19 de Abril, Dia do Exército Brasileiro: Entre a Tradição e a Modernização do Comando Militar do Leste

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Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

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Ao completar 378 anos, o Exército Brasileiro e o CML honram sua história, mas enfrentam desafios urgentes: clima organizacional, integração feminina, relação civil-militar e valorização das praças; tradição e operacionalidade devem caminhar juntas para garantir uma Força Terrestre moderna e preparada para o futuro.


O presente artigo é uma homenagem ao Exército Brasileiro, ao Comando Militar do Leste e a todos militares do passado e do presente pelos serviços prestados à Nação, já que, no próximo 19 de abril de 2026, o EB celebrará 378 anos de história. A data, que remete à primeira grande vitória luso-brasileira na Primeira Batalha dos Guararapes (1648), é tradicionalmente um momento de exaltação do patriotismo e da memória institucional.

Qualquer comemoração tem por objetivo olhar para o passado e projetar o futuro, e isso envolve, invariavelmente, o que deu certo e o que pode ser melhorado. No entanto, para o Comando Militar do Leste (CML), sediado na cidade do Rio de Janeiro, a efeméride de 2026 é um convite a uma reflexão mais profunda e pragmática extensível aos outros sete Comandos Militares de Área, quanto à relação civil-militar, quanto ao reconhecido do papel da AVIBRAS na defesa nacional, a valorização das praças, os desafios do serviço militar feminino voluntário e o clima organizacional.


O Comando Militar do Leste (CML), sediado no Palácio Duque de Caxias (RJ), é um dos pilares operacionais do Exército Brasileiro. Com atuação no RJ, ES e parte do MG, o CML abriga tropas de elite e desempenha papel fundamental desde o adestramento militar até o apoio em operações de segurança pública e defesa nacional.

Sob o lema “Tradição e Operacionalidade”, o CML – responsável pelas Forças Terrestres nos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo e parte de Minas Gerais –, e com o legado histórico da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária do Exército, que enviou, em 2 de julho de 1944, 5.000 militares da Força Expedicionária para a Itália, enfrenta um dos momentos mais desafiadores de sua história recente. Se, por um lado, o CML é sinônimo de capilaridade histórica (abrigando a 1ª Divisão de Exército, a Brigada de Infantaria Paraquedista e o 1º Batalhão de Guardas), por outro, está se ajustando às demandas do século XXI.

O Comando Militar do Leste (CML), sediado no Palácio Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, foi criado em 1946 como Zona Militar Leste, transformando-se posteriormente no I Exército até assumir sua atual denominação em 1986. Historicamente, o CML detém a maior importância política do país por sua posição na antiga capital federal, mantendo o prestígio mesmo após a transferência da capital para Brasília. Atualmente, o Grande Comando Militar responde por tropas nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, abrigando unidades de elite como a Brigada de Infantaria Paraquedista e a 1.ª Divisão de Exército, e desempenha missões que vão desde o adestramento operacional até o combate ao tráfico de armas e drogas e a intervenção federal na segurança pública.

Neste artigo, analisamos, com base em diretrizes oficiais e na doutrina militar, os desafios críticos que o Comando precisa superar em quatro áreas essenciais: o Clima Organizacional, a Relação Civil-Militar, a implementação do Serviço Militar Inicial Feminino Voluntário e a valorização das Praças.


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1. Clima Organizacional: Urgência na Revisão do Fator Humano

O maior patrimônio do Exército é seu efetivo. Contudo, a manutenção da prontidão operacional do CML exige mais do que equipamentos; exige um clima organizacional saudável. A literatura da Escola de Saúde do Exército 1 aponta que a falta de reconhecimento e a sobrecarga de trabalho são geradoras de estresse ocupacional e queda de produtividade.

