
Das montanhas do norte do Iêmen às disputas pelo Mar Vermelho, a trajetória dos houthis combina tradição zaidita, organização política e experiência militar, em um conflito que envolve rivalidades regionais, intervenção estrangeira e impactos sobre o comércio internacional.
Introdução
A origem dos houthis é pouco conhecida no Ocidente, e eles somente apareceram na mídia corporativa quando atacaram a Arábia Saudita. Se nos limitássemos a essa visão, pareceria que eles cometem “atos terroristas” contra a monarquia da Casa de Saud, destruindo oleodutos, aeroportos e estruturas de logística portuária, como nos portos de Janbu e de Jeddah, no Mar Vermelho. E não só isso: também são apoiados pelo Irã, que, dessa maneira, terminaria apoiando grupos terroristas no mundo inteiro, se nos deixássemos levar pela mídia mainstream.
Desse modo, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos aparecem como “verdadeiras vítimas” dos supostos “atentados terroristas” dos houthis, sendo esses ataques considerados pela mídia ocidental como “atentados contra o livre comércio”, sem explicar as causas e o contexto desse conflito. E eles criam uma situação tão “caótica” na Península Arábica que nada menos que a Arábia Saudita e as monarquias do Golfo Pérsico se “veem obrigadas” a “restaurar a ordem” na região. E é assim que isso nos é apresentado na televisão, nos jornais e na maioria das redes sociais.
Nada nos é dito sobre as origens dos houthis; sua história muitas vezes é contada apenas parcialmente, a partir de 1990, com muita sorte, e apenas pelo lado “conveniente” aos interesses dos Estados Unidos, da União Europeia e dos “aliados” da região.
Por isso, neste artigo, vamos analisar as origens históricas das tribos que deram origem aos houthis atuais: os zaiditas. Vamos ver o contexto geográfico, político e econômico em que surgiram e investigar as causas de sua resiliência e de sua coesão política e social, que os tornam diferentes dos Estados vizinhos da região, bem como as raízes dos conflitos com a Arábia Saudita.
Os Zaiditas
Antes de abraçarem o islã e, séculos mais tarde, o zaidismo, os habitantes das terras altas do norte do Iêmen já viviam sob uma forte cultura de independência, moldada pela geografia e por grandes confederações tribais.
Por volta de 500 a.C., o norte e o centro-norte do Iêmen faziam parte de civilizações agrícolas altamente avançadas, como as de Sabá e de Himiar, ou faziam fronteira com elas. Essas civilizações dominavam sofisticadas técnicas de irrigação, como a famosa barragem de Marib, e controlavam as estratégicas rotas comerciais das especiarias e do incenso que ligavam o sul da Arábia ao Mediterrâneo e à Mesopotâmia.
As tribos que hoje formam o núcleo do movimento houthi, primordialmente agrupadas na vasta confederação de tribos Hamdan e em outras da região de Saada e Amram, já habitavam os mesmos altiplanos nos tempos da Antiguidade. Os hamdanitas já eram famosos por sua poderosa cavalaria ligeira, por sua lendária ferocidade em combate, por sua habilidade na guerra de guerrilhas e por sua lealdade interna, baseada em seus laços de sangue e alianças tribais.
Há mais de 2.000 anos, essas tribos do norte do Iêmen combateram as invasões do Império Romano, em 24 a.C., durante a expedição comandada por Élio Galo, que tentou conquistar esses territórios montanhosos que os romanos chamavam de “Arábia Félix”, para garantir o controle das rotas comerciais de navegação que ligavam o Mar Vermelho ao Egito, à Mesopotâmia, à Pérsia e à Índia. O resultado foi desastroso, porque todas as tribos iemenitas se uniram contra os romanos e usaram o deserto e as montanhas a seu favor, forçando-os a uma retirada humilhante, marcada pela desidratação e pelas emboscadas.
