
De exportador emergente a potência tecnológica: impulsionada por novos mercados, inovação e parcerias estratégicas, a Base Industrial de Defesa brasileira amplia sua relevância global, mas precisa de continuidade, investimento e políticas de Estado para converter crescimento em soberania.
No debate público sobre a Base Industrial de Defesa (BID) brasileira, é comum que o foco recaia sobre os desafios orçamentários, os entraves burocráticos ou os reveses pontuais de grandes programas. No entanto, uma análise atenta de alguns dados recentes revela uma visão diferente: o setor vive um momento de expansão, diversificação de mercados e ganho de relevância.
Se a recuperação operacional e financeira da Avibras (agora Avibras Aeroco), com novos aportes e seu credenciamento como Empresa Estratégica de Defesa, já é, por si só, motivo de comemoração, ela não é o único fator para algum otimismo. Alguns dados mostram que o Brasil busca uma posição relevante e tecnologicamente capaz no mercado global de defesa.
Exportações: Números que Falam por Si
Os dados oficiais do Ministério da Defesa desenham um cenário de crescimento acelerado. Em 2025, o Brasil autorizou US$ 3,1 bilhões em exportações de produtos de defesa, representando uma alta expressiva de 74% em relação ao ano anterior. A trajetória de alta se manteve no primeiro semestre de 2026, com US$ 1,8 bilhão em autorizações, um crescimento de 29% na comparação com o mesmo período de 2025.
Esse volume não está concentrado em um único ator. Atualmente, produtos brasileiros de defesa estão presentes em 150 países, comercializados por meio de cerca de 130 empresas exportadoras. Essa capilaridade demonstra que a BID brasileira está se tornando um ecossistema competitivo, abrangendo desde aeronaves e blindados até munições, sistemas eletrônicos e soluções de defesa cibernética.

Do Gripen ao MANSUP-ER
A sofisticação da nossa pauta de exportação e de uso interno é um indicador claro de maturidade industrial. No segmento de mísseis, o desenvolvimento contínuo do MANSUP-ER (Míssil Antinavio Nacional de Superfície de Alcance Estendido) pela SIATT, em estreita parceria com a Marinha do Brasil, representa um salto crucial na capacidade de negação de área (A2/AD) da nossa “Amazônia Azul”, oferecendo guiagem de precisão e maior alcance para a proteção da costa.
Paralelamente, a parceria entre a Embraer e a Saab no programa do caça F-39 Gripen E/F não se limita à montagem final. A transferência de tecnologia (ToT) permitiu que engenheiros brasileiros dominassem etapas críticas da produção e integração de sistemas no complexo de Gavião Peixoto (SP). Essa base industrial qualificada é agora o principal trunfo da Embraer, que pretende utilizá-la como trampolim para oferecer a aeronave a mercados europeus. A fabricante brasileira vê na busca europeia por “autonomia estratégica” e diversificação de fornecedores uma janela de oportunidade única, potencializada pelas dinâmicas de integração entre o Mercosul e a União Europeia. O cargueiro KC-390 Millennium, já operado por nações como Áustria, Hungria e Países Baixos, serve como uma vitrine de validação da confiabilidade da plataforma brasileira no continente.
3. Liderança Regional e o Desafio do Hub de Itaguaí
Talvez o movimento mais sofisticado em termos de geopolítica regional esteja ocorrendo no mar. O Complexo Naval de Itaguaí (RJ), fruto do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub), está sendo articulado como um hub de exportação para a América Latina por meio do “Projeto Latam”, uma iniciativa conjunta entre o Brasil e a França revelada em 2026.
A possibilidade de construir submarinos Scorpène para a Argentina em solo brasileiro, conforme sinalizado pelo Ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, desenha uma oportunidade ímpar de liderança regional. No entanto, tal empreitada exige cautela e realismo operacional. Do ponto de vista diplomático, é preciso navegar com sensibilidade o legítimo orgulho da base industrial de defesa argentina (como o estaleiro Tandanor) e eventuais resistências políticas internas no país vizinho, que podem ver a iniciativa com desconfiança.
No plano industrial, o cenário é promissor, mas requer atenção aos detalhes contratuais. É fundamental reconhecer que já existe um histórico de cooperação: desde o acordo de 2008, no âmbito do Prosub, a França (via Naval Group) já transferiu tecnologia não nuclear para o Brasil, incluindo fornecimento de dados técnicos, cursos de capacitação, treinamentos específicos em solo francês e assistência técnica direta. A propulsão nuclear não faz parte desse acordo de transferência, sendo um desenvolvimento estritamente nacional da Marinha do Brasil.
Em termos jurídicos, o desafio futuro é garantir que a França permita a transferência de tecnologias sensíveis adicionais necessárias para viabilizar a exportação de um Scorpène a um terceiro país a partir de Itaguaí, preservando ao mesmo tempo a soberania brasileira sobre o ciclo nuclear. A consolidação de acordos governo a governo (G2G) será vital para oferecer a segurança jurídica necessária a todas as partes envolvidas.
Conclusão: Trajetória de Soberania e Desafio de Continuidade
Os dados consolidados entre 2025 e 2026 não representam acidentes de percurso ou otimismo infundado. A recuperação da Avibras, somada a uma indústria que hoje exporta para 150 países, que opera aeronaves de transporte tático no coração da Europa e que se prepara para ser um polo de construção naval para a América Latina, indica uma mudança estrutural na maturidade da nossa Base Industrial de Defesa. O Brasil mostra condições para deixar de ser apenas um comprador de sistemas prontos para se tornar um desenvolvedor e exportador de tecnologia.
O desafio perene, contudo, reside na execução e na continuidade. Transformar orçamento autorizado em capacidade operacional real exige blindar os programas estratégicos de defesa contra oscilações político-partidárias e ciclos econômicos de curto prazo. É imperativo manter um foco inabalável em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), na formação de capital humano especializado e na integração fluida entre as demandas das Forças Armadas e a capacidade de entrega da indústria nacional.
Somente com políticas de Estado de longo prazo o Brasil garantirá a autonomia tecnológica necessária para defender seus interesses soberanos, seja no pré-sal, na Amazônia ou no complexo tabuleiro da geopolítica global.
Fontes Consultadas
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