No âmbito do CML, o desafio é duplo: o Grande Comando Militar concentra o maior número de Organizações Militares (OM) do país, muitas delas centenárias, o que exige um esforço redobrado na gestão de pessoas. Embora programas como o Programa de Valorização da Vida (PVV) e a atuação do Serviço de Assistência Religiosa (SAR) estejam em curso – como visto nas Visitas de Orientação Técnica realizadas no CML para fortalecer a “coesão e a camaradagem” –, pode existir uma eventual lacuna entre o discurso institucional e a percepção do militar.

O Que Pode ser Aperfeiçoado

Eventual burocracia excessiva pode ser revista, e a melhoria da infraestrutura de lazer e bem-estar nas vilas militares podem impactar diretamente a motivação. É importante que o CML invista em pesquisas de clima organizacional (com garantia de anonimato) sem que isso viole a hierarquia e disciplina, e que os comandantes atuem como agentes de retenção de talentos, indo além do controle disciplinar e focando no reconhecimento psicológico. É dizer: A “operacionalidade e o resultado na ponta da linha” começam com a saúde mental do soldado.

2. Relação Civil-Militar: Rompendo o Isolamento da “Vila Militar”

Historicamente, a relação entre o Exército e a sociedade é marcada por um distanciamento mútuo. O carioca vê o soldado desfilar no 7 de Setembro, mas desconhece o que acontece dentro dos aquartelamentos. A atual diretriz do CML busca “cooperar com ações dos órgãos governamentais” e o desenvolvimento regional , mas a participação social ainda é tímida.

O CML tem um potencial único para ser um hub de conhecimento. A presença da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, da Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx), do Centro de Estudos de Pessoal (CEP) e do Instituto Militar de Engenharia (IME), ainda que algumas não sejam submetidas administrativamente ao CML, e do Hospital Central do Exército (HCEx) na Região Leste oferecem um manancial de intercâmbios, pesquisas acadêmicas e tecnológicas que poderiam ser melhor aproveitadas unindo Universidade Pública e Privada por meio de congressos, cursos de extensão, seminários e simpósios junto às instituições de Ensino Superior Militar citadas.


O potencial do Comando Militar do Leste como hub de conhecimento é imenso. A presença de instituições de excelência como ECEME, EsEFEx, CEP, IME e HCEx oferece um manancial de intercâmbios acadêmicos, pesquisas tecnológicas e iniciativas de extensão que, quando articuladas com universidades públicas e privadas, podem fortalecer a relação civil-militar e demonstrar às novas gerações as oportunidades profissionais em áreas estratégicas como STEM, cibernética e defesa nacional.

O Que Pode ser Aperfeiçoado

É imperativa a criação de um calendário anual permanente de visitações guiadas, Semana de Profissões para jovens e adolescentes, cujos cursos de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) podem suprir a alta demanda neste setor. Este autor apresentou ele mesmo projetos em escolas públicas municipais sobre uma Semana de Profissões no Estado que envolva os alunos nas profissões militares além da atividade-fim de combate, como o papel do design de jogos, mecatrônica, TI, pilotos de drones e cibernética, mas é necessário maior envolvimento do comando para que o projeto avance.

A abertura de fóruns acadêmico-militares, por exemplo, convidaria a sociedade civil precisa a debater temas como a importância da AVIBRAS para o Exército e a sociedade, a Defesa Cibernética, Engenharia Nuclear ou Logística Humanitária. Quanto mais e melhor a população entender o papel constitucional da Força, maior será o apoio político e orçamentário recebido.

3. Serviço Militar Inicial Feminino Voluntário (2026): Um Marco Estrutural

O ano de 2026 será um marco histórico. Embora as mulheres sirvam no Exército desde 1992 (no Quadro Complementar de Oficiais) e em alas específicas, a previsão de abertura do Serviço Militar Inicial Voluntário para mulheres em larga escala, equiparando-as aos soldados do sexo masculino em diversas especialidades, é um divisor de águas.

Para o CML, que sedia o Centro de Adestramento Leste e o Centro General Ernani Ayrosa, o desafio logístico e cultural é imenso.