Nos séculos V e VI, os iemenitas sofreram invasões do Reino de Axum, a Etiópia cristã1 e do Império Sassânida (Pérsia)2, que também fracassaram, já que os iemenitas resistiram aos invasores nas montanhas, usando suas tradicionais táticas de guerrilha em áreas de difícil acesso. Essas táticas prefiguravam exatamente a forma como combateriam, vários séculos mais tarde, os otomanos, e como combatem atualmente os sauditas.

Os iemenitas aderiram ao islamismo no século VII e, no século VIII, abraçaram o xiismo numa vertente fundada por Zaid ibn Ali, neto de Hussein, que, por sua vez, era neto de Maomé. Daí viria o nome de zaiditas. Al-Hadi ila al-Haqq Yahya seria nomeado imã, fundando assim o imamato zaidita no Iêmen, que, com interrupções, duraria quase 1.000 anos, até 1867. Essa vertente do xiismo seria diferente da iraniana, que se consolidou no século XVI com o Império Safávida3.
Tanto o califado omíada4 (de Damasco) quanto o abássida5 (de Bagdá) tiveram apenas um controle nominal do Iêmen, nunca uma dominação efetiva. O mesmo ocorreu com o Califado Fatímida6 (do Cairo).
No século XVI, seria a vez do Império Otomano tentar controlar as rotas comerciais do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico, passando pelo Golfo de Aden, em sua disputa com os portugueses. Mas, novamente, os otomanos fracassariam diante da resistência dos zaiditas. Estes manteriam sua independência até 1867, quando seriam invadidos outra vez pelos otomanos, que nunca conseguiriam exercer uma dominação efetiva sobre o Iêmen. E os britânicos estabeleceram um protetorado no sul do Iêmen, em Áden.
A Primeira Guerra Mundial teve como consequência direta a desintegração do Império Otomano, a expansão da influência britânica na região e o surgimento de Estados árabes, entre eles, principalmente, o Reino da Arábia Saudita7, em 1932. Por sua vez, os britânicos mantinham vários protetorados na Península Arábica: Kuwait, Bahrein, Catar, Aden (sul do Iêmen) e os Estados da Costa da Trégua (Trucial States), os atuais Emirados Árabes Unidos.
No norte do Iêmen, com a retirada turca em 1918, o líder religioso zaidita, o imã Yahya, entrou em Sanaa e proclamou o Reino Mutawakkilita do Iêmen. Era um Estado religioso isolado do mundo exterior pelas montanhas de Sarat e Saada, constituindo assim um Estado conservador, guiado por estritas leis religiosas. Os confrontos com a monarquia saudita foram frequentes e intermitentes, interrompidos por certos períodos de trégua.
Depois da Segunda Guerra Mundial, devido às pressões dos Estados Unidos e da União Soviética, em conjunto com os movimentos anticolonialistas, a dominação britânica na região tornou-se insustentável, e a pressão dos movimentos nacionalistas árabes fez com que os britânicos abandonassem abruptamente Aden em 1967. Esse protetorado foi substituído pela República Democrática do Iêmen, de orientação marxista-leninista e patrocinada pela URSS e pelo Egito. Depois, os britânicos se retiraram dos demais protetorados mencionados no Golfo Pérsico, em 1971, formando assim os atuais Estados de Kuwait, Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Omã.
Em 1962, um golpe militar patrocinado pelo Egito de Nasser e pela URSS pôs fim ao Reino Mutawakkilita e proclamou a República Árabe do Iêmen, dando início a uma guerra civil no norte do Iêmen entre dois grupos:
Monárquicos: queriam o restabelecimento da monarquia derrubada e eram apoiados pela Arábia Saudita e pelos Estados Unidos.
Republicanos: apoiados pela URSS e pelo Egito, queriam a consolidação do regime republicano.
