reduz a profundidade estratégica de Moscou e ameaça sua capacidade de manter uma esfera de influência coerente. Ao mesmo tempo, a região tornou-se o ponto de interseção entre os grandes corredores logísticos da Eurásia, como a Iniciativa Cinturão e Rota, o Corredor Internacional Norte-Sul e o IMEC, transformando a CEI no principal campo de disputa pela conectividade continental.
A competição entre esses corredores revela que a geopolítica do século XXI é estruturada pela conectividade. A BRI chinesa integra o interior continental à Europa e ao Mediterrâneo. O Corredor Norte-Sul articula Rússia, Irã e Índia em uma rota alternativa ao Suez. O IMEC, apoiado pelos Estados Unidos, busca consolidar um eixo indo-mediterrâneo que contorna o Irã e fortalece Israel. Esses projetos expressam a transição para uma ordem internacional em que infraestrutura, energia e fluxos comerciais se tornam instrumentos centrais de poder.
A disputa pela Eurásia manifesta-se, portanto, simultaneamente no núcleo continental e no cinturão marítimo que o circunda. Ela envolve o controle de territórios, rotas, corredores e zonas de influência que conectam o interior da Ilha do Mundo aos mares que a cercam. A geografia voltou a impor seus limites. A história voltou a moldar a política. E o coração do mundo voltou a pulsar como epicentro da disputa pela arquitetura do século XXI.
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