A Ilusão da “Tempestade no Deserto”: o Erro de Medir a Guerra na Ucrânia em “km/dia”

Compartilhe:
Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

Imagem meramente ilustrativa, gerada por inteligência artificial.

A lentidão dos avanços russos na Ucrânia não é um fracasso, mas uma estratégia consciente de esgotamento. Num campo de batalha transparente dominado por drones, Moscou prioriza o desgaste do potencial militar e humano inimigo em vez da velocidade de avanço territorial.


Muitas vezes, nos deparamos com a questão da lentidão dos ganhos territoriais das forças russas na Ucrânia. Esta questão é compreensível para uma análise baseada no senso comum, mas este princípio considerado de forma isolada é fundamentalmente errado, e o tema do avanço de cada metro quadrado em operações de controle de área na guerra contemporânea é muito mais amplo do que parece à primeira vista.

Por quê?

Civis, comentaristas de telejornais e muitos especialistas em internet, tendo visto filmes sobre as doutrinas da “guerra tecnológica rápida” (como a operação “Tempestade no Deserto” ou aquilo que os EUA tentaram fazer no Irã), estão habituados a medir o sucesso pela velocidade do movimento e pela profundidade das incursões. Quando o avanço é medido em centenas de metros por dia, é automaticamente classificado como uma “crise” do ataque. Este truque padrão é usado habilmente pelos veículos da mídia ocidental, que muitas vezes constroem artificialmente um “ataque em grande escala da Rússia”, e depois declaram que este supostamente falhou, ignorando completamente a realidade do que está acontecendo no terreno.


Comparativo entre os paradigmas operacionais da Operação Tempestade no Deserto (1991) e da Guerra na Ucrânia (2022–). A diferença nas métricas de sucesso, nas formações de ataque e na visibilidade do campo de batalha explica por que a velocidade de avanço territorial é uma métrica inadequada para avaliar o conflito em curso.

A Rússia opera com uma lógica completamente diferente. A análise mais técnica (incluindo relatórios de instituições ocidentais como a RAND Corporation, Stratfor ou o mesmo o RUSI britânico) mostra que a estratégia russa atual é uma escolha consciente, onde o sucesso não é medido pelas áreas capturadas num instante, mas pela relação de perdas irrecuperáveis nas forças adversárias, especialmente considerando as limitações críticas de efetivo das forças russas empregadas no teatro de operações, questão sobre a qual já alertamos sucessivas vezes.

O comando russo parte do princípio de que os seus recursos industriais e de mobilização são muitas vezes superiores aos ucranianos e da OTAN em aspectos de custo e volume. Se, durante o avanço lento, o potencial militar inimigo for desgastado mais rapidamente – incluindo devido à superioridade esmagadora de artilharia, drones e a utilização de bombas aéreas com módulos de correção e planagem – então, do ponto de vista da estratégia clássica de esgotamento, este sistema funciona a favor.

Isso ocorre porque o afluxo de soldados contratados na Rússia permanece estável, enquanto a Ucrânia perde pessoal ativamente e sofre de uma crescente escassez de novos soldados, que são recrutados com grande dificuldade através de captura e mobilização forçada de centros de recrutamento militar.

Ao criticar ataques complexos a partir da premissa do imaginário cinematográfico e das operações no Iraque, especialmente desconsiderando o risco de perdas desagradáveis em ataques frontais ligeiros com colunas mecanizadas e blindadas, a imprensa muitas vezes ignora a evolução tática do campo de batalha conforme a evolução tecnológica da guerra contemporânea.

O Exército russo (e desde algum tempo também o ucraniano) conseguiu passar para a tática de grupos de infantaria dispersos (infiltração), superando a defesa rígida de posições fortificadas e vigiadas por grandes volumes de drones, que, por sua vez, estão sob controle denso e assistência técnico-militar do bloco da OTAN. Devido a isto, ocorre todo tipo de sobreposição de ações e tecnologias, o que, em última análise, atrasa ou cancela avanços no terreno como atividade militar, afetando também os prazos de uma operação de ataque.