Essa guerra civil duraria até 1970, com o desgaste e a derrota dos monárquicos, que não conseguiram tomar a capital, Sanaa. Os zaiditas apoiavam os monárquicos. A República Árabe do Iêmen duraria até 1990, sob um regime capitalista que se opôs ao regime comunista da República Democrática do Iêmen, com capital em Aden, que também durou até 1990. Apesar de a URSS apoiar os dois Estados, sua unificação era impossível devido às incompatibilidades políticas e econômicas de ambos os regimes. É desnecessário dizer que tanto a Arábia Saudita quanto os Estados Unidos não queriam que os comunistas tomassem conta da República Árabe do Iêmen, por razões geopolíticas. Os soviéticos até preferiam ter dois regimes satélites na região, embora a República Árabe do Iêmen fosse mais independente que o Iêmen do Sul.
Começou um período de longas guerras civis intermitentes no Iêmen, que duraram até 1990.

Com a desintegração da URSS, encerrou-se também a capacidade soviética de financiar o regime da República Democrática do Iêmen, que deixou de existir. Chegou-se, assim, a um acordo de paz e de unificação do Iêmen, que passou a ser liderado pelo presidente da República Árabe do Iêmen, Al Saleh, de origem zaidita, mas patrocinado pela Arábia Saudita. O acordo previa um governo patrocinado pelos sauditas, mas com inclusão política e econômica, como se fosse um governo de coalizão. Os sauditas, porém, aproveitaram o auge de seu poder regional e fizeram uma campanha para converter os zaiditas ao sunismo wahabita, o que ocasionou uma enorme revolta popular, porque ia contra suas crenças religiosas e tradições históricas. E foi por esse motivo que nasceu o Ansar Allah.
O Surgimento do Ansar Allah
A expressão Ansar Allah significa, em árabe, “Os Apoiadores de Deus”, e esse movimento nasceu nas montanhas do norte do Iêmen como um renascimento dos valores religiosos, culturais e educacionais das tribos zaiditas, em reação à marginalização desses setores tanto do poder político quanto da participação na economia da região.
Para combater essa invasão política e financeira dos sauditas, o clérigo e político zaidita Hussein Badreddin al-Houthi fundou o movimento juvenil Shabab al-Mumin, “Jovens Crentes”, que inicialmente era um movimento pacífico, focado em acampamentos de verão, escolas corânicas e debates para ensinar à juventude iemenita a história e a teologia zaiditas. Ou seja, o dinheiro e os subornos sauditas aos chefes tribais da região não funcionaram como eles esperavam, nem para converter os xiitas ao sunismo wahabita, nem para reprimir ou esmagar esse movimento.
Em 1994, os houthis iniciaram um movimento separatista no norte em relação ao governo de Al Saleh no Iêmen e foram duramente reprimidos, mas não totalmente eliminados.
No ano 2000, esgotou-se a paciência dos Estados Unidos e da Arábia Saudita com o governo de Al Saleh, e foram-lhe exigidas ações mais drásticas em relação a Hussein Badreddin al-Houthi, que fazia cada vez mais discursos antiamericanos. Com o 11 de setembro de 2001, aumentaram a presença americana na região e as pressões sobre a monarquia saudita para reprimir de vez a revolta no norte. Em setembro de 2004, Hussein Badreddin al-Houthi foi assassinado pelas forças de segurança do Iêmen numa gruta nas montanhas de Saada.
Acreditava-se que assim se poria fim ao movimento houthi por decapitação, mas, na verdade, aconteceu o oposto, pois foi criado um “mártir”, precisamente porque o xiismo incentiva o martírio. A liderança passou para seu pai, Badr-al Din al-Houthi, e depois para seu irmão mais novo, Abdul Malik al-Houthi, o atual líder do grupo insurgente.
Sob a liderança de Abdul Malik, os houthis se militarizaram de vez e se transformaram numa guerrilha cada vez mais experiente e eficiente. Também acabou ocorrendo a ruptura com o presidente Al Saleh e, lenta, mas constantemente, foram ganhando território nas montanhas de Saada e também apoio popular.
