Por Giuseppe Gagliano*

A reeleição de Trump impulsiona uma reforma radical da inteligência dos EUA, com Tulsi Gabbard e Amaryllis Fox Kennedy liderando a reestruturação para transparência e controle, gerando controvérsias e impactando a influência global.
Com a reeleição de Donald Trump à Casa Branca em novembro de 2024, a comunidade de inteligência americana se viu no centro de um vasto projeto de reorganização. Já durante seu primeiro mandato, Trump acusou a CIA, o FBI e outras agências de conspirar contra ele, alimentando a teoria da “farsa russa”. Desta vez, ele decidiu agir, impondo uma reestruturação sem precedentes: cortes orçamentários, expurgos no aparato burocrático e nomeação de figuras de fora do sistema para retomar o controle. O objetivo declarado é claro: “drenar o pântano”, pôr fim ao que seus apoiadores descrevem como abusos de inteligência e colocar os serviços “de volta a serviço do povo americano”.
Tulsi Gabbard, a Diretora Anti-intervencionista
A nomeação de Tulsi Gabbard como Diretora de Inteligência Nacional, confirmada pelo Senado em fevereiro de 2025, ilustra essa ruptura. Ex-congressista democrata e veterana de guerras no Oriente Médio, Gabbard se destacou por suas críticas às intervenções militares na Síria e na Ucrânia. Atualmente à frente de 18 agências de inteligência, ela supervisiona um orçamento de mais de US$ 100 bilhões. Sua missão: reduzir operações clandestinas descontroladas, impedir interferência política e estabelecer maior transparência. Mas a oposição é forte. Seus oponentes a acusam de simpatias pró-Rússia, enquanto os círculos de segurança tradicionais temem que ela enfraqueça a capacidade de projeção de poder dos Estados Unidos em um mundo marcado pela ascensão da China e da Rússia.
Amaryllis Fox Kennedy, da Espionagem à Reforma
A figura mais inesperada desta nova era é Amaryllis Fox Kennedy. Ex-agente da CIA que se infiltrou no Oriente Médio e na Ásia, ela deixou a agência com grande estrondo, denunciando corrupção interna, abusos com drones e excessos imperialistas. Seu livro e suas aparições na mídia conservadora a tornaram um ícone na denúncia do “Estado Profundo”. Casada com Ben Kennedy, filho de Robert F. Kennedy Jr., ela desempenhou papel fundamental na campanha presidencial independente de seu sogro, antes de ele se aliar a Trump.
Impedida de se tornar Diretora Adjunta da CIA pelo Senado, ela foi, no entanto, levada à Casa Branca: primeiro para o Conselho Consultivo de Inteligência do Presidente e, em março de 2025, como Diretora Associada do Escritório de Gestão e Orçamento para Inteligência e Assuntos Internacionais. Sua principal tarefa: auditar os “orçamentos secretos” das agências, fundos secretos estimados entre US$ 50 bilhões e US$ 80 bilhões por ano, há muito tempo protegidos do escrutínio público.
O Projeto Orçamento Secreto
A tarefa de Fox é reduzir gastos ocultos, prevenir abusos e, na medida do possível, desclassificar arquivos históricos. Para Trump e seus aliados, o objetivo é romper o domínio de uma burocracia considerada hostil e enfraquecer o que consideram uma máquina de poder paralela. Para seus oponentes, trata-se de um esforço retaliatório que corre o risco de expor os Estados Unidos a novos perigos.
Controvérsias e Divisões Políticas
A nomeação de Fox é profundamente controversa. Seus apoiadores, começando por Robert F. Kennedy Jr., agora Secretário de Saúde e Serviços Humanos, a veem como uma “voz da reforma” e a prova de que uma ex-membro do governo pode mudar o sistema. Trump a elogia como uma “guerreira da verdade”. Mas republicanos linha-dura denunciam seus laços com o clã Kennedy, considerando-os muito complicados, e democratas apontam conflitos de interesse relacionados ao seu papel na campanha de RFK Jr. Na opinião pública, ela é percebida ora como uma reformadora corajosa, ora como uma ex-espiã comprometida.
Implicações Geopolíticas
Além do debate doméstico, essa reforma tem consequências globais. A redução do pessoal e dos orçamentos do aparato de inteligência pode enfraquecer a capacidade dos Estados Unidos de antecipar crises internacionais, em um momento em que Pequim e Moscou estão desenvolvendo maciçamente suas capacidades cibernéticas e assimétricas. Mas, para Trump, essa direção faz parte de uma doutrina mais ampla: menos intervenção externa, mais atenção às prioridades domésticas e um redirecionamento do aparato de segurança para a defesa da soberania americana.
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A aliança entre Tulsi Gabbard e Amaryllis Fox Kennedy simboliza essa fase de ruptura. Uma traz um discurso antiguerra, a outra, expertise de dentro do sistema. Juntas, elas personificam o projeto de Trump 2.0: transformar a inteligência americana em uma ferramenta de poder nacional, livre de suas restrições multilaterais. Mas essa reforma, que mistura vingança política e ambição estrutural, levanta uma questão crucial: trata-se de um reequilíbrio necessário ou de um enfraquecimento perigoso da principal potência mundial? O tempo dirá se os Estados Unidos conseguirão manter seu papel internacional apesar dessa revolução interna.
Publicado no Le Diplomate.Media.
*Giuseppe Gagliano é presidente do Centro Studi Strategici Carlo de Cristoforis, em Como, Itália. É membro do comitê internacional de assessores científicos do Centre Français de Recherche sur le Renseignement (Cf2R).