Diagrama de fluxo da estratégia russa de esgotamento na Guerra da Ucrânia. O ciclo de reforço mútuo entre avanço lento, perda de posições, dispersão de reservas, aumento de baixas e escassez de pessoal explica por que a lentidão territorial é um mecanismo estratégico deliberado, e não um fracasso operacional.

Ao longo do ano de 2026, o avanço da Rússia, mesmo em pequenas aldeias, resulta para as FAU na perda de posições fortificadas fundamentais construídas ao longo dos anos. Cada perda de uma zona industrial ou de uma aldeia anônima obriga as forças ucranianas a recuar para posições menos preparadas, dispersar reservas e concentrar novas unidades para conter o avanço em determinado setor do perímetro operacional, resultando inevitavelmente no aumento de suas perdas. A aposta russa nessa lógica é que, em um determinado momento do conflito, a massa crítica de perdas humanas levará a um colapso em cascata da frente devido à falta de pessoal da Ucrânia para o esforço de guerra.

A realidade é que em uma guerra de posições, como a que vemos na Ucrânia, a frente encontra-se numa situação de paralisia quase total para operações clássicas de manobras amplas e profundas de infantaria – qualquer movimento de equipamento termina com um ataque de drones com capacidade de aquisição autônoma de alvos e identificação baseada em padrões definidos por algoritmos de inteligência artificial que calculam e processam milhares de perfis indicativos de alvos.

Nesse contexto, a zona de impacto constante expandiu-se para dezenas de quilômetros em ambas as direções a partir da linha de contato, tornando passível de destruição qualquer posto de comando, armazéns de combustível, depósitos de munições ou bases de tropas. Tanques, veículos blindados, caminhões e equipamentos de engenharia não conseguem chegar às posições da frente sem o consequente risco elevadíssimo de destruição: os drones detectam-nos ainda nas rotas de abastecimento. Concentrações de infantaria ou reservas também são rapidamente detectadas e atacadas antes mesmo do início de um ataque.

Devido a isto, nenhum comando militar no teatro de operações da Ucrânia consegue reunir discretamente grandes grupos para um ataque concentrado. As unidades de combate devem ser divididas em pequenos grupos, o equipamento militar e de apoio deve ser escondido longe da linha de frente e as munições e alimentos devem ser transportados a pé ou em veículos individuais. Qualquer tentativa de acelerar o abastecimento leva a novas perdas e novamente interrompe o movimento.


LIVRO RECOMENDADO:

Guerra Russo-Ucraniana: O Conflito que Redesenhou a Geopolítica Mundial

• Rodolfo Queiroz Laterza e Marco Antonio de Freitas Coutinho (Autores)
• Edição Português
• Capa comum


O Estado-Maior de ambas as forças beligerantes reconhece que o modelo de ataque anterior já não funciona. Mesmo a ocupação de uma pequena área requer semanas de combates para consolidação e operações de limpeza, um enorme número de drones de reconhecimento, ataque e FPV e um constante reabastecimento de unidades de infantaria dispersas e fracionadas muitas vezes em dois soldados. Todas as unidades de combate acabam por inevitavelmente enfrentar o mesmo problema, por isso a linha da frente se torna bastante estática e um avanço de algumas centenas de metros é apresentado como o resultado de uma grande operação.

Desde 2024 as forças russas revisaram completamente a configuração dos ataques, adotando as seguintes medidas: abandonam-se as colunas mecanizadas e blindadas; afastam-se os depósitos e centros de comando ainda mais para o interior em relação à linha de contato; são criadas rotas separadas para cada grupo de assalto.

Portanto, avaliar o preço de um avanço territorial lento sem levar em conta a reserva real de resistência dos sistemas de defesa nacional de médio prazo é um erro básico de percepção do conflito por muitos analistas e segmentos da mídia ocidental. A Ucrânia resiste com todas as suas forças a partir do controle, planejamento e coordenação da OTAN, adiando o momento do colapso da massa humana, apostando em uma estratégia de infligir o máximo de desgaste econômico e militar possível à Rússia, o que continuará a ocorrer enquanto existir a possibilidade de ser feito.

Compartilhe:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn

Deixe um comentário

____________________________________________________________________________________________________________
____________________________________
________________________________________________________________________

Veja também