Primavera Árabe e a Tomada de Sanaa

Quando os protestos da Primavera Árabe começaram em 2011 no norte do Iêmen, multidões pediram a saída de Saleh, o presidente pró-saudita, e os houthis aproveitaram muito bem a oportunidade a seu favor, somando-se aos protestos. Saleh foi ferido num atentado à bomba contra o palácio presidencial em junho de 2011, e seu vice, Mansur Hadi, assumiu a presidência, o que, para os houthis, acabou sendo mais prejudicial que o governo do próprio Saleh.
Devido aos ferimentos sofridos no atentado, Saleh foi levado para a Arábia Saudita para atendimento hospitalar. E, em 2014, aconteceu uma reviravolta, porque os houthis perceberam que, se essa situação continuasse, seriam engolidos politicamente pelos sunitas wahabitas e salafistas, o que pioraria ainda mais seu isolamento, e fizeram uma aliança com seu inimigo Saleh para que ele recuperasse o poder em Sanaa.
A aliança entre os antigos inimigos foi formalizada e, em setembro de 2014, as forças leais a Saleh e as guerrilhas dos houthis tomaram conjuntamente a capital, Sanaa, quase sem enfrentar resistência das forças de segurança de Mansur Hadi, o que ocasionou uma escalada no conflito e a intervenção militar direta da Arábia Saudita em 2015.
Em resumo, os houthis evoluíram de um movimento político juvenil de defesa cultural, religiosa e identitária das tradições xiitas zaiditas da região, para um movimento guerrilheiro isolado nas montanhas do norte. Depois da tomada da capital, Sanaa, transformaram-se numa milícia insurgente que liderou uma resistência armada contra a repressão do próprio governo central e, aproveitando o caos e a divisão estatal, tornaram-se a força político-militar dominante no norte do Iêmen que são hoje.
A partir daí, a Arábia Saudita organizou uma coalizão militar regional8, com o apoio logístico dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França, contra os houthis.
Assim, a coalizão realizou o seguinte bloqueio:
Bloqueio aeronaval total: A coalizão liderada pelos sauditas impôs um bloqueio aéreo e naval total, com um cerco marítimo aos portos do Mar Vermelho, fechando também o espaço aéreo do Iêmen. Oficialmente, o objetivo era impedir o contrabando de armas e mísseis iranianos para os houthis, mas, na prática, o bloqueio estrangulou a entrada de alimentos, combustíveis e suprimentos médicos vitais. Isso provocou uma situação de insuficiência alimentar e hospitalar para a população da região, com o silêncio cúmplice da mídia corporativa ocidental.
Sanções financeiras e econômicas: O governo do Iêmen internacionalmente reconhecido, o Conselho de Liderança Presidencial, transferiu o Banco Nacional do Iêmen de Sanaa para Aden, cortando assim os salários do funcionalismo público nos territórios controlados pelos insurgentes. Também foram bloqueadas, por meio do sistema de transações internacionais SWIFT, todas as transações direcionadas a Sanaa. Essas medidas fizeram a moeda local entrar em colapso.
Campanha de bombardeios aéreos massivos: Durante anos, a aviação saudita e a emiratense realizaram dezenas de milhares de ataques aéreos. Embora tenham destruído posições militares dos houthis, os bombardeios atingiram sobretudo alvos civis: escolas, hospitais, mercados e funerais, gerando forte condenação internacional por crimes de guerra. Esses crimes, porém, sempre foram minimizados pela cumplicidade da mídia ocidental e apresentados como “danos colaterais”, quando, na verdade, eram o objetivo principal. Mas, apesar disso, a resistência houthi endureceu, ocasionando, por sua vez, enormes e humilhantes perdas de aviões, drones e helicópteros da coalizão e colocando-a em um “beco sem saída”.
