Luan Antony da Silva Araújo*

De líder insurgente a gestor estratégico: como Ahmed al-Sharaa aplica a lógica de valuation corporativo e marketing ocidental para transformar o caos sírio em capital político, buscando se tornar uma peça indispensável no complexo e fragmentado tabuleiro geopolítico do Oriente Médio.
Al-Sharaa está Jogando o Jogo Pensando em Valuation
Ao acompanhar os movimentos do atual presidente da Síria, Ahmed al-Sharaa (Al-Julani), nota-se o uso intenso de propaganda, marketing e branding. Ele utiliza métodos e estilos ocidentais para realizar essa transição de ex-terrorista para estadista, tornando evidente um padrão deliberado de construção de imagem. Esse raciocínio traz algumas pesquisas para fazer uma conexão com o modus operandi empresarial e de como Al-Sharaa tem usado isso para os seus próprios interesses, e especialmente, como está aproveitando tanto quanto de fontes doutrinárias, como de acesso ocidental.
Este artigo analisa, sob a perspectiva de valuation (avaliação de valor), o esforço de Al-Sharaa em gerar valor sistêmico em um país marcado por desafios geográficos e naturais, que encontra-se fragmentado em suas dimensões cultural, ideológica e religiosa. Al-Sharaa busca construir seu valor sistêmico, o que o tornaria a peça sustentável e insubstituível, e aqui está o ponto de partida: a primeira insegurança de um líder que emerge de um sistema falido, de uma base partida e em caos. Da mesma forma que ele derrubou esse sistema, há possibilidades de ser derrubado ou de ser “sacudido” por uma nova revolução. Essa é a maldição de quem chega ao poder pela força: uma legitimidade conquistada pela ruptura carrega consigo a semente da própria fragilidade.
A Síria como Tabuleiro Impossível
A Síria que Al-Sharaa herdou não é um Estado coeso, mas um mosaico de tensões permanentes. “As esperanças do presidente interino Ahmed al-Sharaa de reunificar a Síria sob o governo de seus líderes islâmicos são complicadas pela diversidade de grupos étnicos e religiosos no país. A Síria é majoritariamente muçulmana sunita, e suas minorias religiosas incluem alauitas1, cristãos2, drusos3, xiitas4 e muçulmanos ismaelitas5. Embora a maioria dos sírios seja árabe, o país também possui uma considerável minoria étnica curda” (Reuters).
Essa fragmentação transcende a perspectiva demográfica, consistindo em natureza política e ideológica. Cada grupo carrega a sua narrativa de sobrevivência e de alianças externas, estabelecendo suas “linhas vermelhas”. Al-Sharaa está consciente de que tentar impor uma visão jihadista6 a esse mosaico resultaria em uma explosão imediata. Ele não está governando um país homogêneo à espera de uma liderança islâmica, mas sim fragmentos que desconfiam uns dos outros, cada um com memórias recentes de guerra civil e traição.
A geografia torna tudo ainda mais instável. Como aponta a Foreign Policy, “por mais que a guerra civil tenha sido um conflito sectário e ideológico, ela sempre foi uma guerra criada e alimentada pela geografia fundamental do país. O fim deste capítulo da guerra provavelmente significa o início do próximo capítulo do conflito. A geografia sempre foi uma adversária da Síria. O país carece de barreiras naturais significativas, tanto em seu território quanto ao longo de suas fronteiras”.
A ausência de barreiras naturais significa que a Síria é permeável às influências turcas ao norte, às iranianas e russas no litoral, às israelenses ao sul e às americanas no leste. Cada potência regional pode alimentar seus aliados locais com facilidade, e cada grupo étnico ou religioso pode buscar proteção externa quando se sentir ameaçado internamente.