A abertura do Serviço Militar Inicial Voluntário para mulheres em 2026 representa um marco histórico estrutural para o Exército Brasileiro. Para o Comando Militar do Leste, que sedia o Centro de Adestramento Leste e o Centro General Ernani Ayrosa, o desafio transcende a infraestrutura física: exige uma mudança de paradigma na gestão de recursos humanos, com escuta ativa das necessidades das futuras militares, adaptação dos quartéis históricos e, sobretudo, o fortalecimento da coesão institucional que caracteriza a caserna.

Desafios do CML

Infraestrutura: Os quartéis do Rio de Janeiro, muitos deles tombados pelo patrimônio histórico, terão que se adaptar para oferecer alojamentos, banheiros e enfermarias adequados à nova realidade das mulheres combatentes. Ouvir as necessidades antes de qualquer projeto é essencial, e é uma mudança de paradigma a gestão em recursos humanos horizontal.

4. Valorização das Praças: Espinha Dorsal Esquecida

Se os oficiais são o cérebro, as praças (sargentos, cabos e soldados) são a espinha dorsal da Força. No CML, que possui unidades operacionais de ponta como o Batalhão de Guardas e a Brigada Paraquedista, a praça é quem efetivamente coloca o blindado na rua ou a arma no ombro e o primeiro a ir ao sacrifício pela Pátria!

No entanto, estudos apontam 2 que a defasagem salarial entre militares e policiais do Distrito Federal de mesma graduação como um terceiro-sargento de ambas instituições, por exemplo, e a falta de planos de carreira atrativos para os praças têm causado um êxodo de profissionais técnicos altamente qualificados. O CML sofre com a rotatividade e a dificuldade de reter especialistas em manutenção de equipamentos bélicos.

O Que Pode ser Aprimorado

Reconhecimento Financeiro: É necessário que as autoridades políticas, especialmente o Poder Legislativo, criem mecanismos que valorizem a permanência, especialmente em unidades de alto desgaste físico.

Valorização Social: Resgatar o prestígio do sargento dentro da caserna, aperfeiçoando sua autonomia técnica e seu poder de decisão, é essencial para aliviar a sobrecarga do oficialato subalterno.

Considerações

Isto posto, temos que o Dia do Exército, nesse 19 de abril de 2026, não pode ser apenas uma data de parada militar no Campo de Santana. Deve envolver olhar para o passado e projetar o futuro, destacando os desafios e o que pode ser aprimorado. Para o Comando Militar do Leste, objeto de orgulho nacional pelos serviços prestados à Nação, deve ser o marco zero de uma reforma interna profunda.

A “Tradição” do CML é inegável – suas glórias estão gravadas no mármore do Museu Histórico. Mas a “Operacionalidade” do futuro exige um soldado motivado (clima organizacional), apoiado pela sociedade (relação civil-militar), mostrando às novas gerações as imensas oportunidades profissionais nas áreas de STEM do EB, bem como valorizando empresas como a AVIBRAS e seu papel na defesa nacional, no representativo da população (força feminina) e na justiça com seus quadros permanentes (valorização das praças).

Sem isso, o Dia do Exército corre o risco de ser apenas a celebração de um passado glorioso, mas desconectado das necessidades de um Brasil que exige uma Força Terrestre moderna, justa e preparada para o século XXI.

Notas

1 MOREIRA, Tainá Silva Vallim (primeiro-tenente aluna). “O impacto do estresse ocupacional e Síndrome de Burnout entre militares do Exército Brasileiro”. Escola de Saúde do Exército. https://www.ebrevistas.eb.mil.br/RCEsSEx/article/view/3208/2577.

2 REIS, J. B. “A brutal diferença de salários entre as Forças Armadas e a PM mais bem paga do Brasil – As variações passam de 100%”. Revista Sociedade Militar, 17 de março de 2026. https://www.sociedademilitar.com.br/2026/03/a-brutal-diferenca-de-salarios-entre-as-forcas-armadas-e-a-pm-mais-bem-paga-do-brasil-as-variacoes-passam-de-100-reis.html.

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