A Resiliência dos Houthis
Apesar da descomunal vantagem de poder político, financeiro, militar e de apoio externo que a coalizão liderada pela Arábia Saudita tinha, e ainda tem, ela esteve bem longe de destruir e esmagar os insurgentes houthis. Como isso foi possível? Existem várias razões que a mídia ocidental não pode revelar para não contradizer a narrativa.
As razões da resiliência dos houthis são:
Adaptação e utilização do terreno: Bloqueados e isolados, os houthis transformaram as montanhas do norte numa fortaleza autossuficiente. Eles adotaram táticas de guerrilha assimétrica, fortificaram redes de túneis subterrâneos (semelhantes aos modelos usados em outros conflitos do Oriente Médio) e consolidaram um controle férreo sobre a população do norte, onde têm um apoio e uma coesão social de que carecem todos os Estados rivais.
Divisão interna da coalizão: Como se vê no mapa acima, os inimigos dos houthis estão divididos por suas divergências de interesses, principalmente entre as milícias apoiadas pelos Emirados9 (Conselho de Transição do Sul), que controlam o porto de Aden e enfrentam com frequência as milícias do Conselho de Liderança Presidencial, apoiadas pelos sauditas, com capital em Mucala, em Hadramaute. Essas rivalidades entre os inimigos facilitam a resistência dos houthis, que dependem totalmente da assistência financeira de seus patrocinadores.
Despreparo técnico e militar da coalizão: A capacidade militar das lideranças, apesar da modernidade do armamento fornecido principalmente pelos Estados Unidos, é muito duvidosa, porque os oficiais sauditas e dos Emirados, entre outros, não são escolhidos por mérito profissional, mas por favoritismo das monarquias das quais dependem, com resultados catastróficos nas frentes de batalha. A isso se soma o péssimo treinamento de suas forças armadas, que parecem mais forças policiais do que militares.

Experiência de combate dos houthis: Por outro lado, os houthis têm, sim, grande experiência profissional de combate, à qual se soma o apoio do Irã e da Guarda Revolucionária. São muito calejados nesse tipo de guerra assimétrica, e os bombardeios se tornam inúteis porque grande parte de suas instalações está sob as montanhas.
Há um contraste notório que a mídia ocidental esconde do grande público: os houthis ocupam algo em torno de 30% do território geográfico do Iêmen, mas, em contrapartida, essas áreas são habitadas pela maioria da população iemenita, entre 70% e 80% do total. Isso demonstra que a maioria do povo iemenita apoia os houthis, e, obviamente, não pode ser reconhecido pelos Estados Unidos e pela Arábia Saudita, para não prejudicar a narrativa que sustentam, segundo a qual o Conselho de Liderança Presidencial é o “governo legítimo” do Iêmen, pois, caso contrário, a “farsa” seria descoberta.
Contra-ataques estratégicos: Os houthis não somente defendem seu território, levando ao fracasso todas as tentativas de ofensiva terrestre da coalizão, mas também, com ataques de drones e mísseis balísticos, levam a guerra até o território saudita, destruindo oleodutos, portos como os de Jeddah e de Janbu e aeroportos como o de Riad, em plena capital. Isso cria uma situação humilhante para a Casa de Saud, tanto no plano regional quanto no internacional. Os houthis dispõem de engenheiros que, nos túneis sob as montanhas, aplicam engenharia reversa a equipamentos capturados dos inimigos: blindados, artilharia, mísseis, drones e munições.
Economia de subsistência: O Iêmen do Norte subsiste, apesar do bloqueio saudita, graças ao cultivo de frutas e verduras da região nas ladeiras das montanhas. Os únicos minerais de que dispõe são pedras e calcário, utilizados na construção de refúgios e fortalezas nas montanhas. A coesão social da população e suas taxas e contribuições fazem com que os houthis tenham um eficiente sistema de arrecadação. A população tem, no máximo, uma refeição por dia e enfrenta insuficiência hospitalar, inclusive pela falta de equipamentos hospitalares e remédios.