A geografia condena a Síria a ser um campo de batalha perpétuo, onde a centralização do poder é sempre contestada pela facilidade de intervenção externa. Todos esses fatores criam insegurança permanente, e a Síria se mantém como um tabuleiro complexo e difícil de se jogar, onde qualquer jogador que ignore essa complexidade será rapidamente retirado do jogo.
Valor Sistêmico como Estratégia de Sobrevivência
A estratégia de Al-Sharaa passa por construir valor sistêmico, ou seja, se tornar um ator indispensável para o funcionamento do sistema sírio, mesmo que esse ator seja problemático, controverso ou indesejado. Não se trata de ser amado ou moralmente aceito, mas de se tornar necessário para o equilíbrio de forças. Para muitos, o gesto de se aproximar do Ocidente foi visto como controverso: como um ex-comandante jihadista pode buscar legitimidade junto às mesmas potências que combateu?
Essa é, no entanto, uma ação de construção de poder sistêmico. Al-Sharaa percebeu algo que Bashar al-Assad nunca entendeu: o valor sistêmico na Síria. Ele jogava abertamente em função dos seus próprios interesses, não para manter o funcionamento do sistema sírio. Embora tenha sido sustentado pela Rússia e pelo Irã, essa postura o tornou descartável, tanto que acabou sendo dispensado.
Ao analisar as decisões de Al-Sharaa percebe-se o seu interesse em fazer o oposto de Bashar al-Assad. A sua marca está em um posicionamento que todo jihadista deseja, seja ele de linha dura ou não, todos querem uma Síria reconstruída e um Estado sírio bem desenvolvido7. Ainda assim, existem aqueles que querem ver o caos do país? Provavelmente, como em qualquer outro lugar. Ao analisar através de uma perspectiva em massa, nada substitui o significado de “Nação Islâmica Próspera e Estável”8. Ao se posicionar como o gestor dessa reconstrução, intermediário entre Ocidente e grupos islâmicos locais, facilitador de acordos com minorias, Al-Sharaa não está tentando agradar à todos, mas, se tornar indispensável para todas as partes envolvidas.
Pensando em Criar Valor no Tempo
Grupos insurgentes ou grupos que derrubaram regimes, principalmente vindo da base, operam na lógica de curto prazo, coerção direta e legitimidade ideológica. A lógica revolucionária é imediatista: tomar o poder, impor sua visão, punir os inimigos e recompensar os leais. É uma lógica de ruptura, não de construção.
Al-Sharaa escolheu trilhar um caminho diferente do qual tenhamos visto, o seu foco demonstra estar relacionado à continuidade, previsibilidade e confiança. Essa é a visão de um gestor, não de um guerrilheiro. Ainda assim, é importante destacar que isso não é mérito ou algo digno de elogio. Não estamos falando de virtude moral ou de transformação ideológica genuína. Al-Sharaa simplesmente decidiu ouvir as pessoas certas e está tentando articular essa escuta para gerar mais poder.
Diante desse cenário, ele se cercou de conselheiros e empresários ocidentais que ajudaram a formular essa base de escolhas e ações. Não porque ele acredita nos valores ocidentais, mas porque esses conselheiros entenderam antes dele o que ele precisava fazer para sobreviver politicamente. Ele despersonaliza o grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS)9, reduz símbolos excessivamente jihadistas e centraliza a imagem nele, não no grupo. Cada uma dessas ações foi desenhada para criar previsibilidade onde antes havia apenas ideologia volátil.
Isso é uma transição consciente de movimento armado para estrutura de Estado, ou ao menos, um protótipo. O que Al-Sharaa está construindo é previsibilidade em um ambiente de caos, e essa previsibilidade se traduz em capital político. Tornar-se previsível é o primeiro passo para a negociação. Através da negociação, ele se torna necessário e, consequentemente, indispensável. Não estamos testemunhando uma redenção. Estamos testemunhando um ex-jihadista aplicando lógica de mercado à política de sobrevivência.