Os países que ajudam os houthis, além do Irã, são a Argélia, a Malásia e a Indonésia, por meios indiretos, como a Meia-Lua Vermelha Internacional (o equivalente islâmico da Cruz Vermelha), enviando-lhes insumos básicos via contrabando.

Os inimigos, geralmente mercenários contratados pelas monarquias da região, abandonam grande parte de seus armamentos nas retiradas, devido ao despreparo e à desmoralização, muitas vezes sem saber o que estão fazendo ali. Não existe o mesmo grau de motivação por parte dos mercenários em uma guerra em que não têm noção do que estão fazendo, em comparação com os houthis, que estão defendendo um território que lhes pertence há milênios, suas tradições, sua fé xiita e seu estilo de vida, baseado em profundos laços de sangue tribais, cujos ancestrais sempre estiveram ali, há milhares de anos.
Isso contrasta com as tribos nômades beduínas da Arábia Saudita e das monarquias do Golfo, cuja lealdade a esses regimes se baseia na distribuição das rendas do petróleo e nos serviços prestados pelo Estado, e não na coesão social e na legitimidade tribal ancestral. Isso é, por si só, um péssimo exemplo para as monarquias da região.
Conclusões
As causas mencionadas são ocultas do grande público pela mídia ocidental, fazendo parecer que os houthis são os agressores e a Arábia Saudita, a vítima, sem explicar sequer uma das várias causas do conflito mencionadas no ponto anterior.
Por isso, os objetivos dos houthis são:
Levantamento do bloqueio imposto ao território ocupado pelos houthis: Esse é o motivo pelo qual os houthis atacam alvos vulneráveis da logística saudita, como forma de retaliação pelo bloqueio a que são submetidos e que o Ocidente aceita em silêncio.
Retirada da Arábia Saudita e dos Emirados do Iêmen do Sul: Os houthis não atacam diretamente o porto de Aden, por exemplo, mas interrompem a logística dessas forças por meio de bloqueios de estradas e portos próximos, deixando-as sem comunicação com suas rotas de abastecimento.

Uma vez alcançados os dois objetivos anteriores, negociar um cessar-fogo com a Arábia Saudita: São precisamente esses bloqueios, que perduram há décadas, que não permitem que o Iêmen cresça e se recupere, pois sua reunificação e recuperação econômica não convém à Arábia Saudita. Como não conseguiu impor um regime estável e favorável aos seus interesses, é conveniente, no mínimo, manter esses territórios divididos e em uma miséria absoluta, inclusive o Estado protegido pelos sauditas, o Conselho de Liderança Presidencial, que depende totalmente de sua ajuda financeira e que, sem ela, não teria como sobreviver e entraria em colapso. Ou seja, está acontecendo uma terrível catástrofe humanitária, e o Ocidente a “normaliza”, minimiza e finge não ver, com a mídia mostrando somente o que lhe convém.
O controle exercido pelos houthis sobre o Estreito de Bab el-Mandeb, que separa o Iêmen da Somalilândia, na África, provoca grandes prejuízos às exportações de petróleo da Saudi Aramco, a estatal petrolífera da Arábia Saudita, assim como aos compradores tradicionais de muitos países da União Europeia e de países do Extremo Oriente, como a China e o Japão, entre outros. Isso faz com que a mídia não tenha como continuar ocultando essa crise humanitária e energética, mostrando-a parcialmente.
Os prejuízos são de tal monta que as companhias de navegação precisam contornar o continente africano, como na época da Rota dos Descobrimentos, nos séculos XVI e XVII, em vez de navegar pelo Mar Vermelho para atravessar o Canal de Suez. Israel também é outro grande prejudicado pela perda de 90% da capacidade operacional de seu porto de Eilat, no mesmo Mar Vermelho.
Os houthis se transformaram, principalmente para a monarquia saudita, numa ameaça política, logística e econômica que ela não consegue combater. Entre outras coisas, a Arábia Saudita sempre considerou o Iêmen como um “fundo de quintal”, subestimou-o demasiadamente e agora está pagando pelas consequências de tanta inépcia, passando por catástrofes inéditas em sua história.
Os Estados Unidos10 assistem a essas catástrofes de longe, limitando-se a dar apoio logístico, já que ações navais e aéreas não são suficientes sem ações terrestres. Estas, porém, são inviáveis, dados os fracassos da coalizão liderada pelos sauditas, o que os coloca em uma crise política, econômica e institucional sem saída.
Notas
1 O Reino de Axum (Etiópia Cristã) existiu do ano 100 até o 940 d.C. na Etiópia e parte do Iêmen.
2 O Império Sassânida (Império Persa) existiu de 200 até 630 d.C. aproximadamente, quando foi destruído pelo Califado Rashidun dos árabes na batalha de Qadisiya.
3 O Império Safávida na Pérsia existiu de 1500 a 1780 aproximadamente, como uma teocracia que instituiu o xiismo no atual Irã e que deu fundamento político e religioso à atual República Islâmica do Irã.
4 O Califado Omíada de Damasco existiu de 661 a 750 d.C., sendo deposto pela revolta Abássida.
5 O Califado Abássida de Baghdad existiu de 750 a 1258, sendo destruído pelos mongóis.
6 O Califado Fatímida do Cairo governou o Egito, o norte da África e partes da Arábia e da Palestina, sendo o principal califado xiita ismaelita de 979 a 1171, sendo destruído por Saladino, que fundou o Califado Aiúbida.
7 A guerra civil d 1925 a 1932 ocorreu entre os hachemitas, apoiados pelo Reino Unido, e os wahabitas, de Ibn Al Saud, apoiados pelos Estados Unidos. Os wahabitas de Al Saud foram vencedores e unificaram o país, dando início à dinastia de Saud que deu origem ao Reino e continua até hoje.
8 A coalizão liderada pela Arábia Saudita é composta pelos Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait, Egito, Jordânia, Marrocos e Sudão.
9 Através dos Acordos de Abraão, os Emirados Árabes Unidos são os maiores apoiadores de Israel na região, reconhecendo o país oficialmente, à diferença da Arábia Saudita, que há décadas mantém relações extra-oficiais com Israel sem reconhecê-lo publicamente.
10 Na verdade, quem se beneficia com o desastre logístico da Saudi Aramco são as petroleiras dos Estados Unidos, diante das perdas sauditas.
Fontes
DEJENE, Betselot. Ansar Allah (Houthi): Understanding the Yemeni Fighters. Grey Dynamics, 21 de abril de 2024. Disponível em: https://greydynamics.com/ansar-allah-houthi-understanding-the-yemeni-fighters/.
Saleh ruled by shifting alliances as the nation crumbled. Arab News, 4 de dezembro de 2017. Disponível em: https://www.arabnews.com/middle-east/saleh-ruled-by-shifting-alliances-as-nation-crumbled-1203916.
Implications of Operation Decisive Storm. Al Jazeera Centre for Studies, 26 de março de 2015. Disponível em: https://studies.aljazeera.net/en/positionpapers/2015/03/2015326181012294360.html.
REGO, João Gabriel Fischer Morais. Ascensão dos houthis no Iêmen e a atuação iraniana: um caso de guerra híbrida. Revista de Geopolítica. 18 de maio de 2025. Disponível em: https://revistageo.com.br/revgeo/pt_BR/article/view/583.
ANCIENT ARABIA. Plataforma digital de acesso aberto científica e educacional voltada para a investigação, mapeamento e documentação da arqueologia e história da Arábia pré-islâmica. Disponível em: https://ancientarabia.huma-num.fr.