Al-Sharaa identificou seu produto, a estabilidade relativa em um país fragmentado, e está vendendo esse produto para todos os compradores possíveis: o Ocidente, grupos jihadistas moderados, minorias assustadas e potências regionais. O que parece pragmatismo iluminado é, na verdade, oportunismo bem assessorado. E isso, talvez, seja exatamente o que a Síria precisa agora, não de um líder virtuoso, mas de um operador que entendeu o seu poder para manter o sistema funcionando, não para destruí-lo completamente.
*Luan Antony da Silva Araújo é geógrafo e conselheiro empresarial, especialista em gestão de risco e desenvolvimento empresarial. Militar da reserva e analista geopolítico, é pesquisador nas áreas de guerra psicológica, psicossocial e de informação, propaganda, comunicação social, branding e cultura, com foco em Estados, revoluções, movimentos políticos e sociais, grupos armados, organizações terroristas e agentes políticos. Acompanhe seu trabalho no Substack: https://geopolticasemcaos.substack.com.
Notas
1 Seita sincrética e esotérica (considerada herética pelos fundamentalistas sunitas) que monopoliza o aparelho estatal sírio como única garantia de sobrevivência física contra a maioria sunita.
2 Comunidades nativas pré-islâmicas sob ameaça existencial de limpeza étnica por grupos radicais; buscam no secularismo ou em alianças externas um escudo contra a extinção.
3 Grupo étnico-religioso fechado e esotérico; prática a lealdade estrita a quem detém o poder local (governo) para evitar perseguição e garantir a autodefesa.
4 Ramo que rejeita a liderança sunita histórica; hoje, politicamente mobilizados e armados pelo Irã em milícias transnacionais para disputar a hegemonia do Oriente Médio.
5 Dissidência minoritária do xiismo focada na interpretação filosófica (não literal) do Corão; alvo frequente de extremistas, opõe-se ao radicalismo armado priorizando redes de proteção comunitária.
6 Fundamentalismo salafista armado que busca a “purificação” do Islã através da eliminação violenta de “infiéis” (não-muçulmanos) e “apóstatas” (outros muçulmanos que não seguem sua doutrina rígida).
7 Objetivo ativamente sabotado pelos Jihadistas (como o HTS), que rejeitam o conceito de “pátria” como idolatria e buscam, em vez da paz civil, a manutenção de um estado de guerra permanente para a expansão do Califado. Ahmed al-Sharaa (Al-Julani): A retomada do nome civil marca o esforço estratégico do líder do HTS para institucionalizar sua autoridade e afastar-se do estigma da Al-Qaeda. Contudo, a análise geopolítica mantém a referência ao nom de guerre “Al-Julani” para evidenciar que, sob o verniz tecnocrático do atual governo, a matriz doutrinária e a base de poder militar permanecem enraizadas na insurgência salafista.
8 Nação Islâmica Próspera e Estável: Aspiração da maioria demográfica síria (sunitas e minorias) por um Estado-nação soberano, focado em segurança e desenvolvimento econômico.
9 Ex-filial oficial da Al-Qaeda na Síria (antiga Jabhat al-Nusra) que realizou um “divórcio tático” do jihadismo global para focar na conquista do poder local. Embora tenha adotado uma fachada de governo civil (“Governo de Salvação”), mantém uma ideologia salafista-jihadista autoritária, usando o pragmatismo político apenas como ferramenta para consolidar um emirado islâmico e eliminar rivais.
Referências
LYNCH, Marc. Syria Is Again a Victim of Its Geography. Foreign Policy, 9 de dezembro de 2024. https://foreignpolicy.com/2024/12/09/syria-civil-war-assad-georaphy/.
AZHARI, Timour; DALATEY, Feras. Syria is secretly reshaping its economy: president’s brother is in charge. Reuters, 24 de julho de 2025. https://www.reuters.com/investigations/syria-is-secretly-reshaping-its-economy-presidents-brother-is-charge-2025-07-24/.










